sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Capítulo 20 - Uma promessa para toda a vida (Parte IV)



E a única coisa que fiz, foi a de me despedir dele rapidamente e antes que dissesse alguma coisa capaz de me fazer mudar de ideias, desliguei o telefonema.
Um suspiro vindo directamente do mais profundo do meu âmago, foi solto, e enfim voltei a respirar, a chorar desafogadamente e sem mais restrições… Meu Deus, como eu chorei! Não me importei minimamente com quem pudesse passar e ver-me, simplesmente não estava a conseguir lidar mais com todas aquelas situações, estava tudo a acontecer-me ao mesmo tempo e o peso que me sofreava os ombros e oprimia o meu coração, era demasiado grande para me conseguir desfazer dele sem mais não.
Depois de terminar a chamada, Ruben ainda tentou ligar-me mais duas vezes, e por muito que me tivesse custado, não me senti forte nem capaz o suficiente para voltar a falar com ele, e rejeitei ambas as vezes sem pensar mais no assunto.

- Mamã, aquela menina está a chorar… - sem mesmo ter a necessidade de olhar, pois o meu rosto permanecia coberto pelas mãos que escondiam as lágrimas, apercebi-me da presença de um menino que passava ali perto – Porque é que ela está tão triste?

- Não sei, filho, com certeza que alguma coisa lhe aconteceu… - a voz da sua progenitora acompanhava-o, e muito lentamente fui erguendo a cabeça e espreitando entre os meus dedos que se abriam, enquanto tentava acalmar aquele leito choroso

- Posso ir ao pé dela?

- É melhor não, deixa estar a menina.

- Mas, mamã…

- Ru…

- Eu vou rápido… Deixa-me levar-lhe uma flor, se calhar ela gosta de flores e se eu lhe der uma ela vai para de chorar… - não ouvi mais nenhuma contestação de qualquer parte e deixei-me estar no meu cantinho, à espera que ninguém me abordasse, que ninguém me perguntasse por nada nem mostrasse a sua piedade por mim, porém um toque leve no meu ombro desfez todos esses meus quereres

- Para ti… - quando voltei a abrir os olhos, doridos pelo ardor que as lágrimas lhes causavam, vi o menino posicionado na minha frente

- Para mim? – inquiri-lhe ao olhar a bonita flor amarela que ele segurava orgulhosamente, com o braço esticado na minha direcção

- Hum, hum. – ele afirmou com um meigo e engraçado aceno de cabeça, agitando levemente a flor no seu caule verde viçoso

- Obrigada. – agradeci meio sem jeito, e procurei por perto a senhora sua mãe, que junto ao peito segurava um lindo e elaborado ramo de margaridas – as minhas flores preferidas -, de onde o pequeno havia roubado uma para mim

- De nada. Gostas? É para não ficares triste…

- Gosto muito, é muito bonita. – afirmei lisonjeada com a atenção de um miúdo que não deveria ter mais dos seus sete ou oito anos de idade, e estampado no meu rosto que limpei, substituí as lágrimas por um sorriso meigo, por tal gesto seu

- Posso saber como te chamas?

- Ruben, filho… Vem, não incomodes mais a menina… - a sua mãe chamou-o e ele olhou-a acima do ombro, mas continuou comigo por mais um instante

- Chamo-me Joana… E tu és Ruben, não és?

- Sou. – ele mostrou-me um sorriso meigo e traquinas, que lhe traçou logo o seu jeito de ser, no total rasgo de lábios que lhe expôs a ausência dos seus dois dentitos da frente, outrora de leite

- Bem, Ruben, és muito querido… Obrigada pela flor. Vou guardá-la comigo.

- Vais mesmo?

- Juro que vou. – prometi, beijando os dois dedos que formaram uma cruz nos meus lábios, de maneira a provar-lhe que falava nada mais que a verdade

- Anda, filho… Temos de ir. – a sua mãe voltou a apressá-lo, olhando desta vez para mim e pedir-me desculpa pelo filho silenciosamente, apenas com trejeito simpático do olhar

- A minha mãe está a chamar-me… Tenho de ir embora.

- Vai… Anda vai com a tua mamã… - incentivei-o, brincando com os meus dedos na sua barriga, ao qual ele reagiu com mais um sorriso

- Xau, Joana… E não fiques mais triste.

- Não fico. – disse – Xau, Ruben, e obrigada.

Ele deu uma corridinha rápida e voltou para junto das saias da sua mãe, que me sorriu carinhosamente ao dar a mão ao seu filho Ruben. Ruben(!) Até o nome e figura de uma criança me recordava dele… Do Ruben mais crescido, o que em tempos havia sido o meu. Até aquele simples gesto de uma criança associei aos gestos dele, quando não resistia em surpreender-me com miminhos de presentes simples do seu romantismo mais genuíno.
Pus-me a pensar e por momentos caí na patetice de julgar que aquilo pudesse ser um sinal, mas sinal de quê e para quê? Não me soube justificar, e logo desisti dessa ideia.
Continuei a mirá-los enquanto se afastavam, e reparei que o pequenote ficara a olhar para trás aquando caminhava, e ao notar que também eu o olhava, acenou-me pela última vez com a sua pequena mão que se agitou no ar energeticamente, e eu não resisti em retribuir-lhe o mesmo gesto com um sorriso puro e verdadeiro a contemplar-me a fachada dos lábios.

- Tão querido… - murmurei ao olhar a flor que me tinha sido oferecida, e só pelo momento anteriormente vivido tive uma pequena razão para continuar a sorrir

Com o olhar varri todo o areal completamente vazio, e naquela solidão procurei por uma paz de espírito que não consegui encontrar… não ali. Queria estar com alguém, queria falar com alguém que me soubesse escutar, com quem eu pudesse desabafar e partilhar as minhas lágrimas, alguém que eu sabia que jamais me julgaria e que estaria sempre lá para mim, e foi numa busca rápida que divaguei pela minha lista de contactos do telemóvel, que a encontrei.


Para: Adriana Côrte-Real
Olá, princesa! Sei que combinámos um lanchinho para esta tarde, mas será que podemos antecipar o encontro? Assim que puderes, diz-me algo.
Um beijinho.

De: Adriana Côrte-Real
Hey, gatita! :)
Queres encontrar-te mais cedo? Hum, eu por agora estou despachada das aulas, só volto a ter à noite... Vim ao Starbucks do Chiado tomar um cafezinho com as minhas colegas da facul, se quiseres vem cá ter… - demorou somente dois minutos até ler a sua resposta

Para: Adriana Côrte-Real
Oh, se estás com as tuas amigas deixa estar… Marcamos para depois, sem problema! :)

De: Adriana Côrte-Real
Então, amor? Até parece! Vem e depois almoçamos juntas, pode ser?

Para: Adriana Côrte-Real
Pronto, a mim parece-me bem… Dá-me uma horita e já vou ter contigo! :) Beijinho grande, boneca.

De: Adriana Côrte-Real
Okapa! Cá te espero, então! Até logo, beijinhooos


Um almoço seria um bom momento para falar com ela, e já que eu não iria regressar à faculdade naquele dia e Adriana não teria aulas durante um par de horas, tinhamos a tarde toda por nossa conta, o mais que não fosse para desabafar e colocá-la a par de tudo o que estava a acontecer.
Voltei a arrecadar o telemóvel na minha mala e regressei ao carro, pronta para abandonar aquela paisagem que me acolheu por largos minutos, e agora, mais calma e com a cabeça mais leve, arranquei pela autoestrada com destino à baixa de Lisboa.





***





Ao chegar aos Armazéns do Chiado, fui direitinha ao local onde tínhamos combinado encontrarmo-nos, e foi a um canto reservado e convidativo da cafetaria, que a encontrei, sozinha, à minha espera.

- Olá, amor! – cumprimentei-a com um pequeno sorriso assim que cheguei junto dela para a beijar no rosto

- Olá, pequenina, que bom que já chegaste! – Adriana ficou contente por me ver, tal como eu, não estávamos juntas já lá ia para duas semanas

- Demorei-me mais um bocadinho por causa do trânsito à entrada, mas já cá estou! – justifiquei, despindo o meu casaco e colocando-o nas costas da cadeira que me pertencia, e onde acabei por tomar lugar na frente dela – Pensei que estivesses com as tuas amigas…

- Sim, estava, mas elas tiveram de ir embora… Saíram à coisa de dez minutos. – ela encolheu levemente os ombros e sorriu-me com meiguice – Queres que peça alguma coisa para ti?

- Não, por enquanto não quero nada, obrigada. – recusei educadamente a sua amabilidade, pois não conseguia fazer com que nada me descesse pela garganta, nem mesmo um simples café – E então, o que estavas a fazer? – perguntei, ao vê-la entretida entre cadernos rasurados e um bloco de folhas espalhadas sobre o canto da mesa que lhe pertencia

- Nada demais, só a rever alguns temas que estou a preparar para minha tese, antes de tu chegares… Mas vou já arrumar tudo para podermos conversar! – disse no seu tom terno habitual, para começar a arrumar os seus matérias de estudo na pasta e preparar-se para uma conversa entre nós, que já estávamos a precisar de ter, a mais que não fosse para sabermos uma da outra

- Olha, olha… Mas o que é isto? – meti-me com ela num insinuo de brincadeira, indicando com o simples trejeito no olhar, o novo anel que lhe embelezava a mão esquerda – Hum, hum… Estou a ver que o Senhor David se esmerou!

- Esmerou-se, pois…! Gostas? – ela riu-se da minha intervenção e depois esticou a mão, para que pousada entre as minhas, eu pudesse ver com mais pormenor o acessório compromissivo com que qualquer mulher sonha, oferecido pelo homem da sua vida

- É lindo, Adriana… Fico muito feliz por vocês! – expressei com extrema sinceridade, vendo que dois dos meus melhores amigos estavam dispostos a assumir o compromisso mais sério do seu relacionamento: o casamento, prontos a unir não só as suas vidas, como também as suas almas… para sempre

- Eu sei que ficas, princesa… Obrigada!

- Ora essa! – ripostei no mesmo segundo, e creio que fora a minha expressão que a levara a gargalhar, nos levara a gargalhar no fim, muito levemente… no entanto não foi aquela descontracção que me fez esquecer dos meus problemas, por muito que o tivesse desejado

- Então e tu, de onde é que vens? Da faculdade?

- Não… Hoje não fui às aulas…

- Não foste às aulas? Então? – imediatamente a sua testa ganhou novas formas quando duas finas linhas a desenharam, provavelmente de estranheza, pois ela sabia muito bem que eu era uma estudante aplicada, e a imagem de “baldas” que faltava às aulas sem razão nenhuma aparente, não condizia em nada comigo

- Tive outros assuntos para tratar…

- Hum… Outros assuntos mais importantes que a faculdade?

- Sim, e depois fui dar uma volta à praia.

- Foste dar uma volta à praia com este tempo? Tu não mudas, realmente… - ela voltou a rir-se, desta vez mais discretamente, mas sem nunca se aperceber do que eu escondia

- E o Ruben ligou-me há umas horas…

- O Ruben, o quê? Ligou-te? – a sua descontração anterior depressa sofreu uma ligeira mudança, levando os seus olhos a arregalarem-se assim que assibilou a minha afirmação, que eu expus dentro da maior calma do mundo… ou assim fiz parecer

- Ouviste bem, sim… Ligou-me quando cheguei à praia…

- O que é que ele queria?

- Ele soube que eu estive doente, e ligou-me para saber se eu já estava bem.

- Eu comentei com o David, foi ele que lhe deve ter dito… - calculou rapidamente sem o mínimo esforço - Se o Ruben sabe, a culpa foi minha, desculpa, amor!

- Ei, então?! Claro que a culpa não foi tua, não tinhas como saber que o David lhe ia contar… Aliás, nem sabemos se foi mesmo ele.

- Oh, claro que foi ele… E eu devia ter previsto que isso pudesse acontecer,  ambas sabemos que o David e o Ruben são unha com carne, portanto…

- Esquece isso… Agora também já não adianta de nada, está feito, está feito. – a verdade era essa, as acções estavam feitas e agora não havia como voltar atrás na situação, Adriana sabia que eu estava a tentar manter-me o mais afastada possível dos olhos e dos ouvidos de Ruben, pelo menos até à semana do casamento onde na qual nos iríamos reencontrar, e por isso ela se tenha martirizado tanto

- Ah, e é verdade! Já te ligaram da clínica quanto ao resultado dos teus exames? – fugindo só um pouco ao assunto, ela tocou no ponto que eu não queria discutir ali, não num lugar público que rapidamente me poderia expor

- Sim, ligaram-me esta manhã para ir buscá-los…

- E tu foste? – a partir daquele instante ela concentrou-se muito em mim e no que eu dizia, pensando ingenuamente que já tudo tinha sido resolvido

- Fui… Aliás, foi esse mesmo assunto de que falei há pouco, que eu fui tratar…

- E então? O que é que os resultados diziam? Está tudo bem contigo, não está? – Adriana esperava impacientemente por ouvir uma resposta da minha parte, ela que estivera a par daquela situação desde o início, e entendia que esclarecê-la iria deixá-la mais descansa, só não sabia se estava preparada para ouvir o que eu tinha para lhe dizer

- Eu preferia não falar aqui, se não te importas… - indaguei, arrojando um olhar espaçado por todo o espaço onde nos encontrávamos, de maneira a expressar-lhe o pouco à vontade que eu tinha pela nossa falta de privacidade

- Mas não era para almoçarmos por cá?

- Almoçamos em minha casa e conto-te tudo lá. – propus, prevendo que ela não me diria que não

- Estás a deixar-me nervosa, Joana… Passasse alguma coisa?

- Eu conto-te tudo… Mas aqui não. – era a minha única condição, não queria expor de maneira nenhuma a minha intimidade, e então logo quando ela se encontrava tão propícia ao descalabro, visto que dentro de alguns meses deixaria de ser unicamente pessoal para passar a ser pública 

- Tudo bem, mas eu não estou de carro, vim na boleia de uma das minhas colegas…

- Não te preocupes com isso, vens comigo…

Saímos do Starbucks juntas e como começara novamente a chover, vimo-nos obrigadas a dar uma corrida rápida até alcançarmos o meu carro e entrar. Apesar de Adriana ter insistido comigo para lhe contar a conversa que travara com a minha médica naquela manhã, eu fiz boca de siri e fui fitando o assunto da melhor maneira que pude, até chegarmos enfim a minha casa.



***



- Então, é agora que me vais contar o que se passa, ou vais fechar-te novamente a sete chaves como fizeste durante todo o caminho para cá? – no hall, logo que entrou na minha frente, Adriana expressou claramente a sua falta de paciência e ansiedade, num cruzamento desafiante dos seus braços, que exprimiu enquanto eu fechava a porta

- Eu vou contar-te, claro que vou… - assegurei-a sem pressas nem precipitações, livrei-me do casaco que pendurei no bengaleiro, deixei a mala junto do móvel de entrada e cruzei o caminho do seu lado para lhe tomar a dianteira e dirigir-me à sala de estar – Queres tomar alguma coisa antes de começar a fazer o almoço?

- Não, Joana, eu não quero tomar nada… O que eu quero é que tu me digas o que se está passar! Caramba, estás a deixar-me seriamente preocupada! – ela seguiu logo atrás de mim, não me dando lugar para mais esquivas nem rodeios que prolongassem o secretismo do meu maior segredo 

- É melhor sentares-te…

- Eu estou bem assim de pé, obrigada. – ela começava a ficar inquieta e eu não a censurava, afinal estava só preocupada comigo e tudo o que de menos bom me tocasse, tocava-lhe também a ela

- Adriana, senta-te… Por favor! – pedi-lhe pela última vez, mostrando-lhe o sofá central da sala totalmente disponível para nos receber, e sem mais questionar, ela compactuou com o meu pedido e sentou-se finalmente

- Que carinha é essa, amor? Hum? – ao fim de deixar a sua mala sob a mesinha de apoio e numa sobreposição rápida de uma perna à outra, ela mostrou-se totalmente pronta a ouvir-me, abordando-me no seu tom carinhoso habitual e agora mais compreensível, enquanto ao fim de algum tempo me olhou a tomar lugar a seu lado – Eu nunca te vi assim antes… Fala comigo, tu sabes que podes falar comigo…

- Sim, eu sei, mas… É tão difícil… - murmurei sofregamente, pois não sabia por onde devia começar a falar, e sem ter o fôlego necessário para encará-la, deixei que o meu olhar vagante se refugiasse sobre as minhas mãos trémulas e geladas de nervosismo, que tinha pousadas no colo

- É difícil porquê? O que é que te está a deixar nesse estado? O que é que te está a prender nesse sofrimento todo?

- Ai, Adriana… - um suspiro eupático de desânimo total, fugiu-me no limite sucinto dos  lábios, aquando os meus olhos voltavam a provar do sabor a sal que as lágrimas lhes iam oferecendo – Eu não sei se aguento, se vou conseguir aguentar… Está tudo a fugir do meu controlo, tudo!

E era assim… Cada vez me sentia mais desorientada, mais perdida, mais sem rumo, e nada de maior que pudesse vir, mudaria essa sensação. O meu mundo começava a desabar-se a meus pés e agora nada do que eu pudesse fazer serviria para o impedir. Tudo fugia do meu controlo, tudo se virava do avesso, e aquela gravidez não esperada, não planeada, foi o ponto assente que me fez desmoronar ainda mais, arrasou-me de tal forma que numa fracção de momentos me deixou sem saber o que fazer à minha triste vida que era colocada à prova a cada instante.

- Ei, então, pequenina? Tem calma… - vendo-me ficar sem chão, Adriana anulou todo o pequeno espaço que nos separava, e para me confortar um pouco, chegou o seu corpo ao meu acolhendo as minhas mãos nas suas como sinal de força e segurança – Tem calma…

- O que é que eu vou fazer? O que é que eu vou fazer? – perguntei, ainda assim sabendo que ninguém teria uma resposta para me dar, e no segundo seguinte senti-a puxar-me delicadamente para o seu ombro para aí desafogar todas as minhas afrontas que me assombravam

- Shiu, tem calma… Eu estou aqui… - ela foi-me embalando devagarinho, como se uma criança pequena tivesse tomado o meu corpo, uma criança assustada e chorosa – Diz-me o que se passa, Joana, por favor… De outra maneira, e por muito que queira, se não falares comigo eu não vou conseguir ajudar-te…

- Está tudo a desmoronar-se em cima de mim, Adriana, e logo agora que me sinto tão isolada, tão sozinha…

- Oh, amor, que conversa é essa? Tu não estás sozinha nem nunca vais estar! – ela afagou o meus cabelos num gesto de carinho que me fez sentir amparada, sabia que enquanto a tivesse do meu lado, por muitos tombos que desse, Adriana estaria sempre lá para me ajudar a alçar do chão – Tens a tua família que te ama, os teus amigos que te adoram! Tens-me a mim… Tu sabes que podes contar comigo para tudo, que nunca te vou largar a mão…

- E o que é que acontece quando eu começar a ficar diferente…? Quando eu começar a mudar nos próximos tempos?

- Como assim, quando começares a mudar? – ela forçou um novo encontro dos nossos olhares, o que me permitiu voltar a altear a cabeça que repousava no seu ombro amigo, para encará-la e levantar-lhe a ponta do véu que cobria a verdade

- O que é que vai acontecer quando o meu corpo se começar a desenvolver de uma maneira totalmente diferente à esperada, à que é normal? – empecei por perguntar-lhe, com um sorriso de puro desalento a adornar-me cada traço do rosto – O que é que vai acontecer quando o meu peito aumentar, quando a minha barriga crescer? Será que nessa altura, a minha família e os meus amigos continuarão a meu lado, a amar-me… a apoiar-me?

- Espera, espera… O que é que disseste? – a sua mão comecei ergueu-se no ar, dando-me a indicação breve para fazer recuar as minhas palavras que lhe foram projectadas sem um raciocínio coerente para o seu pensamento ainda não estruturado – Quando o teu corpo mudar… a tua barriga… estás a querer dizer que tu… tu estás…? – sem me dar sequer a oportunidade de me explicar melhor, ela mesmo foi juntando as pecinhas do puzzle e chegou a uma conclusão que só eu poderia confirmar

- Sim, Adriana… estou. – e afirmei, ainda que receosa de lhe ver a reacção que tomaria logo assim que estivesse posta a par

- Mas… Como? Como é possível tu… tu estares… grávida(!)? – soletrando palavras soltas, os seus traços faciais desenharam-lhe toda a confusão e surpresa que o seu interior expressava

- Tanto é possível, que estou! Os exames confirmaram…

- Mas… - não conseguindo voltar a fechar a boca que se dominara pelo espanto daquela notícia, talvez a mais assombrosa e inesperada de todas, Adriana soltou-se do sofá num laivo de incredulidade enquanto a falta de expressão a deixava sem um discurso lógico – Tens a certeza disso? Quer dizer, tu não…

- Eu sim…! Tu sabes…

- O Ruben! Aquela noite em que ele veio cá… - não foi preciso dizer-lhe absolutamente mais nada, ela chegou lá por ela mesma – Meus Deus! – sussurrou com os olhos esbugalhados, constatando as reviravoltas que a vida poderia dar, e deu

- Não imaginas sequer como eu fiquei quando a médica me deu a notícia… Acho que queria morrer! Só não percebo como é que…

- Vocês não…?

- Não, mas… Mas eu tomo a pílula e…

- Sim, mas a pílula não é cem por cento eficaz e segura, como tal não era impossível uma coisa dessas acontecer…

- Não era impossível, mas era totalmente improvável! Acontece em quê? Num caso em mil? – questionei, numa palpitação acelerada do coração que constatou a evidência de eu ter sido apanhada por uma surpresa do destino

- E tu és esse caso… - reconheceu, num olhar de compaixão que trocou comigo

- E o que é que eu faço agora, Adriana? O que é que eu faço à minha vida? – o desespero e terror que se assomou em mim há horas atrás, reapareceu, mais cadente que nunca
 
- Amor, tem calma… O que tu precisas agora é de ter calma! Eu estou aqui e não te vou deixar sozinha. – assegurou-me rapidamente, agachando-se junto a mim, esperando conseguir transmitir-me pela ternura da sua amizade, a força necessária que não me deixasse desistir – Vais contar-lhe? – aquela nova inquirição que eu sabia que me iria ser feita, chegou bem mais cedo do que o esperado, o que não me permitiu formular uma resposta que já poderia ter ensaiado antes

- Ao Ruben?

- Sim… - afirmou num meio sorriso expectante, que aguardava somente um consentimento meu

- Vou, claro… - a minha voz tremeu no seu ponto mais alto, e automaticamente duas lágrimas gordas rasgaram a linhagem das minhas faces – Só não sei quando, mas vou contar-lhe.

- Não sabes quando? E que tal agora…? Já?

- Não, Adriana… Para já ainda não. – recusei-me sem qualquer dúvida em adiar, e depressa também eu me ergui do sofá para hirta me expor no centro da sala – Ainda é tudo muito recente, eu ainda não me sinto preparada…

- Mas mais tarde ou mais cedo ele vai ter de saber, e tu sabes que adiar o inevitável pode piorar a situação…

- Pior do que ela já está? – percuti com um aperto claustrofóbico a comburir-me o peito, da angustia que guardava lá dentro – Adriana, eu estou grávida de um homem que está a menos de dois meses de se casar com outra mulher… Um homem que tem uma carreira para vingar no mundo do futebol… Um bebé agora só lhe trará complicações…

- Joana, tu estás muito acima da carreira dele! – Adriana comentou assim… de rajada para o ar, que supus eu, ter-me sido lançada impensadamente e sem me querer iludir – Seja como for, ele é o pai, tem todo o direito de saber que estás à espera de um filho dele… O Ruben merece saber!

- Eu sei, eu sei disso, mas… A última coisa que eu quero e preciso, é ter alguém a acusar-me de lhe arruinar a vida, de querer prendê-lo a mim por causa desta criança… Principalmente a Inês, eu nem quero imaginar o que vai ser quando ela souber disto!

- É um assunto teu e do Ruben… E se ela gosta mesmo dele como diz, só vai ter que aceitar o que vocês decidirem quanto a esta notícia. É de um bebé que estamos aqui a falar e que está em causa… O teu bebé com o Ruben, o vosso bebé! Não o dela… - argumentou certeiramente, tentando aclarar-me as ideias, mas estas infelizmente mostravam-se cada vez mais confusas na minha cabeça

- Ai, Adriana… Eu não sei, eu não sei… - argui num sufoco exasperado, começando a caminhar de um lado para o outro sob o soalho flutuante da sala, de um jeito totalmente desconcertante que expressou bem o meu pobre estado de espírito – E se ele não quiser? Se ele não estiver disposto a assumir este filho comigo?

- Será que estamos a falar do mesmo Ruben?! – ela exprimiu um tom tão óbvio que me fez parar para olhá-la – Joana, o Ru está doido por ser pai! Ele nunca escondeu isso... E tu deves saber disso melhor do que ninguém!

E sabia, de facto, mas agora tudo era triste demais para relembrar os tempos felizes em que ambos ficávamos envoltos em conversas tardias ao telefone a traçar os nossos planos para um futuro próximo a dois... As habituais conversas de cama que surgiam meigamente depois de fazermos amor ou enquanto tomávamos o pequeno-almoço, onde discutíamos a possibilidade de mais tarde vivermos juntos, casar… embora ele nunca me tenha feito o pedido, dera-me a entender perfeitamente e por inúmeras vezes, o seu querer em unir comigo laços matrimoniais, como que começando a preparar o terreno. Agora o terreno estava preparado mas não era para nós dois, os planos das nossas vidas haviam-se queimado em labaredas furiosas e no lugar deles estava o casamento com Inês, uma vida ao lado de Inês. Massacrei-me nesses pensamentos e conclusões, e instantaneamente os meus olhos voltaram a rasar, como querendo libertar-me aquele sufoco berrante.

- Está doido por ser pai de um filho que não era suposto ser meu, ser nosso… Não nestas circunstâncias! – concluí, não consegui aguentar mais e foi depois daquela declaração que rebentei numa catapulta de choro… lágrimas atrás de lágrimas que me correram as faces pálidas de frieza e apoquentação

- Oh amor, não fiques assim, não chores… Vem cá… - vendo-me daquela maneira imensurável, a minha amiga correu ao meu encontro, afastou as minhas mãos que me cobriam rosto desfigurado pela dor, e puxou-me para um abraço demasiadamente apertado mas urgentemente necessário naquele momento

- Tenho tanto medo, amor… - desabafei entre os seus braços carregados de ternura que me refugiavam de uma desilusão maior, e por entre soluços aflitivos de alguém que vi-a os seus planos de vida um dia esboçados em papel,  completamente desfigurados, e agora direccionados a outras e novas realidades – Tanto medo…



***


(Adriana)

Reconfortei-a o melhor que pude, apesar de saber que os meus braços eram demasiado pequenos para tanta dor e sofrimento o seu. Beijei-lhe demoradamente o topo da cabeça e ao fim de alguns instantes, quando conseguiu tomar controlo do choro e eu a senti acalmar, levei-a novamente para o sofá e foi lá que a deixei repousar enquanto lhe fui preparar um chazinho de camomila, esperançosa que lhe serenasse a alma e acalentasse o coração.

- Bebe, pequenina, vai fazer-te bem… - logo que regressei à passividade da sala de estar, voltei para junto dela, passando-lhe cuidadosamente para as mãos a chávena fumegante – Cuidado que está quente…

- Obrigada… - agradeceu num silvar disperso e quase imperceptível, pela ausência da voz que um choro impetuoso e muito ressente, lhe enfraquecera, e o qual estava demarcado ainda no seu rosto desanimante

Mantive-me em total silêncio enquanto a vi-a sorver calmamente a bebida, sem me atrever a afrontá-la com mais perguntas que a pudessem deixar de novo desconfortável e arrastá-la ao desânimo anterior que a muito custo ela ia conseguindo afastar.
Confesso que aquela notícia que Joana plantara no ar que nem uma bomba, sobre a sua – tudo menos esperada – gravidez, me tenha deixado tão assustada quanto a ela ao início, mas não agora… Agora a ideia dela e de Ruben virem a ser pais, do mesmo filho, não soava mal de todo, e quem sabe se aquele bebé não fizesse chegar muitas alegrias, trazer muita felicidade… aos dois, aquela que eles nem poderiam imaginar, mas que com certeza desejavam mais do que tudo.

- Mais calminha? – perguntei carinhosamente, passando os meus dedos pela sua face que continuava a ser humedecida pelas lágrimas que continuavam a cair, só que desta vez de uma maneira mais controlada e silenciosa, e da sua parte apenas absorvi um curto consentimento de cabeça

- Adriana? – depois do silêncio, foi ela a dar o passo para restituir a conversa, num jeito quebradiço e machucado que me a fez olhar piedosamente

- Diz, pequenina…

- O que é que eu vou fazer se o Ruben não quiser este filho? –  com certeza que aquele deveria ser o medo que mais a inquietava… ver-se sozinha com um bebé nos braços de um homem que ainda amava tanto, mas que não era mais seu – Se ele não estiver preparado para esta mudança?

- Amor, não penses nisso agora…

- Mas eu tenho que pensar! – contra-argumentou, expondo-me o rasgo perturbante de vermelhidão que raiava os seus grandes olhos claros – E se ele ficar a odiar-me por isto? Eu não sei se vou aguentar…

- Oh Joana, é claro que ele não te vai odiar por nada… Que disparate é esse? Além do mais, tu não fizeste este filho sozinha… Lembra-te disso!

- Tenho medo da reacção dele, só isso…

- Pois eu cá não vejo razão nenhuma para teres medo… - comecei por falar, correndo suavemente os dedos nos fios do cabelo dela que acariciei num gesto de conforto e carinho – Tu conheces o Ruben, sabes que a partir do momento em que ele souber dessa gravidez, ele vai querer estar a teu lado, assumir todas as responsabilidades, e isso independentemente de já não estar mais contigo. – assegurei-a firmemente, sem deixar que a mínima incerteza quanto àquilo que dizia, me boicotasse o discurso, pois  conhecia demasiado bem o profundo e sério carácter do meu melhor amigo, e esse certamente que o levaria a tomar as decisões mais correctas

- Mas eu não sei se ele está preparado para ser pai… Está muita coisa em jogo aqui! E eu só não quero que isto seja motivo que o leve a afastar-se da Inês, a abdicar dos seus sonhos… É isso que eu não quero nem vou permitir que aconteça. – expressou, muito certa do que dizia, e apesar de estar magoada, de ser aquela quem mais estava a sofrer naquela história, mostrou querer preservar os projectos e sonhos de Ruben, independentemente destes a incluírem ou não

- Ele não tem que abdicar de nada… É verdade que esta criança trará inúmeras mudanças às vossas vidas, como é natural, mas serão mudanças boas… Vais ver! – tentei sossegá-la e encorajá-la ao máximo, não aguentava continuar a vê-la tão triste, tão em baixo

- Ai, isto vai ser tão difícil… já está a ser! Só não sei para onde me hei-de virar, o que fazer agora…

- Agora vais respirar fundo… Limpar esse rostinho lindo… - enumerei, levando as minhas mãos às suas faces, para  enxotar delas carinhosamente, as lágrimas que continuavam a correr desalmada mas solenemente - …e vens comigo, que eu vou providenciar o almoço. Aposto que ainda não comeste nada de jeito hoje!

- Não, prepara o almoço só para ti porque eu não tenho fome… - ela fez uma cara depreciativa, mas eu não lhe iria dar qualquer hipótese, ainda para mais estando ela naquela tão delicada condição… a condição de futura mamã

- Ai não, Joana, é que nem tentes… Oh oh! Vais comer sim senhora, e agora sou eu que mando! – o meu indicador furou o ar aquando eu num impulso, me desprendi do sofá e tomei uma posição superior à dela, que não me deixaria induzir nas suas pequenas manhas – Vá, amor, vem… - a minha mão esticou-se na direcção dela, a qual só voltaria a soltar da sua quando chegássemos à cozinha

Durante o tempo que ficámos a preparar o nosso almoço, Joana falou-me ainda de um assunto que não havia sido abordado e que me deixara com os joelhos a tremer: a sua ameaça de aborto. Felizmente que tudo não passou de um susto, mas que segundo ela se poderia repetir podendo tornar-se num caso extremamente mais grave se não fossem tomados os devidos cuidados e providências.
Como sua amiga íntima que era, temi por ela, pela sua saúde e pela saúde do bebé que esperava para nascer, e desde logo que me pus sob alerta e tomei o cuidado de evitar alguns assuntos que podiam calhar em conversa e voltar a desinquietá-la em emoções fortes, e evitar esforços desnecessários.

- Não comeste quase nada… Não gostaste? – vendo-a arremessar os talheres somente para um lado do prato, praticamente cheio pela comida que ela mal tinha tocado, desanimei brevemente pela sua falta de apetite inconveniente  

- Não, não é nada disso… É claro que gostei! Eu é que estou um pouco enjoada… - justificou-se rapidamente para me sossegar, com um sorriso ameno nos lábios mas de olhos tristes

- Hum, então se é esse o motivo, está mais que aceite! – proferi, tentando animá-la um pouco, mas nada mais que o mesmo sorriso tristinho foi-me oferecido por ela

- Já terminaste? Eu vou arrumar a cozinha. – comunicou prontamente enquanto se levantava da mesa, e levando consigo o seu prato e copo para o lava-loiças

- Ei, ei! Nem pensar… Senta-te que eu arrumo tudo! – ordenei-lhe, e tal como ela também eu me levantei, orientando o meu corpo na direcção do dela, para olhá-la em todo o plano

- Oh, mas isso não é justo! Praticamente fizeste tu o almoço, mal me deixaste ajudar-te… Agora deixa-me ser eu a fazer alguma coisa.

- Não é preciso que te relembre da tua condição, pois não?

- Eu não estou invalida, Adriana… - relembrou num tom que tocou com facilidade a ironia, a que deu ênfase com um revirar irrepreensível dos olhos

- Eu também não disse isso. – esclareci, pois havia sido mal compreendida e caminhei calmamente até chegar junto dela, que permanecia encostada à bancada do lava-loiças vendo-me aproximar – Mas tu própria disseste o que a médica recomendou… Recomendou, não… Exigiu! Tens de passar estes dois dias em total repouso, sem o mínimo de esforços, não é?

- Sim, mas… - Joana tentou refutar, mas não lhe dei hipótese de maior contestação… ela agora precisava de ter todo o cuidado do mundo, e alguém teria de travar aquela sua teimosia que eu já tão bem lhe conhecia da sua personalidade

- Hum, hum… Mas nada! Nada de respingar, Dona Joana. Deixa isto comigo, e tu agora vais masé descansar… Mais daqui a pouco já ligo ao David para lhe dizer que vou cá passar a noite contigo.

- Oh Adriana, não, não é preciso… Eu cá me desenrasco sozinha, não quero causar transtorno a ninguém! – ela mostrou bem a sua posição, mas eu não iria recuar com a minha…

- Mas desde quando é que me causas transtorno? Não sejas tontinha! Fico para o caso de precisares de alguma coisa… Nem pensar que te vou deixar sozinha nestes dias. ­– notei que as minhas palavras de alguma maneira a vulnerabilizaram e por isso ela tenha deixado morrer o seu olhar no chão, onde o prendeu por alguns momentos e o perpetuou juntamente com um silêncio inquietante que chegou da sua parte

- Não tenho palavras para te agradecer o que estás a fazer por mim… - quando a voz remontou às suas cordas vocais, foi traída por novas lágrimas que voltaram cruzar os caminhos exaustos do seu rosto, e eu mesma pude testemunhar isso quando a vi altear o olhar para encarar o meu, e o seu pequeno queixo tremelicar para travar um choro maior

Ela abriu ligeiramente os braços como me pedindo um gesto de carinho, um aconchego que a fizesse sentir amada e eu não hesitei em mostrar-lhe que teria sempre ali um porto de abrigo, bastava procurar-me.

- Não precisas, amor… Não precisas agradecer. – puxei-a para mim, beijei-lhe ternurosamente na testa, e acolhi-a sem demoras num escudo de amor e protecção onde a envolvi novamente, enquanto ela se deixava chorar no meu ombro de um jeito fatalmente desinquietante, sem mais forças a susterem-lhe o corpo fatigado

Era mais do que evidente ao coração sensitivo e aos olhos de quem pudesse ver, que Joana estava a tentar ser forte, estava a tentar parecer forte, mas ela precisava muito de ter alguém a seu lado, mais do que aquilo que ela queria admitir… Alguém que cuidasse dela, que a apoiasse e permanecesse do seu lado independentemente de tudo aquilo que estivesse ainda para vir, e como uma grande amiga que eu era e representava, eu estava lá para isso, poderia não ser a pessoa que ela desejava ter ali, como facilmente se imaginava quem seria ela, mas eu não a iria abandonar numa altura daquelas, por nada.

- Pronto, pronto… - finalmente senti-a sossegar, aos poucos a sua respiração foi-se regularizando por si e somente ficou o leve soluçar que restou dos minutos de choro que passaram – Vá, vamos lá pôr-te na caminha a descansar…

Joana já sabia que comigo não valia a pena contestar, mesmo que a minha decisão não fosse do seu maior agrado, e deve ter sido por isso mesmo que da sua parte não recebi qualquer resistência. Passei para o seu lado esquerdo, e sem me separar dela contornei-lhe os ombros com o meu braço, e foi daquela maneira que atravessámos o corredor, subimos as escadas e caminhámos no andar superior até chegarmos ao seu quarto. Ela estava tão debilitada, tão quebradiça, que por vezes tive de a puxar para mim e dar-lhe um suporte maior que a mantivesse hirta… Continuava com as lágrimas nos olhos e partia-me o coração vê-la assim, mas essas só iriam cessar no momento em que desse uma pausa ao mundo real e se deixasse dormir, porque até lá aqueles tormentos todos não lhe dariam tréguas.
Mal entrámos no seu quarto, ela soltou-se de mim num impulso repentino e correu até à casa de banho, vitimada pelos sintomas da gravidez que a obrigavam a vomitar, e pelo menos iria continuar a ser assim durante o seu primeiro trimestre.

- Sentes-te melhor? – inquiri-lhe cautelosamente, quando a vi regressar já com alguma corzinha no rosto

- Sim… - assegurou simplesmente, sem mais se querer prolongar

Descalçou apenas os ténis que trazia, e com a roupa que tinha vestida no corpo, deitou-se na cama em posição de conchinha, como se tentando proteger de um sonho mau que pudesse vir a ter, e ainda demasiado fragilizada a cada nova emoção que a invadia e a fazia chorar um pouco mais.
Alcancei a manta axadrezada que se sobrepunha ao colchão ao fundo da cama, e tapei-a, desviando delicadamente os cabelos que lhe cobriam o rosto.

- É um milagre, Joana, devias ficar feliz… - disse-lhe baixinho referindo-me ao seu estado de esperanças e ao agachar-me junto dela, vendo-a começar a ser levemente dominada pelo subcarregado cansaço físico e emocional que a transtornara durante aquele dia

- E eu estou feliz… Eu estou feliz… - com o rosto banhado de lágrimas e antes de fechar os olhos para se entregar ao estado profundo de dormência, ainda me deu tempo de lhe ver o embevecimento de um sorriso que apesar de discreto e tenuemente assustado com tudo aquilo que pudesse vir acontecer, foi o mais puro e verdadeiro que o seu coração permitiu expressar – Vou cuidar dele com todas as minhas forças, é uma promessa.

"Uma promessa para a vida", pensei sorrindo. Voltei a acariciar-lhe o rosto e dei-lhe um beijinho demorado na têmpora. Preparei-me para sair e deixá-la descansar naquele cantinho que inesperadamente foi invadido por uma tranquilidade paciente, mas algo deixado sob a mesinha de cabeceira me chamou a atenção e pediu-me que lhe pegasse… Uma fotografia, uma fotografia sem moldura fazia pousio na cabeceira dela, ligeiramente manchada pelas lágrimas – assim julguei –, e perguntei-me se Joana adormecia todas as noites a olhar para ela. Era uma fotografia que tirara ao lado de Ruben, recentemente, diria, talvez captada naquele Verão em São Francisco. Olhei alternadamente para ela e depois para o pedaço de papel que eternizara uma felicidade já sentida, e quase que consegui tocar a sua dor, a sua tristeza, e digo-vos que o aperto no peito que senti, foi angustiante… Tive pena por ela, por eles, pena por nunca os ter visto juntos sabendo que se continuavam a amar tanto, e no meio de toda aquela complacência, não consegui permanecer indiferente e também um pequeno fio de água acabou por surgir na linha dos meus olhos, sem que eu mesma me apercebesse.
Voltei a pousar a fotografia no mesmo sítio, fazendo-a parecer intocável, e ficando mais sossegada por vê-la finalmente serena a dormir, saí do quarto sem fazer o mínimo barulhinho e encostei a porta.
Depois de arrumar a cozinha refiz o caminho até à sala de estar, e foi entre aquelas quatro paredes que permaneci na passividade dos instantes seguintes.

- O que chove… - murmurejei quando fui atraída pelo som da chuva que caía furiosamente lá fora, que me levou a espreitar por entre as cortinas rastejantes das portas corrediças de acesso ao jardim exterior

Liguei ao David a informá-lo que passaria aquela noite com Joana, prometendo-lhe que lhe explicaria melhor as razões quando estivéssemos juntos, e entretive-me a ver televisão, mas somente por alguns minutos, pois a programação estava de tal maneira assoberbada de desinteresse, que desisti de ficar a assistir.
Foi então que buscando por uma nova distracção, alcancei da mesinha de apoio ao centro da sala, um revista cor-de-rosa daquela semana, sobreposta ao jornal desportivo onde a última goleada do Benfica fazia capa.

- Ora vamos cá ver o que vem aqui… - assim que segurei a revista nas minhas mãos e me recostei novamente ao sofá de coro negro, comecei a folhear desprendidamente as notícias, mas foi uma página em especial, das intermédias, que me chamou a atenção e me fez espreitar o artigo prescrito

"A manequim internacional portuguesa, Joana Freitas de Andrade, que iniciou o seu quarto ano de faculdade há pouco mais de um mês, deslocou-se no passado fim-de-semana à belíssima cidade de Paris, em trabalho, tal como tem feito nos meses que têm corrido  por alguns outros países da Europa. E o que a princípio passava apenas por ser mais uma viagem calibrada pelo seu foro profissional, acabou por trazer surpresas inesperadas à jovem e a todos os que trabalhavam consigo, aquando nos estúdios de produção para o catálogo da nova colecção assinada pelo estilista Jean-Paul Gaultier, terá perdido os sentidos e desmaiado em plena sessão fotográfica, levando a preocupação a todos os presentes. Ao que tudo indica, a produção foi forçada a ser adiada enquanto Joana foi imediatamente levada para o seu quarto de hotel, onde terá sido vista por um médico que foi chamado ao local.
Os seus colegas de profissão que a acompanharam no projecto, a manequim também portuguesa Sara Sampaio, e o brasileiro Francisco Lachowski, recusaram-se a falar sobre o sucedido para, referiram eles, salvaguardar a intimidade da amiga, e o agente apenas afirmou a sua cliente já estar bem e a recuperar.
Verdade é que ultimamente Joana tem sido vista mais magra, e terá trocado também a vivacidade habitual e os sorrisos constantes sempre que fotografada na rua, por expressões mais fechadas e taciturnas. Há quem fale em mal de amores – apesar de até à presente data não ter sido apresentado um namorado publicamente –, e também em distúrbios alimentares, que dão a possibilidade de estarem a dificultar a todos os níveis a vida da jovem, e daí terem levado fontes a afirmar que o excesso de trabalho e estudos estão a levar a manequim de quase vinte anos, ao desgaste físico e emocional.
Para esclarecer a situação, Joana foi contactada até ao fecho desta edição, mas em todas as vezes mostrou-se indisponível para prestar qualquer esclarecimento."

Foi terminar de ler o artigo e ouvir no mesmo segundo a campainha, que soou em dois toques consecutivos e para mim inesperados, pois não contava com nenhuma visita da Joana.
Voltei a colocar a revista sob a mesinha, aberta nas páginas onde suspendera a minha leitura ainda alusiva ao foro pessoal da minha doce menina, e fui abrir a porta.

- Já vai, já vai! - tranquilizei entre dentes enquanto atravessava o corredor, tentando abrandar a impaciência de quem permanecia do lado de fora, que continuava a tocar – Bolas, não era preciso tant… Ruben?! – quando me preparava para dar um breve sermão a quem não sabia esperar, fiquei boquiaberta quando escancarei a porta e observei o Ruben

- Adriana?! O que é que estás aqui a fazer? - a sua expressão confusa assemelhou-se à minha, pela gelha que duas linhas formaram nas nossas testas

- Isso pergunto eu… O que é que tu vieste cá fazer? – sobrepus a minha questão à sua, olhando-o de alto a baixo e reparando que ele não escapara à chuvada desde o seu carro até à entrada principal da casa, o que comprovei pela água que escorria do seu cabelo e roupas molhadas

- Eu vim ver a Joana… - num lance rápido, Ruben avançou na minha direcção, esperando conseguir entrar para poder levar à avante a intenção que o trouxera ali, sem qualquer detenção, mas enganou-se redondamente

- Oioioi… Calma, está bem? – vendo-o demasiado efusivo pela ânsia que tinha em vê-la, vi-me obrigada a travá-lo, tocando-lhe levemente no peito

- Adriana, deixa-me passar, se faz favor… - ele insistiu mais uma vez voltando a forçar a sua entrada, mas por bem eu voltei a impedi-lo – Mas 'tás armada em quê, agora? Deixa-me lá entrar…

- Primeiro vais ter um pouco mais de calma, e depois vais explicar-me o que vieste aqui fazer…

- Eu já te disse… Vim ver a Joana, saber como ela está!

- A Joana está bem… está óptima! – comuniquei, forçando um sorriso nos lábios que reforçasse aquela minha mentira e o convencesse, infelizmente não tive sorte

- Só acredito quando a vir com os meus olhos! – condicionou numa certeza inquebrável, que eu sabia mais tarde ou mais cedo levar-me a ceder – Como é? Olha que eu não me vou embora sem me assegurar primeiro de que ela está mesmo bem e não precisa de nada, nem que tenha de ficar aqui plantado…!

- Ruben, assim estás a dificultar a minha posição…

- E tu não estás a facilitar a minha!

- Facilitavas se te fosses embora…

- Nem pensar! Eu já disse que enquanto não vir a Joana, não saio daqui! – os seus braços teimosos cruzaram-se num único e incontestável movimento à frente do peito, prometendo-me não vacilar perante a minha oposição

E aquilo era o que mais me assustava nele: o seu jeito impulsivo e determinado de ser. Quando se metia uma ideia naquela cabeça dura, por muito que tentássemos, era difícil conseguir demover-lha… Diria mesmo impossível! Ele não estava disposto a desistir com aquela facilidade toda, ainda para mais quando era Joana que estava no centro da sua razão, mas eu também não podia permiti-lo de invadir o espaço dela, o cantinho dela. Sabia que agora e mais do que nunca, eles teriam muita coisa para conversar, ela tinha muita coisa para lhe dizer, mas não seria naquela altura. Joana ainda se encontrava de rastos com toda a situação que a apanhou numa rasteira da vida, e só devagar devagarinho é que conseguiria voltar a si mesma e ter forças para seguir enfrente. Ver Ruben naquele momento, ter de enfrentá-lo, acabaria por arrasar com as emoções dela, e não seria bom colocá-las à prova quando numa situação complicada, existia um bebé ainda em risco… Era nele que tínhamos de pensar agora, apenas nele.

- É assim que vai ser, não é? Depois não digas que não tentei fazer as coisas a bem… - ele colocou-me sobre aviso, e antes de poder antecipar o que queria dizer com aquilo, as suas acções falaram por si – Joana…! Oh Joana! – sem mais não ele começou a gritar para dentro da casa, tentando chamá-la para que viesse ao seu encontro e matar-lhe a necessidade que tinha em vê-la, mas antes que a pudesse acordar, forcei-o a calar-se rapidamente

- Mas estás doido?! És pior que os putos, tu! – a palma da minha mão selou a sua boca e impus-me a acabar com aquele seu devaneio naquele mesmo instante – Vá, entra, mas ai de ti que voltes a abrir a boca para fazer barulho!

- Mas não posso fazer barulho porquê? O que é que se está a passar? Onde é que está a Joana?

- Não podes fazer barulho porque primeiro, não estás em tua casa, e segundo, porque a Joana está lá em cima a dormir! – enumerei pausadamente, retomando o caminho para a sala, sentindo-o seguir os meus passos logo atrás de mim

- Está a dormir? A estas horas, Adriana?!

- E tu a estas horas não devias de estar no Seixal?

- Não, ainda tenho tempo… E não tentes mudar de assunto!

- Oh Ruben, o que queres que eu te diga? Ela estava cansada e foi-se deitar um bocadinho… Qual é o problema?

- O problema é que eu não estou a engolir esta história, o que é que não me estás a contar? – ele estava irredutível a receber as suas respostas a todas as questões que colocava, eu só não percebia porquê… porque é que estava tão interessado, tão preocupado

- Se estás a engolir ou não, o problema é teu… Não há nada para contar, aliás, nem estou a perceber porque é que estás a fazer isto tudo… Podes-me explicar qual foi a tua súbita consternação pela Joana? – com uma simples pergunta consegui virar a ponta da espada na direcção dele, e foi fácil notar que a falta de palavras o levou a um pequeno embaraço

- Eu… Eu só queria sab… - enquanto tentava encontrar uma justificação que me convencesse, o seu olhar que viandou pela sala que só nós dois ocupávamos, caiu acidentalmente na revista que eu por descuido deixara aberta nas páginas onde ele reconheceu facilmente das fotografias estampadas, Joana – O que…?

- Ruben, espera… - sem conseguir impedi-lo de tomar em sua pose a revista, ele pegou-a entre as mãos e pude ver claramente que os seus olhos procuraram desesperadamente pela notícia onde viesse a ser falado o nome dela

- O que é isto? – exigiu saber, elevando ligeiramente o tom de voz que se ressentiu em mim no instante em que o vi atirar a revista contra a mesa, e voltando a cruzar o olhar com o meu já depois dos dois minutos que lhe deram o tempo suficiente de ler e reler o artigo, numa expressão de quem não gostou nada do viu – Distúrbios alimentares? O que é isto, Adriana?

- Mas qual quê? Não há distúrbios alimentares nenhuns… Até parece que não sabes como são as revistas, adoram inventar!

- Não me mintas, Adriana… Eu quero a verdade! – por alguma razão ele não acreditou em mim, e o seu rosto contorcido de aflição e preocupação em relação a Joana, só me veio a comprovar o quanto ele temia por ela

- Achas mesmo que eu te estou mentir? Sinceramente… Não há absolutamente nada de mal com a Joana!

- Mas diz aí que ela desmaiou, que não tem parecido a mesma… Alguma coisa não está bem, então!

- Ruben, acalma-te, está bem? O que vem aí a dizer…

- Tu não me peças para ter calma, desta maneira não! – vociferou em surdina, espelhando bem o aperto que lhe vitimava o peito – A Joana…

- A Joana anda cansada, stressada com as aulas e o trabalho… Ela tem viajado muito, e sabes que vida de manequim também não é tão fácil como parece! – por senti-lo demasiado nervoso com tudo aquilo, tentei tranquilizá-lo ao máximo, pois nem eu conseguia imaginar o turbilhão de sentires e emoções que naquele momento lhe fervilhavam nas veias, levando-o àquele estado intuitivo de nervosismo e inquietação

- De certeza que é só mesmo isso? – os seus olhos tristes revelaram-me o quanto queriam que eu reafirmasse a minha anterior afirmação, e eu não pude ficar de maneira alguma indiferente ao seu instinto protector que ainda guarnecia em redor dela

- É, Ru… É só mesmo isso, não tens de te preocupar. – voltei a sossegá-lo, puxando as suas mãos para unir às minhas e apertá-las suavemente, esperando transmitir-lhe algum conforto

A verdade ali era só uma, e era a que dizia que ele estava a morrer de preocupação pela Joana, pelo seu estado debilitado – e para ele ainda omisso –, de saúde, e eu só não fiquei reticente em respeito à Inês porque sabia que não era ela quem Ruben amava, e isso estava tanto para mim como para todos, claríssimo como a água… Só que enfim, ele fez as suas escolhas, tomou a decisão errada e agora teria de assumi-la, por muito que lhe doesse, por muito que o magoasse viver longe da mulher que detinha verdadeiramente todo o seu coração, e essa permanecia no quarto do andar superior, tranquila no seu estado inebriante de paz enquanto pernoitava, e carregando no ventre um filho seu.

- Então deixa-me ir vê-la, Adriana… Peço-te por tudo! – ele suplicou-me com os olhos albergados num afogueamento intenso que os irradiavam e o prendiam numa ânsia imensurável em poder chegar perto dela – Eu prometo que é rápido, por favor! Deixa-me vê-la…

Por ser meu melhor amigo, uma das pessoas por quem eu mais nutria carinho e guardava um respeito enorme, naturalmente que me custava imenso vê-lo daquela maneira, a sofrer silenciosamente e ao que parecia, eu ali ficava por ser o ponto intermédio, o limiar que separava a sua angústia da diminuição daquela sua dor… Ele precisava da minha permissão para avançar, precisava de vê-la, de sentir que estava tudo bem com aquele que ainda era e nunca deixara de ser, o grande amor da sua vida, caso contrário não iria sossegar.
Foi então que, não totalmente consciencializada das consequências que aquela minha benevolência poderia trazer, e dispondo-me a correr o risco de Joana não me perdoar caso o meu pequeno favor a Ruben não corresse como o esperado, peguei na mão dele e numa marcha lenta que ambos tomámos, guiei-o até à porta do quarto onde o corpo dela permanecia totalmente adormecido e tranquilamente repousado.

- Obrigado… - agradeceu-me num sussurro pueril, enquanto pela brecha deixada da porta encostada, ele a espreitava, guarnecendo diante dos seus olhos a silhueta calmante e intocável de Joana

- Queres ir ao pé dela, não queres? – evidentemente que ele queria ir ao pé dela, chegar perto… todo o seu corpo pedia isso, gritava por isso, eu apenas lhe dei o pequeno consentimento apenas e somente para o ver mais descansado

- Posso? – os seus olhos implorantes esbugalharam-se ao tocarem os meus, e mais uma vez pude ver, ainda que por entre a escuridão do corredor onde nos encontrávamos, a presença de uma vermelhidão que permanecia lá e que continuava a raiá-los, fazendo-o recordar da dor da sua maior perda

- Vai lá… Mas por favor, não a acordes. – facultei com um sorriso singelo, esperando no meu interior não me vir a arrepender por nada daquilo

Não foi preciso dizer-lhe mais nada, e cuidadosamente Ruben entrou no quarto dela, no seu pequeno mundo onde mantinha reservada só para si a tristeza profunda do seu maior desgosto de amor. Pé ante pé ele aproximou-se da cama e na simplicidade de um mero acto, ficou a olhá-la, a observá-la, a tentar memorizar aquela imagem para levar consigo e mais tarde recordar.
Quanto a mim fiquei a contemplar aquele cenário do lado de fora, encostada ao aro da porta, sabendo ser eu a cúmplice principal daquela rusga proibida de amor, porém em nada me julguei culpada, pois no fundo sabia, e em cônsul da minha sensibilidade de mulher também apaixonada, que estava a praticar nada mais do que o bem.
Ruben permaneceu com a mesma postura durante algum tempo, mas inesperadamente acabei por vê-lo tomar uma nova atitude. Com todo o cuidado do mundo, e como se tivesse habituado a fazê-lo, puxou a pequena manta até cobrir o corpo dela na totalidade, que se encontrava parcialmente destapado, e aconchegou-a meiga e carinhosamente. A partir daquele instante senti-me ser tocada por uma energia tão forte que os envolvia, que me arrepiei da cabeça aos pés… Ruben olhava para ela como nunca o vira olhar uma outra mulher… Com um carinho, uma ternura, um amor! Um amor que obviamente ainda lhe sentia e que não saía de maneira alguma nem do seu peito nem do seu coração, que cada vez se mostrava mais triste e desassossegado. E desassossegava-me a mim vê-lo assim, no fundo vê-los assim aos dois… Tão perto de alcançarem a felicidade plena, quando ambos a desejavam tanto, e mesmo assim não a poderem ter. E se o que ali presente, bem diante dos meus olhos, não era amor… Então sinceramente eu não sabia o que era.

- É melhor eu ir embora… - ao fim de alguns minutos, cruzando ao meu lado, ele voltou a sair do quarto, desta vez num rompante, onde sem mais ter o que fazer ali, preparou-se para se precipitar às escadas, mas daquela maneira eu não o permiti e segurei o seu braço

- Então, Ru? O que é que se passa? – inquiri baixinho, mas mais do que poderia ouvir, vi… vi as lágrimas formadas nos seus olhos, prontas a jorrarem a qualquer instante pelo espaldar do rosto

- O que se passa, Adriana? – mordiscando os lábios, ele fez um esforço enorme para não se mostrar destroçado ao ponto de chorar à minha frente, seguindo-se uma breve pausa que fez para recuperar o alento e voltar a falar – O que se passa é que eu nunca imaginei que fosse tão difícil querer tocar-lhe e não poder fazê-lo mais… Nunca mais! É isso que se passa.

- Oh, Ru… - instantaneamente abracei-o, percebi nele que precisava de ser abraçado e então abracei-o com força, o que eu mais queria era levar-lhe a tristeza para longe, e não havia melhor maneira de fazê-lo do que aquela de lhe contar a verdade que ele ainda não sabia, surpreendê-lo com um alegre e efusivo "Parabéns, papá!", e só Deus sabe o que eu me controlei para não cair na tentação de fazê-lo

- Tem sido tão difícil para mim, Adriana… Tão difícil… - ciciou enquanto me apertava contra si, precisando de sentir o apoio e compreensão de alguém, quando já nenhuma esperança havia a coabitar-lhe a alma

- Tu fizeste a tua escolha, Ruben, e não foi a Joana quem escolheste…

- Mas como é que eu vou conseguir viver longe dela? Sem ela… O que é que eu vou fazer à minha vida? – num suspiro entrecortado, foi ele quem quebrou o abraço, entorpecido por uma dúvida que certamente o assombrada a cada dia

- Ainda tens dois meses para decidires o destino que queres dar à tua vida, por isso pensa bem…

Ele apenas soube consentir, e mais nada entre nós foi discutido quanto àquele assunto ou a qualquer outro, pois nesse instante em que as palavras faltaram, Ruben ficou pronto para ir embora. Despediu-se de mim com um "Vemo-nos depois!" e um beijo suave na bochecha, para depois ao se voltar no sentido oposto, recolher as mãos nos bolsos do casaco e começar a afastar-se na extensão delongada do corredor. Fiquei ali a mirá-lo até vê-lo desaparecer, em que cabisbaixo, ele terá certamente resguardo somente para si e para as paredes daquela casa pelas quais terá passado rumo à saída, as lágrimas que lhe adivinhei correrem então livremente pelas faces trépidas, exteriorizando-lhe a dor temperada por aquela tarde fria e dolorosa de Outono.
E tudo aquilo foi só o início, o início de algo maior que estava para vir…






 Minhas queridas, tenho de vos pedir desculpa por tanta demora em vos vir trazer
novidades, mas com as aulas e tudo o que é inerente aos estudos, não tenho tido
possibilidade de escrever com a frequência que gostaria.
Tenho também de vos agradecer os comentários que me têm deixado nos últimos
capítulos, é muito gratificante para mim receber todo o vosso apoio e carinho,
e definitivamente que me dá uma motivação extra para continuar a escrever.
Quanto ao novo capítulo, espero que gostem e por favor deixem-me as vossas opiniões, é muito importante! 

Beijinhos, Joana :)



P.S.: A pedido da leitora Ana, que hoje faz anos, e me pediu que lhe dedicasse o capítulo, aqui está ele! Minha linda, muitos parabéns! Espero que tenhas um óptimo dia recheado de coisas boas e que sejas muito feliz.
Um beijinho grande ♥   
  

39 comentários:

  1. Ai eu AMEI!! amei cada letra, cada palavra, cada ponto, cada virgula.
    Amei a sensibilidade do pequeno Ruben, as crianças de facto sao incriveis :)
    Amei a Adriana, é uma amiga como há poucas.
    E o Ruben, por favor... Ele tem cá uma pontaria para saber que se passa alguma coisa de errado com ela, que mesmo depois de ela lhe ter desligado a chamada ele nao desistiu e foi atras, para ver com os seus olhos que o seu mundo estava bem.
    Ruzinho, vais ser papá :) vais ficar tao feliz quando souberes, estou desejosa de ler esse capitulo.
    Cada vez mais, tenho certezas que ele nao vai casar. Ele ama tanto a Joana, e se a Adriana sentiu ao ver, nos leitoras sentimos ao ler. quem me dera ter um amor assim...

    Quanto ao tempo que demoras a postar, é normal, em tempo de aulas torna-se dificil. mas também nao vou dizer que fico ansiosa por ler mais e mais, porque fico, mas compreendo e espero o tempo que for preciso para ler mais :)


    Beijinhos*
    Lisandra

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  2. Bem, que posso eu dizer de mais um capítulo desta história?
    quanto mais leio, mais quero ler... está fantástico :)
    e apesar de nao ser este o rumo que estava a pensar para a fic, confesso que estou a adorar cada vez mais!!!
    Espero que o ruben delire com a boa-nova, e pela positiva! que ele saiba brevemente xD
    espero por mais um capitulo ansiosamente

    força nisso!!!

    beijinhoo

    Catarina

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  3. Ai ceus!!!! Impressionante... demais. Estou sem palavras!!!!
    Só consigo pensar em alguem contar ao Ruben, a Adriana não pode deixar que a Joana demore muito a contar ao Ruben, não mesmo.
    Ai o que eu dava por mais um capitulo, ceus!!!!
    Adoro!!!
    Beijo
    Adriana

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  4. Está tão, mas tão real!!!
    Quando é que a nossa joaninha vai ter um capítulo em que vai voltar a sorrir? Espero que esteja próximo e de preferência que o motivo desse sorriso seja o Ruben ...
    Tenho a certeza que o Ruben vai AMAR a notícia. Pode até ficar em choque no primeiro minuto, mas depois só vai querer ficar do lado da SUA Joana :) Estou a desejar p'ra ler o próximo capítulo !!!

    Parabéns por mais um capítulo :D

    beijinho grande
    Raquel

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  5. Escusado será dizer que adorei porque isso já sabes :P Ah e também já sabes o que quero ler mas volto a insistir... opa eu quero ler essa cena!!!

    Quanto ao capítulo adorei o "desespero" da Joana provocado pelo receio que o Ruben não queira o filho, apesar de não ter fundamento nenhum...

    Quanto ao Ruben já era hora dele se tornar em homem e tomar uma atitude, ela não ama a Inês...

    Quero o próximo!!!

    Beijocas

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  6. Lindo..... apaixonante.... *-*

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  7. meu deus... o amor deles é mesmo perfeito *.*
    fico sempre sem palavras... mais uma vez parabéns Joana!
    continua por favor!

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  8. Quero mais, preciso de mais! Isto esta mais do que perfeito :))

    Poem os juntinhos, va la...

    Eu sei que e dificil mas tenta nao demorar muito a postar.

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  9. Adorei adorei adorei.Quero o proximo rapido.bjs

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  10. Fabuloso... Tou super curiosa para ver o próximo...

    Continua... Cada vez ta melhor...

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  11. http://www.youtube.com/watch?v=aTtrZsBZr7Y
    Esta música me lembrou muito o Ruben e a Joana. Muito. <3

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  12. Deixaste-me com um sorriso no rosto... A música é linda, obrigada por teres partilhado comigo :)

    Bijinhos*

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    1. Awn que bom que gostou... e que bom que sorriu também ahahaha.
      Não contive a vontade de partilhar contigo porque eles não saíam da minha mente toda vez que a ouvia... agora vão ficar ainda mais <3
      Beijinhos :*

      Gabi

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  13. Estás quase a publicar? *,*

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  14. Sim, para quando o próximo?!

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  15. Infelizmente não vos posso dar uma previsão de postagem, desculpem meninas. Tenho andado cheia de coisas para fazer e o tempo para a escrita tornasse escasso... Espero que compreendam e espero voltar também com novidades o mais depressa que me for possível.

    Beijinhos

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  16. nós percebemos :) esperemos que seja breve

    beijinhos

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  17. Amazing!!!!!!! *.*
    Sabe o que também era giro?? Um ''flashback'' do primeiro beijo do Ruben e da Joana. Estava relendo alguns capítulos mais antigos e fiquei curiosa hihihihi, beijinhos

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  18. Segui :D
    Se quiseres passa por aqui: diaanasantos.blogspot.pt

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  19. gostei tanto dessa ideia do flashback !!!
    acho que seria giro xD afinal nunca soubemos como foi :)

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  20. queria tanto ler mais um !!!
    Vá lá ... publica rápido, please :)
    já estou super curiosa e já não aguento mais sem ler um dos teus maravilhosos capítulos!!!

    beijinho

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  21. Ainda sem previsoes de quando vais publicar o proximo?

    tenho saudades*.*

    bjs

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  22. Ai ceus, será que ainda falta muito???
    Estou super ansiosa, quero mais... eu entendo que não é facil, mas quero tanto ler.

    Beijo.
    Adriana

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  23. mais um, pleaseeee
    Rápidooo sim?!

    beijinho

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  24. Não, lamento mas ainda não é hoje que haverá um novo capítulo. Sei que estou a demorar, mas também estou a fazer os possíveis para puder publicá-lo o quanto antes.

    Beijinhos

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    1. Eu compreendo, como é obvio mas é tanta a ansiedade que não dá para deixar de pedir.
      Aguardo ansiosa.
      Beijo
      Adriana

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    2. Sim, não é por mal xD
      habituaste-nos mal... deixas-nos sempre a desejar por mais e mais, acho que passa um dia a ler a tua fic sem cessar!!! ´
      é tão cativante :)

      beijinho
      Catarina

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  25. mais um please... tou a desejar por mais :)

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  26. todos os dias cá venho só p'ra ver se há novidades xD
    espero que amanhã seja o dia :p

    beijinho

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  27. Oláaaaa


    Li a tua fic hoje desde o inico e tenho a dizer te que AMEI está realmente fantástica.


    Podes contar comigo a partir de hoje porque vou seguir-te.



    Beijinhos



    Catarina

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  28. Olaaaa


    Li a tua fic hoje desde o inico e tenho a dizer -te que Amei (:


    Podes contar comigo , porque vou seguir-te...


    Beijinhos


    Catarina

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  29. quando publicas?
    responde-me please :)

    beijinho

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  30. Estou a fazer os possíveis para publicar amanhã, contudo não posso prometer que consiga.

    Beijinhos :)

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  31. obrigada por responderes e acima de tudo pela paciência que tens em nos aturares xD

    beijinho

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  32. Responderei sempre que puder, até porque também faz parte da minha função enquanto escritora, dar-vos notícias respectivamente à história. Para mim é um prazer "aturar-vos", é muito bom saber que tenho leitoras a quererem ler os novos avanços da história, que gostam do meu trabalho e só tenho de agradecer todo o apoio e carinho que vocês me dão, apesar da demora em trazer-vos novidades.

    Um beijinho

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  33. Neste dia de tanto frio só a paixão deste dois me aquece :)
    Reli os últimos capítulos, dado já não me lembrar muito bem...
    LINDO, LINDO !!!

    Espero pelo próximo ansiosamente :)
    (e já agora espero que consigas ainda hoje, como referiste no comentário)

    Beijinho grande

    Catarina

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