segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Capítulo 22 - Corações em fuga (Parte I)




- Ruben, amor… Estás acordado? – o sussurro lucífugo de Inês, foi dissipado na área interior do quarto de solteiro do seu futuro marido

Claro que Ruben estava acordado. A questão deveria antes ter sido: “Porque é que ainda não estás a dormir?”.
O relógio da mesinha de cabeceira batera as duas horas e meia da madrugada há cerca de dez minutos atrás, e desde que se deitara na sua cama ao lado da noiva, Ruben não tinha conseguido pregar olho para descansar, uma única vez. As imagens, ideias e preocupações que lhe afloravam o pensamento conturbado, eram demasiadas, o coração continuava acelerado desde o seu último encontro com Joana, e voltado de costas para Inês – de modo a que a ela lhe passasse despercebida a agitação que o dominava –, entre o escuro do quarto ele deixou o seu olhar hipnotizar-se pelo vazio, roubando-lhe todas as possibilidades de descanso as quais ele tanto ansiava e precisava ter.

- Ruben… - a voz dela voltou a soar, desta feita mais suave e junto do seu ouvido, acompanhada pela mão delicada que debaixo dos lençóis vou até à sua virilha – Amor, acorda… - a intenção de Ruben era ignorá-la e continuar a fingir que estava a dormir, mas depois daquele gesto mais ousado da parte dela, ele teve de agir

- Inês, o que é que estás a fazer? – ele perguntou no instante em que sentiu a proximidade e afastando-se da mão dela no mesmo segundo, impedindo-a que o tocasse

- Está-me a apetecer… Tu sabes… - Inês bateu o seu peito contra as costas dele, continuando a falar-lhe sedutoramente ao ouvido

- É tarde… Volta a dormir. – por se aperceber sem esforço ao que ela se referia, Ruben cortou-lhe imediatamente o pensamento

- Porquê, tu não queres? – apesar de saber que ele não iria conseguir ver, os seus lábios libertaram um pequeno sorriso sugestivo – Eu prometo que não faço muito barulho…

- Inês, estamos em casa da minha mãe, os nossos amigos estão a dormir no outro lado do corredor, e além disso, eu estou cansado… O que quero agora é dormir. – proferiu calmamente evitando exaltar-se, enumerando um conjunto de factores que rezou serem convincentes o suficiente para fazê-la recuar

- Estás cansado? – o seu riso forçado foi patente à ironia – Se não queres estar comigo, basta dizeres que não queres… Não precisas de arranjar desculpas!

- Não são desculpas, é a verdade!

- Claro… - proferiu com escárnio, afastando-se dele e voltando para o seu lado da cama – Hoje é porque estamos em casa da tua mãe e estão cá os nossos amigos, das vezes anteriores era o teu joelho que doía e não podias fazer esforços… Que desculpa vais arranjar da próxima vez?

- Não sejas assim… Estás a dramatizar. – Ruben limitava-se a dar-lhe respostas curtas e rápidas, que mantivessem o seu temperamento longe de uma mudança erosiva 

- Estou a dramatizar? Achas mesmo que estou a dramatizar?! – mantendo o corpo imóvel e cingindo ao seu lado da cama, as orbitas dos seus olhos reviraram automaticamente, adivinhando-lhe pelo tom de voz que ela elevou, uma discussão a aproximar-se – Por acaso tens ideia de há quanto tempo não fazemos amor? – Inês perguntou meio retoricamente – Há meses, Ruben! Meses! Meses que não me tocas nem me deixas tocar-te…

- Queres mesmo começar a discutir isso? – um suspiro pesado foi soprado para fora dos lábios

- Não, é claro que eu não quero discutir, mas tu não me dás outra escolha.

- O quê? – descrente com aquela acusação, ele rodou ligeiramente a cabeça para trás,  procurando encará-la, ainda que por entre a escuridão que amainava o quarto – Só podes estar a brincar…

- Porque é que não queres fazer amor comigo?

- Inês, por favor, não comeces! – advertiu num jeito áspero – Podemos falar amanhã? Estou mesmo cansado. – Ruben virou-se novamente para a sua cabeceira, desta vez fazendo um esforço suplementar para tentar adormecer rapidamente e por fim àquela discussão patética, mas ela não o deixou sair ileso com aquela facilidade toda

- Não, nós vamos falar hoje! Enquanto não me disseres o porquê, eu não te vou deixar voltar a dormir… Eu quero saber porque é que continuas a rejeitar-me! – Inês parecia firme nas suas exigências, e faria o que fosse preciso para conseguir arrancar uma resposta verdadeira e sincera do seu noivo – O teu comportamento não é normal…

- O meu comportamento não é normal? Que raio queres dizer com isso? – apercebendo-se que não teria outro remédio do que levar aquela troca de palavras até ao fim, Ruben acendeu a luz do candeeiro, e copiando-lhe o gesto, puxou o corpo para trás para se sentar à cabeceira da cama, tal como ela já o tinha feito

- Eu sou a tua noiva, nós vamos casar dentro de dois dias, caramba! Acho que não é normal para um casal nesta fase da relação, não ter qualquer tipo de intimidade por meses a fio… - Ruben não sabia o que lhe dizer, como contornar as evidências constatadas, e por isso debruçou ligeiramente a cabeça e esperou que fosse ela a voltar a falar após alguns momentos em silêncio – É por causa dela?

- Desculpa? – o seu olhar procurou-a numa rajada imediata após lhe ter sido colocada a questão, expondo-lhe a testa enrugada enquanto franzia as sobrancelhas hipoteticamente

- É por causa da Joana, não é? É ela quem tu vez quando me tens debaixo de ti, é nela que pensas quando estás dentro de mim… Tenho razão, não tenho? – o queixo dele descaiu pela escolha de palavras e tamanha frontalidade que nunca imaginou ver-lhe

- Tu estás a ser elitista e repugnante, Inês! – repreendeu-a com um olhar imensamente severo – Sinceramente eu não sei o que queres que te diga…

- Diz-me porque razão não fazes mais sexo comigo! – insistiu, elevando consideravelmente a voz, contudo e felizmente, não elevada o suficiente para que fosse perceptível do lado de fora do quarto – Tens medo de voltar a dizer o nome dela? É isso? Tens medo de voltares a chamar por ela como aconteceu… - Ruben cortou-lhe a palavra, impedindo-a de terminar o raciocínio

- Eu já te pedi desculpa por isso, inúmeras vezes! – referiu, começando a ficar irritado… porém não sabia ao certo de onde vinha aquela raiva, se por Inês voltar a suscitar o mesmo assunto pela milionésima vez, ou pela verdade absoluta embutida nas palavras dela  

Acontecera durante a reconciliação com a sua actual noiva. Ainda era tudo muito recente, e pelo fracasso da sua relação com Joana – que havia terminado da forma mais abrupta e sem jeito possível –, as emoções de Ruben acabaram por levar a melhor de si, ascendendo-o ao limite.
Foi quando se forçou a si mesmo a esquecê-la definitivamente e usar o sexo com Inês para descarregar toda a sua frustração, que os seus sentimentos entraram em erupção, fazendo-o cometer um erro colossal. A sua mente começou a pregar-lhe partidas e em vez de Inês tudo o que ele conseguia ver e sentir era Joana… O seu cheiro, o seu sorriso, o seu toque. Daí, e no momento em que o seu delírio atingira o auge, ter chamado por ela mais do que uma vez quando o seu corpo exalou do clímax.

- E eu desculpei-te, mas isso não quer dizer que me tenha esquecido!

- E vais continuar a atirar-me isso à cara por mais quanto tempo? De cada vez que decidires discutir comigo?!

- O tempo que for preciso até me provares que é a mim quem tu realmente queres, até me provares que a Joana está definitivamente fora das nossas vidas e mais importante que isso… Está longe do teu coração.

- Eu vou casar-me contigo, não vou?! Queres maior prova que essa? – a sua mandíbula apertou, contraindo-lhe os músculos tensos da face

- Vais casar-te comigo mas não pareces muito entusiasmado com a ideia… Até te recusas a ter uma despedida de solteiro!

- E o que é que uma coisa tem a ver com a outra? Por não querer ter uma festa ridícula que para mim não faz qualquer sentido, já quer dizer que eu não estou comprometido a cem por cento neste casamento? – Ruben deu-lhe um olhar de reprovação e terminou, antes que ela tivesse tempo de responder à sua sátira – Poupa-me, Inês…

- A tua boca pode dizer uma coisa, mas os teus olhos e as tuas atitudes dizem outra completamente diferente. – murmurou assertivamente, no entanto não escondendo a fúria e desilusão que lhe domava o corpo

- Como queiras… - para evitar que aquela discussão ridícula tomasse proporções mais exageradas, Ruben afastou as cobertas e levantou-se, segurando a sua almofada contra o peito quando começou a caminhar na direcção da saída

- Onde vais? – a sua voz escapou trémula, aquando do afastamento dele

- Enquanto não largares essa atitude, não vamos voltar a dormir no mesmo quarto. – ele disse-lhe seriamente, não deixando vacilar a sua postura determina por um segundo que fosse

Inês ainda tentou impedi-lo com um pedido de desculpas apressado que soava demasiado fingido e implorativo para fazê-lo mudar de ideias e regressar à cama. Sem mais nada dizer e encerrando definitivamente o assunto por aquela noite, Ruben fechou a porta atrás de si e enveredou pelo corredor que descendia ao andar debaixo. Como os dois quartos de hóspedes haviam sido preenchidos pelos seus amigos, nenhuma outra hipótese lhe restou sem ser a de pernoitar no sofá da sala de estar, que felizmente era grande o suficiente para que conseguisse dormir minimamente confortável.
Assim que afundou pesadamente o corpo nas acolchoas e a nuca decaiu sobre a almofada, a sua cabeça começou a girar de uma tal maneira que ele julgou que iria acabar tonto. Para além do cansaço, tinha os milhares de pensamentos debaterem-se vorazes e implacavelmente, e as dúvidas, os receios e preocupações torturavam-no de um jeito quase insuportável de sentir.   

- Ruben? – ele não sabia quanto tempo tinha passado, mas foi inevitável aperceber-se da voz que o chamou assim que as luzes do corredor se acenderam e iluminaram um terço da sala – O que é que estás aqui a fazer?

Era Mauro. Numa das suas visitas nocturnas à cozinha, apercebeu-se da presença inesperada do irmão deitado no sofá, de corpo presente mas de alma e pensamento longe, muito longe dali.

- Ei… - ele deu-lhe um toque no ombro assim que se aproximou, tentando trazê-lo de volta e procurar-lhe então por um esclarecimento – Então, puto?

Ruben finalmente olhou-o com uma expressão vazia que Mauro ao primeiro instante não conseguiu descodificar. Deu um ligeiro impulso ao corpo e sentou-se ao cabeçal do sofá, esfregando os olhos cansados e acabando por deixar a cabeça ficar apoiada nas palmas mãos, seguras pelos cotovelos pregos nas coxas.

- Sabes que horas são? Porque é que não estás na cama? – o timbre de Mauro evidenciou a leve preocupação por ver o irmão desamparado no meio da sala no início da madrugada

- Eu e a Inês, nós… tivemos uma discussão. – ele acabou por dizer, num tom de voz indiferente e sem olhá-lo

- Outra vez? Vocês ultimamente não têm feito outra coisa que não seja discutir…

- Desta vez foi pior…

- Pois, eu imagino… Para vires dormir para aqui! – não era novidade para Mauro nem para ninguém naquela casa, dos arrufos entre Ruben e Inês durante o decorrer daquela semana, a princípio não os estranhou e pensou que fosse de todo o nervosismo e stress que o casamento impunha sobre eles, mas agora a frequência com que discutiam estava a tornar-se alarmante e por isso ele achou que o irmão estava a precisar de algum apoio – Queres falar?

- Não, deixa estar… Está tudo bem. – havia demasiadas preocupações na sua vida às quais Ruben tinha de dar prioridade, e a última discussão que tivera com a sua alegada noiva, não era uma delas
  
- Tu é que sabes, mas se precisares de alguma coisa sabes onde me encontrar. – com o papel de irmão mais velho, Mauro procurava desempenhá-lo sempre da melhor forma possível, embora por vezes se tornasse difícil devido às pequenas divergências entre eles, mas perante alguma dificuldade, os dois, unidos, arranjavam forma de superá-la

- Eu sei, mano… Obrigado. – Ruben voltou a erguer a cabeça para olhá-lo, aproveitando para lhe mostrar um sorriso simples mas vazio

- Então eu vou até à cozinha petiscar alguma coisa… Queres vir?

- Hum, não… Não tenho fome. – as sobrancelhas de Mauro arquearam imediatamente ao ouvi-lo, não era normal Ruben recusar qualquer oportunidade que tinha de se alimentar, devido ao seu apetite insaciável, mas hoje, pelas situações que se haviam sucedido, mal tocara na comida devidamente – Mauro, espera… - quando o irmão já se preparava para deixar a sala e caminhar até à outra divisão da casa, Ruben arriscou iniciar uma conversa com ele que esperava ser capaz de levar todos os seus fantasmas

- Mudaste de ideias? – ele olhou acima do ombro com um sorriso torto, para vê-lo ainda sentado no sofá – Eu sabia que tu…

- Não é isso. – alegou rapidamente, deixando-o confuso, mas ao fim de alguns segundos após uma ponderação interior, esclareceu – Eu queria falar contigo…

Mauro pareceu intrigado ao ouvi-lo, e pelo tom de voz empregue nas palavras, fosse qual fosse o assunto que ele queria falar consigo, parecia ser sério. Caminhou de volta até à zona dos sofás, e vendo o pedido gestual que Ruben fez ao apontar para a poltrona do lado esquerdo, ele sentou-se, posicionando o corpo estrategicamente na direcção do irmão, que ainda não tinha deixado o seu lugar no sofá grande.
Seguiram-se alguns minutos de silêncio, Ruben teria de ser o primeiro a falar, mas não sabia exactamente como começar uma conversa onde o assunto que queria discutir, era tão delicado e apelava à máxima compreensão. Precisava de algumas respostas, de alguns conselhos, e para isso não viu ninguém melhor que Mauro, que por experiência própria e por ser uma das poucas pessoas em quem mais confiava, podia ter alguma coisa a dizer.

- Como é que tu… - ele procurou pelas palavras certas para iniciar cuidadosamente o discurso que tanto havia dado voltas à sua cabeça desde aquela tarde – Como foi quando soubeste que o Gabriel vinha a caminho?

- Ãh? – os seus olhos estreitaram-se, assim como o seu nariz que franziu e a testa se enrugou… aquela pergunta relativa ao seu filho, não tinha feito muito sentido, Ruben não tinha sido suficientemente claro – Porque é que queres saber isso?

- Queres ajudar-me ou não? – inquiriu nervosamente, recebendo somente um aceno de cabeça positivo do seu irmão – Então responde-me…

- Eu não sei bem o que queres que te diga…

- Como é que ficaste quando a Paula te disse que estava grávida? – esclareceu, tentando abordar o tema delicada e solenemente antes de entrar em pormenores, e recorrendo a paralelismos entre a sua vida e a do irmão – Quer dizer, vocês não eram casados na altura, nem estavam a morar juntos…

- Ah… Eu quando soube… - Mauro fez uma breve pausa somente para ajustar o raciocínio e poder dar uma resposta – Não estávamos à espera, é verdade… O Gabriel foi um imprevisto, mas foi um bom imprevisto! Nós já tínhamos falado imensas vezes em construir uma família, e se não fosse agora, também não íamos esperar muito mais tempo…

- Mas… Como é que tu reagiste quando a Paula te disse? Não ficaste assustado com a ideia de ser pai?

- É claro que fiquei assustado, mas quem não fica? Se bem que dizer que fiquei assustado é um eufemismo… Eu fiquei completamente aterrorizado! – ele riu ao recordar o momento, e Ruben acompanhou-o com um sorriso leve – A ideia de vir a ser responsável pela vida de uma criança simplesmente… mudou-me!

Ruben deixou-se permanecer atento a toda e qualquer palavra do irmão. Sabia que durante aquele período, com a descoberta da gravidez não planeada de Paula, Mauro tinha enfrentado as mesmas dúvidas e as mesmas preocupações que agora ele próprio estava a sentir, e os conselhos do irmão podiam ser uma ajuda fundamental… era tudo o que precisava ouvir.

- Claro que no início, e ainda para mais com o facto de não estarmos à espera, a ideia de virmos ter um filho assustou-nos, deixou-nos confusos, mas depois… - um brilho inconfundível apoderou-se do seu olhar, acompanhado de um sorriso babado que demarcou as alíneas do seu rosto – Depois tivemos a certeza que a nossa felicidade estava só a começar.

- Mas e o facto de serem inexperientes, e os vossos trabalhos, as vossas carreiras… - revelando-lhe alguns dos seus medos indirectamente, Ruben expôs a sua questão – Onde ficam no meio disso tudo? É preciso ter-se estabilidade para se criar um filho…

- Ruben, há sempre uma primeira vez para tudo… No início eu nem sabia mudar uma fralda, e olha agora! Sou um expert! – ele brincou levemente – E é evidente que é preciso ter-se estabilidade para se criar um filho, e é por isso que eu tenho a mulher que eu amo do meu lado, para me ajudar sempre que preciso… Também te tenho a ti e tenho a mãe. E tu és um óptimo tio, o Gabriel adora-te! – concluiu calmamente, certo de que a sua família era o seu mais forte pilar que jamais o deixaria cair em momentos de fraqueza

- E quando é que soubeste que estavas totalmente preparado para ser pai? – com aquela pergunta Mauro teve de rir, vendo a ingenuidade do irmão quanto ao assunto

- As coisas não são assim tão simples, puto… Não é tudo preto no branco. Acho que nesta situação, nunca ninguém está realmente preparado. É algo que tens de deixar ir, algo que vais aprendendo a aperfeiçoar com o tempo, que aprendes a ser melhor consoante as circunstâncias que te são impostas e que vais superando. – ele explicou, apercebendo-se que Ruben estava a fazer algumas notas mentais enquanto o ouvia – É evidente que a entrada de um  filho na tua vida altera praticamente tudo o que tens nela… Alguns dos teus hábitos mudam, a tua rotina muda, as tuas prioridades mudam… Mas acredita que o teu amor só vai crescer! – os seus lábios voltaram a iluminar-se no mais belo sorriso, saboreando todas as alegrias que o pequeno Gabriel tinha trazido à sua vida

- Parece ser tão difícil… Tão complicado… - o corpo de Ruben recostou-se no sofá, soltando um suspiro longo e inseguro, enquanto tentava absorver toda aquela informação

- E é. Nem sempre é fácil cuidar de uma criança, e há momentos em que questiono tudo… Se estou a fazer bem ou não, se o que estou a fazer é o melhor para o Gabriel ou não… Às vezes até duvido do quão bom pai eu sou. Mas ser pai está a ser a melhor experiência da minha vida, e não a trocava por nada deste mundo. – ouvir aquelas palavras, de uma maneira ou de outra, deram a Ruben algum alento e confiança que precisava – Para não dizer que acompanhar a Paula durante a gravidez foi das melhores fazes que já vivemos na nossa relação.

- Como foi? – perguntou curioso, e retomando a sua posição inicial no sofá, sedento por ficar a par da máxima informação que fosse possível e necessária a ajudá-lo com tudo o que ele ainda estaria por lidar juntamente com Joana

- Sei lá… Ver a barriguinha dela crescer todos os dias, acompanhá-la nas idas ao médico e assistir às ecografias, sentir os pontapés dele… Até quando ela acordava a meio da noite por causa dos desejos! Foi tudo… fantástico.

- E como foi o parto? – voltou a questionar, sabendo que o irmão tinha assistido ao nascimento do filho

- O parto? Assustador! Todo nervosismo, os gritos, o sangue(!) – Mauro deu enfâse ao último aspecto, recordando que quase desmaiara na sala de partos ao ver a quantidade de sangue entre as pernas da sua esposa, enquanto o médico a incentivava a continuar a empurrar o bebé – Mas quando segurei o Gabriel nos meus braços… Acho que pela primeira vez a minha vida fez sentido.

Neste instante da conversa, e sem se aperceber, os olhos de Ruben já haviam sido cobertos pelas lágrimas prontas a correrem o seu rosto a qualquer momento.
Perguntava-se se poderia viver tudo aquilo com Joana, partilhar todos aqueles momentos com ela, porque não havia outra coisa neste mundo que ele quisesse mais do que ser um pai para o seu bebé, ser o homem de família que ele sempre sonhou construir… ao lado de Joana.
Foi inevitável invejar a sorte do irmão e a facilidade da vida dele em comparação ao descalabro que era a sua.

- Mas porque é que queres saber, afinal?

- Por nada, curiosidade só… - ele mentiu, ainda não se sentindo totalmente capaz de partilhar a verdade, mas Mauro ficou intrigado e não se contentou com aquela resposta

- Não me digas que… - começou, batendo ritmadamente o indicador no queixo enquanto procurava pela questão certa – A Inês está grávida? – sugeriu então, logo que a mais viável ideia lhe veio à cabeça

Extenuado, Ruben suspirou. Reflectiu por alguns segundos a melhor abordagem para dar a notícia ao seu irmão e esperar ansiosamente para não ser julgado.
Endireitou o corpo no sofá, puxando-o ligeiramente à frente de modo a encontrar uma postura mais confortável e finalmente, num sopro alentado, falou.  

- Não, mano… - ele negou ao ter reunido toda a coragem que precisava para se confessar, no entanto deixando o olhar permanecer amarrado às suas mãos entrelaçadas que tinha reunidas no colo – Não é a Inês…

O corpo de Mauro enrijeceu e depois disparou para fora da poltrona onde permanecia sentado. Literalmente disparou. Não foi preciso fazer um grande esforço para que todas as peças do puzzle se fossem deslocando por vontade própria e formassem o quadro completo daquela história.
O estado choque abalou-o nos primeiros instantes em que deliberadamente raciocinara a insinuação de Ruben, e perante a problemática de toda a situação, os seus sentimentos surgiram compreensivelmente confusos e baralhados.

- O bebé da Joana…

- É meu. – Ruben completou calmamente ao fim de alguns segundos, não deixando espaço para que se criassem mais dúvidas

- Espera… Mas como?

- É mesmo preciso que eu te explique como aconteceu? – ironizou numa pequena brincadeira que se sentiu capaz de iniciar

- Oh, tu sabes que não é isso que quero dizer… Quando foi?

- Lembraste daquela noite que te falei?

- Foi aí? – Ruben assentiu, dada que foi a última fez que tinham estado juntos e a tinha dado a conhecer ao irmão num desabafo – Então isso quer dizer que… eu vou ser tio? – embora ainda a sentir-se deslocado, Mauro queria libertar a pressão dos seus lábios para um sorriso leve, mas não sabia se era apropriado – Eu vou ter um sobrinho?

 - Ou uma sobrinha… - Ruben exalou finalmente sentindo uma carga menos pesada nos ombros, e permitindo às lágrimas de felicidade libertarem-se livremente pelas faces

- Puto, eu… Eu nem sei o que dizer! Isto é tudo tão… Eu não sei…

- Eu vou ser pai, Mauro… - um pequeno sorriso estimulante iluminou o seu rosto pela primeira vez naquele dia, e silenciosamente ordenou ao seu corpo a levantar-se e colocar-se na frente do irmão – Podes sempre dar-me os parabéns…

- Claro… Claro que sim. – Mauro sorriu também, embora que o tenha feito de um jeito mais inseguro e acanhado, mas feliz pelo seu mano mais novo – Parabéns, mano. Parabéns! – ele puxou-o para um abraço, afagando-lhe as costas com palmadas leves – Mas então e o casamento, a Inês… O que vais fazer no meio desta história toda? – perguntou logo que se voltaram a separar, nomeando os obstáculos evidentes que se encruzilhavam no caminho do irmão, rumo a uma felicidade que ele procurava ao lado de uma mulher que não era a sua noiva

- O que é que eu vou fazer?

Ruben não precisou de ponderar mais sobre os seus pensamentos aquando confrontado por aquela simples, e ao mesmo tempo tão complexa pergunta. As ideias que ainda há poucos momentos se encontravam tão nubladas na sua cabeça, já haviam sido organizadas e agora mostravam-se mais claras que nunca, acompanhadas pela arrumação do seu coração que tinha encontrado enfim o seu lugar, e finalmente uma decisão tinha sido tomada.

- Eu vou lutar por aquilo que é meu, Mauro… Vou lutar pela Joana e pelo meu filho. Eu não os posso perder.




***




Aquele dia de sexta-feira estava a passar incrivelmente rápido. As horas de almoço já iam longe, parecendo querer fazer chegar o fim-de-semana talvez que pouco depressa demais.
(In)felizmente as nuvens maciças haviam-se dissipado no céu e as temperaturas voltaram a subir quase que milagrosamente, levando todos a desfrutar de uma tarde passada no jardim frontal da vivenda. Logo depois do almoço, Inês insistiu para que os participantes da cerimónia, para além dos noivos, os padrinhos e também a menina das alianças, a pequena Sofia, fizessem um pequeno ensaio da liturgia apenas para relembrar o papel de cada um, para que nada falhasse no grande dia.
Para Joana este estava a ser um dos piores dias que se lembrava de passar na sua gravidez. Os enjoos haviam permanecido durante toda a manhã, e para além da sonolência habitual, sentia uma dor desconfortável nos seios, cada vez mais inchados e sensíveis. Apetecia-lhe subir ao quarto e descansar por uma ou duas horas, mas não queria fazê-lo antes da saída das meninas que rumariam a Lisboa no final daquela tarde.

- Podes segurar-me o Gabriel enquanto eu vou lá dentro num instantinho fazer uma chamada? – a voz doce e amiga de Paula soou distante, fazendo-a arrumar de novo as lembranças do passado mas não capaz de a fazer entrar de novo e totalmente na realidade


*****



“Gaitán cruza para o cabeceamento, vai Luisão, cabeceia e é agora! Não! A bola vai à trave da baliza de Hélton. Incrível! Olha o ressalto… - o relato do comentador era atentamente escutado através de um rádio, na zona dos camarotes encarnados – Gaitán novamente, encontra Ruben Amorim, Ruben Amorim avança para a bola e vai, vai, vai e é golo! É golo! GOOOOOOOOLO DO BENFICA! Acho que já é seguro dizer que temos um novo campeão nacional. Que fantástica finalização de Ruben Amorim!”

Quatro minutos depois ouviu-se o apito final no Estádio da Luz, e rapidamente a loucura foi vivida e espalhada tanto dentro de campo pelos jogadores, como pelos adeptos que entraram em delírio nas bancadas.
Era a primeira vez que Joana assistia ao vivo a um jogo decisivo ao campeonato, e pelas mais diversas razões, nunca imaginara sentir um orgulho e felicidade tão grande por ter tido a oportunidade de testemunhar e – de forma passiva – ter feito parte daquele momento.
Depois de fazerem os seus festejos e de terem erguido a taça umas dezenas de vezes, os jogadores recolheram ao balneário, enquanto as respectivas famílias seguiram na direcção da sala onde os iriam esperar.

- O Ruben não deve caber em si de tanta alegria! Viste o jeito louco como ele corria pelo campo? Estou tão feliz por ele. – conversou Anabela animadamente, aquando caminhava pelo corredor de braço dado com Joana, que concordou com o seu comentário com um sorriso leve, partilhando do mesmo orgulho e felicidade

Surpreendentemente a espera não foi longa, e mal as famílias e amigos deram por isso, já uma enchente de gargalhadas, gritos eufóricos e sotaques mistos inundavam a sala com uma nova energia, logo da chegada em grupo dos jogadores.
No instante preciso em que rompeu pela porta, os olhos de Ruben recaíram amorosamente sob os de Joana, que já ansiava encontrar desde que a partida havia terminado. Ele preparou-se para se lançar na sua direcção, mas recuando ligeiramente, ela relembrou-o com um simples aceno de olhar, que deveria ir abraçar a família em primeiro lugar e depois então poderia ir ao pé de si.
Ruben compreendeu a posição dela, e reprimindo a enorme vontade que tinha em levá-la nos seus braços, foi então abraçar a sua mãe e Mauro, que o bajularam cheios de orgulho pelo mais recente campeão da família.
Quando finalmente o libertaram, ele não perdeu mais tempo e correu até Joana que se encontrava ligeiramente afastada dos restantes, e levou-a nos seus braços, fazendo rodopiar no ar.

- Assim vais sufocar-me, Ru… - ela disse entre gargalhadas estranguladas, apanhada no meio da força inconsciente de braços do seu namorado

- Desculpa, amor, desculpa. – Ruben mostrou-lhe um pequeno sorriso travesso muito típico dele, enquanto aliviava a pressão que fazia em volta dela e a colocava de volta ao chão

- Aqui não. – ela desviou ligeiramente o rosto quando se apercebeu que ele se preparava para beijá-la nos lábios, e Ruben viu-se obrigado a advertir o beijo para o centro da bochecha

- Anda, vamos sair daqui. – aproveitando que a sala tinha dado lugar ao caos pela quantidade de pessoas que a encheu, Ruben pegou-lhe na mão para arrastá-la consigo e levá-la para um lugar onde pudessem ficar sozinhos

Não era segredo para ninguém da forte e íntima amizade que Ruben e Joana partilhavam, houve até alguns – os mais próximos do grupo de amigos –, que chegaram a desconfiar de que algo mais se passava entre eles, no entanto nunca foi confirmado oficialmente pelo casal de que essa amizade tinha tomado novas proporções e envolvido novos sentimentos.

- Ruben, o que estás a fazer? Eu não posso estar aqui! – de sorriso embelecido nos lábios, procurou dar seguimento às normas restritivas, assim que se percebeu que tinha sido levada para o balneário encarnado

- Claro que podes! Este é o meu balneário, tu és a minha namorada, logo tu podes estar aqui se eu quiser que estejas. E eu quero.

Ela já estava pronta para barafustar quando o viu trancar a porta, mas Ruben não lhe deu essa oportunidade, e antes de lhe dar mais tempo para dizer o que quer que fosse, segurou-lhe o rosto entre as mãos e beijo-a da mesma maneira e com a mesma vontade que tinha assim que a viu pela primeira vez na sala de jogadores.

- Estava com saudades tuas. – ele gracejou depois do beijo, desviando-lhe algumas mechas de cabelo para trás do ombro para que tivesse mais acesso ao pescoço, e começasse um novo ataque lá

Joana voltou a erguer rosto, e por meio de uma pequena chamada de atenção, ele fê-lo também. Embora não quisesse deixar-se levar pelo sentimento que os unia, foi-lhe impossível recusar a troca de mimos na periferia de uma cumplicidade que eles já dominavam melhor que ninguém, e então beijou-lhe os lábios primeiro uma, depois outra e mais outra vez.
Ruben retirou-lhe a mala do ombro e sem desviar o olhar do dela, levou-a a sentar-se no seu colo no banco corrido do balneário.

- Viste o golo que marquei? Foi para ti… Esta noite foi tudo para ti… Queria que ficasses orgulhosa de mim.

- E eu estou, amor… Estou muito orgulhosa de ti. Muito! És o meu campeão.

Com um sorriso babado e completamente apaixonado, Ruben arrepanhou-lhe um punhal de cabelos e puxou-a para mais uma maratona de beijos intensos que depressa começaram a fugir do controlo.

- Tira! – exigiu ao separar as bocas, referindo-se à camisola dela que o impedia de tocá-la em todos os lugares que queria

- Não.

- Tira. - repetiu contra os lábios da namorada, num timbre suave, no entanto mais urgente e ansioso que da primeira vez

- Nós não vamos fazer nada aqui, Ruben. – o tom de voz de Joana foi o suficiente para recordá-los onde estavam

- Eu preciso de fazer amor contigo… Agora!

- Controla-te, Romeu.

- Mas eu preciso, amor… Eu preciso tocar e sentir cada centímetro teu. – confessou deliberadamente, apertando os glúteos de Joana nas suas mãos, puxando-a ainda mais para si

- Se te portares bem, e depois de festejares com a equipa, talvez festejemos só nós dois quando chegares a casa. – a voz dela desceu algumas oitavas, tornando-a perigosamente mais quente

- Isso quer dizer que vais lá estar à minha espera? – as suas sobrancelhas vibraram de um jeito cómico, devolvendo-lhe o brilho ao olhar

Ela assentiu e mordeu o lábio inferior. Joana sabia o que esse gesto provocava em Ruben, e ele aproveitou o rumo que a conversa estava a levar para se aproximar e sussurrar-lhe ao ouvido com uma voz grave carregada de desejo.

- Quando chegar ao quarto quero-te nua na minha cama.

Ela corou imediatamente com a escolha de palavras dele. Embora ainda ficasse tímida por vezes quando ambos entravam no campo da sua vida sexual, o nível de intimidade entre eles crescia a cada dia, levando-a a gostar de quando Ruben falava assim para ela. De uma maneira invulgar e que só agora começava a descobrir em si, fazia-a sentir-se mais viva, mais amada e desejada, especialmente por saber que ele não falava daquela maneira para nenhuma outra mulher. Ruben queria-a só a ela, amava-a só a ela. E ele tinha-a… completa e totalmente.

- Aconteça o que acontecer, tu és o meu amor. Sabes disso, não sabes? – ele falou no fim de uma troca silenciosa de olhares e enquanto lhe acariciava a face, terminando com um delicado beijo nos lábios

- Sei. – Joana respondeu de coração cheio – Tu és o meu.



***** 



- Joana? – a esposa de Mauro voltou a chamá-la, mas a falta de reacção de Joana, que parecia estar tão longe em pensamento, começou a deixá-la ligeiramente preocupada

Enquanto os rapazes se divertiam entre uma peladinha no jardim, as meninas juntaram-se no alpendre entre típicas conversas de mulheres enquanto bebericavam um chá quente e os viam jogar.
Por estar lesionado e evitando fazer esforços desnecessários, Ruben foi forçado a ficar à baliza, recusando a sugestão de Mauro que o aconselhou a ficar fora do jogo antes que pudesse agravar a lesão no joelho. Contudo, estar a jogar ou não, para Ruben estava a ser exactamente a mesma coisa. Estava mais concentrado nas “bancadas” do que na bola e nos seus colegas, e de vez em quando lá se ouvia Luisão e David resmungar por estar a dar pontos à equipa adversária. E tudo isto acontecia por uma simples razão: Ruben não conseguia tirar os olhos de Joana.
Quando pela primeira vez a viu entrar no alpendre e juntar-se às meninas, ainda se esforçava por ser discreto e procurá-la somente quando a deparasse suficientemente distraída para fazê-lo, mas agora isso pouco lhe importava e muito menos se alguém viesse a reparar, e quando uma vez por outra, Ruben reparava que também Joana o olhava, sentia-se mais encorajado em continuar a procurá-la e trocar com ela breves sorrisos.

- Querida, estás bem? – o apelo de Paula voltou a surgir num tom preocupado, obrigando-a enfim a desviar o olhar do de Ruben e concentrar-se na amiga que chamava pela a sua atenção há já alguns minutos

- Sim, desculpa. – ela clareou a garganta e forçou um sorriso leve – Claro, eu fico com o Gabriel.

Paula agradeceu-lhe e entregou-lhe o bebé para os braços, recolhendo-se ao interior da casa para fazer um telefonema de trabalho.
Joana olhou para o pequenito que mantinha seguro em pé nas suas coxas, enquanto ele balbuciava animadamente e sorria para si. O seu coração acalentou-se, na ânsia de dentro de alguns meses segurar nos braços o seu bebé e esse pensamento levou-a a arrastar novamente o olhar até uma só pessoa, que já a observava há alguns minutos e foi impossível conseguir disfarçar os sorrisos tímidos que surgiram em ambos os rostos… mesmo sem saberem, eles estavam definitivamente a partilhar do mesmo pensamento.



***



- Tens a certeza que ficas bem, amor? – voltou a perguntar a Joana, aquando já estavam todas as meninas reunidas no hall de entrada, prontas a seguir viagem até Lisboa para a festa de despedida de solteira de Inês

- Tenho, Adriana. Vou aproveitar para subir e descansar um pouco antes do jantar… Amanhã vai ser um longo dia.

- Pronto, mas então se precisares de alguma coisa não hesites em ligar-me, eu faço-me à estrada e venho logo logo para aqui! – Joana sorriu pela dedicação da amiga

- Não te preocupes comigo, eu vou ficar bem, e se precisar de alguma não vou estar sozinha, os rapazes estão cá.

- Eu sei. – ela sorriu – Vemo-nos amanhã.

- Sim, vemo-nos amanhã. – elas partilharam um abraço e Joana dirigiu-se às outras meninas antes de se retirar ao andar superior – Façam boa viagem.

- Joana, cê vai subir, meu anjo? – perguntou Brenda, assim que a viu dirigir-se à escadaria

- Sim… Precisas de alguma coisa?

- Pode dar uma olhada na Sofia? Deixei ela dormindo no quarto do Ruben… Já fui me despedir mas ela pegou direitinho, não queria que quando acordasse se achasse sozinha….

- Claro, eu fico com ela, não te preocupes. – Brenda agradeceu, elas despediram-se e Joana seguiu rumo pelo corredor na direcção do quarto de Ruben

Suavemente para não sobressaltar a pequenina, empurrou a porta e viu a sua afilhada serena sob as cobertas, com o corpo relaxado em forma de conchinha resguardado por uma manta. Ela aproximou-se da cama e sorriu, vislumbrando a boquinha de Sofia ligeiramente aberta deixando um rasto de saliva molhar a almofada e Joana decidiu que naquele momento aquela era a imagem mais ternurosa que tinha da sua menina.
Livrando-se dos ténis que trazia calçados, subiu à cama e deitou-se junto a Sofia. Inconscientemente o corpinho dela atuou durante o sono e procurou o da sua madrinha ao deixar para trás a almofada e aconchegar imediatamente a cabeça na dobra perfumada do pescoço de Joana ao mesmo tempo que esticou as pernitas sobre as dela.

- Mad’inha? – ao fim de alguns minutos que os seus dedos meigos passaram a fazer leves círculos nas costas da pequena, como Joana sabia ela gostar enquanto dormia, a vozinha sonolenta dela surgiu por entre a paz mergulhada naquele quarto

- Olá, meu amor pequenino. – os seus lábios rasgaram-se imediatamente num sorriso, ao procurar os olhinhos ainda semicerrados de Sofia – Já dormiste tudo?

- Acho que shim. – ela respondeu ao mesmo tempo que desentorpecia o corpo ao espreguiçar-se, e conduzia a boca a um pequeno bocejo – A mamã já foi embora?

- Já, princesa, foi embora mesmo há pouquinho.

Sofia apenas assentiu com a cabeça e não disse mais nada.

- Tens fome? Queres que a madrinha te prepare alguma coisa para comer? Ainda falta um tempinho para o jantar estar pronto…

- Não mad’inha, agolha ainda não tenho fome.

Apesar de Sofia não ter mais sono para voltar a dormir, nenhuma mostrou intenção em querer sair da cama. Deixaram-se permanecer abraçadas ali, aproveitando o tempo a sós que tinham, para desfrutar da presença uma da outra.

- Mami? – a sua vozinha frágil e inocente voltou a surgir num murmúrio, alguns pares de minutos após

Os dedos de Joana continuaram a acariciá-la, desta vez enrolando-se entre os cachos rebeldes do cabelo, incentivando-a silenciosamente a falar.

- Posso voltar a ver a tua barriguinha? – um sorriso tímido surgiu-lhe nos lábios, que Joana não resistiu em beijar num pequeno selinho, depois de soltar uma pequena gargalhada

- Claro que podes, princesa, não precisas de pedir.

As mãozinhas curiosas de Sofia agarraram-se rapidamente, porém com todo o cuidado do mundo, à bainha da camisola de lã da sua madrinha, distendendo-a para cima até ao nível do busto. Os seus olhos depressa se iluminaram ao ver a forma perfeita e arredondada da barriguinha de quase 14 semanas de gestação.

- Se quiseres também podes tocar. – Joana permitiu suavemente, quase como conseguindo ler os pensamentos da pequena

- Não quero magoar o bebé.

A inocência e ingenuidade da criança soaram tão fortes e verdadeiras que Joana sentiu o seu coração derreter de ternura.

- Não magoas, amor. – ela pegou a pequenina mão e com a sua guiou-a até ao topo da barriga, começando a acariciá-la tenuemente e então Sofia olhou-a nos olhos completamente encantada com a sensação

- O bebé ainda está pequenino?

- Está, Sofiazinha, ainda está pequenino.

- Quão pequenino?

- Do tamanho de um pequeno pêssego. – Joana viu Sofia semicerrar os olhos e portar um ar pensativo, tentando trazer à memória a imagem de um pêssego e medi-lo mentalmente

- Será que ele vai ficar tão grande como eu?

- Vai pois, se Deus quiser. Ao início ele vai ser muito pequeno pequenino, tal como tu quando nasceste e como o Gabriel, mas depois vai crescer e ficar tão grande e forte como tu.

Sofia pareceu satisfeita com a resposta de Joana e voltou a aconchegar-se a ela novamente. Com a delicadeza e cuidado que já lhe eram conhecidos, pousou a cabeça no topo arredondado da barriga encostado lá o ouvido na esperança de ficar mais próxima ao bebé, e então, baixinho, começou a cantarolar uma canção de ninar ao mesmo tempo que a polpa dos seus dedos continuava a afagar-lhe a pele.
Aos poucos, e apesar de lutar para se manter acordada, a voz doce de Sofia começou a embalar Joana, obrigando-a a começar a fechar os olhos e entregar-se ao cansaço ao qual a gravidez a acometia, porém, e antes se deixar ir completamente, uma outra voz, grave e profunda que contrastava em pleno com a da menina, puxou-a de volta para a vida no quarto.

- Há espaço para mais um? – perguntou Ruben, que entrara de mansinho para não as sobressaltar e se deixara ficar junto da porta

- Pad’inhoooo! – mal ouviu a sua voz, Sofia saltou disparada da cama e correu ao encontro de uma das suas pessoas preferidas, atirando-se nos braços dele – Vem… Vem tocalhe na barriguinha da mami e sentir o bebé. – logo quando voltou ao chão depois de ter sido pegada ao colo, ela pegou-lhe na mão e começou a puxá-lo na direcção onde Joana permanecia deitada  

Pela primeira vez desde que entrara naquele quarto, ela parara para pensar e apercebeu-se do enorme erro que era em estar ali. Entre aquelas paredes. Deitada naquela cama. A respirar aquele perfume. Assim que viu Ruben ser arrastado por Sofia e ir ao seu encontro, fez força com as mãos e puxou o corpo para cima e para trás, encontrando rapidamente uma posição confortável para ficar sentada à cabeceira da cama.

- Eu não me vim intrometer, só vim cá a cima buscar o meu telemóvel que dever estar por aqui algures. – Ruben falou enquanto varria com o olhar todas as superfícies do quarto onde pudesse estar o seu aparelho

E ele não estava a mentir. O seu telemóvel era de facto a razão que o levara ali e nada mais. Até porque, apesar de já ter tido intenções de procurar Joana e falar com ela antes do final daquela noite, ele julgara que o seu quarto era com a maior das certezas a última divisão daquela casa onde a iria encontrar, no entanto ali estava ela e não podia deixar de admitir para si mesmo que estava deleitado com aquela surpresa, ainda melhor poder vê-la tão relaxada sobre a sua cama com a sua afilhada. Aquela imagem, estava certo, iria recordá-la para sempre.

- Depois procuras o telemóvel, papi, agolha vens comigo sentir o bebé, para ele te conhecer. – o maneirismo quase autoritário de Sofia assentava-lhe de um jeito adorável, e daquela forma era impossível negar-lhe o que quer que fosse

- E tu sabes se a madrinha me deixa sentir o bebé? – ele vincou a sobrancelha à afilhada num jeito e tom brincalhão, e ambos sentaram-se no beiral da cama junto a Joana, com a pequenita entre os dois

- Claro que deixa. – Sofia respondeu celeremente, mas acabou por olhar nos olhos de Joana para confirmar a sua palavra – Num deixas mad’inha? 

Por muitas situações desconfortáveis que já tivesse travado desde a sua chegada àquela casa, aquela era sem sombra de dúvida a mais desafiante e inconveniente, e o mais hilariante no meio daquilo tudo é que havia sido criada por uma criança de três anos e meio.
As palavras que Joana procurava expelir pelos lábios haviam sido estranguladas na garganta e por mais que quisesse tomar uma acção, mesmo que fosse a de correr para longe dali, o seu corpo não estava a obedecer às ordens comandadas pelo cérebro.

- O bebé ainda está do tamanho de um pesseguinho mas quando nascer vai crescer tanto como o primo Gabriel e como eu. – Sofia disse entusiasmada, resumindo a conversa que havia tido com a madrinha e dá-la a conhecer a Ruben, tal como se ele não fizesse ideia do processo de crescimento de uma criança

- Desculpa, gente, me dá licença? – com o telemóvel seguro junto do ouvido, Luisão irrompeu pela porta no mesmo instante em que Sofia acabou de falar, e Joana nunca se sentiu tão feliz e aliviada em ver o amigo – Sofia, filha, tenho vovó no telefone, cê quer vir dar um beijo pra ela?

Por obra do destino ou não, essa felicidade foi de pouca dura, pois assim que ouviu a menção da sua querida avó, Sofia saiu disparada ao encontro do pai e segundos depois, Ruben e Joana haviam sido deixados a sós.
Não disseram nada, até porque ela simplesmente não conseguia, e ficaram apenas a olhar um para o outro, inebriando-se no facto de finalmente serem só eles, e foi quando Joana mostrou a intenção de voltar a deslizar a camisola para baixo e cobrir a sua barriga, que até então se mantinha exposta, que Ruben fez um pedido irrecusável.

- Não a tapes, por favor. Deixa-me olhar para ela.

Mais uma vez as acções dele deixaram-na sem qualquer resposta ou reacção, e foi aproveitando-se da ausência de palavras que Ruben caminhou até à porta do quarto para fechá-la e rodar a chave até ambos a ouvirem ser trancada.

- O que é que estás a fazer? – Joana perguntou num sobressalto, logo que a sua voz conseguiu de novo vibrar nas cordas vocais

- A garantir que não somos interrompidos.

- Abre a porta, Ruben.

- Não. – a respiração dela engatou

- Não?

- Não. – ele sorriu, de postura incrivelmente calma, e voltou para a cama para junto dela – Desta vez não vamos sair deste quarto sem revolvermos as coisas.

- Mas o que há para resolver? Entre nós não há nada que tenha de ser resolvido.

Ruben ignorou-lhe o comentário e subiu à cama, separou os joelhos de Joana e de barriga para baixo, deitou-se entre as pernas dela até os seus olhos ficarem ao nível da barriguinha que carregava o bebé de ambos. Ele então sorriu ao reparar que ela lhe tinha feito a vontade em deixar a camisola para cima e imediatamente prestou toda a sua atenção ao ventre, como se conseguisse ver através dele.
A este ponto Joana não queria acreditar no que estava a acontecer bem diante si. Tinha sido tudo tão rápido que não lhe dera tempo de reagir. Ruben não lhe dera tempo de reagir, e quando finalmente ganhou coragem para fazê-lo, tentando afastar-se, ele agarrou-a na cintura, prendendo-a no lugar.
Como se tivesse habituado a fazê-lo desde sempre, começou a beijar-lhe cada centímetro da barriga delicadamente, não deixando para trás qualquer pedaço de pele que os seus lábios não tivessem tocado. Espontaneamente, e rendida àquele acto de pura ternura, a mão dela procurou os pequenos cachos de Ruben fazendo-os deslizar pelos dedos, percorrendo as unhas no coro cabeludo e tirando dele um grunhido prazeroso enquanto ainda lhe acariciava a barriga com a boca e com as mãos.

- Acho que fizemos uma menina. – ele disse com a maior naturalidade do mundo, ao fim de algum tempo que passara a reflectir, sem desviar por um segundo os olhos do ventre como se de alguma forma, por algum motivo, algo pudesse acontecer e ele tinha de estar lá para protegê-lo – O que é que tu achas?

Joana não disse nada. Não conseguiu. Eram demasiadas emoções para serem lidadas num tão curto espaço de tempo. Surpreendeu-a o facto de Ruben não a ter confrontado, não ter suscitado uma discussão entre ambos que no fundo, e agora, se mostrava ser inútil. Por breves instantes questionou-se a forma como ele tinha descoberto, “Será que ouviu alguma conversa?”,Terá captado algum comentário entre David e Adriana?”, “Terá sido a Dona Anabela a contar-lhe?” Ele sabia a verdade, sabia sem sombra de dúvidas que aquele bebé era seu e não havia como negá-lo.
Assoberbada pelas emoções, que com a gravidez se mostravam mais proeminentes e intensas, Joana recostou-se à cabeceira da cama, ergueu o queixo e fixou o olhar ao teto, obrigando a recuar as lágrimas que silenciosamente se haviam formado nos olhos.

- Como é que já posso amar tanto alguém que ainda nem sequer conheço? – Ruben perguntou, desta vez mais para si do que para ela

- Odeias-me? – Joana perguntou ao fim de algum tempo que passara a ganhar coragem para voltar a falar

- Porque razão haveria de te odiar? – um pequeno sorriso rasgou-lhe os lábios, incapaz de esconder a felicidade que sentia em poder estar perto do seu rebento – Vais dar-me a melhor coisa do mundo.

- A melhor coisa do mundo que estava a esconder de ti.

- E pretendias esconder-me para sempre?

- Não, claro que não. – ela ajustou o corpo a uma posição mais confortável e Ruben seguiu-lhe o exemplo, afastando-se da barriga que tinha vindo a adorar e sentar-se na cama de modo a conseguir olhá-la mais profundamente nos olhos – Eu ia contar-te, nunca foi minha intenção esconder-te, mas… não sei. Acho que estava à espera do momento certo. Nunca pensei em privar-te de…

- E isso é tudo o que me importa saber agora. – ele não a deixou terminar – Estou cansado de discussões, Joana, discussões, mal-entendidos que já nos roubaram tanto tempo. – suspirou – Eu não vou perder nem mais um minuto. Nem mais um segundo que estou disposto a passar longe de ti.

- Ruben… Do que é que estás a falar? – ela perguntou, confusa pelo rumo que ele estava a dar à conversa – Não muda nada entre nós.

Aquelas palavras atingiram-no como uma tonelada de tijolos, e por um segundo sentiu o coração bater-lhe tão forte no peito que o conseguia ouvir claramente soar aos ouvidos.

- Como assim, não muda nada entre nós? – ela viu-lhe o rosto transformar-se num sorriso confuso, quase incrédulo – Eu pensava… Tu já não sentes nada por mim?

- Ruben, por favor, não compliques. – suplicou, erguendo o corpo que se soltou da cama para tomar uma distância confortável do de Ruben

- Responde à minha pergunta. – ele falou imperativo, seguindo as passadas dela apenas com o olhar

- Não são os sentimentos que contam aqui, isso não importa agora.

- É claro que importa! – contrapôs numa só respiração que não deu espaço para que fossem criadas dúvidas, obrigando o corpo também a erguer-se no mesmo segundo – São os nossos sentimentos e o que queremos fazer com eles.

- Tu já deste rumo aos teus. – Joana disse num timbre impossivelmente baixo, porém não baixo o suficiente que Ruben não lhe discernisse a intento acusador na voz

- Estás a falar do meu casamento?

- A Inês é a tua noiva. Tens de ser-lhe fiel.

- Eu tenho de ser fiel àquilo que sinto! – Ruben não vacilou em procurar argumentos que sustivessem a razão de voltarem a ser um do outro, mesmo que Joana insistisse em refutar cada um deles

- Mesmo que o que sintas seja errado?

- Achas que é?

Tomando lugar junto à ampla janela do quarto, ela exalou, começando a sentir-se psicologicamente exausta pelo rumo supérfluo e redundante que aquela conversa estava a tomar.  

- Nunca chegaremos a um consenso.

- Desta maneira, não. – ele ripostou, tentando não perder a calma que aos poucos ameaçava abandonar-lhe o bom senso – Afinal o que queres que eu seja para ti, Joana? Queres que eu seja apenas o teu afilhado de casamento? Queres que eu seja um amigo? Um confidente nas horas vagas? – Ruben silenciou-se por um segundo, olhando-a no fundo dos olhos, antes de continuar – Queres ao menos que eu seja um pai para o nosso filho?

- É claro que eu quero que sejas um pai para o nosso filho! – Joana bradou exaltada, estrangulada pelo aperto que lhe feria o peito, novas lágrimas a arderem na linha de água dos seus olhos

- Então fala, diz-me o que queres, sem rodeios! Eu estou aqui e não vou a lado nenhum. Não temos ninguém a apressar-nos.

- Tu queres que isto seja fácil, simples. – indagou, enxugando as faces ao punho da sua camisola de lã – Mas não é fácil nem simples.

- Eu sei. – ele disse simplesmente

- Então se sabes, não tens o direito de ficar aí, a olhares-me dessa maneira e pedires-me algo que eu não te posso dar. Como se nada tivesse acontecido, como se continuássemos a ser as mesmas pessoas… - Joana parou para respirar, procurando acalmar o fôlego desarvorado ao mesmo tempo que novas lágrimas, silentes, voltavam a escorrer-lhe livremente pelo rosto – Nós não somos.

- E tu culpas-me por isso? – portando uma postura surpreendentemente mais branda e contrastada à que portara apenas à segundos atrás, Ruben caminhou na direcção dela enquanto a questionava, brandamente, temendo que qualquer gesto ou intenção sua a assustassem e fizesse afastar novamente de si – Culpas-me pelo que nos aconteceu? Por não ter acreditado em ti e ter seguido com a minha vida ao lado de outra mulher? Ressentes-me por me ter tornado nesta pessoa?

- Eu não alimento rancores, Ruben, tu sabes isso muito bem. – referiu certeiramente, se havia pessoa no mundo que chegara a conhecê-la tão bem ou ainda melhor que a sua querida e falecida mãe, essa pessoa era Ruben – O que passou, passou. E se há algo que não devemos fazer, é viver do passado.

- E aqui estamos nós… - quase pateticamente ele quebrou os lábios num sorriso de ironia ao destino – Tão perto um do outro, e ao mesmo tempo tão longe. – rematou desalentado, referindo-se ao achegamento de ambos os corpos, que então se encontravam novamente tão próximos, em oposição da terrível distância que lhes separava os corações – Se isto tudo não fosse tão macabro, teria a sua piada. O que é que nos aconteceu, Joana?  

- As nossas vidas mudaram. – sussurrou inebriada, recorrendo com o olhar aos seus pés ainda descalços, temendo encarar os olhos de Ruben, praticamente em cima dos seus

- Os meus sentimentos por ti não mudaram. – enchendo o peito de coragem, ele procurou-lhe a mão fria e pequena, e tomou-a na sua, quente e aconchegante, apertando-a suavemente – És feliz? Só quero que me respondas a isto. Aqui e agora, neste mesmo momento tu sentes que és uma pessoa feliz? Realizada?

Joana poderia mentir e afastar-se dele, seria mais fácil. Não ia correr o risco de perder o seu coração novamente.

- Eu tenho de ir. – advertiu, sentindo-se completamente derrotada pelas palavras que teimavam em não querer ser proclamas, dos gestos que temiam em ser tidos… porém e contrapondo o seu intento, ela não se mexeu e manteve-se no seu lugar

- Faz isso. – ele suspirou ao fim de poucos segundos, inconformado – Não te posso prender a um lugar no qual tu não queres estar. Vai. – foi Ruben a quebrar o enlace das mãos e a dar-lhe novamente espaço para respirar, no fundo sabia que fazê-la falar sobre os pesares que lhe perturbavam alma, seria o mesmo que remar contra uma maré revoltada – Eu estou disposto a lutar, Joana, mas eu não posso lutar sozinho.

- Nunca te pedi que o fizesses. – proferiu de espírito acobardado, aquando já de costas para ele e de corpo direccionado para a porta de saída

- Não precisavas. Saber que querias o mesmo que eu, bastava-me. Mas como dizes, as nossas vidas mudaram, e pelos vistos, os sentimentos também.

Joana estava prestes a abandonar o quarto quando se sentiu ser atingida pela frialdade e tristeza na acusação dele, e incapaz de o deixar ficar com a última palavra, enganado pelo que julgava ser verdade, ela largou a maçaneta da porta, mantendo-a fechada.

- Eu não gosto quando pões em causa os meus sentimentos por ti.

- Desculpa? – ela falara tão sussurradamente, que Ruben mal a conseguiu perceber

- Disse que não gosto quando dúvidas do amor que te sinto… – desabafou profundamente triste, e mais uma vez rodou os calcanhares na direcção do par de olhos que colectavam o seu mundo, os dele – …Não depois do que já vivemos, por tudo o que já passámos. Não é justo.

Recolhendo as mãos nos bolsos, Ruben limitou-se a vergar a cabeça e a consentir.

- Do que é que tens tanto medo, afinal? Eu só quero que fales comigo… Do que é que tens medo, Joana?

- Eu não quero que outras pessoas saiam magoadas desta história por nossa causa. – finalmente, e ao fim de tanto debate interior, Joana foi capaz de partilhar com ele o que durante tanto tempo a tinha vindo a perturbar, a razão pela qual optara por manter-se afastada – Se voltássemos um para o outro, se ficássemos juntos, iriamos por muita coisa em risco… A nossa vida pública… a tua carreira!

Ruben viu-se forçado a soltar uma gargalhada breve e vazia de sentimento.

 - Tu não fazes mesmo ideia, pois não? – ele abanou a cabeça, surpreendido por tamanha ingenuidade a dela

- Não faço ideia do quê?

- Eu arriscaria tudo o que fosse preciso, por ti… Por ti e pelo nosso filho. – Ruben proferiu sem um rasgo de incerteza a deambular-lhe na voz, deixando-se emocionar pelo impacto da palavra “filho” que cada vez se tornava mais presente e real em si – Nada é mais importante para mim do que a minha família, nem mesmo a minha carreira.

Joana aceitou-lhe as palavras e advertiu o olhar a outro ponto do quarto que não o rosto dele, incapaz de negar a verdade do seu discurso, incapaz de negar a ternura dos seus olhos quando lhe expostos a sua vulnerabilidade.

- E as outras pessoas? Como iam elas reagir a isto tudo? Como ia ser?

- Quando é que vais tirar essa ideia ridícula da cabeça de que a felicidade dos outros tem de vir acima da tua? Quando é que começas a ser um bocadinho egoísta e colocares-te em primeiro lugar? Ou tu pensas que as outras pessoas pensariam duas vezes no que toca à escolha da tua felicidade pela delas?

- Não te esqueças que é das nossas famílias que estamos aqui a falar, dos nossos amigos.

- Os nossos amigos querem que sejamos felizes, estando nós juntos ou com outras pessoas, e quanto às nossas famílias… Tu sabes que elas nos aceitam.

- Nem toda a gente… - ela disse atemorizada, recordando rapidamente o motivo que os fizera estar separados durante quase três anos – O meu pai… O teu pai… Eles nunca nos irão aceitar. A nossa relação é uma provocação para eles, Ruben…

- Eu já estou habituado a provocar o meu… - ele sorriu, encolhendo brevemente os ombros no processo e contagiando-a pelo seu jeito heróico de ser

Aos poucos, uma por uma, Ruben estava a conseguir quebrar as paredes que contornavam o coração de Joana, deixando-a sem saída, sem mais desculpas para continuar a fugir e a esconder-se de um amor que nunca iria morrer.  

- Eu já não tenho forças, Ruben. – fatigada, o corpo dela gravitou serenamente na direcção do dele, procurando por conforto que sabia vir nele encontrar – Eu não quero voltar a magoar-me, no que toca a nós… Eu não vou aguentar. – ela voltou a lacrimejar mas desta vez as suas lágrimas foram amparadas pelas mãos de Ruben que ternamente lhe acolheram o rosto

- Olha para mim… - pediu num murmúrio, quando deixou tombar a sua testa na dela – Tu não estás sozinha, tens-me a mim. – ele disse, o seu tom de voz caloroso, apaixonado – Deixa-me cuidar de ti.

Joana não soube o que dizer e optou por não falar nada. De testas coladas, narizes acostados, Ruben olhava-me profundamente nos olhos, acaricia-lhe o rosto olhando para ela – através dela. Ele percorreu-lhe os lábios com a polpa dos dedos, não uma mas duas vezes. Era como se quisesse gravar aquele momento na sua memória. Para ele, a sensação da pele de Joana a fundir-se na sua, enviava os seus sentidos em sobrecarga. Ela era tão suave, tão bonita. E queria lembrar-se daquele momento para sempre, lembrar-se daqueles olhos redondos e expressivos fixarem os seus.
Apercebendo-se do quão perigosamente perto os seus corpos se encontravam, Joana deu um passo para longe dele. Sabia que não podia deixar-se levar daquela maneira, por muito enublada que a sua lógica tivesse naquele momento, ela sabia que entregar-se a Ruben seria o melhor e o pior que pudesse acontecer, e ela não podia lidar mais com o pior. Porém, essa decisão não partiu dela, e antes que tivesse tempo de pensar em voltar a impor distância entre eles, Ruben não a deixou fugir… não desta vez.
Ele puxou-a de volta para si, mantendo-a na sua alçada com o braço a contornar-se a cintura pequena e com a palma da mão, suave, segurando-lhe o rosto firme, no lugar, de maneira a forçá-la a olhá-lo novamente.
Ainda à beira de lágrimas, a mente de Joana desenhou um espaço branco à medida que se sentia afogar-se no seu corpo tonificado. Ruben baixou a cabeça para que os seus lábios se pudessem encontrar. Ela mal conseguia processar as consequências que aquele acto traria, mas também, essa era a última coisa com a qual se queria preocupar agora, antes de ele lentamente, com cuidado, e oh, sempre tão suavemente, empurrar os lábios nos dela. E no segredo daquele singelo toque, a realidade abateu-se sobre si.

- Ruben… - chamou por ele num tom tão ofegante, que Ruben não estava certo se ela estava a protestar ou a desejar por mais

Ele afastou-se um pouco para ler a sua expressão. Lentamente, Joana voltou a abrir os olhos nublosos, carregados por um amor que lhe voltara a preencher o peito, e apercebeu-se que também Ruben a fitava com a mesma intensidade e desejo. Continuando a embalar-lhe o rosto, ele conseguiu sentir a incerteza e o desespero que ainda vibravam dentro dela, e então ofereceu-lhe um sorriso meigo, capaz de findar tempestades, antes de se inclinar e voltar a tomar os lábios dela nos seus.
Ruben beijou-a com confiança tal, que rapidamente a mente e o corpo de Joana se sentiram levitar, libertando de si qualquer culpa ou ressentimento. Quando se sentiu ser mais envolvida, contornou-lhe o ombro com o braço, a mão delicada a acariciar-lhe a parte de trás do pescoço para que pudesse receber o afecto dele por inteiro.
Recordando-se do quão emocionante era beijá-lo, provar-lhe o delicioso sabor, Joana passou a língua na boca dele, convidando-a a colidir com a sua.
O beijo não era urgente como eles tinham imaginado vir a ser, em vez disso era esperançoso, doce e apaixonado. Ela estava tão envolvida na intensidade do reencontro das suas bocas, que não tinha um único pensamento coerente, excepto antecipar por mais. 
E enquanto os corpos se fundiam num abraço apertado e os línguas procuravam por dominância no confronto dos lábios, Ruben sabia que beijá-la só, não iria ser suficiente. Joana sabia-o também.








E como o prometido é devido, aqui fica a primeira parte deste capítulo.
Desculpem esta imensa demora, não quero voltar a deixar-vos por tanto tempo.
Espero que a leitura esteja do vosso agradado, e por favor, deixem-me as vossas opiniões :) 
Posso dizer que as surpresas desta história só vão aumentar daqui para a frente.

Um beijinho grande,
Joana

13 comentários:

  1. Joana para começo de conversa... adorei... ai as saudades que já tinha de ler um capítulo teu...
    Mas ficas desde já a saber que não é justo... tanto tempo à espera e depois acabas o capítulo na melhor parte :/ compreendo que nem sempre consigas conjugar o tempo de forma a conseguires escrever mas tenta publicar a continuação o mais rápido que der, pode ser? :-)
    Quanto à qualidade... bem tu sabes o quanto sempre adorei ler... tens uma capacidade unica de nos envolver na tua história...
    Bjs
    Caty

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  2. Como é que ela ainda n percebeu que o Ruben ama a Inês? Qualquer ceguinho vê!
    Eu quero um pai destes para o meu filho!!! Hahah
    Por favor acaba com este casamento rapidinho :p

    Beijinhos

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  3. Foi preciso uma releitura pra esse comentário sair e mesmo assim, não me sinto totalmente bem ainda, mas vamos lá.
    Eu não sei o que te dizer. Sabia (porque não consegui me segurar e li a preview) que o capítulo teria muitas emoções, mas não estava preparada pra tudo isso. Nada me prepararia.
    Primeiro a conversa com a Inês e a descoberta de que o Ruben a chamou de Joana (fiquei chocada, mas adorei! A Inês bem mereceu), depois o desabafo com o mano mais velho. Eu já comecei a desmoronar ali, e o flashback veio pra acabar de vez com meu emocional.
    Mas e esse final? O momento entre eles... nossa, não tenho palavras (eu amo a Sofia <3). ELES FINALMENTE CONVERSARAM! Fiquei morrendo de medo de como terminaria por causa da resistência da Joaninha - ela tinha motivos pra isso -, chorei tanto quando ela começou a ceder (graças ao Ruben que dessa vez não fez asneiras e falou as coisas certas nos momentos certos!!!!) e terminei de ler com uma sensação boa mas com muito receio do que vem por aí.
    Não nos deixe sem notícias por muito tempo, mesmo que não tenha um capítulo pronto ou ideia de quando vai postar, apareça de vez em quando só para nos dar um "oi". Acredite, vai me deixar feliz também!

    Beijinhos,
    Gabi.

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  4. Amei, mas acabar assim, isso não se faz Joana. Só te peço uma coisa não nos faças esperar tanto tempo pelo próximo como esperámos por este, eu sei que nem sempre é fácil, mas é um prazer ler um capitulo teu. Este momento deles foi assim uma coisa, ainda pensei que a coisa ia dar para o torto, mas o Rubén manteve-se clamo e finalmente conseguiu levar a água ao seu moinho, agora só resta saber se o casamento é cancelado ou não, e eu espero bem que sim, que o Ruben mande a enjoada da Inês dar uma volta.
    Adorei, simplesmente maravilhoso, como sempre, agora quero muito o próximo.
    Continua, beijocas.

    Fernanda

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  5. Fantástico...
    Quero mais... tou super curiosa para ver o próximo...
    Continua... cada vez Ta melhor...

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  6. Sem palavras!!! Mais por favor.
    Beijinhos.

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  7. Adorei adorei adorei.Fico a espera do próximo.bjs

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  8. AI estou tão contente, as saudades que tinha de ler os teus capítulos ansiosa para ler cada linha ! Obrigada por escreveres desta forma, fico mesmo à espera do próximo! Beijinhos

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  9. A espera valeu a pena!!! Continua está perfeito!

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  10. PERFEITO!!!
    Tenta deixar um novo capitulo de prendinha de Natal para nós heheh

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  11. Estava mesmo a contar com uma prenda de Natal tua...
    Vá lá publica ;)
    Feliz Natal!

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  12. Olá,

    Quando é que publicas o próximo?

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  13. Quando postas outra vez ����

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