domingo, 16 de julho de 2017

Capítulo 22 - Corações em fuga (Parte II)





















O sigilo daquele beijo foi apenas confesso às paredes do quarto, pois mesmo antes de se deixarem envolver demasiado pelas emoções há muito aprisionadas, e as quais os transportavam para um caminho sem retorno, logo que ouviram o bater da porta, que pôs fim a toda a troca de afectos, Joana afastou-se num impulso automático que o seu corpo foi obrigado a responder.
Ambos suspiraram ao escutarem a voz de David do outro lado da porta, e felizmente sem forçar a sua entrada, chamou-os para descerem para o jantar, e logo voltou a afastar-se para fazer o percurso inverso de volta ao andar inferior.

- É melhor descermos antes que comecem a estranhar a nossa demora. – Joana proferiu, sem coragem de olhá-lo depois do momento íntimo e intocável que tinham partilhado, aproveitando para calçar de novo os seus ténis deixados ao beiral da cama

Ruben não conseguia deixar de odiar toda aquela situação. Odiava que o amor que sentia por Joana, juntamente com o seu bebé que crescia dentro dela, tivessem de continuar a ser segredo para as pessoas com quem mais queria partilhar a sua felicidade – os seus amigos. Ainda assim estava consciente que enquanto não resolvesse todas as pontas soltas da relação que ainda o unia a Inês, manter-se discreto era a decisão mais correcta e segura para todos, até para si mesmo.

- Eu ajudo. – quando a viu debruçar-se sentada no rebordo da cama, ele correu para auxiliá-la, ajoelhando-se na frente dela calçando-lhe as sapatilhas em cada pé

Eram pequenos gestos como aquele que a faziam apaixonar-se por ele a cada dia um pouco mais. Ruben costumava ter sempre a palavra certa a dizer no momento certo, sabia o gesto apropriado a ter a cada situação. E vê-lo ali, de joelhos a seus pés, a tomar todo o cuidado e carinho que o mundo lhe dava, como se para ele Joana fosse a pessoa mais importante da sua vida – porque o era, na verdade – desarmou-lhe qualquer tentativa de fuga que a levasse para longe dos seus braços e do seu coração.

- Eu não vou desistir de nós. – sussurrou quase a medo, quando ergueu a cabeça para lhe procurar os olhos claros e expressivos que o beijo amoleceu – Por muito que me peças que o faça… Eu não vou desistir.

Joana não pediu. Simplesmente não teve energia para continuar a esconder-se dele, fingir que o seu mundo não tinha sido virado de cabeça para baixo, agora, da melhor forma possível.

- O tom rosa-pêssego não condiz muito com o tom da tua pele. – no meio de toda aquela situação, ela foi capaz de fazê-los rir levemente, limpando com o polegar, vestígios do seu batom que tinham ficado nos lábios de Ruben

Ele sabia o que Joana estava a fazer ao tentar desviar o assunto, e foi por conhecê-la tão bem como conhecia e por querer evitar mais discussões, que não forçou uma conversa que era preciso ter-se tida depois daquele beijo.
Podia não ser agora, nem mesmo nas próximas duas ou três horas, mas uma conversa acompanhada pela maior decisão da vida deles, com toda a certeza, iria ser-se travada.



***



Como o dia de sexta-feira tinha vindo a ser gozado pela governanta e cozinheira Glória, desde os seus primeiros anos a trabalhar para a família Amorim, os tachos e panelas haviam sido entregues aos homens que agora cuidavam da vivenda. Luisão e David tinham sido destacados, de forma unânime, a cozinharem o jantar com iguarias tipicamente brasileiras que vieram satisfazer os caprichos e aquecer o coração de todos.
Entre conversas animadas e típicas brincadeiras que conduziram ao final da refeição, como já vinha a ser habituar, o grupo trocou a sala de jantar pela de estar, onde ao sabor de uma boa chávena de café e do calor amainado da lareira acesa, refastelados nos sofás e puff’s espalhados estrategicamente na divisão, davam continuação à cavaqueira que era intercalada com um filme da Disney, implorativamente exigido pelas pequenas Sofia a Victória. 
Durante todo este tempo, nem Ruben nem Joana haviam voltado a trocar uma palavra, desde quando juntos abandonaram o quarto para que, irredutivelmente, se juntassem ao convívio. Porém, e sem conseguirem evitar, trocas de olhares breves tinham permanecido entre eles, agora tão óbvias e ousadas que já nem aos amigos passavam despercebidas.

- Mais sem-vergonha do que ‘tá sendo, é impossível… - comentou David baixinho, sentado no sofá de três lugares partilhado com o seu melhor amigo

- Não sei do que estás a falar. – respondeu no segundo a seguir, calmo e sem desviar os olhos um milímetro que fosse do cenário que contemplava já por largos minutos

Do outro lado da sala, Joana permanecia sentada num puff perto da lareira, com a sua querida e doce afilhada segura e aconchegada no calor do seu colo. Esforçava-se por ficar o mais atenta possível à premissa do filme de maneira a ser capaz de responder às perguntas e comentários com os quais Sofia a interceptava de vez a vez, uma tarefa difícil de levar a cabo pois era impossível não sentir o olhar de Ruben queimar sobre a sua pele.
A partilha daquele beijo deixara-lhe o coração mais desconcertado do que alguma vez poderia ter imaginado, e tudo o que queria e precisava naquele momento era de passar algum tempo sozinha, tempo esse que fosse capaz de lhe colocar as ideias em ordem, voltar a dar o devido lugar ao coração e tomar decisões importantes – derradeiras ao percurso futuro da sua vida. Faltava apurar apenas se esse percurso ser-se-ia percorrido sozinha ou ao lado do homem que amava tão profundamente, e por muito que a sua vontade fosse a de continuar a adiar uma decisão, era impossível continuar a fugir ao confronto de uma conversa puramente definitiva entre os dois.

- Larga de frescura, manz. Tu ainda não desviou os olhos da guria… Já todo o mundo topou.

- Deixa-os topar. Tô nem aí. – voltou a ripostar com um hipotético encolher de ombros acompanhado por um sorriso torto e desafiante, tentado imitar no fim, o sotaque de David, que respondeu com uma cotovelada em brincadeira

- Cê não tem emenda mesmo. – ele disse, divertido, agitando a cabeça que lhe sacudiu a farta cabeleira de caracóis

Antes mesmo de ter tempo de lhe voltar a responder, o seu irmão rompeu pela sala, de telefone seguro na palma da mão e marcando caminho até ao beiral do sofá junto a si.

- A mãe está ao telefone… Quer falar contigo. – Mauro anunciou ao estender o aparelho na sua direcção, voltando a sair da sala no instante seguinte para rumar ao berçário de Gabriel que conseguira adormecer há quase uma hora

Ruben avisou o melhor amigo com um breve aceno de que iria ausentar-se por uns instantes, e levando o telefone consigo, procurou por uma divisão sossegada da casa onde pudesse partilhar de uma conversa tranquila e serena com a sua progenitora num ambiente mais privado, sem ter a preocupação de vir a ser interrompido por qualquer um dos seus amigos.

- Mãe, há muito barulho aí, eu não a consigo ouvir bem… - referiu no momento em que fechou a porta do escritório atrás de si, para logo procurar o cadeirão de rodas giratório colocado ardilosamente atrás da imponente secretária de madeira antiga, esculpida em mão – Onde vocês estão?

Gradualmente, o ruído do outro lado da ligação que o impedia de escutar as palavras da mãe, foi-se dissipando, para, finalmente, lhe dar uma percepção mais clara da troca de palavras que se avizinhava entre eles.

- Consegues ouvir-me agora? – inquiriu Anabela, quando se afastou da agitação dos interiores e encontrou as portas de acesso à varanda

- Onde é que vocês estão? – ele voltou a perguntar

- Em casa dos pais da Inês, chegámos há pouco do restaurante.

- A sério? Com esse barulho todo mais me parecia uma discoteca. – disse divertido, ainda a conseguir distinguir uma mescla de berros e gargalhadas abafados pela música que persistia em martelar as colunas da divisão mais próxima

- Quase… As meninas esmeraram-se na festa. – ela riu brevemente, tentado trazer à memória a última vez que participara numa festa despedida de solteira – Não sei como é que convenceste os teus amigos a não te prepararem uma… Eles estavam tão entusiasmados com a ideia.

- A mãe sabe que eu não ligo a essas coisas, era completamente desnecessário.

Anabela sabia. Pessoalmente, Ruben nunca fora dado a tradições e mesmo festividades religiosas que costumavam ser celebradas em família desde infância, perderam, para ele, grande parte do seu significado aquando do divórcio dissaboroso dos pais. E agora com o casamento a menos de vinte e quatro horas de ser oficializado, mais ainda do que antes, Ruben esquecera-se de quaisquer motivos a serem comemorados. Não tinha razões para comemorar e sobretudo – não queria.

- E como estão as coisas aí em casa? Estão todos confortáveis?

- Sim, acabámos de jantar há pouco, a malta está toda na sala a tomar café.

- Óptimo, que bom. – ela disse, satisfeita por saber estarem todos a disfrutar do convívio e do conforto que a casa oferecia, para nos momentos seguintes se deixar embrenhar no silêncio imposto pelo filho – Esse silêncio todo é sinónimo de quê? O que vai nessa cabecinha, Ruben?

- Não é nada… - ele tentou negar ao início, mas deixou-se embustear pelo tom de voz que o denunciou

- Alguma coisa é, filho. Eu conheço-te. Passou-se alguma coisa?

Ruben recostou-se no cadeirão e suspirou pesadamente. Por onde haveria ele de começar?

- A Joana… Nós estivemos a conversar…

- Conversaram? Sobre o quê? – Dona Anabela inquiriu tão curiosa quanto entusiasmada, procurando saber, no desabafo do filho, os progressos que esperava ansiosamente terem sido feitos entre o casal

- Sobre nós… O bebé.

- Disseste-lhe que sabias?

- Claro, mãe. Não podia continuar a fingir que não sabia.

- E então o que aconteceu? Conta-me.

O silêncio de novo se instalou, porém, desta feita foi usado na procura de palavras.

- Eu sou apaixonado pela Joana. – confessou ele, aliviando de si o fardo que o obrigara a esconder os seus verdadeiros sentimentos durante meses a fio, para finalmente poder partilhá-los com alguém – alguém em quem confiava

- Eu sei. – respondeu calma – Tu és e sempre foste apaixonado por ela… Desde o dia em que a conheceste que o brilho dos teus olhos nunca mais foi o mesmo.

- Mas estou de casamento marcado com outra mulher.

- E o que sentes pela Inês? – inquiriu procurando esmiuçar toda a situação

- Eu amo a Inês, quero o melhor do mundo para ela, mas o amor que lhe sinto não vai para além da amizade que construímos ao longo dos anos. Eu não quero magoá-la.

- Eu sei que não, mas a verdade é que no final desta história alguém sairá magoado. É inevitável. Agora resta saber quem.

- Esse alguém não será o meu filho. É uma promessa. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para protegê-lo. – Ruben confessou firme, deixando Anabela a sorrir do outro lado da linha

- Então e o que vais fazer? Já tomaste uma decisão? O que falaste com a Joana, afinal?

- A Joana tem medo, mãe… Eu disse-lhe que faria tudo por ela e pelo bebé, inclusive por um ponto final neste casamento mas ela tem medo do que as outras pessoas possam dizer ou pensar.

- Por vezes a Joana preocupa-se mais com os outros do que com ela mesma… Não é defeito nem sinal de fraqueza, mas há momentos em que temos de decidir o que é melhor para nós mesmos em primeiro lugar, mesmo que isso signifique ser o pior para os outros.

- Foi o que eu lhe disse, mas tu sabes o quão teimosa ela consegue ser… - ele sorriu com as próprias palavras e Anabela também

- Ainda não é tarde demais, Ruben. Se queres pôr termo a este casamento, o momento para o fazeres é agora.

- Eu sei. – para Ruben a questão nunca foi o que iria fazer, mas sim como o faria, Anabela continuou

- Dentro de pouco tempo vais ser pai. A partir de agora tanto as tuas decisões como as da Joana vão-se reflectir na vida do vosso filho. É a pensar nele e no que é melhor para ele que vocês devem traçar os vossos planos, independentemente dos caminhos que optarem por seguir.

Ruben sabia que a mãe tinha razão e passou os momentos seguintes a tentar absorver as palavras sábias que ela lhe proferira.

- Se o arrependimento mata-se… - disse frustrado, ocorrendo a mão aos cabelos deixando-os num alvoroço desalinhado – Eu não deveria ter deixado esta história chegar aos pontos em que chegou. Lá no fundo eu sempre soube que este casamento não era o que eu queria, mas naquela altura…

- Naquela altura tu sentias-te magoado. – a sua mãe terminou por ele – As pessoas cometem erros e tomam decisões desacertadas quando se sentem magoadas, mas isso não faz delas más pessoas.

- A mãe não acha que eu seja uma má pessoa? – ele soltou um riso vazio de sentimento – É que neste momento eu estou a sentir-me a pior pessoa do mundo por ter de fazer isto à Inês… Pelo o que já fiz a Joana passar.

- Ruben, escuta o que eu te digo: Não é tarde demais. Ainda não é tarde para repares esta situação, ainda vais a tempo de a emendares. – disse-lhe, com profunda sinceridade – Tu já sabes o que queres fazer, então faz. Se não queres tornar-te marido da Inês, e se é com a Joana que queres construir uma casa, criar uma família, é exactamente isso que vais fazer acontecer e o momento para isso é agora. Sabes que tens o meu apoio. Eu vou estar sempre aqui para quando precisares de mim.

- Eu sei, mãe. Obrigado.

Não foi muito depois que terminaram a conversa, prometendo voltarem a ver-se na manhã do dia seguinte, e mesmo antes de desligar a chamada, Anabela não se pôde despedir sem antes deixar uma última palavra de apoio e incentivo que sabia, no seu instinto mais puro de mãe, o seu filho estar a precisar de ouvir, na intenção de impulsioná-lo a dar o passo seguinte na sua vida.
Os momentos seguintes, agora a sós, foram determinantes a uma reflexão interior que abalou qualquer réstia de dúvida ou hesitação que poderia ainda existir no mais íntimo de si.
Foi então, a meio do seu processo de introspecção, que passos leves, porém acelerados, foram escutados no corredor do lado de fora do escritório, e os quais foram rapidamente denunciados pela figura apressurada da pequena Sofia que disparou pela porta num rompante tal, suficiente para sobressaltar a quietude do seu padrinho.

- O que é que se passa, Sofia?

- O David vem aí! Estamos a jogalhe às escondidas, o David está a contar… Esconde-te! – ordenou ofegante, tentando não se atropelar nas próprias palavras, e puxando-o consigo, com a ajuda da sua pequena mão, para o fundo da secretária de maneira a não serem vistos

Foi um pequeno intervalo de segundos até se dar conta, novamente, da abertura – desta vez lenta e cuidada –, da porta, que consigo trouxe a voz manipuladora do jogo, de David.

- Sofia, eu sei que cê tá aqui… Eu vi você correndo pra ‘qui… apareça, mulequinha. – ele disse, sussurrante e provocador, tomando posse da sala em cada recanto que espreitava

- Como é que me viste vir pra ‘qui se estavas a contar? Fizeste batota, Dê! – culpando a sua impulsividade, a pequena saltou detrás da secretária, engraçadamente inquietada, acabando por se denunciar a David numa acção impensada de quem não sabia melhor

- Ah-ah! Te peguei!

- DAVID! – com um grito estridente, seguido por gargalhadas de ambas as partes, Sofia e David iniciaram a disputa de uma corrida que os conduziu novamente para fora da sala, levando Ruben a segui-los – ele sem qualquer pressa –, mais atrás

Quando chegou ao corredor principal, já todos os jogadores haviam sido “salvos”, e concordando a uma última partida - por insistência das crianças –, antes de darem a noite por encerrada e recolherem aos quartos, foi a vez de Sofia se dirigir ao local de contagem para que os adultos, numa questão de segundos, voltassem a dispersar pelas mais diversas divisões da casa.
A sentir-se derrotada pelo instinto competitivo de criança que a levava a detestar perder, Sofia subiu à cadeira de apoio à mesinha do telefone no hall de entrada, e voltada contra a parede com o pequeno braço flectido a tapar-lhe a linha de visão, em voz alta deu início à contagem crescente, estipulada anteriormente por todos, até 20.

- Não te vais esconder com o resto da malta? – perguntou Ruben quando viu Joana, que ficara para trás da agitação, subir calmamente o lance de escadas de acesso ao andar superior

- Não… Ia preparar-me para me deitar. – no mesmo instante em que lhe respondeu, apercebeu-se de que aquela não era a resposta que ele queria ouvir

- Fica mais um pouco. – pediu, meigo, tentando pensar rapidamente numa razão para lhe dar que a levasse a ficar, mas verdade era que não tinha, e o que não sabia, era que não precisava de uma

- Papi, não podes ficar aí… Tu e mad’inha têm de se ir esconder, senão perdem. – interferiu, interrompendo a sua contagem para fingir que não olhava, de olhos semicerrados e acima do ombro, os seus segundos progenitores

- Alguém está a fazer batota (!) - comentou Ruben em tom de brincadeira que fez despoletar risadas ariscas da sua afilhada, e a fez voltar-se novamente para a parede – Tens de começar a contar, ó espertalhona!

- Mas papi… - protestou contrariada, mas desta vez sem cair no erro de voltar a espreitar

- Do zero! – acrescentou ainda, sabendo que isso só iria mexer ainda mais com a (im)paciência dela – Vem comigo. – voltou-se desta vez para Joana, estendendo-lhe a mão entre a distância que os separava

Desta vez ela não hesitou. Não fez perguntas, não perdeu tempo. Tempo, aliás, já tinha sido desperdiçado até demais, entre eles. Limitou-se a entregar-lhe a mão, trémula pela ansiedade mas segura na decisão tomada, e deixar-se ser guiada por ele – onde quer que a levasse. Não foram muito longe, na verdade, a pequena porta da arrecadação ficava mesmo debaixo da escadaria do hall principal e foi lá que improvisaram um esconderijo – quase – perfeito.
Honestamente nenhum dos dois estava com espírito para jogar às escondidas ou participar em qualquer outra atividade que os rapazes pudessem ter-se lembrado de iniciar, para manter as crianças entretidas e animadas até à hora de deitar. Ruben levara-os para ali unicamente com o propósito de ficarem uma vez mais a sós – vezes essas que nunca chegariam a ser suficientes –, e Joana, bem lá no fundo, sabia disso. E cedeu. Naquele momento ela teve a certeza de que não havia nada que Ruben lhe pudesse pedir e ela lhe diria que não. Seriam os olhos dele que a contemplavam de uma maneira tão delirante, a meiguice das suas mãos que procuravam tocá-la a cada oportunidade, ou os lábios encarnados que gritavam pela sua atenção?

Hormonas. A culpa é das hormonas.

O espaço era pequeno, minúsculo mesmo. Assoberbado apenas de alguma mobília de quartos que deixara de ser usada para ser substituída por outra mais recente, meia dúzia caixas de cartão seladas, empilhadas e embaladas a “frágil”, de peças de cerâmica e loiças que provavelmente nunca chegaram a servir, e nada mais cabia que não fossem eles os dois. – Só mais um pretexto para ficarem grudados um ao outro. A ideia passou pela cabeça de ambos quase que ao mesmo tempo e chegou a ser agradável, muito. Até que…

- Cuidado. Estás bem? – Ruben precipitou-se a segurá-la no instante preciso em que se apercebeu de que ela tinha tropeçado em algo

- Eu estou bem. – assegurou, ainda a tentar perceber o que a fizera tropeçar – Há qualquer coisa no chão…

- Queres que acenda a luz para ver o que é? – ele depressa esticou o braço para alcançar o interruptor mas o tom de voz de Joana fê-lo pensar duas vezes

- Queres que a tua afilhada nos encontre? – perguntou na clarividência de uma  brincadeira que ele porém não soube acompanhar logo de início 

- Hmm… Não? – disse, hesitante, enquanto a olhava com curiosidade

- Então mantém a luz apagada. Eu estou bem, não te preocupes.

- Sabes que isso é impossível. – o seu tom de voz amoleceu, inevitavelmente

- O que é?

- Não me preocupar contigo. – Joana sorriu ao ouvi-lo, um sorriso que tinha tanto de tímido quanto tinha de apaixonado… era sempre tão bom sentir-se amada por ele, mesmo em pequenos e inocentes gestos como aquele – Não quero que te magoes… Seja de que maneira for, e muito menos agora.

- Muito menos agora que estou a carregar o teu bebé. – foi apenas quando sentiu os olhos de Ruben incendiar a superfície da sua pele, pela milionésima vez naquele dia, que se apercebeu da vastidão da sua sentença – O que foi?

- Nada, é só que… - começou por confessar, completamente maravilhado, os olhos a vibrarem de emoção e as palavras a perderem-se no limite dos lábios – Não fazes ideia do quão bem sabe ouvir-te dizer isso. O meu bebé… Nosso. Só nosso.

Joana não foi capaz de lhe resistir ao sorriso. Tão orgulhoso, tão suave. Sem ser preciso ganhar qualquer coragem, inclinou os calcanhares e em pontinhas dos pés segurou-lhe as faces entre as  mãos e beijou-lhe os lábios, calma e docemente. Oh, tão doce. Era sempre essa a sensação que lhe lembrava dos beijos partilhados com ele e não estava disposta a trocá-la por nada deste mundo.
Ruben tremeu a princípio pela surpresa daquele gesto, inesperado mas sempre bem-vindo, e só no segundo a seguir ela o sentiu corresponder.

- Só nosso. – acabou por garantir-lhe num murmúrio ao voltar a selar o beijo que iniciara, as bocas ainda coladas, as pontas dos narizes a roçarem levemente

- Joana, eu…

- Espera. – ela apressou-se a silenciá-lo, os seus dedos delicados a cobrirem a boca que segundos antes tinha beijado – Eu sei que temos de falar mas não agora, não aqui… Está bem? Vamos apenas ser nós, tudo o resto deixa lá fora. Por um minuto. Vamos fingir, por um minuto, que tu não estás com outra pessoa e que eu…

- Nós não temos de fingir nada. – referiu, beijando-lhe a falange dos dedos dela que ainda cobriam os seus lábios – Basta dizeres-me o que queres e eu sou inteira e completamente teu. Tu sabes disso. A minha decisão está tomada e eu vou atrás de ti até onde for preciso.

Ela suspirou atemorizadamente e deixou tombar a testa contra o seu peito robusto e tonificado. Apercebendo-se de que não iria dizer mais nada, Ruben encostou a bochecha ao topo da cabeça dela, abraçou-a e apertou-a forte contra si. Fazia meses que não a abraçava, que não a tinha tão perto de si ao ponto de lhe conseguir distinguir o doce aroma do seu champô, mas lembrava-se da sensação como se tivesse sido ontem.   

- Porque é que a vida tem de ser tão complicada? – Joana segredou num tom incrivelmente baixo e ao fim de algum tempo, e mesmo sem conseguir perceber se estava a desabafar consigo mesma ou não, ele respondeu

- Se fosse fácil, as pequenas vitórias que vamos conquistando não teriam o mesmo sabor.

Ela então voltou a erguer o rosto para olhá-lo, pensando cuidadosamente no que dizer antes de voltar a falar.

- E nós já conquistámos tantas vitórias ao longo dos anos. – um pequeno e genuíno sorriso vernou uma nova luz de esperança no seu rosto

Ruben concordou com um sorriso igual ao dela, assentido duas breves e singulares vezes com a cabeça. A mão quente e pesada ocorreu de imediato ao ventre que resguarda o serzinho que ambos haviam concebido pelo fruto de um amor que continuava a ser alimentado e se recusava a morrer, e foi então que Joana, com a sua mão que já tinha ido ao encontro da dele, continuou.

- Apetece-me sair daqui… Fugir por uns tempos, ir para outro lugar.

- Eu fujo contigo. – afirmou confiante, nem um rasgo de incerteza a quebrar-lhe a voz, Joana por sua vez, olhou-o divertida

- Tu não existes. – disse, deambulando a cabeça para um lado e para o outro, como se o estivesse só agora a conhecer, ainda com um sorriso a marca-lhe o fáceis a cada minuto mais relaxado, tal como o seu coração

- Não quero existir sem ti a meu lado. Já o fiz demasiadas vezes para saber que não vou suportar fazê-lo de novo.

- Porque é que dizes essas coisas, Ruben? – inquiriu, agora deixando a seriedade tomar novamente conta do diálogo, que era partilhado somente em sussurros – Deixas-me sem reação.

- Desculpa. Mas é que… - na sua procura pelas palavras certas, a mão que até então pousava no anteparo do seu filho, voou até à franja que cobria os olhos de Joana, e a prenderam carinhosamente atrás da orelha – Eu passei estes últimos meses a tentar convencer-me que sabia o que era o melhor para mim quando na verdade nunca estive tão longe disso. E agora que voltei a ver tudo com mais clareza, agora que sei o que realmente importa, o que me faz realmente feliz… Eu não vou voltar a abdicar disso.

- Sentes mesmo aquilo que estás a dizer, ou só estás a dizer isso…

- Joana… - ele prendeu-lhe o queixo entre o indicador e o polegar, confiante de que melhor do que as palavras, os seus olhos não o deixariam mentir – Quando eu digo que fugiria contigo para qualquer parte do mundo, é porque o faria. Nunca falei tão a sério.

Antes que desse mais tempo de voltarem a dizer o que quer que fosse, a maçaneta da porta rodou inesperadamente, fazendo Joana afastar-se de Ruben e esconder as lágrimas que se queriam precipitar no meio daquilo tudo.

- Encontrei-os!!! Eles estão aqui, eles estão aqui! – gritou Sofia, voltando a correr desalmadamente na direção oposta, e dar o final ao jogo



***



“Um dia, quando andavam num passeio matinal pelo lago, os cisnezinhos e a sua mãe encontraram-se com a Dona Pata e os seus quatro filhos.
‘- Veja mãe, é o patinho feio!’, disse um patinho.
A Dona Pata aproximou-se e falou com a Mãe Cisne: ‘Bom dia! Os seus filhos são uns amores!’
‘Agora ela já me acha bonito. Como é bom termos a nossa própria família’, pensou o ex-patinho feio.”

- Vitória, vitória…

- …Acabou-se a história! – terminaram Sofia e Victória num coro perfeito e com um sorriso sonolento nos lábios, já quase quase a adormecerem

Joana acabara por ir deitá-las naquela noite, mas não abandonou o quarto sem antes lhes ler a história do Patinho Feio, um livro que acompanhava Sofia religiosamente para qualquer lado, e apesar de esta já conhecer o seu desfecho pelas dezenas de vezes que o tinha ouvido, o seu deslumbramento fazia querer que da primeira vez se tratava.

- Boa noite, meninas. – voltando a pousar o livro sob a mesinha de cabeceira, Joana levantou-se do beiral da cama que ambas as meninas partilhavam e aconchegando-lhes as cobertas, despoletou um beijo delicado na testa de cada uma

- Boa noite, mad’inha.

- Boa noite, Joana.

- Durmam bem. – silenciosamente apagou a luz e fechou a porta, já pronta a rumar ao seu quarto e entregar-se finalmente ao descanso

- SURPRESA! – uma parafernália de vozes e um misto de sotaques fizeram-na sobressaltar trepidamente aquando da sua entrada no quarto que naquela semana viera a pertencer ao grupo de meninas, e que julgara, pelo silêncio da noite, estar vazio

Foi uma surpresa, de facto, ao aperceber-se que os rapazes a esperavam com um bolo nas mãos, onde só foi possível para Joana conseguir discernir cada uma das suas feições pela luz emitida pelas velas e a qual iluminava apenas uma quarta parte do quarto, deixando os restantes recantos serem adormecidos pela escuridão.

- “Parabéns, a você…” – foi quando todos começaram a cantar que ela caiu em si, não evitando emocionar-se pelo gesto tão inesperado e ao mesmo tempo tão especial dos seus queridos amigos

- Vem apagar as velas, Jô. – advertiu David, que segurava o bolo, e a fez descolar os pés do chão, que até à altura ainda não tinham saído junto da porta e a incentivou a ir ao seu encontro e apagar cada uma das vinte e uma velas

- ¡Feliz cumpleaños, chica! – desejou o sorridente, Javi, procurando abraçá-la

- Nem acredito que vocês se lembraram… Obrigada! – ela disse a todos, grata do fundo do coração e com as lágrimas na linha de água dos seus olhos, procurando conforto nos braços de Javi que ainda a rodeavam carinhosamente  

- Como já passa da meia-noite, tecnicamente já é dia 22, então… - falou Mauro, que começara então a partir a primeira fatia do bolo destinada à aniversariante

- Vocês são fantásticos.

- Nós sabemos, nós sabemos. – concordou Nuno Gomes, o sempre-bem-disposto do grupo, que já se deliciava com a sua porção do bolo

- E quem foi que fez o bolo? Tem um aspeto delicioso. – comentou, enquanto observava a fatia que tinha nas mãos porém não teve apetite para provar

- E sabe melhor ainda! – garantiu Luisão, degustando a sua obra-prima – Brenda me deixou a receita de brigadeiro.

- Ei, não foste só tu que o fizeste! Eu também ajudei.

- Claro que tu ajudou, Mauro… Tu ajudou a fazer bagunça. – ripostou rapidamente e os dois entraram então numa picardia saudável, suficiente para arrancar leves gargalhadas a Joana

- Vinte e um aninhos… Ai se eu me apanhasse com essa idade… - voltou a falar Nuno, caminhando na direção dela para lhe contornar os ombros com o braço direito e puxá-la para si

- O que é que fazias com esta idade? – Joana olhou-o tão curiosa como divertida

- Voltava a fazer tudo o que fiz… Mas com mais juízo! Muito mais! – ela voltou a rir, sentindo a sua aura ficar mais leve e grata por este grupo de pessoas fantásticas que teve a felicidade de ver fazer parte da sua vida

- Tenho uma coisa para te dizer. – pouco depois, e fazendo-os afastarem-se para outro canto do quarto discretamente, Mauro levou Joana pela mão depois de lhe ter falado ao ouvido

- Passasse alguma coisa? – perguntou-lhe, ligeiramente alarmada uma vez que a linguagem corporal de Mauro não dava muito a revelar

- Não, não te preocupes, estou só a fazer o meu papel de pombo-correio. – assegurou com um sorriso torcido nos lábios, que parecia ser genético nos homens daquela família, e que só serviu para deixar Joana ainda mais confusa

- O Ruben… Ele já se foi deitar? – indagou logo que esse pensamento voltou a surgir, visivelmente tristonha pela a ausência de Ruben da qual dera conta logo quando entrara no quarto e não o vira entre os rapazes

- Ele pediu-me para te dizer para ires lá abaixo assim que todos se deitem.

- O Ruben pediu-te para me dizeres isso? – a sua sobrancelha formou um arco perfeito, e Mauro asseverou com um breve acenar da cabeça – E sabes qual é o motivo?

- Isso já vais ter que ser tu a descobrir…

- Mais surpresas?

- A vida é feita de surpresas… - citou calmamente, como se detivesse em si toda a sabedoria do mundo, e voltou a aproximar-se ao rosto dela para lhe falar secretamente – E acho que o meu irmão só te preparou mais uma.

A espera para que todos se deitassem adivinhou-se mais morosa do que Joana quis admitir, mas logo que todos regressaram ao pousio e guarida dos seus quartos, ela pôde finalmente encalçar o percurso que secretamente lhe tinha sido solicitado a seguir.
Consigo levou apenas um agasalho que acabou por vestir pelo caminho e ainda sem saber ao certo onde a sua breve caminhada a iria levar, encruzou pelo corredor pé-ante-pé de maneira a não perturbar a paz de quem já se havia entregue ao descanso, nem de ser vista naquela escapadela matutina.
Foi uma voz inconfundível que acabou por levá-la ao seu destino. O coração de Joana apressava a sua batida a cada degrau da escadaria principal de que se soltava, mas foi quando escutou o acorde robustecido que inundava todo o rés-do-chão, que ela quase pôde jurar senti-lo parar de bater. Cruzou pelas salas de estar e de jantar que permaneciam inativas, espreitou ainda a cozinha assim como a copa dos fundos que levava ao pátio das traseiras, porém o som não vinha de lá. Restava então apenas uma divisão, e foi para lá que se dirigiu, agora quase sem conseguir suportar as próprias pernas pela força que se sumia e a ansiedade que lhe entorpecia o peito. E foi quando o viu. Hirto e imóvel junto à ampla janela do escritório a olhar o jardim, escurecido pelo crepúsculo.
Por alguns segundos não disse nada, e ainda sem trespassar a porta que permanecia meramente encostada, manteve a sua presença oculta e deixou-se ficar a olhá-lo. Sentia-o relaxado, a tensão dos ombros parecia-lhe ter desaparecido pela primeira vez que o vira desde que chegara àquela casa e os músculos das costas que até então notara oprimidos, haviam exalado, o que fazia com que a camisa axadrezada que trazia vestida quase rasgasse somente pela forma tonificada do tronco e sem ter que fazer qualquer movimento. Foi quando a música terminou que o viu finalmente mover-se. Esticou o braço esquerdo de encontro ao muito antigo gira-discos, que ela sabia fazer parte da herança da sua avó materna, e o qual permanecia mesmo ao seu lado, e viu-o colocar a agulha na borda externa do disco de vinil, fazendo-o voltar à primeira faixa musical.
Foi o perfume de Joana que a entregou. Ruben tinha-lhe memorizado o doce aroma, e a sensação também de estar a ser observado, deu-lhe a certeza que não estava mais sozinho, quando por cima do ombro a olhou e a discerniu a perscrutar à soleira da porta. Ele rodou o corpo calmamente até estar alinhado com o dela e olhou-a também. O seu rosto atraente, o olhar quente e um sorriso carinhoso que a incentivavam a entrar na sala.

“Some day when I’m awfully low
When the world is cold,
I will feel a glow just thinking of you
And the way you look tonight -

- Lembraste desta música? – ele perguntou, embebido pela figura dela, e aumentou um pouco o volume quando a viu entrar e permanecer colada à porta que tinha fechado, com as mãos atrás das costas, fitando-o com curiosidade e admiração

E oh, como se lembrava. Como podia alguma vez esquecer? Aquela era a música deles. Soa até cliché, não é? Clássico. Um casal “ter” uma música com a qual se identifique, uma letra e um ritmo que defina a relação. Ouvirem-na uma vez apenas, ou demasiadas até, e subjugá-la a um tempo, a um lugar; atribuir-lhe um significado, sim, por sempre há um significado. E para Joana e Ruben não era diferente, eles que até gostavam de clichés.

- A nossa música. – ela respondeu baixinho e sem medo de soar, por um instante, ridícula

Continuando a olhá-lo, como se fazê-lo pudesse revelar-lhe o que os seus olhos tinham escrito sobre si, a penetrante balada daquela canção fê-la inevitavelmente recuar alguns anos atrás e reviver em memória um capítulo da sua história partilhada com Ruben.

*****



- Eu vou buscar mais uma cerveja, queres que te traga alguma coisa? – inquiriu-lhe o seu amigo e par de baile, Vasco, praticamente a berrar-lhe ao ouvido pela música que martelava fortemente em toda a amplitude do recinto

- Não, obrigada, ainda não acabei a minha bebida. – Joana disse mostrando-lhe o copo do seu segundo mojito que bebida com o auxílio de duas palhinhas, para depois ficar a vê-lo afastar-se em direção ao bar

Era o seu último ano do secundário e aquela era a noite destinada ao baile de final de ano, que tinha vindo a ser comemorado nas últimas horas por alunos finalistas e respetivos acompanhantes.
Depois de abandonarem o restaurante, a continuação da festa teve lugar numa discoteca popular entre a comunidade estudante e conheceria lá o seu encerramento. E era onde Joana estava, rodeada por amigos e colegas próximos. Ainda sóbria, ainda ostentada pelos saltos altos que iria definitivamente atirar para um canto da sala se continuasse a dançar com a mesma energia.

- Joaninha, Joaninha… - mesmo atrás de si conseguiu ouvir a voz já embriagada da sua amiga Carolina, que se apressou a abraçá-la de maneira a manter o equilíbrio

- Alguém se está a divertir muito esta noite. – ela respondeu meio ironicamente e com uma gargalhada pelo meio, abraçando a amiga de volta, sustendo-lhe quase todo o peso no seu corpo

- Esta noite é para curtir! – afirmou no seu jeito bravejado de ser e prolongando deliberadamente cada palavra, soltando um grito eufórico no final – A nós! – no ar ergueu o copo para brindar e fazê-lo tilintar com o de Joana

- A nós. – brindou também com um pequeno gole que deu na sua bebida, para vê-la esvaziar o copo em meia dúzia de sorvos dados num só lance – Vai com mais calma.

Apesar de ainda a ter aconselhado, o inevitável acabaria por acontecer. Não demorou quase nada até ao comportamento de Carolina se alterar severamente e na mudança de um segundo perder a vivacidade e a adrenalina exalar-lhe para fora do corpo.

- O que é que se passa, Carolina? – perguntou-lhe quando se apercebeu da alteração do temperamento e lhe desvendou um aspeto nauseado do rosto

- Acho que não me estou a sentir muito bem.

- Estás maldisposta? Queres vomitar? – ela somente foi capaz de abanar a cabeça em modo negativo – Anda, vamos passar a cara por água e ver se encontramos por aí algum sofá para descansares um pouco.

Quando enveredaram pela casa de banho e mesmo antes de chegarem à zona dos lavabos, já Carolina estava a correr para uma das divisória e a debruçar-se sobre a sanita. Joana prendeu-lhe o cabelo e esperou que ela aliviasse o estômago.
Cinco minutos foi o tempo que levou para se recompor, e já com a cara esfriada, voltaram a sair quando uma nova fila de raparigas se começava a formar à porta.

- Joana! – uma vez mais uma voz atrás de si voltou a chamar pela sua atenção, e esta era sem dúvida uma voz diferente

- Ruben, o que é que estás aqui a fazer? – ela voltou-se na direção dele, ainda carregando a amiga nos braços, reparando que ele tinha ficado no corredor à sua espera

- Eu vim buscar-te, não foi isso que combinámos? – o misto de surpresa e desapego na voz dela enfureceram-no ainda mais do que o que já estava – Vim agora da casa dos teus avós, eles estão à tua espera.

Foi exatamente aquele o combinado. Ruben ficou de a ir buscar à discoteca, não demasiado cedo para que conseguisse aproveitar bem da festa, porém também não muito tarde. Aquele era também o dia em que os seus avós comemoravam as bodas de ouro, e como cinquenta anos de casamento requerem uma comemoração especial, a família e os amigos mais próximos à família, como era o caso de Ruben e dos seus pais, tinham sido convidados a uma pequena celebração na vivenda. Naquela altura Ruben e Joana namoravam apenas há alguns meses e manter o secretismo da relação era absolutamente necessário, o que se tornava complicado quando as famílias eram próximas… Por um lado, oportunidades para se verem e motivos para estarem juntos tinham que sobrava, mas nem sempre era fácil conseguirem suprimir a vontade de partilhar a felicidade que sentiam com os que lhes eram mais chegados, não quando estavam a viver uma fase tão especial no relacionamento e como consequente se sentiam tão apaixonados um pelo outro.

- Eu não posso deixá-la aqui neste estado. – evidenciou, olhando a amiga que ainda segurava junto a si e que agora quase dormia em pé

- Podemos deixá-la em casa. – ele sugeriu, querendo apenas e somente sair daquela maldita discoteca

Pegando-lhe no outro braço de maneira a apoiar, Ruben ajudou-a a levar a amiga até ao carro onde a acabaram por deitar nos bancos de trás. A meio da viagem, e porque no interior do carro embargava uma atmosfera silenciosa – estranhamente silenciosa –, conseguiram-lhe distinguir a respiração que então se enaltecera e se tornara mais pesada, anunciando a sua entrada num sono profundo. 

- Correu tudo bem? – acabou por perguntar, quebrando o silêncio pela primeira vez

- Relativamente ao baile? – consentiu, sem nunca desviar os olhos da estrada – Sim, foi divertido. Deu para nos abstrairmos da tensão dos exames.

A resposta dela fê-lo sorrir pateticamente, um sorriso tão vazio que não lhe alcançou o olhar.

- Imagino. – praguejou num tom superficial que felizmente passou despercebido a Joana, no entanto tornou-se impossível deixar de reparar no quão distante ele parecia estar; na frieza e futilidade da sua voz

A conversa morreu ali, mesmo antes até de começar. Depois de fazerem um breve desvio para deixar Carolina em casa sã e salva, seguiram sem mais demoras para a vivenda dos Freitas de Andrade.
‘Inconfortável’ era o adjetivo mais apropriado que ela encontrou para descrever a viagem de carro. A postura de Ruben permanecia rígida, obstinada, mesmo enquanto guiava apenas com uma mão a segurar o volante e a outra pousada sob joelho; o pé pesado perigosamente sobre o acelerador.
Joana conseguia discernir-lhe a tensão da mandíbula apertada de cada vez que se atrevia a olhar-lhe o rosto de soslaio, embora esse olhar nunca chegasse a ser recíproco. Aquele comportamento, ela pensou, não era típico dele que sempre falava o que lhe ia no pensamento quando algo parecia estar errado. E ali algo estava, definitivamente, errado. Joana não quis tirar conclusões precipitadas, mas a verdade é que o conhecia muito bem, demasiado até. Afinal de contas ele fora seu amigo durante anos devido à cumplicidade de ambas as famílias e agora era o seu namorado… Um namorado atencioso que não se coibia de conversar com ela em qualquer momento, fosse através de uma simples mensagem a meio da manhã, ou de um telefonema a horas avançadas da noite; que a mimava em qualquer oportunidade e ocasião. E esse não era o Ruben que estava ali com ela, não era o seu Ruben, e o silêncio que subsistia naquele carro começava seriamente a incomodá-la. Ele parecia recusar-se a proferir mais uma palavra que fosse e muito menos olhar para ela ou mesmo tocá-la, e até o rádio permanecia desligado como que propositadamente, o que fazia a tensão cada vez mais tangível e o ar mais irrespirável.  

- Amor, vai mais devagar. O sinal está vermelho. – ela alertou-o na aproximação a um semáforo

Como se o fizesse só para contrariá-la e enfurecê-la, Ruben pisou mais afundo no acelerador.

- Ruben! – gritou com ele, o que fez com travasse abruptamente e mesmo em cima da intersecção

Enquanto esperavam que o sinal se tingisse de verde, Joana teve tempo para se recompor e pensar no que lhe iria dizer a seguir.

- Assim que possas encosta o carro e deixa-me sair. Eu apanho um autocarro ou chamo um táxi para me levar a casa dos meus avós. – apesar daquele pedido o ter surpreendido, preferiu continuar a ignorá-la, a dar-lhe o tratamento do silêncio e limitar-se a conduzir – Não ouviste o que disse? Eu quero sair!

- Não sejas ridícula, não vais apanhar autocarro nenhum e muito menos chamar um táxi.

- Agora deste para mandar em mim? Se pensas que eu vou continuar dentro deste carro enquanto estiveres dessa maneira louca a conduzir, enganas-te. – ela advertiu, começando a ficar irritada com o comportamento dele

- Eu sei o que estou a fazer. – disse simplesmente e sem alterar o tom enervantemente calmo da sua voz

- Sim, claramente. – Joana deambulou meros segundos após, enquanto olhava pela janela – Eu quero sair. – ela voltou a pedir e mais uma vez ele voltou a ignorar – Se não parares o carro agora, eu juro que abro a porta e salto.

- Quem está a ser louca agora? – julgando que falava apenas da boca para fora, Ruben desviou por um pouco a sua atenção da estrada para concentrar-se nela e somente os dois segundos que a olhou nos olhos foram suficientes para se aperceber que, se testasse os seus limites, Joana cumpriria a promessa

Sem querer arriscar mais, e logo que teve oportunidade, encostou o carro à berma da estrada, na entrada de um campo de terra batida. Ela foi a primeira a sair da viatura e fechar a porta com força sem sequer voltar a olhá-lo, abriu a sua mala e começou a procurar pelo telemóvel para marcar o número de um taxista… Inútil digamos assim, porque Joana não fazia a minimia ideia de onde estava, Ruben tinha parado o carro literalmente no meio do nada, longe das casas e da civilização e olhando-se tanto para um lado como para o outro, a única coisa que se via era a estrada.

- O que é que se passa contigo hoje? Endoudeceste, foi? – apercebendo-se de que também ele tinha saído do carro para caminhar na sua direção, voltou a arrumar o telemóvel e voltou-se para ele, à procura de respostas

- Desculpa, é que… - foi-se aproximando dela apologeticamente e claramente mais calmo, mas ela não estava disposta a ceder-lhe tão facilmente, não depois da maneira que tinha vindo a comportar-se desde que a foi buscar à discoteca

- É que, o quê, Ruben? Eu não te estou a reconhecer… Foi alguma coisa que eu disse? Alguma coisa que eu fiz? Fala comigo.

- Se eu disser vais achar que é estúpido…

- Não vou voltar a falar contigo se não me disseres.

- Joana… - ele tentou tocar-lhe o rosto, mas a mão dela travou a sua antes de o conseguir fazer

- É por causa do baile, não é? Diz-me a verdade.

- Sim é por causa do baile. – acabou por confessar, acabando por achar a ideia ridícula agora que pronunciada em voz alta, mas não conseguiu deixar de se sentir mal sobre o assunto apesar de tudo – Porque é que não quiseste que eu te acompanhasse? Porque é que preferiste ir com o Vasco em vez de me levares a mim, o teu namorado?

- Estás a falar a sério? – mesmo sem vontade ela gargalhou por achá-lo demente, mas quando reparou que a solidez da sua expressão não se tinha alterado, apercebeu-se de que estava, de facto, a falar muito a sério – Tu sabes perfeitamente porquê.

- Tudo bem, eu sei. Mas isso não explica o facto de dançares agarrada a ele… Os sorrisinhos, as piadinhas ao ouvido…

- Desculpa? Do que é que estás a fal… Exatamente quanto tempo estiveste na discoteca antes de ires ter comigo?! – a este ponto Joana estava furiosa

- Tempo suficiente para tirar conclusões do que vi.

- Sabes uma coisa? Eu nem consigo olhar para ti agora. – isto dito ela deu meia volta aos calcanhares, decidindo intimamente fazer o resto do caminho a pé

- Não vires as costas, nós estamos a ter uma conversa. – Ruben apressou-se a puxá-la pelo braço, tomando o cuidado de não a magoar

- Eu não vou ficar aqui a ouvir o meu namorado a insinuar que o ando a trair.

- Não foi nada disso que eu disse.

- Eu sei que não disseste, mas insinuaste.

Ruben fechou os olhos e apertou a cana do nariz entre o indicador e o polegar, à procura das palavras certas que não o levassem a ser mal-interpretado novamente.

- Eu quando vos vi a dançar juntos…

- O Vasco é meu amigo. – Joana contestou rapidamente – Ele é meu amigo e era o meu par, era natural que dançássemos juntos no baile, e isso não te dá o direito-

- O que eu quis dizer, o que eu quero dizer é que no fundo eu compreendo. - ele repetiu quando sobrepôs a sua voz à dela – Por mais furioso, por mais ciumento que tenha ficado quando vos vi juntos, a verdade é que lá no fundo eu compreendo.

- Eu é que não compreendo onde queres chegar, sinceramente. – os seus braços perturbantes escudaram o seu peito

- Se quiseres estar com ele, eu compreendo.

O minuto seguinte foi partilhado no silêncio que a ambos, chegou a parecer uma eternidade. Os seus olhos começaram a luzir pelas lágrimas que os inundaram por finalmente perceber onde Ruben queria chegar, e só uma força quase desumana a impediu de chorar na frente dele.

- Ruben, pára. – pediu sofregamente, o queixo a deixar-se tremer

- Eu compreendo se quiseres estar com alguém mais novo, alguém da tua idade que possas apresentar aos teus amigos e à tua família como teu namorado. Não quero que tenhas de te esconder porque estás com alguém como eu… Eu trago bagagem comigo, e o facto de sermos quem somos, de eu fazer o que faço… Sabe-se lá quanto tempo mais temos de continuar a esconder a nossa relação de todos? – fez uma breve pausa e respirou fundo a uma questão para a qual nenhum dos dois tinha resposta – Joana, eu não te quero prender e se o melhor para ti é encontrares outra pessoa…

- Já chega? Já acabaste? – ela engoliu uma por uma cada lágrima que não chegou a desenhar-lhe os contornos do rosto

- Tenta perceber.

- Perceber o quê? O que há para perceber, Ruben? Só se for o facto de tu não quereres estar mais comigo.

- Não é nada disso. – ele falou compreensivamente, puxando-a para si pelos dois braços – Mas quando te vi com o Vasco, eu olhei para ti e vi que estavas feliz, estavas livre… E eu quero que te sintas assim numa relação, não quero que tenhas de te esconder porque optaste por namorar um futebolista.

- Tu falas como se apaixonar-me por ti tivesse sido uma escolha. Eu não pedi por nada disto, Ruben. Eu não te aconteci.

 - Desculpa, não foi isso que eu quis dizer.

Ela voltou a afastar-se, a tomar conta da distância que entre eles e agora, parecia estar cada vez maior, procurar uma zona de conforto que a deixasse pensar com clareza.

- Então estás a acabar comigo, é isso? – perguntou, quando teve coragem de voltar a olhá-lo

- Eu? Joana, eu não era capaz de terminar uma relação contigo por nada deste mundo. Estou a dizer-te isto porque acho melhor seres tu a fazê-lo.

- É mesmo isso que queres?

- Eu só quero o melhor para ti, eu amo-te. – Ruben declarou-se de um jeito tão simples e natural que a apanhou completamente de surpresa

- Tu amas-me? – o coração batia-lhe rápido, apanhado na espectativa

Desse para acreditar ou não, aquela era a primeira vez que a palavra amor era suscitada na relação, e não poderia ter vindo numa hora tão sátira.

- Amo. Amo-te muito. – com um sorriso fácil no rosto, ele voltou a aproximar-se e Joana deixou-o finalmente tocar-lhe… as mãos a segurarem-lhe o rosto, as testas coladas – Amo-te tanto.

Foi impossível continuar a segurar as emoções e ele deixou que fosse ela a beijá-lo. A liderar cada movimento. Primeiro muito timidamente como se lhe pedindo permissão para continuar a fazê-lo, mas Ruben não queria que ela parasse, e depois do que aconteceu, do que estava a acontecer, não iria deixar que tal coisa acontecesse. Nunca mais.

- Eu não vou acabar contigo. És tu quem me faz feliz. Termos que nos esconder é só um pormenor, e além de que também é temporário. – proferiu ao quebrar o beijo mas sem separar bocas, procurando tranquilizá-lo

- Eu sei, tens razão. – o lábio inferior dela foi arrepanhado pelos seus

- Deixa-me ser eu a decidir o que é melhor para mim, pode ser? – perguntou, na falta de uma resposta demorada – Pode ser?

- Pode. – Ruben acabou por consentir, e rematou com mais um beijo que se prolongou demoradamente

- Acho que te estou a dever uma dança. – Joana comentou, ao fim de algum tempo que tinham passado abraçados, querendo-o compensar por toda a situação do baile

- Achas que posso cobrar essa dança agora? – as suas sobrancelhas vibraram com diversão, apanhando-a desprevenida

- Agora? Ru, nós estamos à beira da estrada, no meio do nada.

- Ótimo, desta maneira ninguém pode fazer troça do meu pé de chumbo… A não seres tu, claro. – ela gargalhou… Ruben, surpreendentemente, sabia dançar e tinha um bom ritmo, só que às vezes era demasiado exigente consigo mesmo – Vamos dançar a primeira música que estiver a passar na rádio, pode ser?

Joana encolheu os ombros, deixando-se convencer por ele.

- Podemos tentar. – e era só isso que ele precisa ouvir

Voltou ao carro para ligar a rádio e baixar os vidros das janelas. Sintonizou na primeira estação previamente programada, e aumentou rapidamente o volume para que a música conseguisse ser-se escutada a um perímetro de distância considerável.
The Way You Look Tonight” de Sinatra e composto por Bennett, fez-se soar nas colunas e imediatamente os olhos de Joana encheram-se de lágrimas quando Ruben lhe pegou na mão e a puxou para si.

- Eu adoro esta música. – ela confessou não mais alto que um sussurro, que fez o coração dele encher-se ainda mais de amor por aquela mulher

Enlaçados, os dois corpos começaram a deambular de um lado para o outro, encontrando um ritmo que rapidamente os satisfez e os afastou de qualquer pressa.

- Acho que o nosso namoro passou à próxima fase. – Joana trauteava a música que já era tão familiar na sua cabeça, quando o ouviu falar

- Ai sim? Então porquê? – perguntou-lhe, quando desafundou a cabeça do seu peito pra olhá-lo

- Acabou de sobreviver à primeira discussão.

- Mas nós já discutimos mais vezes…

- Esta foi a primeira discussão a sério.

- Sim, foi tão a sério que quase me fizeste acabar contigo. – ela relembrou, um beicinho a começar a formar-se nos lábios que Ruben não resistiu em voltar a beijar 

- E tu querias saltar do carro se eu não parasse. – os dois não resistiram em rir levemente relembrando o momento – Mas olha para nós, a ficar tão crescidos, tão maduros…

E estavam de facto, e com o tempo iriam ficar mais ainda… só ainda não sabiam o quão alto era o preço que iriam pagar. Ao fim de algum tempo ele voltou a falar, o que fez com que parassem abruptamente o ritmo, e se fixassem um no outro.

- Ainda não te disse, mas… Estás tão linda, esse vestido é… Não consigo tirar os olhos de ti.

À falta de palavras, os atos falaram mais alto e como tal não perderam tempo em afundarem-se numa nova troca de beijos, enquanto a música continuava a servir como pano de fundo, a ambientar dois corações que conheciam o seu lugar.

“Yes your lovely, with your smile so warm
And your cheeks so soft,
There is nothing for me but to love you,
And the way you look tonight, -


***



- With each word your tenderness grows,
Tearing my fear apart,
And that laugh that wrinkles your nose,
It touches my foolish heart.

Lovely… Never, ever change.
Keep that breathless charm.
Won’t you please arrange it?
‘Cause I love you… Just the way you look tonight.”

- Acho que te estou a dever uma dança. – declarou com um sorriso cativante no rosto, quando a vê finalmente tomar pose da sala

Ruben deu dois passos na direção dela e tomou-lhe conta da cintura, inclinando-se até às testas ficarem a ínfimas polegadas uma da outra. Assim de tão perto – ela conseguiu ver –, a cor dos olhos dele eram de um castanho avelã quase impossível, e o cheiro do seu perfume quase que a fazia levitar.

- Não era preciso teres tido este trabalho todo. – advertiu ao reparar pela primeira vez, e agora com mais atenção, a parafernália de velas que tinham sido distribuídas por todas as superfícies do escritório

- Não foi trabalho nenhum, Quis preparar-te algo especial.

O seu coração acelerou com aquele gesto. Ruben afastou-se apenas para colocar a música, que então tinha terminado, desde o princípio, e voltou para junto dela.

- Está perfeito.

Voltou a segurá-la contra si, desta vez com mais firmeza, a sua palma direita a escorregar-lhe pela linha da coluna até encontrar pousio no fundo das costas, e a outra mão a encaixar-se na dela.
Casa. Era assim que se sentia nos braços dele. Aquela sensação inexplicável de conforto; aquele refolgo de podermos ser nós mesmos.
Por um momento eles olhavam-se simplesmente, as palavras eram escusadas enquanto com os pés desenhavam círculos lentos no soalho de madeira e a garganta de Joana se constrangia com uma emoção… com uma amor… e com aquela vontade quase absurda de chorar, porque a verdade é já lhe tinha visto aquele olhar antes, e nessa altura, eles dançavam também.

Malditas hormonas.

- Posso perguntar-te uma coisa? – ciciou brevemente, a face perfeitamente grudada no peito dele

Ela está vagamente ciente da música ainda toca, ainda assoberbada pelo romantismo daquele cenário, pelo amor que Ruben exalava.

- Claro que podes.

- Mas eu preciso que sejas sincero comigo. – ele abranda o ritmo, já por si só lento e fazendo-os quase parar no lugar, pronto a escutá-la

- Conversas sérias a esta hora? – ele libertou um sorriso, próspero a libertar também a tensão que poderia culminar a qualquer momento

- Por favor… Eu preciso de saber. – o seu tom de voz alertou-o para a seriedade do assunto, e quebrando o contacto com ele, caminhou até ao gira-discos para baixar levemente o volume e voltar então a encará-lo, indo directa ao assunto– Se eu não estivesse à espera de um filho teu, tu continuarias a querer separar-te da Inês?

Surpreendentemente a expressividade de Ruben manteve-se impávida e serena, como que se de alguma maneira ele já esperasse ser confrontado com aquela pergunta. Joana continuou, mesmo sem lhe dar tempo para estruturar uma explicação.

- É porque se a resposta for um não ou um talvez, então isto – ela apontou entre os dois – Não está a acontecer pelos motivos certos.

- Porque é que te dás ao trabalho de fazer a pergunta se acabas por ser tu a respondê-la?

Os seus lábios rasgaram-se de constrangimento pela sua, por vezes imperativa, maneira de ser.

- Desculpa.

- Não tens de pedir desculpa, aliás, estás no teu direito de ter esse tipo de dúvidas… Eu, se estivesse no teu lugar, provavelmente interrogar-me-ia também. E Joana, se isso acontece é porque eu falhei, eu falhei-te e a culpa é inteiramente minha.

- Porque é que dizes isso?

- Digo isto porque se eu tivesse continuado a dar-te provas suficientes, motivos irrefutáveis; se eu nunca tivesse parado de te dizer que és e continuarás a ser a mulher da minha vida, a única para mim, tu não terias de duvidar do meu amor por ti porque eu estaria sempre a lembrar-te dele. – Ruben sabia que tinha cativado a total atenção de Joana, e com tal ela não o iria interromper – E eu sei que fui eu a deixar-te, que não acreditei em ti quando me dizias a verdade, por casmurrice e estupidez, claro, mas o erro não deixa de ser meu. E infelizmente eu lidei com esse erro causando outro ainda maior: voltar para a Inês. – ele estava a abrir-lhe o coração e ela sabia disso, sabia ler-lhe a transparência na voz – E foi quando te voltei a ver, no dia em que voltaste de férias e fui a tua casa, que me apercebi que tinha cometido o maior erro da minha vida.

Dizendo isto, Ruben caminhou para trás da secretária para tomar posição na enorme cadeira, enquanto Joana permaneceu no outro lado, apoiada ao móvel do antigo gira-discos, perpendicular à janela.

- Não foi só para te pedir desculpa que te procurei, como disse naquele bilhete… Procurei-te também para aliviar a minha consciência, para me certificar com os meus próprios olhos que tinha conseguido esquecer-te, que tinha conseguido ultrapassar a nossa relação, tudo aquilo que tínhamos vivido, e então poderia seguir com a minha vida em paz, ao lado de outra pessoa e ver que o meu erro poderia até nem ser tão trágico, mas estava tão enganado. No instante em que me abriste a porta eu esqueci-me completamente do porquê de estar ali. Tudo o que conseguia pensar era nas mil e uma maneiras de te pedir perdão e pedir-te que me aceitasses de volta – ele pausou por um instante e o seu olhar aprofundou um ponto da sala, como se estivesse a tentar recordar aquele momento – Tu estavas tão chateada comigo, e de cada vez que eu abria a boca ficas ainda mais furiosa.

- Tu sempre tiveste esse dom de me conseguires tirar completamente do sério. – ela brincou suavemente, o que encheu o coração de Ruben de alegria

- E ambos sabemos que foi inevitável o que acabou por acontecer. Não foi um impulso do momento. Eu sabia perfeitamente o que estava a fazer quando te beijei no corredor; quando te levei para o quarto; quando dormimos juntos. – afirmou relutante, sem um rasgo de remorso a comburir-lhe a postura – Nada do que aconteceu naquela noite foi motivo de arrependimento.

- Então porque é que saíste pela manhã, porque é que me deixaste nada mais do que aquele bilhete? – a voz não lhe falhou somente pelo esforço que fez em não reviver a dor que sentiu naquele dia

- Por achar que não merecia alguém como tu. – disse com uma urgência que o surpreendeu – Mais importante ainda: Por achar que tu merecias mais do que eu era e te podia dar.

- Esse sempre foi o nosso problema, não foi? Acharmos que sabíamos sempre o que era melhor um para o outro, e isso resultar na falta de comunicação entre nós.

Ruben continuava a fitá-la. A troca de palavras entre eles sobre o passado tinha-se tornado tão verdadeira e sincera, que àquele ponto restava pouco a ser-se dito. Ele foi o primeiro a quebrar quando não aguentou mais a distância que os separava – agora penas fisicamente.

- Vem cá. – chamou-a, caloroso, esticando o braço na sua direção

Sem hesitar, Joana jornadeou até alcançar-lhe a mão e só parou quando se sentou no colo dele.

- Posto isto, e para te responder finalmente à pergunta: sim, continuaria a querer e iria mesmo separar-me da Inês, independentemente da nossa gravidez. – admitou, enquanto a sua mão deambulava preguiçosamente pela perna dela – A verdade é que eu sempre soube, apesar de me custar a admitir no início, que nós não tínhamos futuro e no fundo a minha decisão de pôr um ponto final a esta relação, há muito que estava clara na minha cabeça, mas o facto de virmos a ter um bebé, tu e eu, veio apenas acelerar a tomada dessa mesma decisão.  Nada mais.

Uma enorme sensação de alívio e grandeza apoderou-se de Joana.

- Obrigada, eu precisava de ouvir isso.

- E para que fique ainda mais claro, – salientou – não te estou a dizer aquilo que queres ouvir… Estou a dizer o que é verdade, o que eu sinto.

- Eu sei. – consentiu, ao passar-lhe meigamente a palma da mão pelo rosto por barbear – Achas que estamos doidos por estarmos a fazer isto? Não achas que aconteceu tudo demasiado depressa?

- Aconteceu no tempo em que era suposto acontecer. – esta era uma das coisas que ela sentia mais falta, Ruben tentava encontrar sempre o lado positivo de algo que parecia não bater certo, e a lógica que ele atribuía a cada situação produzia de certa forma um efeito calmante nela – Nós não estamos doidos, Joana… Nós criámos um milagre.

- E estás preparado para o que aí vem? – ela aventurou-se a beijar-lhe o canto da  boca – Este milagre não vai ser tarefa fácil.

- Nós havemos de dar um jeito. – ele sorriu esperançoso, fê-los levantar e com um impulso que lhe deu no tronco, sentou-a na extremidade da secretária de frente para si, encaixando-se entre as pernas dela logo de seguida – E sinceramente eu nem estou à espera que seja fácil. Eu só quero que seja. Sinto que esperei a vida inteira por este momento, por este bebé…

Ruben palmeia-lhe a barriguinha, mesmo por cima da camisola o – ainda pequeno –, volume semi-redondo que se formou mesmo por baixo da zona do umbigo, e tem a profunda certeza que nunca se irá cansar daquela sensação.

- Eu tenho medo. – Joana acabou por confessar… ser mãe pela primeira vez tinha as suas tormentas – Tenho medo suficiente que chegue pelos dois, e agora preciso que sejas forte pelos dois.

- O que queres dizer com isso? – interveio enquanto a olhava e lhe varria amorosamente para longe do rosto, os cabelos que lhe pendiam o olhar

- Quero dizer que preciso que continues a lutar por nós. – a sua mão sobrepôs a dele na sua barriga, pequenas lágrimas de felicidade escondidas por trás dos olhos quando se referiu aos três pela primeira vez como uma família – Eu vou lutar também.

O tempo parou ali. Apesar de já terem partilhado momentos irrepetíveis ao longo dos anos, aquele era de longe o mais íntimo e humano que alguma vez travaram. Os olhos de Ruben estavam caídos nos lábios dela, que àquela distância se sentiam formigar pelo embate da sua respiração. E foi então que ele a beijou completamente na boca. Um beijo repleto de emoção que naquela altura, estava à flora da pele… As línguas a deixarem-se envolver freneticamente quando perderam a vergonha de se entregarem, e ambos procuravam alcançar algo, reaver o vínculo que achavam ter perdido; a necessidade de se sentirem conectados novamente. Enquanto que as mãos dele se mantiveram inicialmente afundadas na cintura dela, assim que se sentiu relaxar, a mão direita de Joana percorreu-lhe lentamente a pele sensível do pescoço e só parou quando mergulhou os dedos nos cabelos da nuca, sentindo-o gemer na sua boca quando arrastou as unhas pela lacuna do pescoço e ele imaginou naquele momento as marcas que ela poderia deixar no seu corpo.
Como se sentisse a necessidade de se certificar de que aquilo estava mesmo a acontecer, Joana afastou-se meramente para lhe procurar o rosto: cinzelado, bonito, perfeito. Os seus olhos agora totalmente embriagados pelo amor que os consumia. Ruben sorriu-lhe de volta e voltou a beijá-la, o sentimento mais mágico do mundo.



***



Sensivelmente meia hora depois de abandonar o escritório, Joana encontrou lugar no baloiço de jardim, no pátio das traseiras. Era uma típica noite de Inverno, fria e imperturbável porém o céu estava tão límpido e repleto de estrelas, tão… vasto e imaculado, que não resistiu em passar algum tempo lá fora.
Foi embrulhada a dois cobertores que se perdeu em pensamentos, em reflexões que determinar-ião os próximos passos a enxergar na sua vida, uma próspera caminhada que agora, estava decidida, não iria cursar sozinha.

- Tens a certeza que não queres ir dormir? – Ruben apareceu com uma chávena chá fervente, na mão, a qual estivera a preparar para os dois nos minutos anteriores – Já é tarde… Deves estar exausta.

- Eu não quero que esta noite acabe. – confessou do mais profundo de si, um temor íntimo de acordar na próxima manhã e aperceber-se de que tudo, todos os progressos que fizera com Ruben naquele dia, não passaram de uma mera fantasia – Quanto mais cedo esta noite acabar, mais cedo chega o dia de amanhã e eu…

- E tu não tens de te preocupar com o dia de amanhã. – esclareceu seguro, quando pousou a caneca na mesa pertos deles – Esse é uma problema meu e que eu vou resolver, está bem? Não quero que te preocupes.

Joana assentiu com a cabeça, esforçando-se por acreditar nas palavras dele. Era difícil conseguir abstrair-se quando tudo o que conseguia pensar era no casamento que o homem que mais amava no mundo tinha marcado e se advinha a menos de vinte e quatro horas. Mas outra opção não lhe restava, o futuro enquanto casal, enquanto uma família estava agora nas mãos dele e sabia que iria ter de confiar de olhos fechados.
Sem perder mais tempo Ruben deslizou para o lado dela no baloiço, contornando-lhe a cintura com os braços e deixando-lhe as costas baterem parcialmente em seu peito. 

- Estás gelada. – reparou ao sentir-lhe a pele das mãos resfriada, puxou-a o mais para si possível e cobriu-os o melhor que pôde com os cobertores – Melhor assim?

- Perfeito.

No momento em que Joana deitou docemente a cabeça na dobra entre o pescoço e o ombro dele, começou a aquecer quase como que imediatamente. O tipo de calor – que apenas outro corpo aconchegado ao seu e que provocava em si uma reação instantânea, como era o caso do de Ruben –, podia produzir. O toque dele era de todas as maneiras revigorante, Joana sentia-se bem ali. Tão bem.

- Feliz aniversário, meu amor. – desejou-lhe pela segunda vez naquela noite, beijando-lhe carinhosamente a têmpora e ela estremeceu, um daqueles arrepios que sobe à nuca e se extravasa em pele de galinha… não soube dizer se foi pelo gosto a leite e mel das palavras dele ou se do choque dos lábios quentes tocarem a sua pele cálida… ou então pelos dois – No teu próximo aniversário já vamos ter o nosso Pêssego connosco. Já pensaste nisso?

- Hum, hum. – rumorejou, cada vez mais apaixonada por essa ideia que já lhe tinha aflorado o pensamento algumas vezes naquele dia, rodou a cabeça na direção dele e beijou-o simplesmente nos lábios, um breve selinho – Parece surreal.

Nos momentos seguintes o silêncio tornou-se na palavra de honra. Ruben observava-a atentamente, ela não fazia ideia do quão bonita era. Tentou desvendar-lhe os pensamentos, a luta interior a acontecer atrás dos seus olhos. Sabendo que poderia estar a encontrar motivos que o fizesse afastar-se de novo, que os levasse a perceber que tudo não passava de um engano.

- O que foi? – Joana perguntou, a tentar travar o sorriso – Porque é que estás a olhar assim para mim?

- Eu consigo ouvir-te a pensar, consigo ouvir todos os senãos nessa cabecinha e essa tua procura por todos os motivos que faz com que isto não dê certo.

- Ruben…

- Diz-me. Sinceramente, ainda tens dúvidas quanto a isto? Quanto a nós?

Joana respirou fundo para se perder nos olhos dele. Era a vez de Ruben se sentir inseguro.

- Não. Não há mais espaço para dúvidas. Eu quero isto, nós merecemos.

E assim todas as inseguranças desaparecem. Para os dois. Joana voltou a aconchegar-se na sua alçada, afundando a cabeça debaixo do queixo dele, abraçando-o de volta como se a sua vida dependesse disso.
Ruben respirou-a e o seu coração apertou-se do lado esquerdo do peito e voltou a descomprimir, aliviado por ter voltado ao lugar que lhe pertencia e a mais ninguém. Joana transmitia-lhe uma sensação tão quente e familiar, tão perfeita.

- Lembraste quando estivemos na arrecadação, de tu dizeres que querias sair daqui por uns tempos?

- Sim… Lembro…

- Estavas a falar a sério? Queres mesmo ir embora por uns tempos?

O sentido que Ruben estava a levar a conversa fê-la ajustar a postura do corpo de modo a conseguir alcançar-lhe todos os alicerces do olhar e os movimentos das feições.

- Porque é que me estás a perguntar isso agora?

- Eu estive a pensar… - ele ajeitou o corpo também – E se saíssemos mesmo daqui, fossemos para outro lugar, só nós os dois? Uma espécie de miniférias para recarregarmos energias, tentarmos compensar o tempo que não estivemos juntos…

- Hum… E o que é que sugeres? – aquela ideia começou a crescer em si

- O que dizes em irmos, sei lá… Para Nova Iorque? – e daquela maneira Ruben soube conquistá-la, agindo como se ainda nem tivesse meditado sobre assunto… mas meditou

- Nova Iorque? Estás a falar a sério?

- Muito. – o entusiasmo dela veio surpreendentemente a sobrepor o seu

- Ruben, eu acho essa ideia maravilhosa, mais e esta história toda do casamento? Tu ainda estás noivo, não vamos esquecer isso.

- Por muito pouco tempo. – ele retificou  – E volto a dizer: Não te preocupes com isso, eu resolvo.

Ela não lhe resistiu. Sentia-se tão indescritivelmente apaixonada. Subiu para o colo dele e contornando-lhe o pescoço com os braços, beijou-o nos lábios entre sorrisos, e a ele, vê-la feliz mesmo no meio da sua alçada, fazia o seu coração inchar de orgulho e perfulgência que mal lhe cabia no peito.
Quando a emoção voltou a dar lugar ao sentimento, Ruben aproveitou para aprofundar a intensidade do beijo e tudo a que ele era inerente.

- E para quando ficaria agendada essa viagem? – perguntou com o remate de mais um toque de lábios que parecia nunca ser suficiente

Ruben limitou-se a olhá-la de volta nos olhos e permaneceu em silêncio, um silêncio demasiadamente demorado assistido de uma expressão que desde miúdo não perdera, aquando apanhado no meio de um momento doce-amargo.
Joana observou-o com suspeita.

- Tu já reservaste os voos, não já? – e num ápice ela soube lê-lo como ninguém, para de seguida lhe perguntar somente – Quando?

- Depois de amanhã. – respirou, o olhar palpitante de emoção – Partimos depois de amanhã. Já tratei de tudo.






Bom dia, queridas leitoras!
Enfim deixo-vos com a segunda parte do mais recente capítulo,
que saiu maiorzinha que o habitual mas espero fazer corresponder às vossas expectativas.
Boa leitura e não se esqueçam de me deixar as vossas, sempre importantes, opiniões.

Um beijinho grande,
Joana

6 comentários:

  1. Fantástico como sempre! Valeu totalmente a espera. Ansiosa por ler o próximo capítulo e se possível daqui a pouco tempo. Continua!

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  2. ADORO !!!
    Quando for grande quero ter uma sogra como a mãe do Ruben hahah mas neste caso quero ser a Joana e ter um Ruben :p
    Isto cada vez está melhor :)
    Demorei dois dias para ler de maneira a não me escapar nenhum pormenor.. cheguei ao fim e só consigo dizer: quero Mais!!

    Um beijinho,
    Margarida

    P.s. vai nos dando feedback quanto aos novos capítulos.

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  3. Eu também amo clichês.

    Principalmente o de sempre ter que reler teus capítulos pra poder comentar. Li ontem, passei o dia todo querendo chegar logo em casa hoje (pensei no Ruben e na Joana o dia todo também!) só pra poder reler, e reli. Mas ainda não consegui assimilar tudo.

    Meu Deus, é tanto amor num capítulo só que eu perdi as contas de quantas vezes chorei; é tanto amor que... eu me apego de um jeito louco a esses dois e quando lembro que eles não existem, choro mais ainda. Estou chorando agora ao te confessar isso, mas, por favor, é um segredo nosso!

    Eu tenho uma ligação muito forte com essa história, não sei explicar, mas acho que vou ter 90 anos e vou estar lendo com o mesmo entusiasmo, com o mesmo amor. É essa ligação que me faz esquecer todo o tempo que fiquei sem um capitulozinho novo, porque quando ele finalmente vem... Ah!... Faz qualquer coisa/tempo valer a pena. Sempre faz! Inclusive, eu falo pra todo mundo que a someone like you é um livro!!!!! Porque pra mim é. Eu imagino o livro, a série, e até um filme dessa história linda. Posso ajudar a produzir, se quiser, tá? Hahahahahaha

    Eu não sei o que tu está fazendo comigo, Joana. Mas, por favor, continue. Esse é o meu melhor vício, a minha melhor loucura, meus melhores amores literários ❤❤❤❤❤
    Muitos beijinhos 😘
    Gabi.

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  4. ai muito bom!!! continua por favor!

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  5. Obrigada não chega para te agradecer por teres postado este novo capítulo para nós.

    Esta leitura foi um calmante para o meu eterno coração romântico.
    Escreves formidavelmente bem, és crua nas emoções, penso seriamente que devias escrever um livro.

    Obrigada está fantástico como todos os outros!

    Espero o próximo com uma grande ânsia,
    Beijinhos

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  6. escreves lindamente... espero ansiosa pelo próximo!

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