Aqui vos deixo mais um capítulo, espero que tenham gostado
Joana :)
Ao encontrá-la naquele estado, Sara privou-se de fazer mais perguntas, abraçou a amiga e no seu carro, levou-a para casa. Durante todo o trajecto de viação até aos arredores do centro da cidade, Joana remeteu-se ao silêncio, tentando destruir todas as imagens que deflagravam na sua memória relativamente ao que se sucedeu à momentos atrás, enquanto pela janela, vislumbrava as centenas de pedestres que passeavam nas ruas tirando fotografias a tudo com que se deslumbravam, ou simplesmente trocavam palavras de jeito bastante descontraído nos bancos do passeio, em frente às grandes montras de lojas brilhantemente enfeitadas. E foi nesse espaço de tempo, que perguntava para o seu íntimo porque razão a vida não se podia limitar a ser um mar de rosas, em vez de ser um inferno na terra. Foi a travagem súbita do carro à porta do seu prédio, que lhe reteve as patuscas divagações. Sarah acompanhou-a e subiram ambas até ao apartamento. Logo no instante seguinte ao romperam pela porta, foi perceptível de imediato um breve latido do cão de Joana, um Shar-Pei que comprou logo após a sua mudança para Nova Iorque, que veio numa correria até junto da dona deixando esvoaçar as pequenas orelhas durante a marcha.
- Meu pequeno Iokane! – agachou-se afagando-lhe a
avolumada massa corporal, visto que o pêlo era bastante reduzido – Deves ter
fome… comida? – voltou a erguer-se dirigindo-se à cozinha enquanto que Sara foi
na direcção da sala de estar
O cachorro seguiu imediatamente atrás dela, já esperando pelo jantar junto à
sua tigela, posicionada mesmo por detrás da enorme janela da varanda. Ao ouvir
o som estridente dos cereais embaterem no fundo da tigela de metal, Iokane
abanava a pequena cauda incessantemente e farejava o seu prato predilecto,
acabando por devora-lo em escassos minutos, visto que comer foi desde sempre o
seu passatempo preferido. Joana foi também para a sala depois de ter ido ao
quarto vestir uma roupa mais confortável. Atirou-se para cima do sofá, ao lado
de Sara, que via um filme enquanto esperava pela amiga. Assim que a viu de novo
absorta a fixar um ponto no tecto tingido por um branco imaculado enquanto
tentava conter o choro, pegou no comando acabando assim por desligar o
televisor.
- Eu sei que gostas de ver aquele filme, não precisavas de ter desligado! –
disse continuando de olhos fixos no tecto
- Joana, o que é que se passou no hospital? Foi a tua mãe, não foi? Voltou a
acontecer… - indagou meigamente
Sara era uma pessoa que se poderia considerar amiga para toda a vida. Joana até
à data não conhecera rapariga mais responsável e respeitosa que ela. Podia ser
uma amiga não desde sempre, mas sem dúvida que para sempre. Joana abraçou-a de
imediato enquanto deixava brotar lágrimas dos seus olhos cansados.
- Já não sei o que hei-de fazer Sarah, não sei! – lamuriou afastando-se – Estou
cansada de ver a história a repetir-se sucessivamente… dia após dia! É
frustrante ir visita-la, e no fim ela já nem se lembrar quem eu sou e o que
represento! – proferia arrastando os pés, fazendo círculos invisíveis no centro
da sala
- Vem cá, amor, senta-te aqui! – Joana aproximou-se sentando-se ao seu lado
direito – Sei que isto para ti é desgastante, mas tens que te consciencializar
que a doença da tua mãe não evoluirá para melhor… o tempo é o seu pior inimigo
e como consequente, só irá fazê-la sofrer ainda mais! – afagou-lhe o cabelo
- E é isso que me custa, tê-la tão perto de mim e ao mesmo tempo tão longe…
vê-la a caminhar para o precipício e não a poder salvar!
- E quem pode? Ninguém a pode salvar! Por mais que a ajudem nos tratamentos,
ela não acabará por ficar curada… apenas estão a tentar prolongar a sua
permanência cá, entre nós… mas já mais a poderão salvar!
Ao assimilar na sua cabeça as palavras que custavam ouvir, mas certíssimas de
Sarah, Joana apertou a cana do nariz com o polegar e o indicador tentando
conter as lágrimas que se avizinhavam expandir pelo rosto. Levantou-se e
encaminhou-se para o pequeno bar instalado num dos extremos da sala, retirando
uma bebida alcoólica, dando depois dois goles no gargalo da garrafa.
- Nem penses numa coisa dessas! Dá-me já isso! – arrancou-lhe a garrafa das
mãos – Bolas, Joana! Quantas vezes eu já te disse que a bebida não resolverá os
teus problemas? – recriminou-a
- Não resolvem mas ajudam a esquecer! – contrapôs
- Durante quanto tempo? De que é que te vale beber para esquecer e dormir sobre
o assunto se no outro dia quando acordares vês que os problemas não
desapareceram? Eles estão lá, eles irão sempre estar lá no dia seguinte!
- Eu sei, desculpa… - pediu num sussurro, pregando o olhar ao
chão
- Não peças desculpa a mim, pede desculpa a ti… és só tu que trilhas o caminho
da tua vida, mais ninguém o irá fazer se não tu!
Sentaram-se de novo no sofá. Joana deitou-se na posição fetal pousado a cabeça
sobre as pernas da amiga, deixando que esta lhe desenvencilhasse alguns dos
cachinhos mais rebeldes dos seus longos cabelos, enquanto se pronunciava.
- Só acho que chegou a altura de mostrares aquilo que és… de libertares de uma
vez por todas os teus receios, parares de ser uma menina mimada que pensa que
tudo gira à sua volta. Tu não és a Super Mulher, Joana… não tens poderes
sobrenaturais. És um ser humano tal como muitos e de uma vez por todas tens que
parar de pensar que o mal só te acontece a ti! Não é por seres filha de quem és
que estás imune a todos os dissabores da vida, porque ambas sabemos que não é
verdade. – suspirou – E se pensas que a morte é um bicho de sete cabeças e má,
estás redondamente enganada e a ser muito preconceituosa! Achas
justo a tua mãe estar a sofrer desta maneira? - Joana desatou num chorou
deprimente, Sara embalou-a nos seus braços – Caramba, eu adoro-te, miúda…
és a minha melhor amiga! Já nem falo no teu pai, mas tenho a certeza que a
família que tens em Portugal também te ama tal como a tua mãe.
O silêncio imperou, apenas o soluçar de Joana quebrava o gelo.
- Em que estás a pensar? – inquiriu Sara
Ela levou algum tempo em se prenunciar, tentando estagnar o choro.
- Hum, não sei bem… na verdade não estou conseguir construir pensamentos
coerentes e lúcidos neste momento… - indagou calmamente - Sinto que a minha
mente se transformou num deserto – a sua voz saiu-lhe cause imperceptível
- Ainda te lembras dos nossos tempos de Liceu? Do baile finalistas?
- O baile em que o Brayn te pediu em namoro ao microfone e tu lhe atiraste com
um copo de sangria à cara?
- Sim, esse mesmo! – gargalhou – Mas isso foi porque eu já estava bastante
alcoolizada, no meu estado sóbrio nunca faria tal coisa. – pausou brevemente -
Mas olha que o Will também era para finalmente te pedir em namoro, mas coitado
à última cortou-se… faltou-lhe a coragem!
Joana mostrou-se abismada.
- Ele ia fazer mesmo isso? – pausou enquanto Sarah consentia com a cabeça – Eu
era apaixonada por ele, mas sabia desde o início que não valia a pena investir
numa relação, que não iria levar-nos a lado algum.
- E agora sois bons amigos… Gosto de vos ver assim! Mas às vezes gostava de
poder voltar atrás e recuperar tudo que perdi… desfrutar tudo o que ainda havia
para viver!
- Tenho saudades dos nossos velhos tempos… - arqueou os lábios num sorriso
- Também eu Joana, também eu… - concluiu com um suspiro
***
Joana “acordou” tarde, por volta da hora de almoço. A noite tinha sido passada
praticamente em claro, voltas e reviravoltas na cama, sem deixar que o sono a
embalasse. Assim que pôs os pés fora do quarto, ouviu o som ensurdecedor do
telefone de casa, que tocava incessantemente.
- Estou sim? … Ah bom dia doutor, diga! … Precisa de falar comigo? Porquê tanta
urgência? … É a minha mãe, não é? O que é que aconteceu desta vez, diga-me! –
vociferou quase a exaltar-se - Está bem, eu vou já para aí. Até já!
Estranhou o conteúdo daquele telefonema, não fazia a menor ideia do que a sua
mãe tinha aperaltado desta vez, e muito sinceramente estava com receio de vir a
descobrir. Depois de dar um valente pequeno-almoço a Yokane enchendo a sua
tigela de cereais como ele tanto gostava, meteu-se debaixo do chuveiro tomando
um duche bem fresco e rápido. Enrolou a toalha ao corpo enquanto secava o
cabelo. Vestiu uma roupa confortável e informal e assim que saiu de casa, foi
ao Grumpy de onde levou um café duplo para beber durante o caminho, apanhando
posteriormente o autocarro, dirigindo-se mais uma vez até ao hospital. Caminhar
naquele corredor, pela primeira vez foi-lhe totalmente desconfortante, tinha um
nó cego formado no estômago e receava mais que tudo esta visita forçada, que
aparentemente o motivo ainda lhe era desconhecido. Viu o médico Stephen Dorff
aproximar-se, sem lhe dar tempo para se pronunciar, limitou-se a agarra-la no
braço sem nunca a magoar encaminhando-a para o seu gabinete.
- Preciso de ter uma conversa muito séria consigo! – informou-a ele,
sentando-se na cadeira
- Diga de uma vez… o que é que aconteceu com a minha mãe?
- Não é sobre o que aconteceu que lhe quero falar… digamos que, hum… é mais
sobre o que lhe irá acontecer…
- Desculpe mas eu não estou a perceber onde o doutor está a querer chegar –
levantou-se – mas agradecia sinceramente que se deixasse de rodeios e fosse
directo ao assunto!
- Volte a sentar-se faz favor! – apontou com a mão para a cadeira – Leia este
documento e saberá do que lhe quero falar. – entregou-lhe um envelope com uma
catrefada de papeis
Joana entrou em pânico quando a palavra “Eutanásia” lhe ressaltou à vista,
escrito em letras gordas, logo na primeira folha.
- Isto… isto não é o que eu estou a pensar, pois não? – inquiriu-o com a voz
trémula
- Lamento, Joana.
- Diga-me por favor que ela não quer uma coisa destas!
- É a vontade da sua mãe…
- É impossível ela ter pedido isto… com certeza que não estava lúcida!
- Estava perfeitamente lúcida quando tomou esta decisão… nós fizemos exames que
confirmassem isso mesmo!
- O senhor não pode permitir que uma coisa destas aconteça! – afirmou com o
rosto desfigurado, com os olhos a brotarem lágrimas desalmadamente
- Não posso ir contra a vontade do paciente, é o desejo da sua mãe! Ela tem o
direito de decidir que rumo quer dar à sua vida, tem o direito de escolher a
sua morte!
Aquela notícia causou o efeito de uma brusca e impetuosa colisão em Joana…
arrancando-lhe todas as forças, todas as esperanças que tinha construído, uma
por uma.
- O senhor é médico! – afirmou com os olhos rasos em lágrimas – Não pode
aceitar um desmazelamento destes, vai tudo contra aquilo que a sua profissão
exige! – pausou tentando acalmar-se – O senhor fez um juramento antes de
desempenhar esse cargo! Jurou cuidar das pessoas, jurou salva-las da morte! E
tudo para quê? Para agora deixa-la partir assim… sem tentar seja o que for para
ajuda-la? Isso é desumano! – vociferou levantando-se da cadeira, completamente
atordoada
- Desumano é deixar que a sua mãe continue a sofrer!
Joana comprimiu os lábios para não cair no erro de dizer alguma barbaridade.
- fez embater a papelada com toda a força que tinha, em cima da secretária – Eu
recuso-me a fazer parte de uma mentira! Recuso-me a assinar seja o que for! –
saiu logo de seguida embatendo a porta com violência
Numa correria desorientada, dirigiu-se até ao quarto da mãe, ruborizada de
indignação. Encontrou-a mais uma vez sentada na cama a folhear outra revista.
Aproximou-se a passo rápido.
- Diga-me que não é verdade mãe, que não quer fazer… - procurou uma melhor
palavra que se adequasse aquela loucura. – isto!
- Joana, filha… sabes que não tenho outras alternativas… - pousou a revista,
olhando-a pegando-lhe nas mãos
- Claro que tem outras alternativas, claro que tem! – tentou convencer-se a si
própria, sentando-se ao lado de Débora
- Ambas sabemos que não…
Joana enxugou as lágrimas com as palmas das mãos.
- Isto vai contra os seus princípios, vai contra tudo aquilo em que sempre
acreditou!
- De que me valem agora esses princípios se nem posso ter uma vida normal?
Joana ressentiu-se.
- E vai deixar-me assim? Sozinha? – inquiriu, deixando que o choro tomasse de
novo conta de si
- Tu não estas sozinha meu amor, nem nunca estives-te! Tens pessoas
maravilhosas que te amam e que te querem ver feliz!
Ela inclinou-se, encostando a face direita ao peito da mãe enquanto a abraçava.
- Porque é que me está a fazer isto mãe, porquê? – perguntou-lhe num murmúrio,
deixando as suas lágrimas molharem a camisola do pijama de hospital, que Débora
indumentava
- É o melhor para todos meu amor, mas principalmente é o melhor para mim… -
afagou-lhe o cabelo
- Eu não consigo assinar os papéis que ditam a sua sentença! Sinto-me como se
estivesse a traí-la… a empurra-la para a morte! – disse baixinho
- Olha para mim, Joana! Olha para mim! – ela olhou, com os olhos rasados de um vermelhão
que doía, e foi aí que reparou que também a sua mãe chorava, mas de jeito tão
solene que conseguia passar perfeitamente despercebida – Quero que saibas, que
esteja onde eu estiver irei sempre estar a olhar por ti! – exibiu um sorriso
carinhoso, o que fez Joana descontrair
Ficou ainda alguns instantes embalada ao colo da mãe, a tentar memorizar o seu
cheiro inconfundível, tentar memorizar o seu toque quase angelical, tentar
matar as saudades que certamente iria sentir.
- Eu assino! – acabou por dizer
A sua mão esquerda com que rubricava, estava tão trémula que mal conseguia
pegar firme na caneta, as lágrimas expandiam-se pelo rosto já humedecido e a
sua caligrafia ficou de tal maneira irreconhecível, que se no local não
estivessem testemunhas presentes, poderia dizer-se que o documento tinha sido
falsificado.
Despediu-se dela e saiu do quarto. Dirigiu-se numa marcha lenta até à enorme
sala de espera. Deixou-se deslizar pela parede, até ir de encontro à mármore
cor da cal… chorou horas a fio, esperando pela má notícia. Era quase madrugada,
quando o médico chegou junto dela. Pôs-se de cóqueras, fixou-a com o olhar até
ganhar coragem para se prenunciar.
- Acabou de falecer.
Foi nesse momento que Joana rompeu num choro desgastante. Agora tinha certezas
que tudo havia terminado.
- Posso vê-la? – perguntou por entre o soluçar provocado pelo choro
- Está mesmo disposta a fazê-lo?
- Sim.
Caminharam por entre os corredores, como se tratasse de uma marcha fúnebre.
Joana conseguia sentir o cheiro a morte, facultado não pela realidade em si,
mas pela fraqueza e o desgaste que já abundavam no seu corpo, o que a permitia
ter aquele tipo de “alucinação”. Débora estava já na morgue. Joana aproximou-se
de mansinho, com o estúpido pensamento de não a querer perturbar. Olhou-a. Ela
estava traquila, agora não havia mais dor, não havia mais sofrimento. Levou a
sua mão aos cabelos da mãe, fazendo-os deslizar pelos dedos.
- Eu amo-a mãe, amo-a muito! – despediu-se limpando rapidamente as lágrimas
Pouco tempo depois acabou por se retirar da morgue, ladeada pelo médico.
- Precisa que chame alguém para a vir buscar? – perguntou-lhe ele, gentilmente
- Obrigada doutor, mas creio que não será preciso… - disse-lhe já a caminhar no
corredor
- Lamento que tudo tenha acontecido desta maneira… mas penso que foi o mais
sensato a fazer. – pausou brevemente – A sua mãe era uma senhora, uma mulher de
bom carácter e excelência! – afirmou ele
- Sim, eu sei. – consentiu orgulhosa, correndo depois para fora daquele hospital
O ar do exterior embarcava o frio gélido, Joana envolveu o cachecol no pescoço,
abraçando o seu próprio corpo para tentar ganhar uma temperatura corporal mais
confortável. Caminhou sobre o asfalto iluminado no recinto da noite. As imagens
à sua volta, davam-lhe a sensação de correrem a finitos km/h, provocando uma
tremenda sensação de mau estar e por isso mesmo, ficou-se por colar os olhos ao
passeio humedecido pela chuva primaveril que se havia precipitado no inicio da
noite. A cada passo que impunha, as lágrimas ameaçavam expandir-se novamente,
provocando-lhe uma impressão incomodativa nos olhos. Sentia-se à deriva rumando
sem destino aparente, sentia-se demente e inerte, a sua alma estava ferida e o
seu coração estava cheio de nada...
Depois de eleger o mais perfumado e celestial ramo
de flores de toda a florestaria, Joana dirigiu-se numa correria até aos
arredores da Central Park. Apanhou o autocarro que parava ali monotonamente
todos os dias e à mesma hora. Sentou-se bem longe dos dois ou três casais de
turistas que tagarelavam retoricamente enquanto deslumbravam a beleza da
cidade, pelas janelas de vidro perfeitamente limpas. Finalmente tinha chegado
ao seu local de destino… o mesmo agora de todos os dias, saiu daquele autocarro
que nem uma bala dispara do cano de uma pistola e deu início a uma marcha
aceleradamente efusiva. Olhou de realce para o relógio de pulso e calculou
mentalmente a última meia hora de visitas que tinha, para ver a sua mãe.
Atravessou a indeterminável estrada (sem dar muita relevância aos semáforos)
numa correria tal, que foi induzida às incontáveis buzinadelas e às dezenas de
protestos críticos simultâneos, por parte dos condutores a quem descabidamente,
tinha interceptado o percurso.
Encruzilhou-se o melhor que pôde por entre a vasta multidão que caminhava no
largo passeio cimentado, até finalmente pressionar o puxador da enorme porta
envidraçada do hospital. Imediatamente foi envolvida por um ar bastante abafado
e sufocante, do calor aglomerado dos vários corpos identificados pelos rostos
monocórdios que enchiam cada recanto, que se locomoviam no edifício de um modo
frenético, juntamente com o sempre instalado burburinho de fundo juntando as
conversas e as lamúrias dos utentes e acompanhantes… foi-lhe também perceptível
de imediato pelas suas narinas, o cheiro tão agoniante e característico de um
centro hospitalar… na verdade já não fazia parte de um factor incomodativo para
ela, visto que já estava bem familiarizada a este ambiente.
Depois de ter bebido um café de enfiada na cafetaria do hospital, mostrou o seu
cartão de visitas a uma auxiliar de enfermagem que já a conhecia ia fazer um
ano, devido às suas visitas diárias… pressionou o botão e chamou o elevador.
Quando as portas se abriram, desejou intimamente ter ido pelas escadas, visto que o cubículo oscilante estava a abarrotar de gente por todas as extremidades. No fim de ter carregado no botão para o piso onde queria sair, tentou encaixar-me num recanto ínfimo junto às bordas.
Por grande azar o seu, parecia que o tempo não
queria passar e o elevador cismava em continuar com a sua subida em câmara
lenta.
Talvez por graça divina, não sabe, as portas voltaram a abrir-se e Joana saiu
do elevador que nem um recluso foge de uma prisão.
Enveredou pelos inúmeros e copiosos corredores, pintados por uma cor enjoativa
e estagnou junto à porta do quarto 405. Recompôs-se e incinerou o seu melhor
sorriso para ver a mulher da sua vida.
Deu a volta à maçaneta e abriu a porta, vislumbrou-a de imediato no recanto do
quarto… lá estava ela, sentada no centro da cama com os óculos de ver ao perto
encaixados na ponta do nariz, enquanto folheava com a polpa húmida do dedo, uma
revista de humor ou algo do género. Ainda sem desviar o olhar do seu semblante,
deu por si a reflectir… Onde estava o seu aspecto tão jovial? O seu carisma e
vontade de vencer na vida? Onde estava agora a sua tão eloquente vivacidade e o
brilhozinho nos seus olhos cor de mel sempre que recebia a visita da filha? É
esta maldita doença a causadora deste cenário! É o Alzheimer que lhe anda a
roubar a mãe! Após um longo ano, os seus cabelos dourados deram vez a uma
quantidade indeterminável de cabelos brancos, grisalhos… a sua bonita
expressividade facial ficou… inexpressiva, agora eram as rugas vincadas,
implantadas no seu rosto que lhe davam um ar deveras, esmorecido. Tinha
saudades da mulher revolucionária a quem os limites não significavam
absolutamente nada, mulher que lutou pelos seus ideais até não ter mais uma
réstia de forças… uma mulher detentora de um corpo esbelto e elegância
embasbacante, feito de inveja a qualquer uma! Essa sim era a sua mãe!
- Joana, filha… estás bem? – inquiriu retirando os óculos, pousando os mesmos
juntamente com a revista no tabuleiro branco ao lado da cama
Joana exibiu um sorriso, ficou feliz por ela a ter reconhecido. Aproximou-se e
deu-lhe um beijo na testa.
- Olá mãe! Tome, são para si! – mostrou-lhe o ramo de flores
- Obrigada meu amor, são lindas! – aceito-as nos braços
Embora já tivesse o quarto repleto de flores que Joana lhe oferecia
semanalmente, cada uma delas devidamente mergulhadas em jarros de água, Débora
recebia cada ramo como se fosse o primeiro. Costumava dizer-lhe que as flores
indumentavam vários significados, para além da vida e da morte claro, para ela
nada a fazia mais feliz que meia dúzia de flores campestres.
Joana sentou-se numa cadeira.
- Como correu o seu dia? – perguntou-lhe. Tinha a perfeita noção que era bem
escusado ter feito aquela pergunta, mas era sempre desta maneira que iniciavam
o diálogo
Suspirou. Com a voz mais rouca que o costume, iniciou o discurso de lamúrias.
- Oh… foi igual a todos os outros dias do ano… fui submetida a uma data de
exames, perguntas descabidas e ridículas, como: “Sabe em que anos estamos?”,
“Ainda se lembra do nome da rua onde mora?” ou então “Pode dizer-me como se
chama o seu filho mais novo?” “Vou-lhe dizer três simples palavras, e depois
vai ter que as repetir: autocarro, cidade e colher”. – bufou - Sinceramente nem
sei porque é que ainda se dão ao trabalho de me fazer este interrogatório todo!
Sabem perfeitamente que estou doente, não adianta de nada estes exames, os
médicos acham-se muito sabichões e detentores de toda a verdade, mas ainda não
encontraram a cura para o Alzheimer… mais dia ou menos dia vou morrer e eles
melhor que ninguém, sabem disso!
Joana estremeceu por dentro ao rever essa certa possibilidade… a partida da sua
mãe! Por mais que recusasse aceitar essa triste realidade, tinha consciência
que era algo inevitável, apesar dos seus bem constituídos 43 anos, a doença foi
diagnosticada tarde e como consequente, agora, já vai bastante avançada e o
tratamento só trás mais dias de sofrimento.
Débora voltou a suspirar. Prosseguiu.
- E cá estou eu, aprisionada a uma cama de hospital sem saber se o dia de
amanhã me espera… - lamentou-se – e com estas lamúrias e futilidades todas nem
te perguntei… como andas? Que tens feito? – olhou-a nos olhos pela primeira vez
desde que Joana entrara no quarto
A jovem encolheu os ombros.
- Estou bem… não tenho feito nada de por aí além, não variei na minha pacata
rotina se é isso que quer saber… Tenho tomado conta do Iokane, cuidado da casa
e estudado para os exames.
- E divertido? – pausou – Tens saído com os teus amigos?
- Sim, tenho saído por aí com o Will e com a Sarah. – mentiu
- Joana, Joana… - advertiu-a – caso te tenhas esquecido eu ainda continuo a ser
a tua mãe, conheço-te melhor que a palma da minha mão, és demasiado
transparente para te deixares induzir por mentiras…
Mudou de assunto.
- E a mãe, como se sente?
- Sinto-me bem, na verdade estou melhor que nunca! – indagou enquanto
recompunha a almofada junto das suas costas
- Ora… fala de mim, mas mentir com certeza que também não é o seu forte! –
ironizou – Sabe que não tem precisão de me esconder seja o que for…
Débora ressentiu-se, não argumentou em sua defesa ao invés, remeteu-se ao
silêncio.
Foi nesse curtíssimo intervalo de tempo que pela primeira vez, Joana vislumbrou
um saquinho de morfina pendurado ao lado da cama deixando cair gotas por acção
da gravidade, injectando directamente o líquido com duas agulhas soterradas no
antebraço esquerdo da sua mãe. Aparentemente apareceu-lhe ser esse o “elixir”
que lhe dava os momentos intermitentes de lucidez, e felizmente, este é um
desses momentos… apesar de nunca saber quando a doença se sobrepõe, e a memória
ou a falta dela, a volta a asfixiar levando-a de novo ao estado deprimentemente
insano.
Levantou-se e dirigiu-se até à janela que permitia que a inebriante radiação
solar iluminasse as quatro paredes do quarto, pousou os cotovelos no parapeito
e ficou a contemplar a cidade numa outra perspectiva.
- O padrinho ligou-me ontem à noite… - retomou em conversa enquanto fixava a
vida que preenchia o mundo do lado de fora
- Ai sim? E então? – o seu tom de voz surgiu entusiástico
Rodou a cabeça a 180º e olhou-a.
- Incentivou-me a ir passar uns tempos nas férias de Verão, lá a
Portugal.
- E tu? Aceitas-te? – perguntou-lhe num laivo notório de curiosidade
- Sim e não… - disse com uma expressividade incerta – na verdade nem lhe dei
uma resposta concreta… claro que tenho saudades da família, mas sair de Nova
Iorque e ir para Portugal, não faz grande sentido neste momento.
- Porque não? – insistiu
Queria dizer-lhe que não podia ir para fora porque não a queria deixar, muito
menos agora nesta fase tão complicada em que precisa mais de si… não seria
considerada uma verdadeira filha se deixa-se a sua mãe sozinha num quarto de
hospital, onde a sua esperança de vida era totalmente incerta.
Não iria desperdiçar todos os momentos que podia desfrutar com ela, não era
esse tipo filha, nem iria de modo algum sê-lo. Queria dizer-lhe, mas também era
pelo facto de conhecer demasiadamente bem os pensamentos da sua mãe, que embora
não se expressa-se, sabia que ela iria ficar ressentida consigo mesma por se
achar a responsável que levasse Joana a abdicar daquilo quer e que mais gosta
de fazer, ir-se-ia sentir responsável pela infelicidade da filha… e por isso
mesmo a jovem optou por adverti-la.
- Apenas não estou com disposição para viajar, só isso. – ela voltou a
espreitar pela janela
- E o teu pai… tens falado com ele?
Numa fracção de milésimas de segundo, a sua expressão facial modificou-se e o
tom da sua voz tornou-se mais taciturno.
- Não. – limitou-se a dar-lhe uma resposta curta e directa
- Filha, sabes que não podes andar o resto da vida a culpar o teu pai pela
nossa separação! Sabes que para além de não estares a ser correcta, também
estás a ser injusta para com ele. – molestou
Joana tinha umas quantas para lhe dizer entaladas na garganta, desde o momento
em que o seu pai resolveu mudar de ares e ir viver com o irmão para outra
cidade, mas não se queria alargar muito mais na conversa, que por razões
obvias, não as levaria a lado nenhum.
- Como queira. – finalizou
- Querida? – clamou-a – Vem cá, senta-te aqui! – gesticulou com a mão, dando
leves palmadinhas no colchão indicando-lhe a zona onde queria que ela se
sentasse e Joana fez o que lhe pediu.
Fitou-a. Débora abriu a primeira gaveta da mesa-de-cabeceira e retirou do
pequeno compartimento uma caixinha bastante avolumada, enfeitada delicadamente
por um pomposo laço vermelho. Segurou-a na mão trémula, estendendo o braço para
que a filha a tomasse.
- Feliz aniversário meu amor!
Ao ouvir as palavras felicitarias proferidas pela boca da mãe, os seus lábios
rapidamente aperaltarem um largo sorriso.
- Eu sei que podes pensar que agora não passo de uma velha caquéctica que por
vezes nem do seu próprio nome se lembra, mas já mais me esqueceria de um dia
tão importante como é o de hoje! – exibiu um sorriso igual ao de uma criança de
5 anos
- Obrigada mãe! – aceitou-lhe a caixa abraçando-a com todas as forças que
existiam em si, como há muito tempo não o fazia e de maneira nenhuma queria que
aquele momento terminasse
Quebraram o abraço. Olhou de realce para a caixinha de chocolates que lhe
acabara de oferecer, eram os seus preferidos.
- Desculpa, sei que não é nada de especial para um presente de aniversário, mas
realmente não tive grandes hipóteses para te comprar algo mais… elaborado,
visto que estou prisioneira neste hospital.
- Não poderia ter melhor presente de aniversário, do que aquele de estar aqui
consigo! – a mãe aproximou-se e beijou-lhe a testa
- Filha, sei que estou a ser chata, mas podes dar-me um copo de água? A garrafa
está aí nessa prateleira do fundo – apontou com o indicador
Ela levantou-se de imediato e começou a encher o copo branco de plástico, com
água natural. Voltou-se para a mãe e estendeu-lhe com o braço o que lhe havia
pedido. Estranhou tanta hesitação da sua parte, visto que não lhe aceitou o
copo, em vez disso Débora limitou-se a observa-la, olhava-a sem pestanejar uma
única vez. Joana ficou com bastante receio do que pudesse vir a acontecer… a
sua mãe não desgrudava os olhos de seus, mirou-lhe o rosto e desvendou-lhe um
olhar enigmático, uma expressão amedrontada e a cada segundo que passava,
sentia-se a vacilar.
- Mãe… a água… - relembrou-a ainda de braço estendido
Voltou a perscruta-la. O seu semblante estava apavorado, tinha os olhos
arregalados e incididos nos seus, as suas mãos e as suas pernas tremelicavam
freneticamente.
- O que é que se passa, mãe? Fale comigo! – caminhou na sua direcção
- Não, não… não se aproxime de mim! Mantenha-se afastada! – disse protegendo o
seu próprio corpo num canto da cama
Joana voltou a abeirar-se.
- Não se aproxime, já disse! – vociferou atirando o copo de água para o chão –
Quem é você? O que quer de mim?! – estava cada vez mais assustada
- Sou eu mãe… a Joana! – tentou de jeito desesperado elucida-la
- Pare de me chamar isso! Eu não a conheço! Ponha-se fora do meu quarto, já!
- Por favor, não me volte a fazer isto! Outra vez não! – implorou-lhe já com as
lágrimas a formarem-se no cantinho dos olhos, enquanto tentava agarrar os
braços da mãe
- Não, largue-me! – tentava soltar-se, esbracejando – Socorro! Socorro! –
bradava numa tentativa louca de procurar ajuda
- Acalme-se mãe, não lhe quero fazer mal! Isto já passa, já passa! – repetia-se
tentado conformar-se
Num ápice, Débora arranca as duas agulhas que
expandem o medicamento nas suas veias, abruptamente, sem se importar de se
ferir. Ainda tentou erguer-se da cama para conseguir escapar e consequentemente
fugir da sua própria filha, mas antes que isso acontecesse, Joana apressou-se a
carregar no botão encaixado ao lado da cama, chamando assim enfermeiras e com
muita sorte, algum médico. Sem dar tempo de pestanejar, dois enfermeiros e um
médico de cirurgia romperam pela porta do quarto, dirigindo-se até elas praticamente
à velocidade da luz. Mandaram Joana afastar-se enquanto os enfermeiros
amarravam Débora à cama, injectando-lhe um calmante… ela mexia-se e remexia-se
tentando soltar-se mas de nada lhe valia, outro ataque alusivo à sua doença a
tinha arrastado e espezinhado novamente, sem qualquer pudor ou
misericórdia.
- Não pode ficar aqui, vai ter que se retirar! – disse o médico à rapariga,
dirigindo-se a ela a passadas largas
- Não me peça uma coisa dessas, eu não vou abandonar a minha mãe, não vou! – vociferou,
deixando escapulir as lágrimas, denuncia de afronta e agonia
Quando apanhou o médico a fitar outro ponto, aproveitou e esquivou-se indo ao
encontro da mãe, numa tentativa desesperante de lhe devolver a memória e
amarra-la aos seus braços. Antes que o pudesse fazer, Stephen – era o nome do
médico – encurralou-a pela cintura, prendendo-a contra o peito com os seus dois
braços fortes, impedindo-a de dar mais um passo.
- Faça o que lhe peço por favor! – aconselhou-a ele
- MÃE! MÃE! – gritava ela, num choro compulsivo deixando as lágrimas escorrerem
lhe pela face em catadupa
Stephen apressou-se a retira-la daquele quarto arrastando-a consigo até ao
corredor.
- Eu tenho que estar com a minha mãe, não a posso deixar sozinha! – gritava-lhe
soltando-se dele
- A sua mãe não vai ficar sozinha! Nós estamos cá
para tudo o que ela precisar! – tentou tranquiliza-la
- Você é médico, não percebe nada do que falo! Não
vou permitir que lhe façam mal! Ela precisa de mim! – tentava novamente
interpolar o quarto
- Oiça, aqui ninguém irá fazer mal à sua mãe,
apenas a estamos a tentar ajudar.
- Eu não preciso que vocês se limitem a tentar, eu
preciso que consigam! – deixou-se induzir novamente por um choro intransigente
- Vá para casa, aparenta um ar cansado… durma e
volte amanhã, de certeza que irá encontrar a sua mãe com um melhor aspecto. –
pausou procurando os olhos dela – Eu garanto-lhe!
Joana ainda sentiu uma necessidade enorme de
ripostar, mas tal como das outras vezes que davam estes ataques à sua mãe, já
não poderia estar com ela no resto do mesmo dia, e hoje não iria ser de maneira
diferente. Sentiu-se vacilar, até se ressentir. Enxugou a face aos punhos do
casaco de malha que indumentava, tentando controlar o avassalamento de lágrimas
que se avizinhava e começou a afastar-se sem mais nada dizer ao médico.
Arrastou-se pelos corredores de olhos esbugalhados, sentia-se que nem uma inútil
e naquele momento, a vontade de desaparecer do mapa era bastante superior à de
querer permanecer naquele leito de injúrias e sofrimento. Ao fundo da ala
conseguiu discernir a silhueta inconfundível da melhor amiga. Apressou-se a
correr na sua direcção.
- Sara! Sara! – atirou-se nos braços dela
entregando-se a um choro compulsivo
- Joana, o que tens? Que se passou? – afagou-lhe
os cabelos
- Leva-me daqui, preciso de sair daqui…