sexta-feira, 17 de maio de 2013

Capítulo 13 - Corações em silêncio (Parte I)


Em casa, finalmente. O avião tinha dado entrada na pista passavam dez minutos das duas da tarde, tendo sido um voo longo e cansativo com duas paragens que fizemos em Nova Iorque e Madrid.
Era realmente bom estar de volta, em porto firme e seguro mas nem isso me deixou menos ansiosa em lidar com o que ainda estava para vir… Trazia o coração embalado entre as minhas duas mãos e nem assim ele abrandava o seu ritmo descompassado de batida, e este só piorou quando pisei solo português.
Na minha mente estava traçada uma única finalidade na qual viera a maior parte da viagem a maturar e a mesma que não me permitiu descansar o quando deveria: o reencontro com Ruben, o derradeiro e inevitável…

- Eu vou contigo, está decidido! – impôs-se novamente Pedro contra mim, recusando ser o primeiro a bater o pé

Recolhêramos as nossas bagagens e atravessávamos agora o aeroporto da Portela, travando uma disputa onde ele insistia em conferir a sua vontade, num assunto que para mim não deveria  ter sequer discussão possível.

- Pela vigésima vez agradeço-te o apoio e a preocupação, Pedro, mas já te disse que não é preciso… Eu vou falar com o Ruben e vou resolver isto sozinha!

- É preciso relembrar-te que uma parte da culpa é minha? Deixa-me ir contigo, eu também quero falar com ele e explicar-lhe o meu lado nesta situação… Por favor… - ele era teimoso, possivelmente bem mais teimoso do que eu e quando se lhe metia uma ideia na cabeça tornava-se quase impossível conseguir demover-lha

- Pronto, pronto, tudo bem… - travei imediatamente o percurso devido à sua insistência que já se tinha tornado repetitiva aos meus ouvidos, e coloquei-me na sua frente – Fazemos então assim: Apanhamos um táxi, vamos primeiro a casa dos meus avós para deixar as minhas malas e pegar o carro, depois passamos pela tua e vamos então à procura do Ruben, e vemos se ele está em casa!

- Feito! – um sorriso de satisfação foi interpretado pelos seus lábios e foi assim que nos apressámos a sair do aeroporto, apanhámos um táxi e rumámos até à moradia dos meus avós, onde por enquanto eu ainda estava a viver

- Menina Joana, já chegou! – o meu querido Leonardo contemplou-me com um enorme sorriso nos lábios mal me viu trespassar a porta principal

- Olá, Leonardo! – nem resisti em dar-lhe um abraço apertado, o mordomo que durante anos me mostrara ser um bom confidente nas horas vagas e com quem eu construíra laços de amizade, e até paternais, muito fortes – Vim só deixar as minhas malas e pegar as chaves do carro…

- O quê, mas já vai sair, menina? Ainda agora chegou de viagem…

- Eu sei, mas tenho coisas urgentes pendentes que não podem esperar mais tempo para serem resolvidas! – declarei com uma certidão que não me deixou quebrar a voz e olhei seguidamente Pedro que permanecia à minha espera – Vou lá a cima… Volto num minuto! – deixei as malas no hall e precipitei-me às escadas que subi em quatro ou cinco lanços, transpondo os degraus a pares

Ainda consegui ouvir o tom de reprimenda de Leonardo enquanto eu percorria o corredor do andar superior, pedindo-me que abrandasse aquele meu ritmo acelerado que ainda assim mantive até chegar ao meu quarto, onde acabei por alcançar as chaves do meu carro que me lembrava de ter deixado sob a mesinha de cabeceira.   

- Pedro, já tenho as chaves… Vamos! – disse agitando no ar as chaves que detinha na minha mão e com a mesma avidez com que subira as escadas, da mesma maneira as desci – Até logo, Leonardo! – dei-lhe um beijinho rápido na face e alcancei a porta que voltei a cruzar para sair

- Não quer esperar pelos seus avós? Eles devem estar a chegar e com certeza querem muito vê-la! – ele tentou ainda demover-me, mais eu não podia esperar mais tempo para fazer aquilo que esperara por demasiados dias… não podia continuar adiar o inadiável

- Eu vou tentar não me demorar demasiado, está bem? Prometo!

- Mas tanta correria, menina… Parece que vai atrás do comboio(!)

- Eu diria mais que ela vai atrás da felicidade, Leonardo, se é que me entende… - Pedro não tinha mexido um único músculo desde que ali entrara e vi-me então obrigada a voltar atrás para arrastá-lo comigo

- Anda, Pedro… Vamos embora! – puxei-o pelo braço até conseguir arrancá-lo de casa

Ergui as chaves no ar de maneira a destrancar o meu jeep branco e entrámos finalmente, seguindo a rota dos planos que tínhamos delineado para as próximas horas.
Passámos primeiro na casa do Pedro para deixarmos as suas malas e por entre o habitual trânsito que marcava hora de ponta na capital portuguesa, segui para a rua, onde outrora já havia percorrido os seus trilhos vezes sem conta, na qual se encontrava o prédio de Ruben.

- Tem calma, vai correr tudo bem… - quando estacionei junto ao passeio oposto do passeio que fazia frontaria ao condomínio, Pedro apressou-se a transmitir-me uma dose de ânimo enquanto eu tentava ganhar alguma coragem para sair do carro e enfrentar o que o destino tinha reservado para mim

- Quero pedir-te uma coisa… Quero pedir-te que fiques aqui no carro, enquanto eu falo com ele primeiro… - olhei-o receosamente nos olhos e não deixei que as suas palavras se sobrepusessem às minhas quando reparei que ele se preparava para falar – Pedro, peço-te por favor! Não faço a mínima ideia como ele está, de como é que vai reagir quando me vir… Por favor, deixa-me fazer isto sozinha!

- Pronto, tudo bem… Mas se precisares de mim, já sabes… - ele compreendia o quanto aquilo era importante para mim, o quanto precisava de estar sozinha com o Ruben

- Eu sei, obrigada! – partilhámos um sorriso confiante por dois segundos, coloquei a mala no antebraço e abandonei o carro

O condomínio estendeu-se imponente na minha frontaria e não resisti em olhar as janelas de cortinas cerradas do apartamento dele… Respirei fundo tentando encontrar alguma força de alento que iria com certeza precisar, como se fosse assistir à condenação do meu próprio julgamento.
Atravessei a estrada com o cuidado que era exigido e alcancei em fim as portas duplas de entrada. Senti em meu peito uma arritmia descontrolada que absurdamente me dava sinais do meu coração poder saltar-me pela boca a qualquer segundo… Arrastei os óculos de sol até ao topo da cabeça e toquei à campainha com sistema de câmara, mas nada… Durante os minutos que ali estivera à espera e a pressionar o pequeno botão, que nenhum sinal da presença de Ruben em casa era transmitida pela sua voz que não soara ao intercomunicador, ou então, talvez, ele estava efectivamente lá e não queria ver-me. Mas não, eu encontrava-me ali com um único motivo, num único propósito e não iria abdicar dele simplesmente voltando para trás… Não iria nem tão pouco estava com intenções de fazê-lo.
Vi uma senhora com duas crianças a sair e aproveitei-me da situação para conseguir entrar na porta que então fora aberta. Junto à parede das caixas de correio vi a secretária do porteiro, que naquele momento estava a ser ocupada não por ele, mas por outra figura que eu tão bem recordava.

- Boa tarde, posso ajudá-la em alguma coisa? – a esposa do porteiro deslindou-me na primeira passagem, reconhecendo que a minha presença não era frequente ali, e interceptando desta forma a minha caminhada que já se propagava  morosamente até ao elevador

- Dona Luísa, boa tarde… - penso que ela não me tenha reconhecido no primeiro instante, pois o facto era que eu não ia ali há muito tempo, e  como tempo é sinal de mudança…

- Joana… É você? – tal como eu tinha pensado, a minha imagem tinha-se tornado vaga e dissipada aos olhos dela, o que não lhe permitira concluir de passagem a minha identidade

- Como está, Dona Luísa? – com um sorriso rasgado nos lábios, caminhei delicadamente sob os meus saltos altos até chegar junto a ela e assim confirmar-lhe todas as suas suspeitas em relação a mim

- Meu Deus, nem acredito… É mesmo você! – ela largou a sua revista de palavras cruzadas que a entretinham, ergueu-se da sua cadeira e ladeou a secretária quando me viu caminhar ao seu encontro – Mas deixe-me olhá-la bem… Deixou crescer tanto o cabelo, olhe bem para si… Tão elegante… Tão mulher! – enumerou carinhosamente, vislumbrando cada traço do meu rosto e corpo amadurecidos – Fico tão contente de a ver… Há quanto tempo!

- É verdade, Dona Luísa, há quanto tempo! – as nossas nostalgias encontraram-se ao recordarem juntas dos tempos em que eu era figura assídua ali – E diga-me, como tem andado a senhora? O seu marido?

- Cá andamos, bem graças a Deus… Ele hoje está de folga e ficou em casa, eu vim no lugar dele! – ela continuou a olhar-me com um sorriso deslumbrado nos lábios, que lhe caracteriza as típicas rugas nos seus olhos claros com pouco mais de sessenta anos de sabedoria – E você, Joana, como está?  

- Eu estou bem também… Vivendo um dia de cada vez, como se costuma dizer! – a minha cabeça inclinou-se delicadamente para o lado num gesto vulgar que foi acompanho por um simples encolher dos meus ombros, postura que me deixou à vontade para levar a conversa a outros assuntos – Eu vim à procura do Ruben… Sabe-me dizer se ele está em casa?

- O menino Ruben Amorim… Hum, não! Não está em casa! Já há alguns dias que ele não aparecia por aqui, mas voltou ontem e saiu hoje logo pela manhã… Parece que foi passar o fim-de-semana ao Algarve, o irmão veio cá buscá-lo e trazia a namorada!

- Foi passar o fim-de-semana ao Algarve? Talvez tenham ido para casa da Paula, a namorada de que está a falar!

- Paula? Não… Paula é a namorada do irmão do menino Ruben, que também foi com eles. A quem eu me estava a referir era à Inês, a namorada do menino Ruben!

- A namorada do menino Ruben…(?)- repeti sucintamente as suas palavras para que estas que me tinham entrado de rompante pelos ouvidos, começassem a ecoar furiosamente na minha cabeça

- Sim… - disse agora num sussurro, claramente apoquentado pois deveria ter sido atacada por uma fisga de constrangimento face que a última vez que nós duas tínhamos falado, eu ainda ocupava o lugar na vida de Ruben, o qual ela referia agora pertencer a outra mulher – Eles foram os quatro… juntos!

Senti-me como se tivesse sido projectada contra a parede por ter levado um valente soco no estômago. Como seria de esperar perante o conteúdo daquela informação, as lágrimas começaram a farpear e afloraram-me os olhos, mas eu contive-me a retê-las e escondê-las bem atrás das lentes escuras dos meus óculos que voltei a descer até ao rosto.  

- Obrigada pela informação, Dona Luísa! – agradeci, forçando-me a sorrir mas foi em vão… simplesmente não consegui fazê-lo, havia muita disputa entre a vontade do meu cérebro e a oposta do meu coração

- Está tudo bem, Joana? Talvez não tivesse sido uma boa ideia contar-lhe… - ela apercebeu-se da alteração repentina do meu tom de voz para um mais melancólico e frágil, o perfeito que indicava um começo de choro

- Não, não se preocupe… Tenha o resto de um bom dia! – queria sair dali o mais rapidamente possível para poder extravasar aquela nova sensação que me corroía por dentro, e foi isso mesmo que fiz… puxei a pega da porta e saí do edifício, voltando a atravessar a rua desta vez sem me preocupar com o tráfego de carros que a transitavam

- Joana, cuidado! – felizmente a voz elevada de Pedro travou-me, antes de eu pisar a última passadeira e quebrar o protocolo indicado pelo semáforo vermelho para peões, escapando à passagem acelerada de um carro que se cruzou à minha frente… quando o sinal esverdeou atravessei a passadeira sem mais alarmismos e cheguei ao pé dele que permanecera à minha espera encostado ao lado do condutor do carro – Foi rápido… Falaste com ele?

- Não! Vamos embora! – proferi monocordicamente, sem sequer o olhar e destranquei o meu carro – Desvia-te se fazes favor, para abrir a porta!

- Então é assim? “Vamos embora!”? – ele ficou surpreendido com a minha atitude, natural, para quem tinha lidado com a minha impaciência em querer ver e falar com o Ruben

- Não estamos aqui a fazer mais nada, Pedro! Ele não está em casa… Portanto, desvia-te da porta que eu quero entrar!

- Espera lá… Afinal o que é que se está aqui a passar, que eu não estou a perceber! – desviei o rosto e mantive-o longe do alcance dos seus olhos, mas não longe o suficiente do seu coração de melhor amigo que desvendou o cataclismo que impus ao meu silêncio – Ei, miúda… Então? – ele puxou-me para perto de si e tirou-me os olhos da cara para deixar exposta e desarmada a minha feição dorida – O que é que se passa, Joana?

- O Ruben não esperou por mim… - disse-lhe na superfície de uma expiração, guardando as explicações para depois

- O Ruben não esperou por ti? O que é que queres dizer com isso?

- Eu estive a falar com a porteira do prédio e ela disse-me que o Ruben tinha saído esta manhã para o Algarve, para passar lá o fim-de-semana com o Mauro, com a Paula e com a Inês… a “namorada” dele!

- A namorada dele? Mas que raio de história é essa?!

- É a história que me contaram… - dei uma resposta muito breve, ainda assim não consegui evitar um suspiro desconfortante que me surgiu de dentro

- Uma história sem pés nem cabeça, portanto… - os seus braços cruzaram-se na frente do peito e não demorou até vê-lo tomar uma atitude em defesa de Ruben – Tem de haver uma explicação!

- A Dona Luísa também me disse que ele não apareceu em casa estes últimos dias… Podes-me explicar isso?

- Joana, pára e pensa um bocadinho! – as suas mãos tocaram os meus ombros, obrigando-me a encará-lo e de certa forma apelando-me para que eu aprendesse a separar as coisas – Tu estás a fazer uma tempestade num copo de água, caramba! Ele pode muito bem ter passado uns dias a casa do David, ou melhor, pode ter ido para casa da mãe… Ele viu-se cá sem ti e sentiu-se desamparado… É sempre para lá que ele corre quando se confronta com problemas, tu sabes!

- Eu já não sei nada… Não sei! – soltei um grito suprimido, deixando então jorrar a primeira de muitas lágrimas que se haviam formado atrás das pálpebras

- Por favor, Joana… É por isso que estás assim? Toda a gente sabe que entre ele e a Inês não há mais nada! – a clareza na sua voz foi tão confiante que por momentos chegou até a sossegar-me – Mas tudo bem, vamos pôr a hipótese de a Inês ter mesmo ido com eles passar o fim-de-semana lá abaixo… O que é que isso prova? Durante os últimos tempos a porteira viu o Ruben na companhia dela inúmeras vezes, sabia que eles tinham uma relação, é normal que vê-los de novo “juntos” tenha associado isso a uma suposta reconciliação… Que na verdade não existe!

- Não namoram mas foram passar o fim-de-semana juntos… Claro, isso faz todo o sentido!

- O que não faz sentido é o que tu estás pra’í a dizer… Já paraste um segundo para ouvires a parvoíce que estás a dizer? – Pedro chamou-me à razão, pois devido à confusão de pensamentos eu não estava a conseguir ser coerente – A namorada dele és tu! Achas que se passavam os dias, ele passava à frente e mandava-se para os braços da ex? Por favor…

- Tal como disseste, passaram-se dias… Dias sem eu lhe dar uma única notícia, dias sem ele saber nada de mim! Tu conheces o Ruben, sabes que ele é precipitado, impulsivo… Eu sei lá que ideias é que lhe passaram pela cabeça para justificar o meu ‘desaparecimento’…

- O Ruben não era capaz de fazer uma coisa dessas… Nem tu acreditas nisso, Joana!

- Eu já não sei no que hei-de acreditar… Estou cansada disto tudo, não posso estar feliz por um bocadinho que logo a seguir o meu mundo desaba! – outra lágrima caiu e senti-me cada vez mais impotente  

- Então e o que é que pensas fazer agora? Vais ter com ele ao Algarve? 

O desafio foi-me colocado em cima da mesa, como sinal de um prenúncio que poderia anteceder ao desfecho de toda aquela história que mostrara ser um verdadeiro duelo para ser travado por nós dois… Restava apenas saber se eu estava em condições de aceitá-lo e levá-lo até ao fim.



***



- Menina Joana, dá-me licença? – depois de dois toques na porta, vi Leonardo esgueirar a cabeça para dentro do meu quarto

- Claro que sim, entra! – permiti de imediato com um sorriso no rosto, enquanto delineava caminho da minha cama para o roupeiro, desfazendo as malas de viagem

- Ah… Vinha perguntar-lhe se precisava de ajuda para desfazer as malas, se há roupa que quer que leve para lavar…

- Não, obrigada, como vez as malas estão quase desfeitas, e a Maria já passou por aqui e já levou a roupa suja! – predisse, fazendo a minha última caminhada até ao roupeiro onde pendurei dois vestidinhos frescos de Verão que tinha levado

- Sendo assim… - por momentos ele ficou expectante a olhar-lhe, sem saber o que mais havia de dizer, mas eu sabia que havia qualquer coisa que o estava a prender ali, qualquer coisa que ele tinha para me contar… apenas não sabia bem como – Eu vou indo…

- Leonardo, espera! – travei-o a tempo quando ele já se preparava para atravessar a porta e deixar no ar um assunto pendente – Não foi para me ajudares a desfazer as malas, nem para levares a roupa suja que vieste aqui, pois não…? O que é que se passa?

- Sabe menina… - com passos vacilantes ele cursou até chegar perto de mim em passadas receosas, que lhe desvendaram toda a hesitação do início de uma confissão atribulada – Desculpe-me a indiscrição, mas aconteceu alguma coisa entre si e o menino Ruben? – ele apanhara-me completamente de surpresa, esperava ouvir tudo menos aquilo

- Porq… Porque é que perguntas isso?

- Ele esteve cá… O menino Ruben veio cá a casa à sua procura! – as minhas mãos perderam as forças e deixei cair ao chão o último vestido que pendurava num cabide

- Ele… Ele esteve cá? Quando? – inquiri, visivelmente atrapalhada, agachando-me para apanhar do chão o que deixara escapar das mãos

- Há coisas de três, quatro dias…

- E os meus avós souberam o motivo de ele ter vindo cá?

- Não, os seus avós não estavam quando o menino Ruben veio… - suspirei de alivio, pois esse feliz desencontro iria poupar-me a muitas explicações – Mas menina… Ele parecia estar realmente muito preocupado consigo, saiu daqui transtornado por não a ter encontrado…

- Eu imagino que sim, Leonardo… - lá estava de novo aquele sentimento de culpa que não me abandonava por nada, e me queria fazer merecedora daquela angustia que por vezes não me deixava respirar – Ah! Diz à Rosa que não faça o jantar a contar comigo. Daqui a pouco já estou de saída… Vou ao Algarve!

Surpreendentemente ele não questionou aquele meu pedido, e não pôs em causa a viagem aparentemente enigmática que iria fazer rumo a sul. 
Foi então que depois de ter tudo arrumado me dirigi à casa de banho, dedicando-me a um banho longo que ainda não tivera oportunidade de tomar depois de pisar terra firme.
Regressei ao quarto com o corpo enrolado a um toalhão e antes de me vestir passei um bálsamo hidratante nas pernas e nos ombros para amaciar a pele, ligeiramente curtida pelo sol de Verão, e depois sim enverguei-me com a roupa que já tinha preleccionado e deixado sobre a cama. Troquei a saia e os sapatos de salto alto que usara durante toda a manhã, por uns jeans, uma camisola de manga curta que me deixava descoberta toda a zona do umbigo e uns ténis práticos e confortáveis. Amarrei o cabelo num coque preso no cocuruto da cabeça e usei uma maquilhagem de tons claros que me realçaram a cor dos olhos e volume dos lábios.



Quando saí de casa a noite já tinha caído nas horas, mas não no céu, que ainda se encontrava tenuemente claro devido aos dias longos do solstício de Verão. Antes de sair da cidade tive que forçosamente fazer a minha nova aquisição, um novo telemóvel, indispensável às necessidades básicas do meu dia-a-dia. Feito isto marginei pela Ponte 25 de Abril e para fugir ao tráfego e também às portagens da A2, optei por fazer rota pela estrada do litoral.
Lembro-me perfeitamente da Paula, a namorada de Mauro que conhecera dos tempos que começara a conviver com os amigos de Ruben, e de esta ter uma casa de praia na zona de Portimão, onde fôramos passar alguns dias de férias em dois Verões seguidos. Se os meus sentidos não me enganavam, e se Mauro mantivera o relacionamento, era lá que eles estavam.

- I… I… I am falling down, try and stop me/ It feels so good to hit the ground, you can watch me/ Fall right on my face, it’s an hupill human race/ And I… I am falling down (…) – como minha única companhia de viagem tinha a música, que se dispersava no vácuo do carro e tornava menor aquela minha solidão

Estava na estrada há praticamente três horas e a noite já tinha caído em pleno. Poucos veículos jornadeavam o mesmo ou o contrário percurso que eu jornadeava, tendo-me permitido fazer uma viagem mais tranquila e sem incidentes.
Trazia mil e uma coisas na minha cabeça, mas sabia que não poderia ensaiar um discurso para pregar a Ruben, pois este iria soar-me totalmente diferente assim que o visse, e quando dei por mim estava a fazer o último cruzamento chegando finalmente ao lugar que tinha debuxado e permanecia intocável na minha mente. Reconheci a co-propriedade privada logo que a vi, estacionei o carro perto da casa e imediatamente senti uma descarga de adrenalina percorrer-me o corpo… Teria mesmo de fazer aquilo, se queria ser feliz teria de correr atrás da felicidade, afastei-me dela por muito tempo, não estava disposta a abdicar dela de novo. Saí do carro, aproximei-me do pequeno portão e entrei, uma vez que este não estava trancado… Caminhei até ao sopé do alpendre mas algo de errado parecia estar ali, as luzes estavam apagadas, não ouvia qualquer tipo de ruído provindo do interior e a sensação de que a casa estava desabitada desalentou-me as esperanças. Bati à porta e espreitei pelas janelas, tentando ver o interior, mas nada mais que uma neblina escura do lado de dentro.

- Mas será possível que esteja tudo contra mim?! – preguei num laivo indulgente de irritação, na estúpida ideia de que alguém me pudesse ouvir e responder

E agora? Conhecia o carro do Mauro e este permanecia estacionado ao pé da vedação da casa, eles estavam lá e isso era certo mas onde teriam ido?

- Pensa, Joana, pensa… - pedi a mim mesma, fazendo o percurso contrário e saí de novo pelo portão… eles só podiam estar nos arredores para nem terem feito uso do carro, mas ond… - A discoteca! – concluí num múmurio mesmo antes de os meus pensamentos terem sido completados

Havia uma discoteca não muito longe dali, era a mesma que costumávamos frequentar algumas noites quando lá estivemos. Não sabia, não tinha como ter a certeza que era naquele lugar onde o poderia encontrar, mas tinha que ir até lá… Tinha de tentar, pelo menos.
Retirei a minha mala que tinha deixado sob o assento, colocando-a ao ombro, voltei a trancar o carro e fiz-me a pé ao caminho, que percorri em menos de dez minutos. Cheguei à entrada e o porteiro entregou-me o ticket de consumo, dando-me concessão para entrar e um novo ambiente invadiu-me. Não era um espaço de muita confusão, pois era maioritariamente frequentado por figuras públicas, o que justificou o facto de ter um minuto de assédio por parte de dois fotógrafos que estavam lá provavelmente à procura de cenas que servissem de fofoca entre aos média, ou mesmo de um escândalo.
Não pedi nada para beber nem senti vontade de me chegar à pista, a minha missão ali era só uma e era somente nela que me iria focar. Os seguranças cederam-me permissão para entrar na zona privada e em meu redor procurei apenas por uma cara… uma pessoa. E… sim! Era ele! O homem que amava e por quem tanto procurei, estava ali… A alguns metros de mim, no piso superior da área, sentado juntamente com alguns amigos que eu conhecia apenas de vista.
Queria ir até lá, queria subir a pequena escadaria e desculpar-me por tudo mas parecia que o chão flutuava abaixo de mim e os meus pés afundavam-se nele… Respirei fundo algumas vezes focando unicamente Ruben, e sem que ele ainda me visse tomei coragem e marquei os primeiros dois passos mas…

- Não faças isso! – uma voz masculina surgiu atrás de mim e paralisou todos os meus movimentos

Rodei receosamente sob as plantas dos pés e encarei-o de frente – Mauro…

- É preciso teres muita lata para apareceres aqui, não é? – utilizou-se de um tom rude e altamente prepotente que não era sinónimo dele, e na sua expressão consegui perceber bem que estava muito pouco feliz por me ver

- Mauro, eu não… Eu não estou a perceber… - o  meu coração começou a bater mais depressa e o peso das minhas consequências começou a abater-se em mim mais cedo do que esperava, vindo em cada reprimenda que me era furiosamente dirigida e se soltava da boca dele

- Não estás a perceber? Queres que eu te explique…?

- Mauro, é melhor terem cuidado… Andam fotógrafos a circular por aí. – razoavelmente perto de nós, e a aperceber-se daquela troca de palavras furtivas, estava o segurança, que com toda a certeza conhecia Mauro e não hesitou em alertá-lo, evitando um aparato de maior

- O meu irmão não precisa de ti… Não vês? – ele voltou-se novamente para mim e com a cabeça fez um curto gesto, para que eu o seguisse

Os meus olhos acompanharam o caminho traçado pelos seus, e quando rodei a cabeça para descobrir para onde eles apontavam, deparei-me com a imagem mais perturbadora que poderia ter visto. Olhei uma mulher que era indiscutivelmente Inês, que então se juntara ao grupo reunido nos sofás do piso superior, e com duas bebidas que trazia nas mãos sentou-se ao lado de Ruben, oferecendo-lhe uma, e partilhando sorrisos iniciaram uma conversa totalmente imperceptível para mim, trocando segredos ao ouvido um do outro.
Aquela panorâmica era demasiado sombria para ser tolerável… A minha visão ficou entorpecida pela linha de água que se enchera de lágrimas, e o meu queixo agitou-se num tremelico discreto pela emoção.

- Vê se o deixas em paz… Só fazes com que ele sofra!

- Não te preocupes… Estou mesmo de saída! – respondendo à sua injúria, encarei-o de novo, esperando estar a fazê-lo pela última vez

Estava pronta para fugir daquele lugar e desta forma escapar de todas as infelicidades que nele imperavam… Bati acidentalmente com o ombro no braço de Mauro e precipitei-me à saída, mas esta foi-me interceptada pelo segurança que se interpôs à minha frente com o seu corpo enorme e me impediu de passar para a outra zona da discoteca, provavelmente por pensar que aquele confronto ainda não estava terminado e Mauro não queria que eu saísse.

- Deixe-me passar, eu quero ir embora! – ordenei, numa voz que parecia tudo menos intimidante, pelo esforço desumano que fazia para não ter que me exaurir em lágrimas ali… na frente de todos

- Está tudo bem, deixa-a ir… - com a permissão dele o segurança abriu-me passagem, e mal o fez recordo-me de não olhar mais para trás e sair dali o mais rápido que pude a passo de corrida e com as lágrimas a escorrerem-me dos olhos

Assim que cheguei junto ao portão paguei a minha comissão de entrada e entreguei o ticket ao porteiro, que creio ter-me olhado surpreendido não só pelo curto tempo que passei lá dentro mas também pelo estado desvigorado com que saí.
Foi quando alcancei o passeio da rua que me senti à vontade para me libertar recordando aquelas imagens que me vagueavam na cabeça, e desvaneci-me num choro tão atormentado que mal conseguia ver para onde estava a ir.

- PORQUÊ? – aquela voz surgiu de novo nas minhas costas e toda eu tremi…

Mauro dera-me uma vantagem de avanço e seguira-me até à saída… Lá estava ele, a poucos metros de distância. Olhei para trás e vi-o andar apressadamente na minha direcção, pedindo-me por justificações.

- Porque é que o abandonaste? Porque é que o deixaste outra vez?

- Eu não o deixei! – vociferei, olhando a sua figura ofuscada na minha frente

- Não é isso que parece, sabes?

- O que parece ou o que deixa de parecer a mim não me importa… A verdade é só uma e é aquela que garante que eu não deixei o Ruben!

- Queres-me explicar então o que aconteceu para teres andado desaparecida estes cinco dias? Para não te teres dignado a ligar? Para nem teres tido a decência de mandares a porcaria de uma mensagem? – cada pergunta furtiva atacou-me como torpedos os quais incitavam uma enchente de represálias que eu não iria saber como lidar – Tu tens noção no estado de preocupação com que o deixaste? Diz-me o que é que aconteceu… Vá, diz!

- Desculpa mas não é a ti que eu tenho de dar justificações! – tentei manter a calma e controlar-me ao máximo, mas a cada segundo aquela disputa ameaçava tornar-se mais difícil de enfrentar de ânimo leve, e o meu estava a correr morosamente para o seu desgaste

- Realmente, Joana… Parece que já nem te conheço! – um sorriso de pura tirania foi reflectido pelos seus músculos faciais, e uma nova acusação fora lançada contra mim – Eu tinha-te como uma irmã mais nova, e olha que gostava bastante de ti… Até ao dia em que decidiste fazer as malas e traíres tudo o que o meu irmão sentia por ti!

- Eu não te admito que me acuses do que quer que seja, e muito menos que me julgues, quando não tens autoridade moral nenhuma para fazê-lo! – o meu indicador arrebitou-se no ar e apontou piedosamente para ele, e sem eu mesma querer fui forçada a recordar os três longos anos de solidão que vivi no outro lado do Atlântico, em terras que desconhecia e nas quais fui forçada  a viver longe de tudo, mas principalmente longe de um grande amor – Não fales de coisas que não sabes, Mauro…

- Então é assim… Não queres que fale de coisas que não sei, não é?

- Não devias… Fica-te mal!

- Tudo bem, já que metes o assunto nesses termos, vou então falar-te das coisas que sei! – os seus braços cruzados fincaram-se na frente do seu peito inchado pelo acto heróico que fazia por sair em defesa do irmão, e nesse curto instante dei conta de que um novo inflame de acusações estava prestes a surgir, e levar-me ao extremo da minha fragilidade enquanto mulher e amante – Sei que o Ruben se sentiu um completo miserável quando regressou ao início desta semana dos Estados Unidos e se apercebeu que tu lhe tinhas mentido e posteriormente deixado, sei que ele ficou destruído por dentro quando colocou a hipótese de te ter perdido novamente, sei que ele se sentiu que nem lixo porque te amava e tu deixaste-o… Outra vez!

- Mesmo que eu te diga mil vezes que não o deixei, tu não vais acreditar em mim, pois não? – inquiri com o coração rasgado em mil angústias, sabendo estar a ser vítima da maior injustiça por parte dele

- Sinceramente, não… Não vou acreditar em ti! Tu já te foste embora uma vez, já o abandonaste uma vez… Quem garante que não tiveste coragem de o voltar a fazer?

- Eu estou aqui, não estou? Olha para mim, Mauro! – pedi-lhe, tendo estofo suficiente para lhe segurar um braço e fazer com que ele me olha-se nos olhos – Eu estou aqui e vim até aqui pelo Ruben, vim para lhe explicar o que aconteceu, para que ficasse tudo bem entre nós! Vim porque o amo…

- O amor só não chega, Joana… Faltam-te as atitudes! E teres vindo até aqui teria sido uma boa atitude, se não fosse o motivo para apagares uma dor que já causaste!

Aquelas palavras recriminadoras fizeram com que a pouca força que ainda me restava, se sucumbisse por completo em dois ou três suspiros… Levantei o queixo em direcção ao céu só para obrigar as lágrimas a recuar, só para não ter que me dar por vencida e mostrar o lado mais humano e sensível que guardava secretamente em mim.

- Então parece que não há mais nada para dizer ou fazer aqui…

- Há só mais uma coisa… - quando os meus pés estremaram meia volta para me levarem para outro lugar, o timbre de Mauro que voltou a surgir, foi implícito o suficiente para continuar uma conversa que ainda não terminara – O Ruben é o meu irmão, entendes? O meu irmão… Eu não vou deixar que ele cometa mais erros contigo, eu não vou deixar que ele se sinta outra vez perdido por tua causa!

- Pensava que o Ruben já era crescidinho o suficiente para saber defender-se de uma mulher! – não evitei em usar-me de um tom mais espicaçado e irónico que usei na minha maneira de falar, talvez para conseguir de uma melhor forma defender-me dos pudores amargos que eram lançados a mim

- O Ruben é um tolo, não pode olhar para ti, não pode passar à tua beira, não pode beijar-te que fica logo disposto a largar tudo e a deixar tudo para trás só para ficar contigo… Ele não é crescidinho o suficiente para se defender do amor.

- Ninguém é…  

- Pois mas enquanto eu puder, é minha obrigação olhar por ele e pelo menos tentar impedir que volte a sofrer! – conhecia muito bem o instinto protector de irmão mais velho que Mauro detinha com orgulho, e que por vezes Ruben se aproveitava dessa mesma protecção – Ele não quer voltar a olhar para ti…

- Parece que ele agora já tem para quem olhar! – respondi tão rapidamente quanto a minha perspicácia mo consentiu, e Mauro soube logo ao primeiro instante o que eu pretendia insinuar

- A Inês é o melhor para o Ruben, com o tempo ele mesmo vai chegar a essa conclusão… Foi um erro terem acabado com o noivado e terem-se deixado, e mais tarde ou mais cedo ele vai entender isso.

- Acho que já entendeu… - afirmei, sentindo o meu queixo voltar a tiritar

- Óptimo! Então talvez o melhor seja fazeres-lhe um favor e ires-te embora… De vez! – consentiu calmamente, colocando simultaneamente as mãos dentro dos bolsos – Boa noite! – deu meia volta e provido de um andar descontraído rompeu novamente pelos portões da discoteca onde acabou por desaparecer do meu astro de visão pouco depois

O meu mundo voltara a desabar-se num par de minutos, desvalorizando os escombros que poderia deixar. Ali sozinha no meio da rua, rompi num choro profundo e já muito contido, num soluçar angustiante que me acompanhou na caminhada morosa de regresso ao meu carro. Tranquei-me no seu interior logo que tive oportunidade, e sem ainda rodar a chave na ignição, deixei tombar o tronco sobre o volante e continuei amarrada àquele vale de lágrimas que não cessava dos meus olhos já doridos. Não sabia distinguir quanta mágoa me cabia no peito mas consegui senti-la pesar muito, tanto que me causou dificuldade em alimentar os meus pulmões de ar.
Eu amava tanto o Ruben, e afinal tudo não passara de uma felicidade camuflada por um trágico engano. Não podia ter acabo assim, não podia…




Boa noite, meninas, vim deixar-vos um novo capítulo!
Desculpem a demora mas nesta fase do campeonato preenchida com provas e avaliações, tem sido impossível vir cá mais vezes deixar-vos novidades.
Quanto ao capítulo, espero que gostem e deixem os vossos comentários,
é muito importante para mim receber o vosso feedback desta história que também é vossa! :)

Beijinhos,
Joana


sexta-feira, 26 de abril de 2013

Capítulo 12 - Tudo começou para nunca mais acabar (Parte IV)


- Ainda não parou de chover um minuto… - desabafei junto à janela, observando o vendaval que fazia a chuva precipitar-se furiosamente das alturas e um vento que soprava forte, agitando os galhos das palmeiras e a restante vegetação que pendia ao flanco do hotel

Estava no quarto de Pedro juntamente com ele, passáramos praticamente toda a tarde ali visto que o temporal rogado lá fora não convidava propriamente a um mergulho no mar da praia nem tampouco a passeios pelos ilhéus desertos.
Já há dois dias que chovia torrencialmente na ilha, e devido a estas condições meteorológicas as gravações tiveram obrigatoriamente que ser adiadas, e uma vez mais vi passar bem à minha frente o destino que voltara a ficar fora do meu controlo.

- Oh, já devias saber como este clima tropical é… Agora chove mas vais ver que mais daqui a pouco o sol já está aí outra vez e aquele calor sórdido também! – respondeu o meu melhor amigo e agente à cabeceira da cama, onde do seu tablet respondia aos meus e-mails há quase meia hora

- A questão é que nós já nem deveríamos estar aqui. Já passaram dois dias, Pedro, dois dias… A estas horas devíamos estar a chegar a casa! Não quero ter que ficar aqui muito mais tempo, este não é o meu lugar…

- Mas é o teu trabalho! – referiu ele sucintamente, descolando os olhos do pequeno ecrã por uns segundos para me olhar – Eu entendo-te mas tenta ser flexível… Isto é algo que nos incomoda a todos, é tempo e dinheiro que se está a perder. As gravações deveriam estar concluídas anteontem mas ninguém tem culpa disso porque ninguém esperava que se pusesse este tempo… É do tipo de situações que não estão previstas acontecer!  

- É… e acho que é exactamente isso que a minha vida tem mostrado ser estes últimos dias… Um total imprevisto! – o meu olhar voltou a trespassar a vidraça da enorme janela e a cair sob a paisagem que era arrasada pela tempestade, e de uma maneira totalmente irónica o meu âmago poderia assimilar-se àquela imagem… arrasado por novas sensações que eu própria desconhecia



***




A manhã do dia seguinte foi deslindada pelas abertas que fizeram do sol uma visita aguardada e bem-vinda às ilhas de Punta Cana. Viajámos cedo novamente até à Ilha Saona, tendo sido uma lagoa perto de uma das maiores quedas de água, refugiada por uma vegetação exorbitante, o cenário perfeitamente escolhido para a sessão fotográfica da campanha, para a qual eu e Francisco posámos até à hora de almoço. A parte da tarde estava programada para ser entregue somente às gravações do anúncio televisivo.

- Alright, people, let’s go… Let’s move! – ordenou altivamente a produtora, que enunciou os postos de tarefas e fez andar todo o pessoal da equipa de produção num autêntico frenesim de montagem de material e preparação do cenário

Heat Blue, chamava-se assim a nova aposta de perfume da Dulce&Gabbana. Pelo que tinha lido no guião que me tinha sido entregue no primeiro dia, Heat Blue – a nova fragrância para ela – é um perfume exótico e marcante de um Verão siciliano, que concentra notas de maçã, pimenta de alecrim e âmbar que “capta a atenção”, e essências médias de jasmim, bambu e zimbro, dando uma combinação absolutamente feminina em que “o efeito é marcante e de uma sedução arrebatadora, onde a mulher Dulce&Gabbana se apaixona e faz apaixonar”. O perfume é lançado a mulheres confiantes, donas de um grande poder de sedutismo, atracção, que gostam de um estilo de vida elegante e casual. Trasladando o sol do dia e as noites deslumbrantes, esta fragrância “aquática, fresca e purificadora” representa a sensualidade das ilhas paradisíacas das Caraíbas.
Gravámos as primeiras cenas em alto mar no esplêndido coral de Saona, tendo sido o primeiro plano filmado no barco, onde seguíamos com dois câmara-men, e o segundo nas águas azul-turquesa, onde nadámos juntos por alguns minutos, maravilhando-nos com peixes coloridos de todas as simetrias e no fundo do recife olhei as múltiplas estrelas que transpunham a figura de um céu anoitecido.
Seguimos depois de volta à praia, para junto de uma falésia onde iríamos concluir as gravações. A produtora voltou a relembrar-nos o que era pretendido que fizéssemos e o meu coração bateu mais forte quando ficámos a saber que teríamos de nos beijar, para que o anúncio ganhasse um novo sentido que consistia num derradeiro caso amoroso Heat Blue, onde os personagens têm um relacionamento de intimidade e paixão que traduziam a ideia pretendida para o perfume, num cenário de puro romantismo como era aquele.

- Scene four, take one… Action! – ouvimos pelo megafone e de novo as câmaras focaram o nosso plano

Eu permanecia encostada ao enorme rochedo e tinha Francisco na minha frontaria, encurralando-me num espacinho mínimo, fincando a sua mão na parede uns centímetros acima do meu ombro e olhando-me penetrantemente, na antecipação de um momento que tinha sido previamente programado pela realização. Mas não consegui… Quando senti a sua testa empurrar levemente a minha para beijar os meus lábios, eu não consegui entregar-me inteiramente à personagem que interpretava e separar o meu trabalho da minha vida pessoal. Embora não fosse essa a verdade dos factos, sentia que naquele gesto unicamente técnico estava de alguma forma a trair Ruben e tudo aquilo que sentia por ele, e esse pensamento fez com que desviasse o meu rosto do seu alcance quase de forma automática.

- Tá tudo bem, Joana? – o Francisco olhou-me inegavelmente preocupado com a minha rejeição infundada e esperou por uma resposta, tal como o resto dos profissionais que trabalhavam em nosso redor que ficaram confusos com o aquela minha atitude inesperada – Fiz alguma coisa de errado?

- Não, não fizeste nada de errado, apenas… Apenas não me estou a sentir muito confortável… com isto! Desculpa. – proferi num sussurro a modo sem jeito, que penso ele ter compreendido imediatamente

- Se quiser a gente pode pedir pra fazer uma pausa até você se recompor e se sentir preparada…

- Não, não, eu estou preparada! Aquilo não vai voltar a acontecer! – disse decididamente de maneira a conseguir afastar aqueles pensamentos patéticos

- Então deixa eu te guiar, tá bom? Relaxa…

- Obrigada. – agradeci sinceramente o seu apoio e depois fizemos o sinal ao pessoal da produção de que estávamos prontos para retornar as filmagens

Um novo clique da claquete voltou a ser escutado e a partir desse instante todas as atenções voltaram a recair sobre nós.
A sua mão direita palmeou a minha face e deixei que fosse ele mesmo a guiar-me, tal como me tinha dito, já que eu não me sentia capaz de fazê-lo por mim. As nossas respirações embateram sem pressão e foi uma questão de segundos até os meus olhos se fecharem e a minha boca sentir-se ser envolvida pelo calor latente da sua.
O beijo então aguardado pelas câmaras, surgiu, primeiro recatado e superficialmente discreto e depois mais intempestivo e dominador, e que em nada poderia ser comparado a um beijo do meu Ruben… Em primeiro e o mais essencial de tudo é que era um gesto meramente profissional e ausente de qualquer sentimento, e depois era a entrega que não existia entre nós, o sabor da boca que não era o mesmo, o toque de lábios que não era tão delicado, a sensação de carinho e preenchimento que não me fazia levitar, o arrepio na espinha que eu não sentia. Nada naquele beijo era Ruben e ali, jogada nos braços de outro homem, nunca tinha sentido na pele tanta certeza e segurança que o amava mais do que eu imaginava ser possível poder amar-se alguém, e sentia falta dele mais do que tudo.

- And… Cut! – a ordem do realizador irrompeu entre nós e a nossa atmosfera, anunciando a tão esperada finalização de todo trabalho – Congratulations, people, good job!

A enunciada foi contemplada por uma enorme saudação com uma salva de palmas de toda a equipa, inclusive também minha e de Francisco, que depois de me dar um beijo afável na testa, olhámo-nos nos olhos e sorrimos com cumplicidade, orgulhosos por termos feito parte daquele projecto.


***



- Pedro? – chamei-o quando entrei na pequena tenda descoberta e caminhei até ele, dando-lhe um toque leve no ombro – Vou dar uma volta por aí… Estou a precisar de espairecer um pouco.

Ele descentralizou a sua atenção do computador onde juntamente com um técnico de imagem revia a sessão de fotografias tiradas esta manhã, e olhou-me ao voltar-se para mim – Não queres ver as fotos? Ainda não foram editadas mas podes dar uma vista de olhos e ver o resultado… Acho que estão muito boas!

- Prefiro vê-las depois quando voltar.

- Tudo bem, mas precisas de alguma coisa? Queres que diga ao Alexandre para ir contigo?

- Não, não lhe digas nada… Acho que estou a precisar de estar sozinha por algum tempo e espairecer. Dar uma voltinha pela ilha, um mergulho na praia… - enumerei, revendo mentalmente o percurso do passeio que planejara traçar unicamente sozinha 

- Então mas tem cuidado e não te afastes muito! – pediu-me na sua habitual posição cautelosa e protectora em relação a mim, que eu já esperava voltar a ver-lhe – E leva qualquer coisa para comer… Não andes toda a tarde sem nada no estômago! 

- Sim, mãe… Eu levo alguma fruta na mochila, não te preocupes! – trocei comicamente e ambos nos rimos com a minha disposição de humor, que felizmente não tinha sido atingida pelo meu estado de espírito, não naquele momento 

- Estás cheia de piada, tu! – ele deu-me um toque no ombro que me fez balançar ligeiramente e voltámos a sorrir – Ah, espera, há uma coisa que tenho de te dizer… A produção vai dar uma festa logo à noite no bar da praia para comemorar-mos o fecho da criação da campanha… Quero ver-te lá, está bem?

- Sim, lá estarei… - prometi com um discreto sorriso nos lábios, despedindo-me dele com um beijo dócil que despoletei na sua bochecha – Vemo-nos depois!

Queria ver tudo, cada coreto, cada lagoa, cada falésia… Comecei por dar um mergulho numa praia escondida atrás dos vales, isolada e muito discreta. Tal como as outras a sua areia era fina e branca e a água era tão transparente que permitia ver o fundo e todo o tipo de búzios e peixinhos, tão quente que se tornou difícil para mim voltar a sair dela.
Voltei a percorrer novos trilhos, continuando somente por minha conta, mas com a companhia estranhamente agradável dos mais diversos animais exóticos que encontrava em pequenos montes e junto dos riachos, acompanhados da sinfonia reproduzida pelas aves coloridas, libertada nas copas das árvores de uma altura assustadora. Observei com curiosidade cada planta exótica, provei a medo alguns frutos silvestres e flagrei com a minha máquina fotográfica tudo aquilo que mais tarde queria vir a recordar.
Acabei por vislumbrar no cimo de um penhasco uma cabana de madeira, algo que se poderia assemelhar a um chalé, mas mais humilde e casual. Subi até lá e empurrei a porta encostada quando cheguei, e resolvi entrar. Fiquei surpreendida e simultaneamente maravilhada com aquele cenário: Havia cadeiras de veludo branco e rosa correctamente alinhadas e divididas por um pequeno corredor que conduzia a um altar… Aquela cabana estava preparada para aquelas que seriam cerimónias matrimoniais. Não era de surpreender, pois de facto qualquer casal de noivos que por ali passasse não escolheria outro sítio mais belo e fascinante para dar o nó que não aquele… E até eu senti uma vontade inexplicável de me casar ali.

- Queria tanto que estivesses aqui comigo, Ruben… - um sussurro vanguardista que aprisionava um pequeno lacrimejar dos meus olhos, soltou-se dos meus lábios aquando idealizara um cenário perfeito, que em tempos chegáramos a planear juntos

Foi mais que óbvio que tinha sido ele a primeira pessoa a interpor os meus pensamentos e ideias, e ao estar ali, naquele cantinho do céu, não desejei que mais ninguém estivesse ali comigo, que não fosse ele. Queria partilhar com ele não só aquela ocasião, mas todas as outras que tinha vivido naquela terra naqueles dias… Só Deus sabia as saudades que eu tinha dele, e só Deus sabia a angustia que me fazia sentir pequenina por não poder tê-lo ali ao meu lado, a viver aquele momento comigo.   


***


Era noite cerrada quando voltei à praia e não foi difícil dar com o bar onde certamente estava a decorrer o festejo e este já tinha tomado o seu começo.
Era um espaço agradável, muitos cocktails a rodar e música merengue que contagiava qualquer um a dar uns passinhos de dança no ritual carabiano. Ao fundo da sala, perto de umas mesas redondas de pé alto, vi Pedro, que ao fazer-me sinal com a mão não se demorou até me alcançar.

- Ainda bem que já chegaste… Estás bem? – a minha testa acolheu um beijo quente seu e esse simples gesto de carinho permitiu que as portas do um sorriso se abrissem por segundos em meus lábios

- Hum, hum… Estou. – respondi seguramente e senti depois ele puxar-me pela mão para me arrastar consigo

- Vem… O pessoal da campanha está desejoso para falar contigo! – encruzilhámo-nos com alguma dificuldade por entre as pessoas que já animadas improvisavam ali no meio uma pista de dança, e pela sua mão firmemente agarrada à minha segui atrás dele  

Levou-me até aos produtores e realizador, e foi com eles que ficámos a falar por largos minutos… Discutimos alguns pormenores da campanha publicitária e ouvi por algumas vezes saudarem-me com os parabéns, pelo contentamento que receberam do meu empenho e trabalho, notoriamente satisfeitos com o resultado final que chegara a ultrapassar as expectativas do que era esperado.
Mas não fiquei lá dentro por muito mais tempo, precisava de respirar outro ar, outro ar menos carregado do que aquele que se vivia no interior, e refrescar a minha mente com pensamentos mais leves.

- Tengo un corazón, mutilado de esperanza e razón/ Tengo um corazón, que madruga donde quiera/ Y este corazón se desnuda de impaciência ante tu voz/ Pobre corazón, que no atrapa su cordura… - dei por mim a trautear a música natural dominicana que passava quando sai do bar, e foi inevitável não atribuir um sentido pessoal à letra

Sentei-me na areia e deixei-me ficar a olhar o mar, agora enegrecido pela noite, e ali até o silêncio se tornava uma melodia deliciosa para apreciar.
Apesar do sol já se ter posto há muito, um ar quente ainda viandava pela atmosfera, tornando-a ligeiramente húmida e abafada, contudo preferia a solidão lá de fora do que a agitação quase louca que reinava no interior do bar.

- Dando a escapadinha? – um timbre o qual já havia aprendido a discernir, soou ao alto das minhas costas e um pequeno sobressalto foi inevitável para mim, pois encontrava-me remotamente perdida sob os meus mais profundos pensamentos de vida

- Francisco… - disse o seu nome, logo que olhei a cima do meu ombro e o vi, hirto atrás de mim

- E aí… Posso perguntar o que tá fazendo aqui sozinha na vez de ‘tar lá festejando com a galera?

- Está lá muita confusão dentro e… Sinto-me melhor aqui. – proferi com sinceridade, até fazer um sorriso consulado coabitar meus lábios – Senta-te se quiseres…

- Com licença. – pediu, extremamente educado e senti o meu lado esquerdo, até então vazio, ser ocupado por ele – Peguei um drink pra você…

- Oh, não era preciso teres tido trabalho comigo, obrigada! – agradeci-lhe a amabilidade e peguei no copo de pina colada que ele havia trazido para mim – Francisco, sobre o que aconteceu nas gravações… Queria agradecer-te o apoio que me deste, não imaginas o quanto me senti ridícula com a situação! – proferi com um sorriso calmo, porém envergonhado no rosto

- Ridícula? Que é isso, garota… Imagina! – ele menosprezou o lance ocorrido naquela tarde de filmagens, aquando o nosso beijo, mas aquela minha primeira reacção foi algo que mais tarde me veio a deixar constrangida perante ele

- Eu nunca fiz nada disto antes, nunca me deparei com situações como esta no meu trabalho… Fiquei um pouco atrapalhada com a situação.

- Deixa pra lá, até porque eu entendo… Cê não tá acostumada, é natural, eu mesmo não me acostumei ainda e olha só que essa não foi a minha primeira vez! – ambos gargalhámos do seu jeito de falar, era incrível como o seu sentido de humor conseguia interferir com o meu, mas depois um silêncio circunstancial e aterrador caiu sobre nós – Problemas no paraíso?

- Quem não os tem?

- Pelo seu jeito, os seus parecem ser sérios…

- Espero conseguir resolvê-los assim que sair daqui. – respondi em meio tom, dando um curto sorvo da minha bebida

- Problemas do coração? – tornava-se assombroso como há tão pouco tempo nos conhecíamos, e ele já ganhara um pouco da capacidade de me ler nas entrelinhas – Desculpa, são os seus assuntos, não me quero intrometer demais.

- Sim, problemas do coração… - sem contar com que me desse ao assunto com ele, acabei por lhe revelar o motivo-rei de toda a minha apatia

- Sabe que a gente tende a ter mais facilidade em abrir o coração pra alguém que não conhece direito, do que pra’queles com quem fala todos os dias…

- Agradeço-te a simpatia, a sério que sim, mas não quero aborrecer-te com os meus problemas… Além de que é uma história complicada.

- Tem ninguém me apressando não! Eu tenho tempo… - Francisco olhou-me com um sorriso meigo, mostrando-me estar inteiramente disposto a ouvir-me

- Então, muito resumidamente… - comecei por respirar fundo e preparei-me para lhe contar apenas uma parte do enredo que me atormentava por demasiado – Eu e o meu namorado reconciliámo-nos recentemente, depois de termos ficado um longo período de tempo afastados. Passámos esta última semana em São Francisco e tínhamos combinado regressar a Portugal juntos, no mesmo voo, mas houve uns contratempos, perdi o avião e do nada caiu-me a proposta de fazer o anúncio e tive que vir a correr para aqui sem ter tempo de pensar duas vezes, sequer…

- E isso quer dizer… - ele teve a necessidade de procurar por um esclarecimento, pois eu não tinha sido demasiado precisa no ponto da questão

- Isso quer dizer que ele foi no voo que tínhamos combinado ir juntos e não sabe que eu estou aqui. – discursei calmamente, como nunca me imaginei fazê-lo pois sempre que recordava aquele assunto ganhava um súbita vontade de lacrimejar, e no seu rosto jovial decifrei um laivo de confusão

- Não sabe? Cê não falou desse negócio pra ele? Não lhe ligou…?

- Isso teria sido a primeira coisa que tinha feito se tivesse maneira de o contactar… Acreditas que nem voltámos a trocar de número?

- Puxa vida, assim fica complicado tentar ajudar você, né? – vi-o passar a mão pelos cabelos como maneira de expressar a sua pequena risada de desalento e eu sorri-lhe de volta pelo seu comentário… um sorriso desconcertante – E acha que ele vai ficar chateado com você por causa dessa parada?

- Não sei, Francisco, sinceramente não sei… – falei ao mesmo tempo que os meus ombros se encolheram perante a evidente ausência de respostas – Tal como eu te disse… É uma história complicada! Mas então e tu, fala-me de ti… Aposto que não tens estes problemas com a tua namorada! – tentei desviar o assunto “eu e os meus problemas”, e com ele desviar toda aquela tensão que lentamente se começou a formar no sabor da conversa

- Nisso cê me ganha, porque felizmente não tenho esse tipo de problemas com a Jessiann… A gente tá muito feliz! – um sorriso imensamente tranquilo da sua boca, foi o suficiente para me fazer acreditar que no campo do amor ele tinha encontrado um conforto de paz, algo que na minha situação eu já não estava tão certa de continuar a ter – Cê quer vê-la? Acho que tenho aqui uma foto dela…

- Ah… Sim, claro! – peguei no seu copo para que ele tivesse mais facilidade em conseguir retirar a carteira do bolso traseiro dos seus calções de praia, e quando encontrou a fotografia da sua namorada guardada no interior entregou-ma, e eu voltei a dar-lhe o copo

- Ela é muito bonita! – gracejei, ao ver a rapariga loira de sorriso fácil de se gostar, flashada na impressão digital que segurava na minha mão

- É, é linda mesmo… E olha só, a gente já tá esperando o nosso primeiro filho!

- O quê, tu… Tu vais ser pai?

- Surpreendida?

- Sim… Na verdade estou um pouco! – revelei, porque o facto é que estava mesmo surpresa tendo em conta as circunstâncias que vim depois a nomear – Desculpa mas olhando para ti, nunca pensei… Quer dizer, és um homem novo ainda, para não falar que o teu trabalho te faz andar de um lado para o outro… Não o tempo todo mas quase!

- É, eu sei, mas pretendo abrandar o ritmo quando ele nascer, não quero perder nada… E quanto ao ser novo, é, é verdade que sou novo ainda e sei que a maioria dos homens da minha idade não tem intenção de se ver com um neném nos braços para cuidar e educar, mas eu e a Jessiann… A gente tem uma relação e uma vida bastante estáveis, nos conhecemos um ao outro melhor que a nós mesmos, moramos junto faz tempo e aí a gente pensou: Porque não darmos o passo seguinte?

- Não sabes o quanto admiro a vossa coragem… - não fiquei indiferente ao discurso dele, àquela sua certeza que o dominara em cada palavra e devo confessar que fiquei tenuemente emocionada, e aquela firmeza e certidão, um dia, nas mesmas condições, também eu queria tê-las em mim

- Você nunca pensou em ter filhos? – aquela pergunta à primeira vista inocente, despoletou em mim um misto de sensações que eu não esperava de todo sentir, pois fez-me relembrar de algumas conversas que partilhei com Ruben ultimamente

- Sim, claro que já pensei, mas acho que este ainda não seria o momento certo para dar esse passo na minha vida… Estou a concluir os meus estudos, tenho trabalho e uma vida também ela estável, mas não me vejo a ser mãe agora, ao contrário do que o Ruben pensa!

- O Ruben? – perguntou no segundo seguinte, pois eu ainda não tinha mencionado o nome dele, ainda assim ele compreendeu antes de me deixar esclarecê-lo – O seu namorado…

- Sim, o meu namorado… Quando falamos nos planos que temos para a nossa relação, por vezes o assunto de construirmos uma família cai na conversa… Acho que ele ia delirar só com a ideia, eu sei que ele quer muito ser pai!

- Então e você?

- Eu não sei… Tenho medo, acho que é isso… Tenho medo de falhar! Um filho trás muitas responsabilidades, não é um passo que se decida dar de ânimo leve, e eu ainda não acho que me sinta preparada.

- Nunca ninguém se sente realmente preparado até que chega o momento em que tem de estar! – proferiu com total sabedoria, e apesar de ‘ser mãe’ pertencer à minha lista de desejos, este era um que eu pretendia realizar apenas no futuro

- Sim, talvez tenhas razão… E bem, a conversa está muito agradável mas é melhor eu ir andando! O meu voo é de madrugada e ainda quero descansar um pouco! – ciciei, logo que espreitei as horas avançadas do meu relógio de pulso

- Tá indo pró hotel?

- Não, estou instalada num bungalow… Fica no outro lado da praia!

- Então fica no caminho… – ele levantou-se e ajudou-me a levantar também, logo que me estendeu a mão – Eu posso te acompanhar até lá e depois sigo pró hotel! – sacudi a areia da minha saia e sorri-lhe em seguida, grata pela sua companhia naquela noite


***


- Parece então que estou entregue! – anunciei quando finalmente chegámos junto da porta do meu quarto – Obrigada!

- Não tem de quê, e aproveito pra agradecer também a óptima companhia e foi um prazer trabalhar com você… Espero que nos voltemos a encontrar!

- Eu também espero que sim… Faz uma boa viagem!

- Cê também, e vou torcer pra que dê tudo certo nesse seu lance com o Ruben… E não se preocupa porque se ele é ‘o cara’, ele não vai abdicar de uma garota tão boa onda e ainda por cima linda, que nem você! – mais uma vez naquele dia ele voltou a conseguir fazer-me rir, e senti-me incrivelmente bem com isso – Tenha uma boa noite e se cuida, 'viu?

- Boa noite, Francisco, e mais uma vez obrigada… - despedimo-nos com um abraço apertado e dois beijinhos no rosto, e depois de o ver descer as escadas do alpendre entrei no quarto  

De novo sozinha. Por mais que eu tentasse, por mais caminhos que percorresse, todos iriam levar-me ao mesmo… Ali, embrenhada àquela solidão, àquele vazio inexplicável.
Tomei um duche rápido, preparei uma sandes e um copo de leite, que petisquei em curtos minutos e por fim arrastei-me até à cama, onde caí, completamente estafada. Tinha a minha cabeça a doer, implorando-me por algum descanso não só físico mas também mental, mas não consegui dormir tão rapidamente como esperava… Estava a algumas horas de embarcar no bendito avião e voar até Lisboa, até a porto seguro. Fechei os olhos com força e para que o sono chegasse e me levasse consigo, tentei focar-me apenas numa esperança: ele vai compreender, eu sei que ele vai compreender…



***



(D. Anabela)

Que ninguém diga que está completamente bem e plenamente feliz, pois quando menos se espera um prenúncio desventurado pode bater à porta e causar destroços que poderão ser irreparáveis. Tinha mais certeza disso mesmo de cada vez que olhava o meu Ruben e lhe decifrava o seu sofrimento traduzido só no olhar. Estava lá em casa desde que regressara do estágio, há quatro dias, e era normal ele vir para ao pé de mim sempre que regressava do estrangeiro para como ele dizia “matar saudades de casa” mas agora era diferente, correra para ali por outras razões, razões a que eu não tinha ficado completamente esclarecida, mas então recebi-o de braços abertos, sempre pronta a fazer o meu papel de mãe e consolá-lo o melhor que podia.

- Posso? – ouvi dois toques leves na porta da cozinha que se encontrava aberta, e ao olhá-la fitei David à sua ombreira

- Claro, meu filho, entra! – permiti imediatamente, enxugando as mãos ao avental e vi-o caminhar até a mim no intuito de me cumprimentar com dois beijinhos

- Vim deixar o Ruben, e como esse cheirinho a cozinhado já se sente na entrada, resolvi passar aqui pra dar uma olhada e ver a senhora! – disse-me com um sorriso afável, que era já habitual nele

- Fizeste bem… E diz-me, como é que estás? – perguntei e voltei para junto do fogão, onde preparava o jantar

- Eu tô bem, graças a Deus… A Dona Anabela é que me parece meio em baixo… Tá tudo bem com a senhora?

- Não, meu filho, nem tudo… - poderia conseguir disfarçar muitas situações que não queira que ninguém soubesse, mas nunca iria conseguir disfarçar a preocupação de um coração de mãe – É o Ruben, desde que aqui chegou que parece ser outra pessoa! Fecha-se no quarto, não fala comigo e eu já não sei o que fazer, David… Eu sei que se passa alguma coisa e grave, para ele estar assim, mas eu não o posso ajudar se ele não falar comigo!

- O Ruben ainda não contou pra você?

- Onde é que ele está?

- Já subiu… Foi para o quarto logo que a gente chegou!

- Então vem cá, senta-te aqui um minuto. – pedi-lhe encarecidamente, retirei o avental pendurando-o, e acabámos por puxar duas cadeiras e sentámo-nos junto da mesa da cozinha – Ele não fala comigo sobre isto e sempre que eu tento ele foge, mas tem falado com o irmão… Eu sei que tem alguma coisa a ver com a Joana… Tem, não tem?

- Tia, eu não sei se deva, se o Ruben ainda não falou nada pra você, então eu… - os laços de amizade entre eles os dois eram muito fortes, era natural que o David não quisesse quebrar a confiança ao contar-me, mas como mãe eu precisava de saber

- David, não me escondas nada… Conta-me o que aconteceu entre eles para o meu Ruben voltar neste estado. Eles estavam bem, não estavam? O que é que aconteceu?

- É, ‘tavam bem… Eles voltaram lá em São Francisco e pareciam tar muito felizes, sabe? Sem mais nada do passado a atrapalhar… E quando foi pra regressarmos, eles combinaram em voltar a Lisboa no mesmo voo mas aí chegámos e o Ruben ‘tava esperando ela no aeroporto, e ela não apareceu… A Joana não veio com a gente no avião!

- Não veio com vocês e não disse nada? – inquiriu duvidosa, pois naquela história algo parecia estar mal contado – Não ligou, não deu notícias… Nada?

- Nada, tia Bela! E é por isso que o Ruben tá desse jeito… Ele a procurou em casa dos avós dela, na casa onde ela costumava morar com os pais, e nesses dias a gente continua sem saber nada da Joana! – a sua voz esmorecida assim quanto o seu olhar, traduziram o desalento que também a ele o abalava

- Achas que ela…?

- Não sei, mas quero acreditar que não… Eu conheço a Joana e eu sei que ela ama o Ruben, ama muito! Ela não seria capaz de lhe fazer o mesmo duas vezes.

- E o que é que ele acha? – somente procurava por respostas, pois só desta forma poderia arranjar uma maneira de tentar amenizar a dor do meu filho

- Apesar de nunca me ter dito com todas as letras, eu penso que ele tá achando exactamente isso! – o que eu mais temia aconteceu, não por ser verdade, porque poderia não ser, mas porque o Ruben acreditava nisso – Eu gostava de continuar essa conversa com a senhora mas tenho de ir… A Adriana e os meus pais me estão esperando para jantar e ainda tenho uma hora de estrada pela frente…

- Claro, meu filho, não te prendo mais! Ia perguntar-te se querias ficar connosco para o jantar mas sendo assim… - esbocei-lhe um sorriso terno e sobre a mesa ele apertou ligeiramente as minhas mãos como sinal de força e carinho – Ah, lembrei-me agora! Fiz um frasquinho de compota de framboesa e nozes para a tua mãe, fomos ontem tomar café e esqueci-me de lho levar. Se me fizeres o favor…

- Claro, pode deixar que eu entrego pra ela! – ele disponibilizou-se perante o meu pedido e logo que pus as bocas do fogão no mínimo e coloquei o frasco num saquinho, entreguei-lho em mãos e acompanhei-o depois até à porta – O Ruben que me diga se continuar precisando que o leve e traga do treino…

- Obrigada pelo teu apoio, eu sei que te dá trabalho andares sempre a fazer estes quilómetros todos, mas ele agora mal pega no carro!

- Não me custa nada… A gente é como irmãos, tô fazendo o que tenho a certeza que ele faria por mim!

- Obrigada, David! – agradeci uma vez mais e partilhámos um abraço de despedida – Conduz com cuidado, até amanhã!

- Não se preocupa, tia Bela… Até amanhã!

Voltei a fechar a porta e preparei-me para traçar novamente caminho até à cozinha mas detive-me a meio da sala quando vi Ruben a caminhar no corredor do andar superior, antecedendo à escadaria.
Lembrei-me do dia em que ele me telefonara dos Estados Unidos, extremamente alegre e feliz, dando-me uma notícia que eu não contava de todo, mas que me deixou radiante ao ouvi-la… A de que voltara a reatar os laços de uma relação que enleava com a mulher que eu sabia ele ter amado realmente sem limites, mas agora toda a sua alegria que lhe deslindei pelo telefone tinha desaparecido, e ele estava ali, descendo os últimos degraus das escadas, de coração destroçado sem saber que rumo seguir.

- Vem cá… - chamei por ele, deslindando-lhe as lágrimas nos olhos

- Dói tanto, mãe…

- Eu sei, meu filho, vem cá. – ele não se sentiu capaz de rejeitar o conforto que eu tinha para lhe oferecer e jogou-se nos meus braços, deixando o choro fluir quando me apertou com força contra si, como se eu fosse o seu único ponto de apoio seguro – Está tudo bem em chorares, Ruben, chora… Deita tudo cá para fora!

- Eu não aguento mais, mãe… - ciciou sofregamente, deixando cair sobre mim quase todas as forças do seu corpo que ainda o mantinham de pé

- Anda, vamos sentar-nos! – peguei-lhe na mão e guiei-nos até ao sofá que onde acabámos por ocupar um canto – Queres conversar?

- Não, ainda não… - recusou e eu respeitei a sua vontade, quando estivesse pronto para falar, ele mesmo iria dar esse passo e procurar-me

Puxei-o de volta para mim, abracei o seu corpo com os meus braços protectores e não demorou muito até sentir as suas lágrimas molharem o meu peito. Ficámos os dois em silêncio e apenas o ouvia chorar mais e mais, como um menino pequeno e assustado que eu não sabia mais defender das desilusões da vida. Não havia castigo pior para uma mãe do que ver um filho sofrer, e o meu Ruben estava a sofrer… Estava a sofrer por amor.

- Eu não vou aguentar passar por tudo outra vez, não vou… - ao fim de alguns momentos ele quebrou a sua barreira de segurança que comigo havia estado silenciada nestes últimos dias e começou por desfiar os limiares da sua dor – Já a procurei em todos os lugares possíveis e continuo sem saber nada dela… Onde está, com quem está, se está bem…

- Já tentaste ligar-lhe?

- Já, já tentei mas de todas as vezes que lhe ligo o telefone está sempre desligado… Sempre!

- Talvez tenha acontecido algum contratempo…

- Qual contratempo? Já passaram quatro dias, mãe, quatro dias… Se ainda não deu notícias, se ainda não apareceu é porque não quer ver-me! É porque se arrependeu do que vivemos nesta última semana, é porque se arrependeu de nós! – aquela afirmação que saiu da sua própria boca, feriu-o mais do que ele pensava, e o resultado reflectiu-se nas lágrimas que continuaram a rasgar o seu rosto agora furiosamente, desencadeando um soluçar aflitivo

- Não digas isso, Ruben… Não vês que só te estás a magoar a ti mesmo ao dizeres essas coisas?

- Ela prometeu, ela prometeu que desta vez era para sempre, que íamos ficar juntos mesmo que tivéssemos de lutar contra tudo e contra todos…

- Tem calma, meu filho, vais ver que vai ficar tudo bem… - prometi, apesar de me arriscar numa promessa que não estava inteiramente ao meu alcance de ser cumprida – O teu irmão vai passar o fim-de-semana ao Algarve, porque não vais com ele? Fazia-te bem espairecer um bocadinho…

Ele não me respondeu e continuou envolto naquele choro que não cessava e que a cada segundo me partia mais um bocadinho o coração. Continuei a embalá-lo nos meus braços e ao fim de alguns minutos dei conta do Mauro, que desceu apressadamente as escadas e se precipitou até à porta sem dar pela nossa presença.

- Filho, vais sair? Não jantas connosco? – a minha inquirição demoveu-o por segundos e a minha voz fez com que instintivamente ele me encontrasse

- Não, mãe, esqueci-me de a avisar… Vou jantar com a Paula! – informou-me, e quando se preparava para sair, deteve-se ao reparar na figura destroçada sobre o meu colo, do irmão… largou a maçaneta da porta e caminhou calmamente até nós – Então, puto? – tocou no ombro de Ruben, esperando uma explicação dele àquele seu estado, mas apenas o fez abrandar o soluçar

- Deixa-o estar, Mauro… - pedi-lhe, sabendo que Ruben precisava somente de algum descanso e não de dar justificações que o fizessem reviver a sua mágoa    

- O quê, não me digas que estás assim outra vez por causa daquilo que estou a pensar! – arguiu numa voz aveludada de censura, o que a mim só me veio a garantir que eles já tinham discutido aquele assunto antes – Eu já sabia que isto ia acontecer, eu já sabia… Ela a mim nunca me enganou! 

- Mauro! – adverti-o no mesmo instante num tom repreensivo

- Mauro, o quê? É verdade! Quem engana uma vez, é capaz de enganar sempre! Só se quis aproveitar de um coração de manteiga como tu…

- Tem cuidado com o que dizes… Estás a falar da Joana, da minha namorada! – Ruben desprendeu-se da minha alçada e ergue-se do sofá de rompante, encarando o irmão num frente a frente, e ao vê-los começar a exaltarem-se um com o outro, um nó forte formou-se no topo do meu estômago

- Namorada? Essa é boa… Que tipo de namorada é ela para fugir pra Nova Iorque e estar três anos sem dar notícias? Que tipo de namorada é ela para te deixar uma segunda vez, nos Estados Unidos, e não te prestar cavaco?! Abre os olhos, puto, não sejas otário!

- Meninos, parem já com isso! – ordenei, tentando impedir que aquela troca de palavras mais acesa evoluísse para uma discussão séria

- E se eu quiser ser otário… Hum? Achas que é fácil para mim? Eu estou apaixonado por ela, será que tu não entendes isso?!

- Ruben… Eu já vos avisei!

- É assim que queres, não é? Então olha, deixa-te andar aí a chorar pelos cantos como tens feito nestes dias, deixa-te estar aí a sofrer… Sofre! Parece que até gostas…

- Tu não sabes do que falas, não sabes nada! - vi os olhos de Ruben encherem-se com novas lágrimas pela mágoa e revolta que o deviam estar a corromper por dentro, e nos seus punhos cerrados junto ao corpo, apercebi-me que ele fazia um esforço enorme para se controlar

- O que eu sei é que essa tipa não te merece, e não digas depois que eu não te avisei! Até logo, mãe! – deu-me um beijo na testa e sem dizerem mais nada um ao outro ele afastou-se, deixando-nos uma vez mais a sós com o bater da porta que anunciou a sua saída

- Não ligues ao teu irmão… Tu sabes que ele só disse aquilo porque está preocupado contigo e não gosta de te ver assim!   
  
- Não, mãe… Eu contive-me porque não quis dar parte fraca na frente dele, mas talvez o Mauro até tenha razão! – o seu corpo caiu pesadamente no centro do sofá e de novo uma avalanche de lágrimas apoderou-se do rosto do meu menino

Apesar de ter sido áspero com as palavras, Mauro não tinha intenção de o magoar, pelo contrário… Estava apenas a assumir as suas funções de irmão mais velho. Melhor do que ninguém ele vira-o sofrer há três anos atrás, quando aquele amor lhe tinha pregado uma rasteira, e agora, depois de todo este tempo, vê-lo na mesma situação era algo que a ele também o abalava. Ruben sempre fora aquele que conseguia elevar a moral e transmitir a sua alegria e boa disposição a qualquer um, até nos momentos mais difíceis, e aquela tristeza e sofrimento que não era habitual ver-se nele, desencadeou em Mauro o instinto defensivo sob o irmão. Sentei-me junto dele e tentei perceber que novos sentimentos o estavam a invadir.

- O que é que queres dizer com isso, Ruben?

- Quero dizer aquilo que é óbvio! Eu tentei, eu juro que nestes dias tentei descartar esta possibilidade, mas ela está tão clara… - ele olhou-me com os olhos raiados por uma vermelhidão e mágoa que doía – A Joana deixou-me…   

- Oh, meu filho, não digas isso… Isso não é verdade!

- É, mãe, é verdade! – a sua cabeça tombou sobre as suas mãos, e um novo tormento atracou a sua alma – Eu amo a Joana, mãe, eu amo-a tanto e ela deixou-me… Ela deixou-me… - balbuciou embalado por uma desconsolação infinita, num choro inquieto que lhe sacudia o peito em cada soluçar e me deixava com o coração nas mãos por não poder fazer nada que pudesse sossegá-lo, e livrar-lhe daquela dor que retomara então à sua vida




Queridas leitoras, aqui fica mais um capítulo!
Espero que gostem e não se esqueçam de deixar os vossos comentários! :)

Beijinhos,
Joana ♥