segunda-feira, 21 de abril de 2014

Capítulo 21 - Amor de perdição (Parte II)

Os ponteiros inflexíveis do relógio acabavam de bater as quatro horas da madrugada na vivenda Amorim. A casa era imperada por um silêncio e uma paz que antecipavam o retorno de um novo amanhecer, e todos os quartos se regiam à calmaria que lá fora era harmonizada pelo som da chuva a tombar sob os jardins exteriores e a cascar nas janelas, que então caía em mais uma noite de Inverno.
Todos pernoitavam em suas camas, todos descansavam aconchegados em sonhos serenos e vanguardistas, todos menos Joana, que aquando vitimada por uma noite agitada, lutou em conseguir adormecer e arrastar-se num sono contínuo nas horas seguintes, mas essa foi uma luta que perdeu e acabou por desistir. Levantou-se da cama que partilhava com Adriana, calçou os chinelos de quarto, vestiu o seu roupão e com a pouca luz que iluminava um recanto do quarto sublocado às meninas, guiou-se a alcançar a porta que se compunha meramente encostada.

- Mad’inha? – o sussurro mimoso da pequena Sofia, acabou por interromper-lhe a intenção de abandonar o quarto, por alguns instantes, e travando o corpo direccionou-o à cama onde a sua afilhada permanecia aconchegada em cobertores debaixo da alçada da mãe

- Sofiazinha… Acordei-te, amor? – perguntou-lhe num murmúrio sorridente e cauteloso a não despertar mais ninguém

- Não, eu já ‘tava aco’dada… Onde vais, mami? Já é hora de levantar?

- Não, amor, ainda é cedo… Podes voltar a dormir.

- Mas então vais onde? – na sua curiosidade permanente ainda de uma criança, Sofia apoiou o cotovelo no colchão e com a mão esfregou os olhitos ensonados de maneira a ter uma perspectiva mais clara e nítida da sua adorada madrinha

- Vou só à cozinha beber um copo de água, volto já.

- Quelhes que eu vá contigo? – questionou meigamente, deixando que ao mesmo tempo o cansaço predominasse em seu corpo fazendo a sua boca bocejar preguiçosamente

- Não, princesa, deixa-te estar e volta a dormir… A madrinha vem já. – ela aproximou-se do beiral da cama que pertencia à pequena, e voltou a agasalha-la entre os lençóis que subiu até entalá-los entre o queixo e o pescoço de Sofia – Dorme, está bem?

- Sim… - ela não ofereceu resistência e voltou a fechar os olhos enquanto sentia a sua franja ser carinhosamente desviada e os lábios de Joana beijarem-lhe a testa pequena – Estou muito feliz por estares aqui, mami… Comigo, com a avó Bela, com o pad’inho…

- Eu também estou feliz por estar aqui, bonequinha… contigo.

- E com o pad’inho também, num é?

- Sim… E com o padrinho também. – sentido que o seu padrinho fora subtilmente excluído do plano de família que emoldurava um quadro feliz naquela semana, Sofia assegurou-se de que a felicidade da sua madrinha passava também pela presença de Ruben, que secretamente ela desejava poder ver romanticamente unida à de Joana

Joana beijou-lhe uma vez mais a bochecha rosada, alinhou os cabelos que lhe escondiam a face, e foi então que predispondo-se ao máximo silêncio que abriu passagem pela porta opaca de carvalho e abandonou o quarto, deixando-o permanecer envolvido pela noite que o adormecia. Vagueou pelo corredor e não pôde deixar de olhar as portas dos outros quatros que se predispunham nas laterais, algumas fechadas, outras apenas recostadas, mas foi unânime o silêncio e a passividade que se sentia vinda de todas elas, e por isso esforçou-se em não provocar qualquer ruído que denunciasse as suas insónias e a sua consequente visita nocturna à cozinha.
Soltou-se da escadaria que a levou ao andar inferior e em passos ligeiros alcançou a divisão que tinha demandada em mente, apenas em segundos. Desvalorizou o interruptor da luz, pois a que era projectada dos candeeiros do corredor, os quais permaneciam sempre ligados durante a noite, permitiam-lhe visibilidade suficiente para que se pudesse mover junto da bancada principal. Do armário superior recolheu um copo de vidro e directamente do frigorífico o pacote de leite, que jorrou para o copo. Alcançou uma cadeira de pé altivo da bancada e sentou-se, perdendo-se em minutos num debate interior do maior dilema da sua vida O bebé que tinha para cuidar gerado pelo amor que não voltaria a ter.

- Desculpa, não te queria assustar… – perdoou-se imediatamente a figura masculina que inesperadamente transpusera a entrada da cozinha e accionou as luzes, fazendo-a estremecer num sobressalto

- Não… Tudo bem… - ela girou sob a cadeira e traída por uma expressão nervosa que lhe dominou cada gesto corporal, encarou Mauro, que provavelmente e tal como ela, se deparara com a mesma dificuldade em conseguir dormir – Vim só beber um copo de leite, já estou de saída! – sentindo-se como se lhe devesse alguma explicação, a ex-namorada de Ruben pegou no seu copo e num pulo saltou da bancada, quando ele já espreitava o interior ao frigorífico

- Não precisas de sair por minha causa. – proferiu sinceramente, olhando-a acima do ombro e detendo para si a razão do desconforto que ela sentia em estar ao pé dele

- Não é por tua causa… – Joana retraiu-se levemente no seu próprio corpo, mas a evidência da sua hesitação acabou por denunciá-la

- Joana, tu nem sequer acabaste de beber o leite! Fica… por favor. – ao contrário do temperamento austero e desagradável que mostrara para com ela naquela noite na discoteca do Algarve, e na chegada tardia à vivenda da família, ao contrário do que se estaria a contar, Mauro encontrava-se então mais calmo e passivo, indisposto a suscitar mais conflitos entre eles, e quem sabe talvez criar espaço para abrir mão a possíveis tréguas

Ela ficou surpreendida ao ouvi-lo e não o escondeu. Sentiu-se brandamente mais segura por ver que não iria ser alvo de injúrias ou reprimendas por parte do lado mais insensível e protector que Mauro fazia recair sobre o irmão mais novo, mas também sabia que não poderia confiar nos seus instintos, e até voltar a sair daquela cozinha e resguardar-se nas cobertas da sua cama, tudo poderia acontecer. Contudo, e movida por algum esforço interior, desfez o caminho que a levava até ao lava-loiças e mudou de ideias que a obrigavam a despejar o leite pelo ralo, sair dali e regressar ao quarto, tendo ao invés voltado a seguir para junto da bancada onde tomou o seu lugar de início.
Por outro lado, e visivelmente bem mais à-vontade que ela, Mauro retirou do frigorífico um bolo de chocolate caseiro que Joana calculara de imediato ter sido confeccionado tradicionalmente por dona Anabela e que sabia Ruben tanto adorar… Essa memória fê-la sorrir subtilmente, o mesmo sorriso que depois se desfez quando o viu ameaçar o seu perímetro de segurança e aproximar-se. 

- Posso? – perguntou cautelosamente para não a afugentar, esperando poder tomar lugar ao lado dela também na bancada

Joana apenas conseguiu consentir numa breve oscilação da cabeça, viu-o sentar-se ao seu lado e não foi capaz de controlar a breve contracção composta por todos os seus membros que a fizeram encolher-se no pequeno espaço que ocupava na cadeira giratória.
Mauro apercebeu-se do desconforto subjugado que a sua presença e aquela sua proximidade comprimiam sobre ela, no entanto disfarçou e tentou amenizar o ambiente com uma oferta amigável que porém educadamente, foi recusada a fatia de bolo que Joana não aceitou. Ficou-se apenas pela digestão do leite que, tal como reflectiu ela, quando mais depressa fosse ingerido, mais rapidamente poderia jogar o seu bilhete de saída que a levaria de volta ao quarto.  

- Insónias? – inquiriu, olhando-a num soslaio breve e muito pouco evasivo

- Sim… - podia ter-lhe mentido e inventado uma desculpa qualquer, e ele não iria insistir porque no fundo conseguia calcular o quão doloroso estaria a ser para ela ter de viver debaixo do mesmo tecto que o seu irmão e vir a ser testemunha dos laços matrimoniais que iriam unir a vida dele à de outra mulher, mas Joana optou por ser franca e dizer o que era realmente verdade, independentemente das conclusões que Mauro pudesse tirar – … E tu... também não consegues dormir?

- O Gabriel acorda-me de meia em meia hora, então…

O silêncio inócuo chegou cedo e adveio de ambas as partes quando nenhum assunto que parecesse ser-lhes comum, surgia nas entrelinhas para que fosse discutido, ou então havia de facto assunto e o que não havia era coragem para que fosse manifestado.
Foi somente ao fim de algum tempo, num suspiro de rendição e peso de consciência que o fez falar, a ele, de modo a colocar de uma vez por fim os pontos que durante uma instância demasiadamente longa tinham faltavam aos i’s, fazendo Mauro esvaziar o peito inchado pelo orgulho que carregava há meses, e chegar-se à frente.

- Olha, Joana, eu sei que já é tarde para arrependimentos e desculpas, e estás no teu direito se não me quiseres ouvir, mas eu gostava muito que me desses uma oportunidade para me explicar… - as suas palavras ficaram cravadas pela ausência do olhar que ele não teve intrepidez de prender ao dela, e por isso aguardou-lhe unicamente por uma reacção

- Estás a referir-te a quê? – Joana sabia ao que Mauro se referia, e ele sabia que ela sabia, mas o medo de tocar na ferida que se mostrava difícil de sarar e ao fim de tanto tempo ainda ardia ao toque do dedo, fê-la proteger-se numa ignorância invocada

- Tu sabes o quero dizer e onde quero chegar, e ouve, vamos deixar-nos de rodeios, de meias palavras, e chamemos as coisas pelo que são…

- Mauro, não temos que fazer isto…

- Temos, é claro que temos! – discordou totalmente com uma firmeza irredutível a projectar-lhe a voz, desta feita sem temer encará-la – Somos dois adultos, apesar de não o sermos mais, já fomos muito amigos e não podemos deixar que mal entendidos e desacertos nos façam olhar de lado um para o outro de cada vez que nos cruzamos!

- Mal entendidos dos quais tu recusaste ouvir uma explicação da minha parte! – relembrou numa asseveração traçada pela dor de não ter sido compreendida, provavelmente por uma das pessoas de quem julgava ser das primeiras a prestar-lhe apoio aquando lhe foi mais preciso

- Eu sei, e tens todo o direito em estar magoada comigo… Eu não te quis ouvir e fui demasiado precipitado em todas aquelas acusações que te fiz, fui injusto, mas tenta compreender um pouco o meu lado…

- Tal como tu tentaste compreender o meu? – contrapôs numa ironia francamente dolorosa e então todas as emoções, de mansinho, começaram a despertar-se em seu peito para mais tarde virem a ser expressadas naquele ajuste de contas – Esquece, Mauro… O melhor é deixarmos ficar as coisas como elas estão, isto não nos vai levar a lado nenhum. – ela pulou para fora da bancada disposta a não erguer os destroços que haviam restado entre eles, mas Mauro não estava disposto a deixar uma vez mais as pontas soltas e insistiu a um confronto

- Era natural que eu saísse em defesa dele depois de o ver da maneira que vi… completamente de rastos, novamente a sofrer… E mais uma vez por tua causa! – referiu, girando a cadeira para colocar-se à frontaria dela e olhá-la sem restrições, a figura hirta e imóvel  da mulher que julgara ver um dia subir ao altar ao lado do seu irmão mais novo – O Ruben é o meu irmão, Joana… Ele é o meu irmão e eu tinha de ficar do lado dele!

- O Ruben é o teu irmão e eu era tua amiga, e os amigos tentam compreender-se uns aos outros quando algo deixa de funcionar, e não foi isso que tu fizeste, Mauro… - arguiu numa rajada intempestiva que tomou caminho para fora dos seus lábios – Tu simplesmente recusaste-te a ouvir o outro lado da história e defendeste o lado que te dava mais jeito protegeres… Preferiste manter-te na tua zona de conforto, a dares-me uma oportunidade de me redimir!

Mauro recebeu cada acusação sem sequer fazer o esforço de as negar. Joana continuava magoada e ressentida com as atitudes repulsivas dele e apesar de ter considerado que o tempo fosse o factor dominante que fosse capaz de apagar esses sentimentos cepticistas, agora novamente confrontada por eles, não conseguiu deixar de demonstrá-los perante o homem que ali reafirmava a sua posição na tentativa de se remir com um pedido de perdão que merecia ser discutido.

- Desculpa ter-me comportado contigo do jeito que me comportei, fui uma besta quadrada e tu não merecias, desculpa… - a sua voz tocou facilmente o fel de misericórdia e no seu interior guardou o desejo que tinha em vir a ser perdoado, sentia-se verdadeiramente arrependido pelo impulso das suas acusações e finalmente tinha tomado coragem de reparar o seu arrependimento

- Ainda achas que abandonei o Ruben?

- Não… - decretou no escape de um sussurro, deixando verter a cabeça para a frente e os olhos descaírem no pequeno prato onde depenicava a fatia de bolo que agora já não tinha tanto apetite para comer – Deves ter tido os teus motivos para não teres voltado com ele de São Francisco, mas voltaste… Procuraste-o, tentaste resolver todos os mal-entendidos… Só lamento que as coisas não tenham resultado entre vocês.

- Não há ninguém que lamente mais isso do que eu… - o fácies seguro e sereno que com algum esforço tinha conseguido manter até então, vacilou, dando lugar a uma expressão mais entristecida e funesta que pretendeu disfarçar ao máximo, porém não ficou indiferente aos olhos dele – Mas o que interessa agora é que ele soube refazer a sua vida… Vai casar e está feliz! É só isso que importa.

“- Não está tão feliz como quando estava contigo” – Mauro depressa emendou a afirmação que ouvira, nos seus devaneios interiores que achou por bem não partilhar com Joana… Melhor do que ninguém ele conhecia Ruben, frente e verso, e inquietava-o ver que a felicidade do mano deixara de ser a mesma a partir do momento em que vira morrer uma história de amor que não conhecera o seu final mais feliz.

- Ainda gostas do meu irmão? – não pretendeu ser tão frontal e invasivo, mas a verdade era que não havia outra maneira de a abordar, e no entanto não deixou de recear a reacção dela ao passo de ter insistido

- Mauro, não… Não vamos falar sobre isso… - sem dar chance a que aquela conversa fosse travada entre eles, Joana anuiu a si mesma a capacidade de resposta que a poderia arrastar a qualquer situação de desconforto

- Ainda amas o meu irmão, não amas? – por sua vez ele mostrou-se persistente em arrancar uma resposta não mais do que sincera que somente ela lhe podia dar, e por isso voltou a insistir, levando o seu corpo a assumir a mesma posição no instante em que o ergueu e o colocou diante do dela – Diz-me…

- Oh Mauro… - quando os seus joelhos começaram a tremer pela falta de coragem em dar-lhe uma resposta, tornou-se inevitável tentar fugir àquele confronto, tanto quanto se tornou fatal conseguir contorná-lo de maneira a sair ilesa

- Podes dizer a verdade, Joana… Eu não te vou julgar independentemente da resposta que deres, e ele não está aqui para nos ouvir, aliás, não está aqui mais ninguém para além de nós… - argumentou certeiramente, deambulando uma passagem solene do olhar que vagueou por todo o espaço da cozinha, que tal como ambos sabiam, se encontrava não mais do que preenchido por apenas duas presenças – Podes deixar o teu coração falar!
    
E podia, realmente. Algo dentro de si dizia-lhe que podia confiar em Mauro e sabia que tudo o que pudesse ser dito ali, permaneceria em pacto de silêncio entre eles e entre aquelas quatro paredes, mas nem era tanto essa questão que a atormentava, a questão de deixar o seu coração falar e mais alguém ouvir… Era sim o medo de ter de tocar novamente aquela dor, de reviver a mágoa pelo sentimento do homem que mais amava no mundo, não ser igualmente correspondido, do peito a rasgar-se em mil e uma angústias e alapar os sentimentos que durante tanto tempo se vira obrigada a enfraquecer e superar.
Foi então que contra todo o esforço de não se deixar derrubar pelo seu autocontrolo, que este quebrou em pedaços deixando-a a chorar… Trazer de novo ao de cima o seu lado mais humano e sofredor, e lavar-se em lágrimas aquando as palavras pareciam não ter mais sentido aquando pronunciadas.
Mauro, no seu canto, contorceu-se de pena ao vê-la naquele estado, mas não hesitou por um instante a tentar consola-la. Sabia perfeitamente que não podia ocupar o lugar de Ruben, o espaço vazio que ele lhe deixara na alma e no coração, porém estava disposto a fazer tudo o que encontrasse ao seu alcance para, pelo menos, tentar amenizar aquela dor e torná-la mais pequenina e suportável. E por mais surpreendida que tivesse ficado por aquele gesto inesperado de apoio e amizade, Joana não estava em posição de recusar a confortação que o irmão do seu antigo mais-que-tudo usou para ampará-la. Aqueles braços robustos e complacentes envolveram-na numa remissão de carinho e cumplicidade que a fez sentir-se finalmente em casa.

- Desculpa ter falado sobre aquilo… Não devia ter dito nada, desculpa… - arrependido, ele perdoou-se numa interjeição calmante burburada ao ouvido dela, enquanto ainda a acalmava num embalo sereno e aconchegante

- Estou tão cansada, Mauro, tão cansada… - balbuciou segundos depois, dolorosamente, enquanto o seu peito era sacudido em soluços desapaziguados pelo choro descontrolado – Sinto tanto a falta dele! Porque dói saber que ele tem outra pessoa, e a faz sentir tudo o que eu sinto… Porque estou cansada de fingir que é passado, de fingir que não o amo mais, quando eu dava tudo para voltar a tê-lo comigo.

Por mais vontade que tivesse tido, Mauro não voltou a impor discurso algum. Sabia que naquele momento as palavras seriam jorradas a marés revoltas que não iriam remediar a situação, praticamente incontornável, e por isso só as atitudes contavam. Joana precisava apenas de se sentir protegida e compreendida por alguém, e em todo o tempo, ele comportou-se exactamente à medida do que era preciso.
Alguns minutos após, quando enfim as lágrimas cessaram nos trilhos golpeados do seu rosto frio e a madrugada lhe ouviu apenas um lacrimejar breve e descensional, Mauro levou-a calmamente de volta para o quarto, que só abandonou ao certificar-se de que ela regressara à cama onde repousava Adriana e dera conta do seu regresso, porém, nada lhe disse.
Envolvida entre afogos e desgostos, Joana passou o resto de uma noite desassossegada, que somente findou à chegada de um novo amanhecer.




***

   


Passava pouco mais das nove horas da manhã, quando Adriana despertou de um sono que levara o seu seguimento natural durante toda a noite, e ao olhar o relógio do seu telemóvel de relance, não pôde evitar a surpresa pela quantidade de tempo que tinha dormido e a qual estranhou visto que fora desde sempre uma madrugadora por natureza.
Olhou o seu lado esquerdo da cama e viu Joana que ainda pernoitava, tão passivamente que seria difícil a quem a contemplava daquela maneira, imaginar todas as dificuldades e sofrimento que ela travava todos os dias da sua vida. Não foi capaz de lhe roubar aquela paz – efémera ainda assim – e acordá-la, e portanto deixou-a a dormir, levantando-se então para tomar um duche rápido e vestir-se para descer, já que todas as meninas haviam despertado e abandonado o quarto há já alguns momentos.

- Ei, Adriana… - quando cruzava o último corredor que antecipava a escadaria para o rés-do-chão, o seu percurso foi interpolado pela voz de Mauro, que vindo mais atrás deu uma corridinha leve para a alcançar – Bom dia!

- Olá, bom dia! – com a simpatia e sorriso constante nos lábios, ela saudou-o de igual forma ociosa e gentil logo que o amigo chegou junto a si

- Queria perguntar-te pela Joana, ainda não a vi hoje… Sabes se ela está bem?

- A Joana…? Porque razão ela não haveria de estar bem? – crispando a sobrancelha num só movimento solene e robusto, Adriana procurou nele uma explicação sintetizada daquela pergunta que não esperava de todo ouvir-lhe da boca, quando sabia bem da relacção que os dois travavam desde o regresso dela à vida de Ruben

- Adriana, vá lá… - numa expressão detentora da verdade, a sua cabeça descaiu brevemente acima do ombro, e um pequeno sorriso dominador fez-se surgir em seus lábios – Eu sei de tudo… Nós ontem estivemos a falar, resolvemos tudo o que tinha de ser resolvido e estamos bem. Ela contou-me… Eu sei…

- Ela contou-te? Ela contou-te o quê? Tu já sabes? – inquiriu imediatamente e num jeito meio desordeiro, julgando por momentos que toda aquela conversa se aludia unicamente a um assunto, num momento de confissão partilhado somente a dois, achou Joana ter levantado o véu do seu segredo também a Mauro, tendo-lhe revelado a sua gravidez

- Eu sei que a Joana ainda ama o meu irmão, que continua apaixonada por ele… Não é a isso que estás a referir?

- Sim, é! Claro! É exactamente a esse assunto que eu me estava a referir… - no último segundo de deitar tudo a perder e falar mais do que devia, ela conseguiu reatar o pequeno mal-entendido que havia feito para consigo mesma, levando-a a baixar o queixo e enterrar subtilmente as mãos nos bolsos das suas skinny-jeans que lhe adornavam vigorosamente as pernas

- Também sabias disto, hum?

- Acho que sempre soube… A Joana nunca deixou de amar o Ruben, nem ao fim de três anos, nem mesmo agora.

- Achas que ela vai conseguir levar com isto até ao fim?

- E vê-lo casar com outra mulher? – o seu olhar procurou de passagem um consentimento de Mauro à sua interjeição, levando-a a responder-lhe quando lhe viu um aceno reticente de alguém que procurava uma franca opinião – Não sei, Mauro, sinceramente não sei… É difícil de dizer. A Joana está de rastos, está magoada e a sofrer por um amor que não vai ter de volta… Se ela conseguir acompanhar o Ruben até ao altar e vê-lo casar com a Inês, então não há nada nesta vida que ela não consiga fazer!

- E onde é que ela está agora?

- No quarto… Ainda ficou a dormir.

- Então vamos deixá-la descansar… É melhor aproveitar todos os momentos que tem para fazê-lo enquanto estiver nesta casa. – revelou num tom de modesta compreensão, como que adivinhando todas as pequenas bombas que iriam detonar ali entre o seio da família e amigos, durante os próximos dias – E nós? Vamos descer para o pequeno-almoço?

- Hum, hum… Vamos! – concordou ela, ladeando-se um ao outro para retomarem o percurso descendente no sentido das escadas, e ir ao encontro da primeira refeição do dia que já havia sido servida na sala de jantar

- Só espero que o meu irmão não esteja a cometer o maior erro da vida dele… - a meio do caminho e antes de se reunirem com os outros, ainda houve tempo para um desabafo que foi acordado por ambos

- É o que esperamos todos, Mauro… É o que esperamos todos.

Nenhuma outra palavra foi acrescentada e aquela conversa findou-se por ali mesmo quando ambos entraram na sala e agiram como se tivessem visto pela primeira vez naquela manhã. Numa saudação geral que foi retribuída, eles separaram-se ao contornar os lados opostos da mesa e juntaram-se aos amigos, que já tinham iniciado a refeição há alguns minutos.

- Isso hoje é que foi dormir! – debitou Ruben fitando o irmão, numa boa disposição que já era muito habitual nele até pela manhã

- Quando tiveres um bebé que passa a noite mais acordado do que a dormir, falamos, está bem? – partilhando do mesmo sentido de humor, Mauro não tardou em responder-lhe à letra e mandar-lhe a dica, que foi apaziguada pelo comentário de Adriana

- Hoje dormimos todos até mais tarde…

- Ué, e cadê a Joana? ‘Tá faltando aqui… - não fora somente David que dera pela ausência da madrinha do noivo na mesa, porém foi o primeiro a pronunciar-se sobre esta

- Quando saí ela ainda ficou no quarto a dormir… - a sua namorada respondeu-lhe carinhosamente, onde sentada a seu lado jorrava para a chávena uma pequena porção de café bem forte que viria a acompanhar habitualmente uma torrada

- Então alguém devia ir chamá-la para vir comer. – sugeriu Ruben descontraidamente, calculando para si, caso ninguém se oferece-se, ir ele mesmo até ao quarto e talvez, só talvez… despertá-la

- Eu posso ir lá…

- David, senta-te. Ninguém vai acordar a Joana. – proibiu calmamente Mauro, o voluntarismo para o qual David se havia disponibilizado

- Que conversa é essa, mano? Ninguém vai chamar a Joana porquê?

- Porquê irem acordá-la? Se ainda está a dormir é porque deve estar cansada… Deixem-na estar. – recorrendo à salvaguarda da agora recuperada amiga, enquanto barrava uma pequena dose de manteiga na sua torrada, Mauro respondeu à surpresa do irmão que este não se esforçou minimamente em disfarçar

- Sim, quando ela tiver fome, ela desce. – foi Adriana, que numa entrada sorrateira e muito discreta, apoiou a sentença do irmão de Ruben, trocando com ele um olhar cúmplice logo após

- Mesmo assim… Mais daqui a pouco é hora do almoço, continuo a achar que alguém deveria ir lá.

- Não sejas chato, puto… Isso incomoda-te assim tanto? Logo tu que não ligas nenhuma a horários e comes de cada vez que tens fome! – com aquela riposta certeira, Ruben não teve coragem para voltar a abrir a boca e comentar aquele assunto, deu um gole no sumo de laranja natural e terminou o seu croissant caseiro que detinha na mão

- Hum, tô lembrando agora… - iniciou Brenda, voltando a falar de Joana – Dei conta d’ela ficar correndo pro banheiro algumas vezes essa noite, acho que ouvi ela vomitando… Será que aconteceu alguma coisa? Estará doente?

- Doente?! – o sentido de alerta de Ruben deu o disparo imediato ao ouvir a conclusão da mãe da sua afilhada, levando-o a colocar as mãos sobre a mesa a fim de se erguer e ir com os seus próprios olhos averiguar o que podia estar errado com a – sempre sua, menina – É melhor eu ir ver o que se passa!

- Deixa-a estar, Ru! Quando saí do quarto ela parecia-me estar bem… Com certeza deve ser só cansaço. – desviando a atenção a outros pormenores que até mesmo Mauro desconhecia, a companheira de David esforçou-se por acalmar a preocupação do melhor amigo e não levantar suspeitas que pusessem em risco o segredo da gravidez de Joana – Se precisar de alguma coisa, ela diz-nos.

- Claro, até parece que não a conheces, Adriana! – ripostou ele imediatamente, numa entoação que o relembrou da teimosia e orgulho que Joana portava ainda na bagageira da sua personalidade latente

- A Adriana tem razão, amor… - Inês, que por seu lado não estava a gostar de ver o noivo mostrar perante todos ter aquela preocupação e interesse pela saúde e bem-estar da antiga namorada, esforçou-se em desviar-lhe a atenção e mantê-lo afastado do alcance indesejado de Joana – Não dever ser nada demais, deixa-a estar.

A partir daquele instante o comportamento de Ruben alterou-se tenuemente, deixando-o mais comedido e secretamente sobressaltado com o que pudesse estar a acontecer com a mulher que ainda fazia o seu mundo tremer. 
Apesar de não se ter mostrado mais disposto a contrariar os conselhos dos amigos e permanecer na mesa para terminar o pequeno-almoço, foi impossível desligar-se do seu coração que o relembrava constantemente da pessoa mais importante da sua vida que tinha para cuidar.




***




No quarto do piso superior, Joana, que já havia despertado, olhava absortamente pela janela o horizonte obscurecido e cada vez mais destituído pelo temporal que se desvendava na sua linha, e que, assim que chegado, prometia imperar-se ali dia e noite dentro. Um arrepio torneou-lhe espinha ao ver a luz vertiginosa de um relâmpago que caiu, seguida de um estrondo oco das nuvens que se cruzaram lá ao longe e a fizeram voltar a afastar-se da janela para regressar à apatia e solidão do quarto que só a tinha a ela.
Os enjoos matinais haviam-lhe roubado a última hora de sono, e tornara-se impossível voltar a conseguir dormir, até porque já era tarde e a última coisa que queria era ter alguém a questionar-lhe a sua ausência demorada.
Envergando ainda somente no corpo o pijama, arrastou-se nos seus chinelos até à casa de banho e entre um banho quentinho e regenerante, preparou-se para regressar para junto dos amigos… e daqueles que não o eram.

Com uma roupa quente que despistava o frio, ela arranjou o cabelo de num jeito muito natural e optou apenas pela maquilhagem mais básica e a necessária ao disfarce das horas mal dormidas.
Antes de deixar o quarto não evitou uma auto-reflexão que digitava todas as tormentas as quais não queria passar, bem como a longa jornada que teria de sobreviver até à promessa de união eterna e da troca de aliança entre os noivos.
Olhando-a meigamente, Joana acariciou a sua barriguinha com o todo carinho do mundo, agarrando-se à maior e única esperança de felicidade que iria ter: o seu filho.

- Não se esqueçam de que amanhã temos o ensaio geral da cerimónia, lá fora no jardim! – a voz de Inês que formulava um relembrando geral, tornou-se inconfundível aos seus ouvidos no atravessar do corredor, já aquando rumava à sala de estar onde todos permaneciam reunidos num ambiente pleno de descontracção

- Vamos ver se têm sorte com o São Pedro… Vem aí um temporal daqueles!

- Ai Nuno, não agoires tu também! Já basta o quão nervosa estou com os três dias que faltam! – junto ao quentinho da lareira, o casamento de Ruben e Inês tornara-se no assunto-rei entre conversas distribuídas nos sofás ocupados, mas rapidamente estas foram interrompidas e ficaram suspensas com uma chegada já muito aguardada

- Bom dia a todos! – numa interjeição geral, Joana saudou todos os presentes no aceno de um sorriso ligeiro que foi igualmente retribuído por aqueles que a viam pela primeira vez naquele dia

- Joana, filha… - assim que a viu, o coração preocupado de mãe de Anabela deu sinal e fê-la ir ao encontro daquela que consideraria sempre com uma filha, procurando assegurar-se de que nada de errado estava a acontecer com ela – Já estávamos a ficar preocupados contigo… Não vieste tomar o pequeno-almoço connosco, nunca mais descias…

- Desculpe, Dona Anabela, não queria ser motivo de preocupação, mas como não passei muito bem a noite, aproveitei agora para tentar dormir mais um bocadinho… - omitindo em alguns factos, desculpou-se com a primordial intenção de vir a ser perdoada não só pela mãe de Ruben, que segurava a sua mão meigamente, mas também por aqueles com quem travava uma amizade plenamente fiel e verdadeira o suficiente que os levasse ao estado abrupto de preocupação

- Não passaste bem a noite? Mas aconteceu alguma coisa?

- Não, não aconteceu nada, não se preocupe… Está tudo bem. – um sorriso delicado e amenizador, surgiu na superfície dos seus lábios levemente pintados, aquando os seus olhos correram ao desejo de procurar aquele por quem o seu coração chamava, mas voltaram desiludidos – ou talvez até aliviados – a fitar a alçada de Dona Anabela que se mantinha na sua frente, quando reparou na ausência dele naquela sala

- Então vai comer… Eu vou já dizer à Glória que te prepare qualquer coisa!

- Não é preciso, deixe estar… Eu não estou com muita fome. – quando a anfitriã da casa se preparava para rumar até à cozinha a efeito de demandar à empregada o preparo da refeição para Joana, esta apressou-se a travá-la, pois o seu estômago ainda frágil não invitava a pequenos-almoços

- Não estás com fome? Mas tens de comer qualquer coisinha, filha… Não podes andar sem nada na barriga até ao almoço, não te faz bem…

- Eu sei, Dona Anabela, mas não estou com muita disposição para comer… - os dedos frágeis da avó do seu bebé, traçaram-lhe delicadamente os contornos do rosto, e foi fácil para ela notar que algo não estava bem com Joana… o seu olhar triste, o sorriso apagado, Anabela sabia que aquela melancolia tinha um nome, mas sabia também que não estava nas suas mãos fazer alguma coisa que viesse remediar a situação

- Pronto, sendo assim eu também não te vou obrigar… Mas pelo menos toma um café, estás com uma carinha…  

- Café agora não convém por causa do neném, né? – comportando-se como se não houvesse mais ninguém na sala, David olhou Joana do sofá onde estava sentado e colocou-lhe uma simples questão que viria a por em risco todo o secretismo envolto na gravidez, obviamente que não o fizera por malícia, mas sim por puro descuido… um descuido que viria a sair demasiado caro

Por instinto Adriana fulminou o namorado com o olhar, gesto que o fez cair de novo em si e aperceber-se de que tinha esticado demasiado a corda e ultrapassado o limite, e então, por parte de todos os que o ouviram falar, instalou-se um silêncio profundo e constrangedor, mergulhando toda a sala numa introspecção duvidosa que colocara os olhos postos em David na procura por um esclarecimento, esclarecimento esse que foi apenas adiado pela chegada de Ruben, que nesse momento irrompeu descontraidamente pela sala depois de ter ido atender uma chamada, e ficando inicialmente à margem da revelação que estava prestes a acontecer.

- Neném? Que neném, David? – vendo que o noivo se aproximava para se sentar junto a si ao sopé da lareira, Inês foi a primeira a procurar por respostas a um comentário que ninguém havia percebido, porém esse facto estava prestes a mudar

- Neném? Eu… eu não falei em neném… - visivelmente nervoso, David ajeitou-se no sofá, coçando a farta cabeleira num gesto claro de agitação, enquanto procurava mentalmente uma maneira de resolver a trapalhada onde sem intenção, se havia metido

Joana mantinha-se hirta na alçada da mesinha de apoio ao centro da sala, completamente petrificada, regelada com a sucessão de acontecimentos que não esteve em seu poder conseguir travar. A cada segundo corrido, o seu pequeno coração assustado batia com mais intensidade dentro do peito, deixando-a sem folgo e arrancando-lhe brutamente o chão debaixo dos pés. Corrida a suores frios por todas as extremidades do corpo, uma fina névoa de pânico pairava sobre a sua cabeça e uma vontade demente de chorar fazia-a apertar com força uma mão na outra, enlaçando e desenlaçando os dedos de um jeito frenético e totalmente desorientado, de modo a contrariar essa vontade. O que durante quase três meses tentara esconder de tudo e de todos, havia-se exposto agora numa fracção de segundos, sem intenção, sem consciência, sem qualquer aviso de preparação… um deslize! Um deslize que ali podia deitar tudo a perder.
Nunca Joana sentira tanto receio na sua vida, e nunca Ruben estivera tão perto de descobrir a verdade. 

- É, eu também ouvi… - apoiando-se na incerteza da futura cunhada, também Mauro incitou David, apenas por uma questão de curiosidade – Que história é essa, puto?

- Não é história nenhuma, gente! Eu só disse “agora não convém”, e depois… eu parei de falar, ué! Disse mais nada não.

- David, não inventes… vá lá! Acho que ouvimos todos quando tu te referiste a um bebé. – aludiu ele novamente, levando a conversa agora mais para a sector de brincadeira

No meio de todo aquele aparato, Ruben – que entretanto recebera a sua pequena afilhada em seu colo –, mantinha-se no seu canto apenas como um mero espectador, sem perceber ao certo o que se estava a passar, e muito menos conseguir interligar os pontos soltos que ia ouvindo, a um tema contextualizado que o levasse a também debitar sobre o assunto. Ao invés disso aproveitou a distracção de todos os restantes olhares, que então se haviam concentrado em algo que ele próprio até ao momento não conseguia atingir, e admirou discretamente embevecido a figura saudosa de Joana que se mantinha perfeitamente erguida na sua frente, aliviando-lhe a tensão e o desassossego de ainda não a ter visto. 
Admirou-a e reparou no quão naturalmente bonita ela estava naquele dia, não que não estivesse nos outros, mas particularmente naquela manhã Ruben achou-lhe um encantamento e um brilho que não lhe desvendou na noite passada e esse facto deixou-o a sorrir por dentro, como se o que procurara durante tanto tempo estivesse finalmente ali e o completasse. Em contrapartida, e sob razões e motivos que a ele lhe passavam ao lado, ela não o olhou, nem num pequeno relance que fosse, no medo de tombar numa armadilha que já tinha sido armada e ceder a um estado inconsolável que a incitava a fugir para bem longe e não deixar qualquer rasto que denunciasse o seu escape… Porque na verdade era só nisso que Joana conseguia pensar naquele momento: fugir.

- Diz qualquer coisa, fala… Ou o gato comeu-te a língua?

- Inês, não insista… Eu, ah… eu… - procurando respostas no olhar assustado da amiga que também o olhava, David esperou que fosse Joana a dizer alguma coisa e aliviá-lo de toda aquela tensão que morosamente ele não estava a saber mais como lidar

- Dê, não digas mais nada, por favor. – foi Adriana que lhe pediu num sussurro solto junto do ouvido, e colocando-lhe cuidadamente a mão sob a perna

- Alguém é capaz de me explicar o que se está a passar aqui? – querendo também fazer parte da conversa, Ruben intersecto-a de fisgada, com um sorriso de ignorância patente no rosto que nunca o levaria a considerar o factor crucial que a sustentava – Do que é que vocês estão a falar, afinal?

- É… Eu também não entendi direito, mas talvez a Joana queira partilhar alguma coisa com a gente… - incitou a querida Brenda sorrindo, prosperando a chegada de uma boa notícia que não calculou não vir a ir cair nas boas graças de todos, assim que anunciada 

Foi a gota de água para todo o silêncio que Joana mantivera durante quase três meses. Foi o fim. Não havia volta a dar, não havia como continuar a ocultar o que dentro de poucas semanas se tornaria inocultável e evidente aos olhos de todos.
As suas pálpebras uniram-se num simples cerrar de olhos derrotado que lhe tapou a visão perfeita que tinha dos seus amigos, e então todo o seu mundo conheceu o seu avesso. Era incalculável a luta interior que o seu pobre coração travava para continuar a bater, menos aos olhos da sua incansável amiga Adriana, que naquelas circunstâncias não prescindiu do apoio que teria de lhe prestar, e erguendo-se do sofá num movimento cordial e singular, aparou os destroços do seu corpo que mal sustinha as forças que o mantinham em pé. Meigamente, ela contornou-lhe os ombros com o braço e apertou-a contra si, demonstrando-lhe que não a deixaria cair e fracassar, provavelmente no momento da sua vida em que mais precisava ter alguém do seu lado.
Foi natural perceber que Joana tinha um nó formado no topo da garganta e a robustez e a coragem abandonaram-lhe a vitalidade para que conseguisse falar, e por isso Adriana achou por bem ser ela a dar o passo decisivo que ali iria mudar vidas… duas, pelo menos. Chegara a hora de quebrar o pacto de silêncio e deixar os acontecimentos advirem por si mesmos.
                                                             
- De uma maneira ou de outra, mais tarde ou mais cedo vocês iriam acabar por saber, por isso acho que já não faz sentido continuar manter o segredo… - iniciou a namorada de David olhando segura e confiantemente Joana nos olhos com um sorriso doce nos lábios torneados, incitando a um comunicado geral que perquiriu pela atenção de todos para o centro da sala

- O que é que se passa, Adriana? – com aquela introdução feita pela melhor amiga, foi impossível os sentidos de Ruben não se sentirem ameaçados com o que estaria para vir, ainda assim esforçou-se por se manter calmo, afinal a sua noiva permanecia sentada a seu lado e a pequena Sofia acolhida no seu colo

- A Joana está à espera de bebé. – os seus lábios gesticularam as palavras cuidadosamente escolhidas, que foram lançadas ao olhar directo de Ruben que Adriana não temeu em lançar-lhe, como se, por pura ironia e propósito, estivesse a falar unicamente para ele

- O quê? Tu estás… Tu estás grávida? – passados alguns segundos que se haviam condenado ao mutismo colectivo, de olhos completamente arregalados, a boca oval de Mauro expressou perfeitamente o espanto e a surpresa que caíram sobre si com aquela novidade… e não foi o único a sentir-se da mesma maneira

Apesar da reacção inicial à mais recente boa-nova ter sido repartida por todos de forma idêntica, cada um teve a sua maneira de reagir perante o sabor que aquele momento proporcionou.
David mante-se sereno no seu canto do sofá ilustrando no semblante um sorriso rasgado e orgulhoso que lhe fez sobressair o esverdeado dos seus olhos; a esposa de Nuno Gomes, Patrícia, soltou-se do quentinho da lareira com um gritinho empolgado de felicidade e entusiasmo, e acompanhada por Brenda correu para abraçar fortemente a amiga; Inês olhou instantaneamente o rosto do futuro marido esperando flagrar-lhe a expressão e ler-lhe o que lhe ia no pensamento naquele mesmo segundo, mas foi totalmente em vão aquele seu esforço, pois sentisse o que sentisse, surpreendentemente ele não caiu no erro de se expor e revelar o que lhe ia na alma nem no coração… Muito ao contrário de Mauro, que não conseguiu esconder a hesitação que o dominou, não sabendo se deveria mostrar-se feliz pelo bebé da amiga que estava para nascer, ou se lamentasse pelo irmão por suspeitar do amor que ele ainda sentia por ela e por todas as mudanças que aquela gravidez causaria na relação dos dois. Por seu lado, Dona Anabela, que apanhada numa surpresa que não contava ter tido, não guardou para si o contentamento pleno que sentira pela filha de coração que Joana representava ser, porém e contrariando totalmente esse sentimento, o seu peito reprimiu-se de compaixão pelo seu Ruben, o seu menino… Só ela o sabia de cor, só ela lhe conhecia as manhas sem ter de lhe escutar uma única palavra, e naquele momento ao olhá-lo, só ela foi capaz de lhe ouvir a voz de sofrimento que gritava dentro dele e o coração desamado a partir-se em mil pedaços irreconstituíveis, estilhaçados pela única mulher que sabia ele amar realmente com todas as forças e desejos…

- Mami… Mami!!

Deixado para trás por Sofia que se libertou do seu colo para correr para os braços da madrinha, sem forças para reagir, Ruben afogou-se numa hipnose profunda que lhe paralisou todos os músculos e o deixou à mercê de um precipício infinito para onde se sentia a cair. Foi a sensação de um punhal a rasgar-lhe as costas, de um sabor amargo a desgostar-lhe a boca, a última esperança que tinha de felicidade a morrer-lhe nos braços.    

- Eu nem sabia que tinhas namorado, quanto mais estares à espera de bebé! – comentou Nuno, que seguindo o exemplo dos outros – que então haviam formado um circulo curioso e extremamente alegre em redor de Joana entre beijinhos e muitos abraços -, aproximou-se dela para felicitá-la por numa nova fase de vida que estava a viver – Parabéns, miúda!

- Confesso que não estava nada à espera, mas estou tão feliz por ti! A nossa Joaninha, grávida… Que bom!!

- Obrigada, Patrícia, eu também estou muito feliz! – proclamou ela sinceramente num breve sibilar, dando uso a toda a calmaria que lhe restava no corpo para conseguir falar e evitar ceder às emoções que o momento por si só, e pelas razões óbvias, proporcionava

- Deixa-me ver a barriguinha, mami… - pedinchou a pequenita, um pedido que os amigos aproveitaram para deixarem os olhares e as mãos curiosas lhe explorarem a barriguinha do primeiro trimestre da gestação

Recorrendo àquela distracção de todos, o coração apertado de Joana correu ao instinto de procurar Ruben… ainda sentado no sofá, ainda amarrado a um tormento em que não conseguia nem queria acreditar.
De cotovelos apoiados nos joelhos e com as mãos unidas a segurar o queixo, também ele a olhava, de olhos fixos somente nela e húmidos pelas lágrimas que os turvavam, fazendo um esforço quase desumano para não as deixar cair e traçar-lhe a dor vincada no rosto.

- Então, amor? Não vens dar os parabéns à tua madrinha? – invocando a atenção a cada segundo mais distante do seu noivo, ao vê-lo permanecer sem qualquer reacção ou tomada de atitude, Inês incentivou-o a juntar-se ao grupo e parabenizar a futura mamã – Amor…?

- Ah… Sim, vou… Claro… - arrancado à força daquele entorpecimento onde se queria perpetuar, Ruben voltou à realidade tendo sido obrigado a arrancar do peito o maior desgosto que a vida lhe tinha dado, era hora de erguer a cabeça, fingir uma felicidade que não sentia e agir com a maior naturalidade do mundo perante tudo e todos, quando por dentro se sentia a morrer

A pouco e pouco ergueu-se, apoiando as mãos no sofá para que num impulso necessário conseguisse levantar-se, já que não despendia de qualquer força que há minutos atrás lhe havia abandonado o corpo, sem dar qualquer sinal. Valendo-se de passos pequenos e hesitantes, como se tivesse desaprendido a andar, Ruben traçou caminho que remontava Joana no seu confim e, querendo prolongar aquele momento vazio antes de chegar junto a ela, caminhou calmamente enquanto os seus amigos se afastavam e lhe davam total prioridade para que a abraçasse sem reservas.
A cada passo facultado, mais uma batida acrescida à arritmia completamente descompassada do seu coração… Do coração dos dois, por assim dizer. Joana encontrava-se na mesma posição, tão desconfortável quanto a dele, tão ansiosa e apreensiva quanto ele… Tão apaixonados um pelo outro e não poderem dizer absolutamente nada, não poderem demonstrar nada, quando agora uma parede robusta e impenetrável se erguera e os separava perpetuamente.
Ambos se olhavam enfeitiçadamente no instante em que antecipava aquela aproximação, e até então nunca uma situação tão embaraçosa tinha sido travada entre eles. Perante as circunstâncias, Ruben não sabia o que lhe dizer, e por seu lado Joana também não estava certa do que queria ouvir, contudo alguma coisa tinha de ser dita, algo teria de ser feito, mesmo que não houvesse vontade. E no entanto essa vontade chegou, embora que contrariada por ele e totalmente inesperada por ela, uma atitude foi tomada e surpreendeu… com um beijo. Ruben entregou-lhe um beijo na face fria, tão desolado e sem sabor, que ela própria pôde sentir na pele toda a desilusão a que o tinha vitimado, apenas com um toque virginal de lábios que em dois segundos foi composto e destruído.

- Parabéns… Fico… muito contente por ti… e pelo bebé. – falseando um sorriso doloroso mas necessário, os olhos de ambos voltaram a tocar-se, mas agora era como já não se reconhecessem, ele já não a reconhecia

Foi a vez de Joana se sentir quebrar com aquela distância e frieza, respirar fundo discretamente várias vezes para evitar comover-se e suster a secreta vontade que tinha de lhe dizer que o bebé a que Ruben se referiu, também era dele.    
David e Adriana, os únicos que estavam a par de toda a verdade, mantinham-se abraçados um ao outro ligeiramente emocionados por verem os seus dois melhores amigos serem arrastados para as malhas de uma infelicidade constante que não tinha um fim como vista, e não poderem fazer nada que os salvasse. Agora a chave estava nas mãos e na vontade do destino, a única força do universo capaz de voltar a unir aqueles dois mundos.

- São só boas notícias… O Ruben e a Inês estão quase a dar o nó, a Joana vai ser mamã… - decretou Patrícia, com um sorriso extremamente expressivo que lhe justificou todos os motivos de felicidade que assomavam no seio daquela família

- Mad’inha… colinho! – esperando ansiosamente ter ela agora toda a atenção da sua querida madrinha, a pequenita aproveitou a distância de Ruben que entretanto se afastara, e esticou os bracinhos na direcção dela, vendo o seu desejo ser cumprido

- Então e quando é que nos apresentas o maridinho? – perguntou-lhe Nuno no seu jeito descontraído e amigável habitual, juntando-se à sua esposa Patrícia que abraçou por trás – Queremos saber quem é o sortudo…

- Nuno, então? Quando a Joana quiser que o conheçamos, ela apresenta-nos… na altura que ela achar certa! Não sejas metido, amor.

- Oh, mas eu queria conhecê-lo agora! Ele vem ao casamento, não vem?

- Hum… Bem, ah… - ela não conseguia falar, não sabia o que dizer… os seus pensamentos atropelavam-se a uma velocidade muito superior à dos acontecimentos que se sucediam ininterruptamente e por si próprios à sua frente, continuando a olhar Ruben nos olhos, mas que entretanto perdeu de vista quando sorrateiramente ele decidiu sair da sala antes que ouvisse algo que não queria e assim viesse a confirmar as suas remotas suspeitas

- Mas diz-nos… Estás de quantas semanas?

- De doze. – respondeu, depois de ter conseguido assimilar o bombardeamento de perguntas que se iam sucedendo a uma celeridade furiosa, e foi realmente uma pena a saída de Ruben ter sido tão precoce, pois se tivesse permanecido mais dois minutinhos naquela sala, ouviria a resposta à pergunta de Paulinha e ele próprio tiraria novas conclusões

- E tens contigo alguma ecografia que possamos ver? – apesar de carinhosa, a insistência dos seus amigos mal a deixavam respirar e reflectir direito a todas as perguntas com as quais era confrontada umas atrás das outras, mas o seu pensamento, acompanhado do seu coração, encontravam-se presos a um dever que tinha em suas mãos cumprir

- Desculpem, mas eu deixei uma coisa urgente para fazer… Eu volto já. – perdoou-se imediatamente, enquanto pousava com cuidado a sua afilhada de novo no chão, e esta  não hesitou em reclamar-lhe novamente pela atenção

- Mas eu quero brincar contigo, mami…

- Eu já volto, amor, vou só lá em cima ao quarto num instantinho. – referiu docemente, passando-lhe levemente o indicador na face rosada de maneira a desfazer-lhe o beicinho mimado

- Mas depois vamos brincar juntas, num vamos? – perquiriu, procurando arremessar para si a promessa que lhe havia sido feita por Joana na noite anterior

- Sim, depois a madrinha vem brincar contigo, não te preocupes. – prometeu-lhe com um selinho nos lábios e um sorriso calmo que surgiu – Com licença. – pediu educadamente aos seus amigos na retirada daquela divisão, com a única e soberana ideia demandada em mente de seguir os passos de Ruben e ir ao seu encontro

Num suspiro bafejado por uma súbita coragem, Joana estava decidida a quebrar o acordo de silêncio que fizera consigo mesma no instante em que entrou naquela casa, e colocar de lado a decisão que lucidamente tinha tomado em esconder a verdade a Ruben pelo menos até depois do casamento. Essa decisão estava a ser agora reconsiderada, e nada naquele momento lhe pareceu ser o mais certo e justo a fazer, que não procurar o pai do seu filho e revelar-lhe o segredo que até então mantinha trancado a sete chaves.
O sentido de intuição tomou controlo dos seus pés e levou-a a subir até ao andar superior que percorreu tremulamente, antecipando o tão aguardado e consequentemente evitado confronto que iria revolver prioridades e mudar vidas.
Quando parou junto à porta fechada do quarto dele, respirou fundo e ponderou melhor aquilo que estava prestes a fazer… o momento mais assustador da sua vida do qual poderia vir a arrepender-se redondamente em desencadear mas que uma vez feito, não haveria maneira de voltar atrás.

- Agora não! – respondeu-lhe uma voz grossa e seca, abafada pelas quatro paredes interiores quando ela tomou a liberdade de bater à porta

O seu coração atemorizado deteve-se por segundos a um canto do peito e temeu encará-lo num frente a frente, receando ser alvo de injúrias e recriminações que a pudessem fragilizar ainda mais e desarmá-la completamente até se ver sem saída. Mas ela amava demasiado Ruben… Demasiado para continuar a esconder-lhe algo que pertencia aos dois e era fruto da união e do amor… de ambos.

- Já disse que agora não! Estou ocup…

- Ruben, sou eu… - após uma nova tentativa dela com novos toques na porta ter sido barafustada por ele, Joana não teve outra opção senão rodar a maçaneta e espreitar timidamente o interior do antigo quarto do seu ex-companheiro – Posso…? 

- Joana…! – num pulo forçado pela surpresa, ele soltou-se da cama onde permanecia sentado e curvado no próprio corpo desde o segundo em que chegara ao quarto, devastado por uma notícia que o jogou brutalmente ao chão, e com a mesma rapidez que se apercebeu que era ela, secou os olhos malfadados em lágrimas que felizmente Joana não enxergou – Não sabia que eras tu. Mas… Sim, entra…

- Eu, ah… Vinha falar contigo, há uma coisa que tenho de te dizer… - iniciou pausadamente, depois de fechar a porta atrás de si e deixando que os seus pés formassem pequenos passos hesitantes na direcção irrevogável dele – É sobre a minha… - ela não conseguiu terminar de falar e engoliu a seco, deixando que pasmos percorressem todo o seu corpo ressacado pela adrenalina que o corria

- Joana, não tens de me explicar nada… Aliás, quero que saibas que estou contente por teres conseguido refazer a tua vida e seguido enfrente… Estou muito feliz por ti e por esse bebé, espero que corra tudo bem! – a sua boca contraiu-se num sorriso amargo que despistava toda a tristeza que o seu pobre coração aprisionado o fazia sentir, quando na verdade se sentia desfalecer por dentro pela certeza que tinha de ter deixado escapar a oportunidade e ter perdido o verdadeiro amor da sua vida para sempre

- Não, Ruben, tu não estás a perceber. Eu vim aqui porque quero dizer-te qu…

- Não precisas de dizer nada, a sério que não! – mais uma vez Ruben interrompeu-a, achando, equivocadamente porém, deter em si o motivo que levara Joana a ter consigo aquela conversa, induzindo-se a um erro fatal – Nós já não temos de dar justificações um ao outro, eu segui com a minha vida, tu seguiste com a tua e tenho a certeza que o William te vai fazer muito feliz! Nada de mágoas nem ressentimentos… - um novo sorriso forçado e carregado de dor desenhou-se na tela do seu rosto, rumado pelo orgulho forte que não o deixava expor os seus verdadeiros sentimentos

- O quê? – julgando-se alucinada pelas palavras que ouvira, ela não evitou a pergunta óbvia de quem não entendera a insinuação derradeira que fora lançada ao ar – O que é que que disseste?

- Disse que tu e o William vão ser muito felizes juntos… - reafirmou convictamente, mas desta feita meio deslocado pelo rasgo de confusão que lhe vira traçado rosto – Agora com um bebé a caminho, tenho a certeza que te vão acontecer muitas coisas boas… Afinal sempre foi esse o teu sonho… Construíres a tua família!  

- O que é que te leva a pensar que eu e o William…?

- Então, é ele o pai do filho que estás à espera, não é? – inquiriu num jeito claro de afirmação, não colocando em dúvida o que julgara como certo – Acho que vais ser uma excelente mãe, não tenho quaisquer dúvidas disso.

As lágrimas subiram-lhe aos olhos ao perceber que Ruben nem pusera a hipótese daquele bebé ser seu, e da facilidade com que assumiu e aceitou que a sua vida fora refeita rapidamente ao lado de outro homem.
A intenção que há minutos a levara a procurá-lo e a pô-lo a par de toda a verdade, sumiu-se numa questão de segundos, e rapidamente percebeu que aquele assunto não valia a pena ser discutido naquelas condições. A seu ver, Ruben já tinha tomado uma posição, estava ciente e aparentemente confortável com ela, e desta maneira não valeria a pena estar a remexer num assunto tão delicado como era aquele e mais valia deixar as coisas serem levadas por si, deixá-las permanecer tal e qual como estavam sem levantar quaisquer alvoroços que viessem detonar aquela paz.

- Então acho que não é preciso dizer mais nada… Tu já disseste tudo. – esclareceu extremamente desiludida, ao mesmo tempo que as lágrimas não aguentaram mais suspenderem-se na linha de água dos seus olhos, e contornaram-lhe então as faces – Eu vou voltar para baixo, a Sofia está à minha espera. – informou-o rodando sob a planta dos pés, disposta a não mais prolongar aquela conversa que tinha fugido totalmente às suas intenções, e voltar para junto das únicas pessoas capazes de fazê-la sentir-se bem

- Espera… Estás a chorar? – mesmo sem o ver, Joana sentiu a proximidade a que ele se cingiu em dois passos que demarcou na sua direcção, fazendo-a controlar-se nas emoções e cerrar os punhos fortemente junto ao tronco – Porque é que estás assim? Foi alguma coisa que eu disse?

- Está tudo bem, isto não é nada!

- Espera… - impedindo-a de alcançar a porta e fugir àquele confronto, Ruben agarrou-a no pulso, e sem a mínima intenção de a magoar forçou-a a recuar e obrigou os olhares de ambos a um novo encontro – Vais dizer-me o que se passa para estares nesse estado, ou…?

- Dizer-te o que se passa? Mas parece que tu já sabes tudo, não é?! – ripostou, com um encolher de ombros esmorecido e um sorriso canonicamente irónico no rosto – Porque é que não tentas descobrir por ti mesmo? – argumentou em jeito de desafio que não esperava ver Ruben levar a cabo, e por isso voltou-lhe novamente costas e direccionou o corpo à porta de saída

- Joana! – aquela invocação, que por motivos ultrapassavam o seu querer de ir embora, fê-la soltar a maçaneta da mão, permanecer naquele quarto mais uns minutos e continuar aquela conversa que morosamente se arrastava para um arriscado debate de conflitos – Que raio de conversa é essa?

- Não é conversa nenhuma, também não espero que entendas. – ciciou num jeito desprendido e impessoal, que fez com que Ruben se distanciasse de si tanto do modo físico como verbal

- Olha, como queiras, de qualquer das maneiras só estava a tentar ajudar.

- Obrigada, mas eu não preciso da tua ajuda. – era fácil perceber-lhe a mágoa que guardava dentro do peito pelas suposições erradas e inolvidáveis feitas por ele, notava-se apenas no tom de frieza da voz que Joana não temeu em projectar 

- Claro, agora já tens quem te ajude… O “maridinho”… - numa contra-argumentação quase involuntária, Ruben não evitou o suspiro alto e repulsivo que rosnou entre dentes, o apelido dado por Nuno referindo-se ao – apenas e somente – amigo de Joana – E por falar nele… Ele não vem ao meu casamento? Podias tê-lo trazido contigo e passava aqui uns dias connosco! – referiu, utilizando persistentemente o sarcasmo nas entrelinhas das suas falas, que infelizmente para si, ela conseguiu bem descodificar

- Não sejas ridículo, Ruben, essa imagem não te assenta nada bem!

- Ridículo, eu? Desde quando ridículo é sinónimo de simpatia?

- Tu não estavas a ser simpático, estavas a ser cínico… E simpatia e cinismo são coisas completamente diferentes, não as confundas!

- Pois são, tens razão, tal como a lealdade e a traição… São coisas completamente diferentes, no entanto, tocam-se constantemente! – replicou no segundo a seguir, lançando-lhe um olhar minucioso de alto a baixo que chegou a tocar levemente o véu de censura

- Estás a querer insinuar alguma coisa? – pela forma quase subtil com que ele fez surgir o desfecho da relação dos dois, foi impossível Joana não se sentir injustiçada com aquele comentário, que sugeria claramente quem fora o culpado do fim mais desgostoso de uma história de amor que tinha tudo para dar certo

- Não sei, achas que estou? – arremessou em jeito de desafio, porém e contrapondo esse efeito, a figura dela tentou parecer tão passiva e indisposta a discussões quanto lhe foi possível

- Eu já sei onde vamos parar se continuarmos com esta conversa, e eu juro que não quero discutir contigo, Ruben, juro que não.

- Tu nunca queres nada, Joana… O problema é mesmo esse, é que tu nunca queres nada! Estás sempre a fugir quando não queres encarar os problemas, já é típico de ti… - desabafou inconformado, não conseguindo compreender as atitudes dela que desde sempre foram indecifráveis aos seus olhos 

O silêncio chegou da parte dela. Sabia que ele tinha razão no que falava, mas teve vontade de lhe dizer tanta coisa… Quis contestá-lo, gritar-lhe, falar-lhe a verdade, quis explicar-lhe que aquela era a sua maneira de ser e não seria fácil mudar, dizer-lhe que não era perfeita nem nunca o iria ser, mas ao invés disso ressentiu-se no seu pequeno mundo e arrastou o olhar às mãos trémulas que se cruzaram na frente da barriga, e a voz permaneceu emudecida até voltar a ter coragem de se libertar.
Ruben aproveitou aquele pequeno intervalo de palavras e caminhou até ao roupeiro para trocar a sua t-shirt por uma camisola mais quente que despistasse o tempo frio que se fazia sentir, não se preocupando minimamente em fazê-lo na frente da sua ex-namorada, que ao vislumbrá-lo em tronco nu, e apesar de não puder controlar o ténue rubor das faces, não se sentiu minimamente desconfortável com a situação, pela talvez longevidade da intimidade que até há bem pouco tempo ambos partilharam, onde já não havia motivos para qualquer constrangimento ao desconforto, mesmo que essa intimidade agora já não existisse.

- Não julgues que és muito correcto… Não caías no erro de pensar que só os outros fracassam e cometem erros… - bradou-lhe num tom flexível e moderado, logo que a sua voz até então adormecida, despertou   

- Mas eu não penso isso… - calmamente e ajeitando o colarinho do seu pullover, Ruben voltou a rumar na direcção dela, obrigando-se a si mesmo a levar aquela pseudo-discussão que travavam, até onde fosse que ela precisava de ser levada – Eu sei que já errei, já cometi muitos erros e sei que muito provavelmente vou continuar a cometê-los, mas ao menos sou capaz de dar a cara e admiti-los, enfrento as consequências!

- Tal como quando pensaste que eu te tinha deixado pela segunda vez, quando te recusaste a acreditar em mim e foste logo correr para a Inês sem me dares a mínima possibilidade de te explicar o que aconteceu… É esta a tua maneira de enfrentares as consequências? Fugindo delas?

- Mas eu procurei-te, disse-te que estava disposto a deixar a Inês para ficarmos juntos, e tu…

- E foi exactamente por isso que eu te pedi que não o fizesses! Nunca aceitaria que a deixasses por minha causa. – os ânimos a pouco e pouco foram tornando-se cada vez mais difíceis de controlar, e começaram a exaltar-se gradualmente dentro daquele quarto

- Se calhar porque já tinhas os teus motivos… - afirmou ele imperativo, olhando-a nos olhos, expondo-lhe o desgosto demente que lhe conturbava a alma e o pensamento

- O que é que queres dizer com isso? – Joana chegou até ter medo de perguntar, talvez por julgar-lhe uma resposta que não ia gostar de ouvir, mas ali um pedido de explicação era inevitável, e a hesitação que Ruben inebriou, respondeu-lhe ao impulso de querer saber o que ele pensava – Diz-me… Fala! O que é que queres dizer com isso?

- Nessa altura o teu namorado estava cá, chegámos a tomar café juntos e vocês agiram como se nada fosse… Só ainda não percebo como pude ser tão burro e não ver o que tinha mesmo na frente dos meus olhos! – argumentou numa nova insinuação, que desta vez se tornou na gota de água que fez Joana perder o seu sério – Talvez porque não quis mesmo ver, não sei.

- Pára de falar no William, Ruben! Pára, já chega! – as suas mãos ergueram-se no ar dando-lhe sinal para que parasse de falar, com uma irritação notória a circular-lhe a conduta da voz enquanto o vi-a insistir perenemente no assunto que fazia do seu amigo Will o seu namorado e o pai do bebé que esperava

- Então queres falar do quê? Queres falar de nós? É isso que queres? – propôs no mínimo de desdém, cruzando os braços perturbantes na frente do seu peito orgulhoso

- Não, não quero falar sobre nós… Até porque já não há nenhum “nós”, não vai haver mais…

- Desta maneira já não… - desabafou num murmúrio conformista e simultaneamente desolado por uma perda demasiadamente grande que não teria mais retorno

- Do que é que estás a falar? Do teu casamento? 

- Não só… Pelos vistos não fui o único a alterar o rumo que pensei dar à vida. – as palavras saíram-lhe num sussurro desvanecido pela eminencia das acções que haviam sido feitas e padeciam impossíveis de serem alteradas, levando o seu olhar inebriado fixar a barriguinha dela enquanto falava – Jurámos tanta coisa, quisemos tanta coisa juntos e para quê? Hoje não temos nada, Joana, nada…

- É passado, e tudo o que é passado, passou… Não há como reatar. – parecia que ali, Joana era a única que estava ciente de que nada do que viveram poderia ser recuperado de volta, embora fosse tão difícil para ela de aceitar e viver com essa certeza, como era para Ruben

- Mas eu estava disposto a ter tudo de volta, tudo! Iria ser difícil? Iria, claro que ira, tínhamos de lutar todos os dias, mas eu estava disposto a lutar porque eu queria-te a ti, eu queria-te a ti todos os dias da minha vida. – o seu queixo tremelicou na leve cedência a um estado de emoções que até àquele momento permaneceram adormecidas dentro de si, o que levou um inevitável transbordo de brilho nos olhos misturasse lágrimas a um profundo sentimento de revolta  

- Não faças isso, por favor… - pediu-lhe com o coração a ser apertado por uma angústia sincera e palpável que não aguentava ser lembrada da força de um amor enfim derrotado e que Ruben descreveu apaixonadamente, e tal como os olhos dele, os seus também se voltaram a encher de lágrimas que não demorariam a quedar-se

- E agora, achas que para mim é fácil? Imaginas como é que eu me senti quando a Adriana disse que estavas grávida? Consegues imaginar a minha dor? – a dor daquela injustiça penetrou-o até aos ossos, que mesmo com o olhar inundado por linhas de água, o fez tomar uma postura defensiva

- Não és a única vítima aqui… Sabes muito bem que não és o único a sofrer nesta situação, portanto não sejas egoísta a esse ponto.

- Podes chamar-me egoísta, hipócrita com o que te vou dizer, eu não me importo… Mas a verdade é que eu não suporto pensar em ti nos braços de outro homem, a seres a amada por outro homem, a teres um filho de outro homem! Não suporto, Joana, não suporto… não consigo! – renegou num tom de voz imperativo e endurecido, que lhe esbugalhou os olhos inflamados por um choro prestes a acontecer

- Ruben… - nada mais pôde sentir do que o discurso dele a bater-lhe bem no fundo da alma, e perante a falta de palavras, Joana apenas conseguiu pronunciar-lhe o nome, num timbre rasgado pela forte emoção do momento bem como das lágrimas que lhe escorreram pelo rosto em catadupa

- Esse bebé… Esse bebé devia ser meu, Joana! Devia ser nosso! O nosso bebé… - com o indicador a furar o peito ele gritou em surdina, com o corpo praticamente colado ao dela, inertes, porém completamente devastados, enquanto ambos se deixavam chorar perdida e desesperadamente nos olhos um do outro 

- Ruben, eu… - Joana queria contar-lhe, queria tanto contar-lhe, mas não conseguiu… a sua língua enrolou-se numa proibição e só o soluçar aflitivo impossibilitou-a de dizer o que fosse, entregando as palavras de desfecho a Ruben que concluiu aquele confronto da forma mais amarga e triste possível

- Mas pelos vistos já tinhas outros planos para a tua vida que não me incluíam a mim… - resgatando o casaco distendido sobre a cama, vestiu-o em duas braçadas rápidas e precisas, que foram acompanhadas pela recolha das chaves do carro deixadas sob a cómoda, detendo-as no interior da mão e saindo depois apressadamente na direcção da porta, rasgando passagem ao lado dela

- Planos na minha vida que não te incluíam a ti? Tu vais casar com outra mulher, Ruben… Onde é que eu estou nesses planos? – gritou-lhe já no corredor não se importando minimamente com alguém que pudesse ouvir, enquanto o vi-a a afastar-se a passadas largas, completamente frustrado pela discussão onde para ele, não havia mais nada a ser acrescentado, mais nenhuma palavra a ser rebatida, mais nenhuma mágoa a ser repisada

Vendo-se ser deixada para trás por Ruben, ela entrou em falência e jogou-se de joelhos ao chão naquele piso… De rastos, devastada, com o coração apertado e de alma completamente vazia, com o rosto inundado de uma tristeza inconsolável e um choro transtornante que, graças a Deus, ficou tapado aos ouvidos e vendado aos olhos de um qualquer alguém.
Joana acabara por não lhe contar a verdade, o único motivo pelo qual o procurara, mas depois daquela troca acesa de palavras e de ter tido mais tempo para reflectir, julgou que Ruben não merecia mais ouvi-la… Não naquelas condições.



***



- Amor, tenho de voltar a ligar para a empresa de catering… Tínhamos optado pelo serviço à la carte, mas estive a pensar melhor e acho que não fica bem o…

Interceptando o noivo ao sopé das escadas, enquanto este as descia apressadamente, Inês abordou-o com um assunto burocrático do casamento que ela acabou por não terminar e que ele nem sequer ouviu, pois a sua mente bloqueava todo e qualquer outro tema de conversa, todos e quaisquer outros problemas paralelos ao confronto disputado anteriormente com Joana.    

- Amor, onde vais? – completamente absorto, viu Ruben precipitar-se ao hall de entrada em passadas largas e furiosas, cruzando mesmo ao seu lado e ignorando-a por completo, como se estivesse cego de rebelião e nada do que o rodeava era capaz de o fazer ver – Amor?! Oh Ruben!

- Ãh? Diz… – foi apenas quando alcançou a porta que ele denotou a presença e o consequente apelo insistente da sua noiva Inês, que acabou por bombardeá-lo com uma sucessão perguntas às quais Ruben somente respondeu  directa e friamente, sem revelar quaisquer pormenores

- Estava a perguntar-te onde ias…

- Vou sair.

- Vais sair com este tempo? Está a chover imenso… Vais onde?

- Vou sair, Inês! E não sei a que horas volto! – balbuciou de forma seca e irritada, deixando Inês insegura pela dureza que empregara às palavras, e provocando-lhe um ligeiro sobressalto no coração com o ruído estrondoso da porta que bateu com uma força extrema logo que saiu



***



Caminhando sob a chuva agreste que caía desde o início da manhã, com uma corrida leve Ruben atravessou os jardins interiores da ladeira, alcançando a saída na procura pelo seu carro, que tinha deixado estacionado junto dos portões da vivenda.
Uma vez lá dentro, fechou-se e recostou pesadamente o corpo no banco de condutor que dominava. Uma enchente crucial de pensamentos e sensações esborrachavam-lhe o peito e provocavam-lhe uma dor aflitiva no coração de cada vez que enchia os pulmões de ar para poder respirar.
“A Joana está à espera de bebé…” As primeiras palavras promulgadas pela amiga Adriana davam voltas e voltas na sua cabeça, massacrando-o a um ponto que até então ele nunca julgara ser possível, e movido por uma angústia tal e frustração, bateu violentamente as mãos no volante, enquanto as lágrimas enfim libertas, soltaram-se dos seus olhos e contornaram-lhe furiosamente o rosto, trepidamente contorcido por uma dor e um vazio sem fim.  
Ao fim de alguns minutos aquando o choro ainda não tinha totalmente cessado, e ainda não totalmente capaz de tomar domínio do seu próprio corpo, Ruben acabou por ligar o carro e tomar manobra do volante, onde numa aceleração afundo tomou pose de uma condução perigosa e um tanto descontrolada que o levou a um único sítio onde ele julgara ser capaz de afogar as mágoas.



*** 



- Bom dia! Vai tomar alguma coisa? – perguntou-lhe educadamente o empregado, logo que o viu sentar-se num dos bancos altivos da bancada do bar onde Ruben entrara

- Sim, quero um uísque, por favor… - pediu-lhe com rosto fechado e sem pensar muito no assunto, cruzando os braços sobre o balcão - … duplo!

Perante aquele pedido, o empregado de balcão olhou-o com uma certa estranheza tendo em conta as horas prematuras do dia, no entanto e obrigado pelo cargo que sustinha, regeu-se às funções que lhe competiam e colocou o pedido do cliente em primeiro lugar.

- Aqui tem. – aprontou ele, logo que terminou de jorrar a bebida no copo na frente de Ruben e lhe acrescentou dois cubos de gelo    

Beber nunca fora um gosto permanente e muito menos um hábito para ele, mas como para todos os não-hábitos havia uma excepção, aquela era a sua.
Sentia-se perdido, devastado, ponto. Ninguém tinha o direito de o julgar. E apesar de saber que não era daquela maneira que a dor que sentia iria desaparecer, pelo menos poderia aliviá-la e quem sabe… esquecê-la por umas horas. Deu um gole e rapidamente a bebida começou a arder-lhe a garganta e a queimar-lhe o peito na sua travessia até ao estômago, mas nenhuma outra coisa conseguia superar o ardor asfixiante que sentia no coração. Ardia-lhe até o simples acto de respirar.
Enquanto engolia as lágrimas que teimavam cair, rejeitava cada chamada insistente de Inês e mais tarde de David, obrigando-o a desligar o telemóvel e a guardá-lo no bolso de onde não voltou a sair.
Ali sozinho, de copo na mão e sem ninguém com quem desabafar, perguntava-se constantemente como voltaria a ser capaz de enfrentar Joana e principalmente enfrentar a ideia de um bebé na vida dela, um bebé que ele não julgou por um momento ser seu, mas essa certeza… estava prestes a mudar…




Queridas leitoras, em primeiro lugar tenho que vos pedir MIL DESCULPAS 
pela enorme demora de um novo capítulo.
Sei que demorei imenso e agradeço a todas aquelas que esperaram, que me vieram cá deixar palavras de carinho e incentivo, foi um grande apoio para mim.
Com os estudos, com o trabalho, e como nem sempre a inspiração vem quando precisamos, não me foi possível vir cá deixar-vos novidades mais cedo.
Mas finalmente consegui terminar o capítulo e aqui está ele, grandito, espero que gostem e boa leitura.
Por favor não se esqueçam de deixar os vossos comentários, e mais uma vez às meninas que esperaram, muito obrigada, espero não vos ter desiludido.

Um beijinho,
Joana 


48 comentários:

  1. Fabuloso...

    Tou super curiosa para ver o próximo...

    Continua... Quero mais rápido por favor... Só espero que o Ruben descubra que o bebê é dele :)

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  2. Em primeiro lugar: AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!!! <3 (é assim que fico ao ver capítulos novos aqui, só pra tu saber mesmo)
    Em segundo lugar: Você nunca decepciona ou desilude, é por isso, inclusive, que nunca me importo com a espera!
    Em terceiro lugar: Acho que esse comentário não vai ser muito coerente porque meu emocional ainda está totalmente abalado, destruído... Meu Deus! Fiquei em prantos, chorei, tremi... isso é normal? Se não, preciso de ajuda urgentemente porque isso acontece frenquentemente quando estou lendo ou relendo seus capítulos lol
    Realmente não sei o que dizer, ainda estou assimilando essas avalanches de emoções... não estava esperando que a notícia da gravidez surgisse assim, de repente... e esse finalzinho me deixou um pouco esperançosa... espero que o Ruben coloque a cabecinha para funcionar, não é assim tão difícil :P
    Agora vou tentar me recuperar pra poder reler, okay?
    Beijinhos e só pra reforçar: QUERO MAIS, PLASE! ♥

    Gabi.

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  3. Já tinha saudades de um capítulo teu. Eu simplesmente adoro esta fic. Cá estarei para ler o próximo. Beijinhos :))))

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  4. Ai rapariga que só me apetece "bater-te"... em parte pelo que acabei de ler mas principalmente por saber o que vem por aí... opa tu escreve o próximo que quero muito ler!!!

    E agora que li tudo de seguida tenho a dizer que não tens motivos nenhuns para os teus receios, aqueles que partilhaste comigo... o capítulo está espectacular!!!

    Beijinhos

    Caty

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  5. lindo lindo lindo ! adorei mesmo !!! obrigada por teres publicado e se puderes nao fiques tanto tempo sem o fazer desta vez ;) kiss

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  6. Eu nem consigo descrever a felicidade quando vi o capitulo novo... ai que saudades!!!!
    E o Benfica campeão.... :D
    Agora o capitulo.... ceus ceus, nem sei descrever o que senti.. ai que nervos como é que ele nem pensa na noite que eles tiveram.... ai ceus e ela não o manda calar e lhe esfrega nã cara que é o pai... ceus ele não pode casar...
    Por favor publica rapido, por favor!!!!
    Adoro, adoro, adoro
    Beijinhos

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  7. Estou a tremer :o
    Mas o que foi isto? :o Eu amei este capítulo, foram tantas emoções! Nossa garota!
    Foi o ajuste de contas com o Mauro, finalmente, ele pediu-lhe desculpas.
    Foi o desbocado do David, mas que sentido de oportunidade que ele teve, sim uma grávida não deve tomar café, mas também quem prometeu guardar um segredo não pode descair se, menino David!!!!
    A Joana em pânico, os olhares todos virados para ela, e o Ruben à nora... Homens!! Ahahah
    E o confirmar da Adriana... BOMBA!!! As reacções de todos e o Rubinho, tadinho, imaginei cada dorzinha deles, tava a ler e era como se estivesse a sentir cada palavrinha, fiquei com o coração apertadinho, a torcer para que o Ruben percebesse que é pai. Sim, Ruben, tens razão, e suposto esse filho ser teu, ELE é TEU!!!
    E claro, o burro em vez de pensar na possibilidade do filho ser dele, não vai buscar o William, que está lá do outro lado bem quietinho!
    O Ruben que não faça nenhuma asneira, ele tem um filhinho a crescer dentro da barriga da mulher que ama. E ela não se pode enervar!

    Juro que lia e lia e continuava a ler!
    A espera valeu a pena, valeu cada dia que vim ca espreitar e não tinha nada, valeu por cada palavrinha que acabei de ler!
    Vou continuar à espera de mais! Quero tanto ver a reacção do parvinho do Ruben quando souber que é papá :D

    Beijinhos, Lisandra

    P.S. E O BENFICA É CAMPEÃO♥♥

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  8. Obrigado por mais um incrível capítulo. A espera compensou!
    Continua :D

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  9. Fantastico adoreiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii adoreiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.
    Já estava com saudades.
    Quero o proximo rapido.bjs

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  10. Confesso que estava à espera que ela contasse que era ele o pai :'( , mas estou a adorar o rumo que a história está a levar!
    Foi muito tempo de espera mas valeu a pena sem dúvida, que venha o próximo :)

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  11. Joaninha tu queres matar-me do coração, só pode, depois das emoções vividas com a vitória no campeonato com o nosso Benfica, um capitulo destes... Li logo na 2ª feira mas confesso que há dois dias que ando a ganhar coragem para escrever um comentário, tal foi o estado em que fiquei, as emoções foram tantas que nem mesmo agora eu sei por onde começar.
    Finalmente o Mauro pôs a mão na consciência e assumiu que não teve a melhor atitude coma Joana, o que para ela foi muito bom, acabou de ganhar um novo aliado, e ela bem precisa.
    Todos preocupados porque a Joana não aparecia para tomar o pequeno almoço, e o Ruben mortinho por poder ir ao quarto acordá-la. Esconder uma gravidez não é fácil, mais cedo ou mais tarde alguém ia descobrir, mas nunca pensei que fosse o David o causador da descoberta, é mesmo desbocado, não foi com intenção, mas quase que sinto o desespero em que a Joana ficou, a Adriana foi o seu suporte, depois da burrada que o namorado tinha feito ela mesma acabou por confirmar, que há um bebé a crescer dentro da barriginha da Joaninha, e o parvalhão do Ruben (não há mesmo outro nome para lhe chamar) em vez de fazer as contas, não, fez logo grande filme, que o filho é do William, ai que nervos. Como sempre tirou conclusões precipitadas e quando ela ganhou coragem para lhe contar nem a deixava falar, e ela em vez de o mandar calar para poder falar, não, deixou-o falar coisas sem sentido, só para ele é que têm sentido. Quando ele disse que o filho deveria de ser dele, que deveria de ser o filho deles, cortou-me o coração a tristeza como ele o disse, e aí a Joana em vez de lhe dizer, sim é teu, não, calou-se. Ai, isto não se faz, é muita emoção, muito sofrimento para estes dois, eles não precisam que ninguém os magoe, porque eles fazem isso a eles próprios. A parva da Inês ficou toda contente, pudera pensa que se viu livre da Joana, afinal tá grávida de outro, imagino o escândalo que vai fazer quando souber quem é o pai da criança. Eu tou desejosa de ver este casamento cancelado, e mais desejosa ainda de ler o momento em que o Ruben vai descobrir que é ele o pai do filho que a Joana espera.
    Quem espera desespera mas quem espera sempre alcança, e valeu apena esperar este tempo todo para poder ler este capitulo maravilhoso, que me fez chorar, só peço que o próximo não demore tanto tempo, e continua porque escreves maravilhosamente bem.

    Beijocas

    Fernanda

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  12. Nem sabes como soube bem ler isto depois da ansiosa espera. Valeu completamente a pena todos os dias que chegava aqui e não havia novidade alguma postada. Mas, POR FAVOR, não nos deixes em sofrimento durante mais tempo. O capítulo deixou a história ao rubro e estou ansiosa por saber a continuação. Espero que a Joana diga a verdade ao Ruben porque até começo a sentir pena por ele.
    Adoro a história desde o primeiro capítulo e estou a adorar ainda mais a cada novo que sai. Só senti falta de uma coisa enquanto o lia: aquelas tuas maravilhosas músicas de fundo.

    Beijinhos,
    Ana Novo

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  13. Está simplesmente fantástico! A leitura deste capítulo do outro mundo compensou esta longa espera.
    Meu Deus, empolgante desde a primeira palavra ao último ponto final! Agora só quero ler mais e mais ... Por favor, não me deixes muito mais tempo à espera do próximo capítulo, porque já estou 'em pulgas' para ver o que vai acontecer ao Ruben e à Joana.
    Adoro, adoro, adoro !!! <3

    Beijinhos

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  14. Boa noite!
    Já a uns tempos que não tenho frequentado as Fanfic's, agora tenho tentado atualizar-me se bem que é difícil, devido a tantas historias para ler. Mas vi que http://nemoceueolimete.blogspot.com/ está bloqueado, não sei se ainda utiliza este blog, mas gostava de poder voltar a ler.

    Obrigada!! Beijinhos!! :)

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  15. e o próximo ? para quando é? xD

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  16. Minha querida, chorei que nem uma Madalena, ao ver o sofrimento da Joana, mas principalmente do Ruben. Aquele toto ama tanta mas tanto a Joana, que nao sei do que estava à espera para cancelar o casamento. E agora acha que o bem mais precioso da sua vida esta gravida de outro. Gravida de um bebe que devia ser deles... tadinho, parte-me o coracao ao ve-lo assim. Espero bem que ele raciocine e faca continhas. O bebe é TEU ♥♥
    Eu quero mais!!!! Quero tanto ler o momento em que o Ruben descobre que é o pai! Diz que é já no proximo, por favor...e que nao vais demorar muito...
    Esta historia nao pode ser lida por doentes cardíacos :p

    Beijinhos

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  17. Olá, biaC!
    O blogue a que te referiste está privado. Há imenso tempo que não lhe acrescento capítulos novos e durante mais de um ano mantive-o aberto, mas como agora a história se mantém suspensa e não tenho certezas em dar-lhe uma continuação, achei por bem privar o blogue visto que até ao momento este não está a ter qualquer uso.
    Peço desculpa pelo incómodo, se algum dia decidir voltar e tiver possibilidades de continuar a outra fanfinc, deixarei um aviso, e assim sendo permanecerei aqui neste cantinho e continuarei a escrever esta história.

    Um beijinho :)

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  18. Quanto ao novo capítulo apenas posso dizer que já estou a trabalhar nele, contudo ainda não posso dar uma previsão de postagem. Assim que tiver novidades, aviso. :)

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  19. Ai Joana eu sei que é dificil, mas tenho tanta vontade de ler.... mesmo muita ;)
    Aguardo ansiosamente.
    Beijinhos

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  20. Pff não demores tanto :( Sabemos q não é fácil mas adoramos tanto esta história..... <3

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  21. Para quando um novo capitulo??
    Quero tanto ler o resto... o RUben, espero que nao lhe aconteca nada por se meter nos copos, a Joana depois da discussao e os outros!
    Ai quero tanto, tanto ler mais ummm :)
    Bjs

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  22. Para quando o proximo capitulo??

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  23. Olá Joana:
    Ainda não tens previsão?
    Desculpa estar a insistir mas tenho tanta vontade de ler ;)
    Bjs

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  24. Quando nos dás o privilégio de ler mais um capítulo??? Quero ler mais :$
    Beijinhos

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  25. Joana estou a morrer por mais.... quero mais!!!
    bjs

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  26. Boa noite, meninas

    Antes de mais nada tenho que vos pedir desculpa pela ausência, mas nestes últimos tempos tenho andado tão atarefada que mesmo querendo, não tenho tido o tempo necessário para poder escrever. Não desisti da história, longe disso, mas a minha disponibilidade para avançar na escrita tem sido muito escassa.
    Respondendo a quem tem vindo perguntar, tenho apenas metade do próximo capítulo escrita, e sendo este capítulo opulento em emoções e novos acontecimentos, tenho tido um cuidado especial na maneira como o pretendo levar, e por isso ainda não tenho uma ideia clara de quando conseguirei publicá-lo. Como já há imenso tempo que não vos trago novidades, e agora que vou poder abrandar mais o ritmo (espero eu), vou fazer um esforço para terminar a terceira parte de maneira a não fazer-vos continuar a esperar muito mais.
    Espero que compreendam.

    Um beijinho a todas,
    Joana

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    1. Ola! Sinceramente estou super ansiosa por ler um novo capítulo teu. Adoro esta história, sou completamente viciada nesta historia de amor! Adoro o Ruben e a Joana :)
      Eu sei que nao deve ser facil escreveres sempre que queres. Mas estou ansiosa por voltar a ler sobretudo depois de saber que ai vem novas emocoes e acontecimentos!!!
      Bjs

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  27. Emoções, novos acontecimentos???! oh gosto, gosto!! Ruben papá :P

    aguardo ansiosamente pelo proximo!
    beijinhos*

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  28. Olá

    Li cada capítulo desde o inicio e agora que cheguei a este tenho a dizer-te que adorei e espero ansiosamente pelo próximo capítulo.
    Entendo que nem sempre tens o tempo que querias para escrever pois acontece o mesmo comigo, por isso podes contar comigo sempre, pois nem que demores meses eu vou esperar por ler, estes teus maravilhosos capítulos.

    Se quiseres convido-te a passar pelo meu cantinho.



    Nunca pares de escrever , tens talento para a escrita :)



    Beijinhos


    Catarina

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  29. Para quando o próximo? :)

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  30. ................................

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  31. Ai que saudades!!!
    Por favor arranja um tempinho ;)

    Bjs

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  32. Quando voltas a publicar um novo capítulo? :(

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  33. Ainda nao sabes quando vais publicar?
    As saudades sao mais do que muitas :)

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  34. Olá!
    Joaninha então ainda falta muito para publicares o tão esperado capitulo? tou super curiosa e desejosa de o ler, não demores muito, esta espera faz mal ao coração, já para não falar da ansiedade, se é que me compreendes. Eu espero o tempo que fôr preciso, mas custa tanto... vá lá Joaninha sê uma boa menina e dá-nos o prazer de ler mais um capitulo desta linda história de amor.
    Beijinhos

    Fernanda

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  35. Quando pensas em voltar a publicar?? Tenho saudades de ler um novo capítulo e de saber o que vai acontecer a este casal lindo* .*

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  36. Olá Joana:
    Estou cheia de saudades de um capitulo teu!!!!
    Aguardo ansiosamente que publiques.
    Bjs

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  37. tenho tantas saudades de ler um capitulo...
    por favor não desistas de escrever!

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