segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Capítulo 20 - Uma promessa para toda a vida (Parte III)



Vivi os dois dias seguintes enleada a uma angústia constante. Se por um lado o livor da ignorância retirava de mim um peso desconfortável que eu não saberia como lidar, por outro aquela espera pelos resultados dos exames, assoberbava-me com dúvidas e inquietações do que poderia estar ainda para vir, bem reservado para mim.
Naquele dia, o derradeiro e destinado à mudança urdida da minha vida, e a qual eu por aquelas horas matutinas ainda estava longe de imaginar, os meus sentidos forçaram o meu corpo a despertar e a erguer-se da cama logo pela manhã, para se arrastar pelas escadas que numa correria entropeçada, acabaram por me guiar ao telefone do hall de entrada, que tocava incessantemente na procura histérica de um atendimento.

- Estou sim? – atendi tão formalmente quando pude, ao retirar o pequeno aparelho do seu suporte e colocá-lo seguro entre a palma da minha mão e o ouvido

- Estou sim, bom dia! Estou a falar com Joana Freitas de Andrade? – do outro lado da ligação, e numa voz equilátera de feminidade, a senhora que então falava comigo conseguiu colher toda a minha atenção numa questão de segundos, pelo formalismo que denotei naquele telefonema precoce

- Sim, sim… É a própria… - denunciei com um ligeiro, porém alheio aos olhos dela, sorriso, que surgia em mim quase de forma automática pela minha simpatia habitual

- Joana, fala da clínica… - naquele momento o sorriso desvaneceu gradualmente para dar ao meu rosto outra expressividade – a ansiedade. – Relativamente aos exames que veio fazer, eu estou a ligar para informá-la de que os resultados já chegaram… Pedia-lhe que passasse por cá o mais rapidamente possível para vir levantá-los.

- Sim, claro, eu passo por aí mas… Há alguma urgência?

- Não lhe posso adiantar muito pelo telefone, mas na verdade sim… Tem marcada uma consulta ainda para esta manhã, a doutora quer vê-la…

Eu sabia, eu sentia que algo não estava bem, que algo estava errado comigo e agora poderia ser confirmado. O meu pobre e mal tratado coração sofreu um pequeno solavanco quando na minha mente mil e uma hipóteses se ilustraram, mas talvez nem uma estava perto de ser a derradeira verídica. Não sabia ao certo o porquê de estar tão nervosa, tão ansiosa, apenas sentia que algo de maior estava para vir… Algo que faria a minha vida conhecer o seu total avesso.

- Então está bem, eu vou já para aí… Muito obrigada pelo telefonema.

- É o meu trabalho… Não tem de quê. Tenha um bom dia. – apesar da sua amabilidade pela saudação, de que seria ou não um bom dia, só mais tarde iria descobrir, por enquanto só podia rezar para que tudo corresse pelo melhor

- Bom dia. Com licença. – pedi educadamente no segundo antecedente ao fecho da chamada, que foi desferido por nós em simultâneo

Voltei a colocar o telefone na base e toda a casa voltou a ser novamente silenciada.
Não tinha tempo para perder, logo quanto mais rápido me despachasse para sair de casa e ir direitinha à clínica, melhor. Refiz o caminho até ao meu quarto onde acabei por enveredar pela casa de banho privativa e não levei mais de vinte minutos a ficar pronta. Optei por uma vestimenta casual e quentinha que completei com um casaco, tendo em conta a época do ano. Usei um pouco de corrector para disfarçar as noites mal dormidas pelo trabalho de faculdade que andava a preparar há semanas, um pouco de blush para rebuçar a palidez do rosto e batôn para dar algum brilho aos lábios e destacar os sorrisos… por mais tristes que pudessem surgir.


Quando voltei a descer ao rés-do-chão, pronta para sair, fiz uma paragem rápida na cozinha apenas para pegar uma peça de fruta e comê-la pelo caminho… Não queria, nem tampouco tinha vontade ou disposição para me delongar num pequeno-almoço minimamente decente, embora o devesse ter feito… Mas não tinha certezas se o meu estômago estava preparado para as demasiadas emoções que me estavam reservadas.
Como tinha o carro fora da garagem, dei uma corridinha leve até alcançá-lo para escapar ao chuvisco que começara a cair e ameaçava enfortecer-se a qualquer instante.

“… e depois do trânsito passemos então à música, não é assim Nuno?” – enquanto retida no habitual trânsito da capital, a rádio, a minha companheira de viagens, suprimia a solidão e silêncio do meu veículo, irrompendo animadamente no vácuo em uma das minhas estações preferidas

“É isso mesmo Vanda, e para começar esta linda e agradável manhã de chuva nada melhor do que uma musiquinha portuguesa de um jovem bem conhecido…” – a equipa da Rádio Comercial fazia as delícias das manhãs dos portugueses mesmo antes de mais um dia de trabalho, e era naquele ambiente descontraído que somente podia ouvir, que me ia procurando distrair, esvaziar a cabeça de tudo o que não me fizesse bem – “Caro ouvinte, bem-vindo às manhãs da Comercial, já a seguir fique com a melhor música de 2000 em diante.”
   
- Que chuvada, meu Deus! – murmurejei apreensivamente olhando do para-brisas, a chuva intensa e copiosa de Outono que continuava a precipitar-se, e que naturalmente dificultava o trânsito e uma condução segura a todos os veículos que seguiam juntamente comigo na autoestrada

“Estás sozinho no teu espaço, escondido entre as paredes de uma recordação, vais fugir mais uma vez, aprisionar todos os sonhos nessa solidão… Sobes lentamente à espera de um empurrão, chegou o momento transforma a ilusão…” – embora me fossem totalmente desconhecidos por estar a ouvi-los pela primeira vez, os acordes de um artista português entraram nos meus ouvidos e desde logo me conquistaram pelo sentido da letra

- Tudo a ver comigo, realmente… - metabolizei ironicamente enquanto esperava que o sinal se tingisse de outra cor, da canção que poderia ser destacada com a letra da minha vida, talvez, tal a maneira como esta se enquadrava, e de alguma forma tentando pensar o menos possível no que iria acontecer quando chegasse à clínica

“Tens que saltar pra outro lugar, ganhar coragem; enfrentar, queres aprender a construir um novo dia, amanhã(!) vais acordar e perceber que sem lutar nada vais ter, e num segundo mudaste o mundo, sem saber…” – foi ao sabor daquela música e das outras que se seguiram, que depois de cruzar à direita para fazer o estacionamento, acabei por chegar em fim ao meu destino

Ao entrar fui imediatamente atendida pela recepcionista que havia falado comigo ao telefone, e a qual me pediu que aguardasse somente uns minutinhos enquanto uma outra paciente estava a ser vista pela mesma médica que me iria atender.
Fui sentar-me na sala de espera, junto de mais três ou quatro pessoas, e procurei desesperadamente algo para fazer, algo que pudesse distrair-me… Mas nem a revista desportiva que peguei da mesa de apoio e a qual folhei apressadamente sem dar grande importância ao conteúdo, fez brandar o nervosismo miúdo que a ponta do meu pé calcetava ao embater ritmadamente contra a tijoleira cálida que revestia todo o piso.

- Joana de Andrade? – o chamamento do meu nome petrificou todos os meus pensamentos, e levou o meu olhar a subir e procurar a figura que me clamava

- Sou eu. – num descuido imparcial deixei a minha voz tremer, ao denunciar-me à enfermeira que me procurava

- A doutora está pronta para recebê-la. Venha… - numa educação e simpatia que apreciei, vi-a estender o braço na minha direcção, dando a indicação de que a acompanhasse pois seria ela que me iria guiar pessoalmente até ao consultório

Ascendemos apenas um piso no elevador e enveredámos por inúmeros corredores onde, se estivesse sozinha, facilmente me perderia. Para ser sincera, estava tão envolta na panorâmica problemática que poderia encontrar nos próximos minutos entre as quatro paredes que aguardavam a minha chegada, que nem reparara no nome da ala por onde seguíamos, algo irrelevante visto que iria ficar a saber onde me destinava… mas cedo do que poderia imaginar.
Quando por fim chegámos junto do gabinete, a enfermeira Cecília fora o nome que lera na sua plaquinha de identificação que trazia presa no peito , deu dois simples toques na porta, sedeados com os nós das mãos e abriu-a seguidamente.

- Doutora Maria João, a menina Joana de Andrade já está aqui. pela pouca visibilidade que tinha, do que pude ver foi somente o fundo do consultório, com a pragmática secretária de trabalho ao centro e a figura difusa e indistinguível  da médica sentada por detrás da mesma

- Óptimo! Ela que entre, pode entrar… - concedeu rapidamente, mestrando com o braço um claro sinal de permissão, esperando conseguir ver-me atrás da figura da enfermeira que até então me encobria Obrigada, Cecília.

- Entre. a simpática enfermeira deferiu-me o lugar vazio entre o seu corpo e a ombreira da porta, que abriu somente na intenção de me ceder passagem para entrar Com licença, doutora. proferiu mesmo antes de sair para nos deixar a sós, retendo-me num lugar que me intimidava e onde me sentia inevitavelmente desconfortável

- Pode entrar, Joana. vendo-me acanhada ainda junto à entrada, com ambos os braços caídos à frente do corpo onde entre as minhas mãos segurava a mala, vi-a erguer-se do cadeirão que até então ocupava, para fitar a secretária e tomar calmamente o primeiro contacto físico e visual comigo O meu nome é Maria João Lucas, sou eu a médica que a vai acompanhar… - a sua mão recorreu à minha e numa delicadeza singular, ambas se agitaram vagamente no ar

Olhei-a ligeiramente apoquentada pelo que me dissera… É ela médica que me vai acompanhar. O que quereria aquilo dizer? Entrei imediatamente em sobre alerta, e a expressão, ou a falta dela, no meu rosto, decerto que não passou despercebida aos seus olhos. Tentei abstrair-me, não parecer nenhuma tolinha a quem as palavras faltavam, e foi então que pude mirá-la e discernir a sua aparência num vislumbre vagante sob sua bata. Ela era alta, bem mais alta do que eu, um facto que fazia ressaltar com os seus saltos altos, o seu cabelo comprido e cacheado estava perfeitamente apanhado com um pucho, o que lhe adornava o rosto de expressividade calma e não deveria ter mais dos seus trinta e poucos anos, apesar de parecer mais nova. Por mais estranho que pudesse parecer, algo nela me acalmou no primeiro instante, mesmo que não tenhamos trocado nenhuma palavra sobre o que me levava ali, não sei se da voz serena ou do olhar meigo que fazia recair sobre o meu, no entanto não me acalmou o suficiente para afastar todo o nervosismo do que teria para ouvir da sua boca, não tardava muito.

- Sente-se, vamos conversar um pouco. ela foi tão amável e educada o quanto eu esperava, mas a introdução da sua parte àquela conversa, definitivamente que não me agradou

Do que queria ela conversar? Não podia ir simplesmente directa ao assunto? Evitar os rodeios banais que no final de contas não serviriam de nada para me sossegar do que quer que fosse, do que quer que eu tivesse.
Tentei manter uma postura impetras e cordial, mas aqueles minutos estavam a destruir-me por dentro, a dissecar-me o pouco controlo que tinha sob as minhas emoções. Sentei-me numa das duas cadeiras vagas que guardeavam a secretária, e observei-a na minha frente a copiar-me o gesto. Na base da mesa e entre outras papeladas perfilhadas estrategicamente, distingui um envelope aberto e a sua respectiva carta, provavelmente os resultados dos meus exames que ela analisara mesmo antes da minha chegada.
Vi-a pegar neles e pervagar uma rápida vista de olhos pelos mesmos, talvez no intento de encontrar a melhor forma de me abordar, de me dar as más notícias… Digo isto porque só podiam ser más notícias, claro, caso contrário eu não estava ali.

- Joana, as notícias que eu tenho para si… Sinceramente eu não sei bem por onde ei-de começar. Estive a examinar as suas análises, estudei aprofundadamente os seus sintomas…

- Diga-me, doutora, o que é que eu tenho? a impaciência começou desde cedo a dominar-me cada gesto, cada palavra, e estarmos naquele impasse só piorava o estado deplorável da minha alma

- Tenha um pouco de calma, não precisa estar nervosa… - podia pedir-me tudo, menos que tivesse calma… não quando eu não sabia como me deveria sentir, a sua feição enigmática não me permitia descodificar o que fosse, não poderia imaginar o que estava para ouvir e os rodeios eram algo que uma vez mais eu queria evitar – O que eu tenho para lhe dizer, isto se ainda não sabe…

- Eu estou doente, não estou? Diga de uma vez, por favor… - não aguentava mais estar presa àquela angústia, àquele não saber o que fazer, não saber o que pensar, queria respostas imediatamente… custasse o que viesse a custar Eu estou doente…

- Joana… - ela fez uma breve pausa, onde na qual os seus dedos amestraram a caneta que embateu na base da mesa uma vez só, gesto de que se serviu antes de continuar e dar-me enfim uma notícia que fez o meu coração parar de bater durante uma fracção atemorizada de segundos Pelo que eu sei e a minha experiência bem o confirma, gravidez não é doença… - acho que morri naquele instante

- Gra…videz? perguntei, quando voltei à vida - completamente atordoada pela surpresa que caíra como uma autêntica bomba sobre mim, e tendo a necessidade de engolir a seco enquanto tentava manter-me coerente e conseguir falar, comecei por sentir os batimentos do meu coração acelerarem furiosamente Disse gravidez?!

- Sim, gravidez… Ouviu bem. A Joana está grávida! ela esboçou um sorriso meigo pela bem-aventurada boa nova, uma parte por ser dona do prestígio de ser a primeira a dar-me a tão… inesperada notícia Devo dar-lhe os parabéns?

Não… Não podia ser. Simplesmente não podia. Eu, grávida? Mas como? Não fazia sentido, era… Impossível. Havia qualquer coisa que não batia certo, não podia ser mesmo verdade. Os meus sintomas não indicavam uma gravidez, já para não falar no meu período, que apesar de ter sido estranhamente breve, havia-me aparecido há coisa de uns dias… Algo ali não estava bem, algo estava por ser explicado.

- Tem… Tem a certeza do que está a dizer? – de olhar rompido pelas lágrimas inertes de confusão que o alienava, juntamente com uma voz fracassada de incertezas,  procurei ali somente pelo acerto da verdade numa única afirmação

- Tenho a certeza, claro. Os resultados estão aqui… Não deixam margem para dúvidas, não há qualquer possibilidade de estarem errados. – ela foi tão clara e assertiva quanto a conduta de seu cargo lhe exigia

- Estou mesmo grávida…? – ainda não conseguindo acreditar  no que me era dito, sussurrei, envolta naquele transe cerrado onde todos os meus sentidos se perpetuaram

- …De quatro semanas, aliás. – referiu num tom suave e muito pouco maçudo, e com um sorriso passageiro nos lábios ao apoiar o seu queixo nas mãos entrelaçadas, suportadas pelos cotovelos vincados sob a mesa

Enquanto a minha mente se consciencializada com aquela nova realidade, com a minha nova realidade, os meus olhos que se haviam enchido de lágrimas, depressa e muito naturalmente deixaram que estas cedessem ao decline intransigente do meu rosto por onde rolaram… Não sei se da felicidade subentendida daquela surpresa, ou do receio desta pela enorme responsabilidade futura e conflitos adjacentes que acartava.

- Mas então e aqueles sintomas quem mencionei? As dores de cabeça, o mal-estar, a perda dos sentidos… - relembrei, podendo atestar que algo não estava a bater certo e só por isso era-me importante e essencial esclarecer todas as incertezas

- Referente a esses sintomas, há uma explicação para eles, um motivo… - a partir daquele momento senti a conversa toldar-se de um fácies mais carregado que acrescentou alguma tensão entre nós, simplesmente pela nova postura que a doutora apoiou em si, e se até então estava com os nervos à flora da pele, mais nervosa fiquei – A Joana teve perdas de sangue, hemorragias durante o período desses sintomas?

- Ah… Sim, tive, mas foi da minha menstruação… - assim pensava eu, mas para ser sincera àquela altura já não sabia nada

- Podia ser, até porque nos primeiros tempos de gravidez a mulher pode ter pequenas perdas de sangue, algumas delas menstruam durante a gestação, mas creio que essas hemorragias não tiveram nada a ver com seu período menstrual…

- Como assim? – quanto mais informação os meus ouvidos albergavam, mais confusa ficava, mais depressa o meu coração desancava, com mais medo me sentia

- Ao que tudo indica… - ela fez uma pausa, que embora breve, fez ressaltar sobre mim a gravidade do assunto que me iria expor – Ao que tudo indica, a Joana sofreu de uma ameaça de aborto.

- O quê?! – os meus olhos esbugalharam-se dolorosamente, e logo a minha cabeça começou a marejar com tamanha e nova bomba, mais uma, que voltou a ser laçada sobre mim – Um aborto? Mas… Como… Um abort… - não conseguia terminar as frases que iniciava, simplesmente não conseguia, era demasiada informação, e toda ela de rajada para conseguir reter e dirigir em prol das minhas comoções, que não demoraram tempo algum a surgir e expor o lado mais debilitado e inseguro de mim

- Eu percebo, são muitas novidades, mas peço-lhe para manter a calma… O melhor é… Eu vou buscar-lhe um copo de água, volto já.

Quando a vi erguer-se da sua cadeira e contornar a secretária para concretizar o pedido que eu não lhe fizera mas que ela entendeu de imediato e era necessário, uma tontura passageira voluteou a fronteira ocular dos meus olhos e imediatamente a minha cabeça tombou, tendo sido amparada pela minha mão direita que segurou desesperadamente a testa.
Um pasmo entibiado percorreu-me toda a espinha e vertebras dissipando-se nas extremidades do meu corpo, cada vez mais massacrado pelo cansaço do desgaste físico e psicológico, e daí até toda eu me sentir a tremer foi uma questão irrelevante de segundos… Um calor desconfortável queimou-me por dentro apesar de me sentir gelada, queria respirar mas por alguma razão o ar não chegava aos meus pulmões, queria desafogar-me em lágrimas mas era como se tivesse desaprendido a chorar… Agora mais nenhuma lágrima caía, sentia-me tão perturbada, tão desorientada com tudo aquilo, que não sabia ao certo o que fazer, como reagir… Pasmei simplesmente no meio do nada.
Fui apanhada completamente desprevenida entre um turbilhão de notícias, totalmente desarmada e sem qualquer chão que me mantivesse de pé, apenas de rastos. A notícia da gravidez, uma gravidez que apesar de desejada – noutra altura – não fora planeada, e uma ameaça de aborto em seguida, tudo a acontecer sem eu saber de nada, sem ter notado, sem ter feito nada que impedisse o pior… Era muito para mim, era demasiado para ter de lidar sozinha… Demasiado.

- Está aqui o copo de água… Beba. – pouco mais de dois minutos a doutora Maria João voltou a enveredar no seu escritório e a entregar-me em mãos um copo de água que degolei duas únicas vezes

- Obrigada… - agradeci-lhe naturalmente frágil e desalentada, segurando o copo em ambas as mãos junto das coxas

- Se precisar de algum tempo para si, eu posso deixá-la por uns momentos…

- Não… - discordei quando os meus olhos procuraram a compreensão e alento nos dela – Eu não quero estar sozinha agora. – apesar de me ter oferecido o meu espaço, a minha liberdade de pensamento a sós, eu não queria passar um momento sozinha… já bastava a solidão com que me iria deparar nos próximos tempos

- Joana, eu não me quero estar a intrometer demais, mas já reparei que contava com tudo menos com esta gravidez… - começou por dizer-me, cruzando os braços mordazes na frente do seu peito para tomar a pujança de caminhar lentamente na minha direcção – O que eu quero dizer é que se vier a pensar interromper a gravidez, como médica eu aconselho-a a ponderar seriam…

- Não, não… De maneira nenhuma. – por minha culpa e culpa da disposição  apática e talvez até remota que tomei, ela tenha tirado a ideia errada de mim bem como dos meus princípios e valores, uma escolha que eu tinha o direito de tomar mas que nunca naquele momento ou em qualquer um outro, ponheria em causa

- Você ainda é jovem, é natural que um bebé não entre nos seus planos de vida pelo menos para já, e visto que a maior parte das mulheres que engravidam na sua idade e até mais novas, opta por não ter a criança, eu pensei…

– Não, mas não sou nenhuma dessas mulheres… Não faço qualquer ideia de por fim à gravidez. Isso… Isso não acontecer. – afirmei asseveradamente sem qualquer dúvida a pincelar-me a voz, poderia ser uma novidade ainda quente, escaldada para mim, poderia anda não saber como tudo iria mudar dali em diante, porém eu já tinha definido muito bem a coisa mais acertada a fazer – Mas…

- Mas...

- Eu não sei, estou assustada, tenho medo do que acontecerá daqui para a frente… Tenho tanto medo…

- Oh Joana, mas isso é perfeitamente normal… Não há problema nenhum, ter medo não é nem nunca foi sinal de fraqueza… - inesperadamente, e talvez por me notar tão distante em pensamento, a médica agachou-se e colocou-se de cóqueras na minha frente, retirou-me o copo das mãos e uniu-as às suas… um pequeno grande gesto que desde logo facultou a confiança entre médica e paciente e me colocou mais à vontade junto a ela, sentindo o apoio que me prestava – O medo põe-nos alerta, faz-nos pensar duas vezes antes de agir. E ter um bebé é uma grande responsabilidade… ter medo faz parte, acredite.

Acho que medo era um sentimento pequenino para a sobriedade do tamanho desalento onde me encontrava. Eu sentia-me francamente aterrorizada, principalmente por… vir a ser mãe.
Ser mãe. O prenúncio soava-me tão estranho, tão distante e impessoal, que se não fossem as evidências a falarem por si e a não deixaram qualquer espaço para implantar dúvidas, diria até não ser real aquilo estar a acontecer comigo. Aliás, estava a acontecer tudo demasiado depressa e por incrível que parecesse, até à altura eu estava a conseguir lidar com tudo aquilo da forma mais serena e passiva que me era possível, contudo podia pressagiar que o meu momento de queda estava ainda para chegar… Assim que estivesse isolada no refúgio da minha casa, do meu quarto, baixaria todas as guardas e passaria horas a fio jogada sobre a cama a chorar, noites em claro que iria passar e sem ninguém do meu lado a dar-me a mão, e foi aí, que nessa maré de tristezas e conflitos íntimos que travava comigo mesma, que o meu pensamento se destinou a uma única e só pessoa: Ruben…! O meu ex-namorado, o agora noivo de Inês, o ainda amor da minha vida, e o pai daquele bebé que era nosso. Foi exactamente aí que um novo quadro futurista se pintou de negro na minha frente, tudo ficara cinzento de repente, escuro… Tão escuro como se tingia a minha alma e escuro da tristeza e infortúnio onde a minha vida mergulhava dia após dia.

- E o bebé como é que está? Ele está bem? Aconteceu-lhe alguma coisa quando…? – uma preocupação, uma preocupação que eu não conhecia mas que começava a descobrir, figurou-se em mim ao relembrar a anterior conversa onde a minha ameaça de aborto fora abordada vagamente, sem muitos pormenores nem explicações

- Até agora o estado clínico do bebé é uma incógnita para nós, temos de fazer mais exames para conseguirmos ver como está o desenvolvimento dele, descobrir alguma anomalia que eventualmente o possa ter atingido, e dentro disso é importantíssimo descobrirmos o que causou a ameaça de aborto…   

- Então vamos fazer esses exames, eu preciso de saber como ele está. – o sentimento de nervosismo depressa se arrastou para a ansiedade, e sem eu mesma contar com isso, uma protecção inquebrável, vinda de dentro, assolou o meu coração virginal que a cada batida se esforçava para bloquear novas e desalmadas lágrimas




***


- Joana, vou pedir-lhe que se dispa da cintura para baixo e depois vista a bata que está em cima da marquesa. – permitiu educadamente a médica enquanto entrávamos num novo espaço, perfeitamente equipado com todo o material necessário à prova de exames que me iriam ser facultados

Fomos para uma sala anexada ao consultório onde iria fazer os derradeiros testes que, desejava eu, iriam colocar fim à tortura que se abatia sob os meus pensamentos e suposições, que vagueavam interruptamente na minha cabeça e que poderiam corresponder em nada à verdadeira realidade.
Como era ainda muito cedo para se conseguir ver o bebé através de um ultrassom na barriga, a doutora Maria João optou por me fazer uma ecografia transvaginal que, como ela me explicou desde logo, passava pela inserção de um transdutor, uma sonda, dentro de mim, para transmitir imagens do meu útero e ovários para o ecrã de um computador.

- E posso perguntar-lhe pelo seu companheiro? Ele vai gostar da ideia de ser pai? – aquela pergunta lançada numa desprevenção inequívoca, gelou-me por completo o sangue que me corria nas veias e deixou-me a gaguejar

- Eu não… Eu não sei… - disse unicamente e sem me alongar demasiado em explicações que me poderiam levar a um vale de lágrimas que eu não estava disposta a ter à frente de ninguém, pelas razões que só eu conhecia

- Não sabe? – para o meu desconforto, apenas na sua posição inofensiva de minha médica, ela insistiu numa conversa que eu não estava preparada para ter, pois a verdade era que eu não sabia como tê-la – Vocês nunca falaram sobre esta possibilidade? De poderem ser pais, ter uma família… ou a vossa relação é ainda prematura? – não, se havia algo que a nossa relação não era, ou não fora, era prematura, aliás, eu nunca tinha tido um relacionamento tão sólido e duradouro como tivera com Ruben, e por isso a possibilidade de vivermos uma vida a dois e a futura construção de uma família, não viera às nossas conversas só uma nem duas vezes, havíamos discutido essa ideia vezes demais até, para tudo ter acabado da maneira como acabou

- Nós não estamos mais juntos. – com um semblante carregado de dor pelas afirmações que fazia, dei novamente uma resposta curta e rápida, que me permitia não pensar imoderadamente no assunto

Felizmente que ela percebeu que eu não queria falar mais respectivamente àquele tema que nunca deveria ter sido abordado, e com a mesma espontaneidade com que a conversa surgiu, da mesma maneira se findou.
Aquando finalmente pronta me deitei na marquesa de genecologia, afastando as pernas e colocando cada uma no seu respectivo apoio, não pude deixar de me sentir cada vez mais nervosa e assustada, e o momento que se seguia deixava-me inexplicavelmente com o coração entre as mãos.

- Estou a magoá-la? – perguntou-me cuidadosamente, enquanto já manuseava o pequeno objecto dentro de mim e vi-a em simultâneo as imagens que apareciam no monitor e as quais eu não conseguia olhar

Apesar de ser um pouco desconfortável para mim aquele exame, com olhar pregoado ao tecto imaculadamente branco, respondi-lhe somente com um aceno negativo de cabeça, que substituiu a minha incapacidade de falar o que quer que fosse. As minhas mãos sobre a barriga estremeciam sem eu as conseguir controlar, e em profundo silêncio eu só podia pedir a Deus que tudo acontecesse pelo melhor.

- Aqui está ele… Ainda é tão pequenino, do tamanho de uma ervilhinha. – depois de uns minutos evocados por um silêncio abafante, a sua voz voltou a surgir acompanhada por uma expressão leve e serena, a única prova que me era mostrada de que o pior nos tinha passado ao lado – Não quer vê-lo, Joana?

A verdade é que eu queria, queria muito olhar aquelas imagens, mas não conseguia. Não tinha coragem para enfrentar uma nova realidade, para receber um novo mundo, não tinha forças para fazer aquilo sozinha. Mas tinha de as arranjar, por muito que custasse, por muito que doesse, agora teria de ser forte por mim e… por ele.
Rodei ligeiramente a cabeça para o meu lado direito ao respirar fundo, e de imediato fixei o monitor que se enquadrava na frontaria da minha visão, clara unicamente até àquela altura porque pouco depois já pude sentir o meu queixo tremelicar muito ao de leve e os meus olhos a encherem-se de novo com lágrimas que enturvaram levianamente a minha perspectiva. Não conseguia perceber com exactidão o que era exposto naquelas imagens incolor, apesar de o indicador da médica me ter apontado o embrião, mas tive a certeza, no mais profundo de mim, de que estava perante o maior milagre que podia testemunhar, o qual crescia dentro de mim e era projectado naquele monitor... E aquele primeiro contacto, decerto, que o manteria guardado na minha memória para sempre.
E pude desejar apenas ter ali uma única pessoa do meu lado, a mais evidente de todas… A segurar-me a mão, a chorar e a sorrir em simultâneo de tamanha felicidade, comigo, a partilharmos juntos aquele momento que eu não trocaria por nenhum outro na minha vida.

- Ao que parece está tudo bem com o bebé, está a desenvolver-se normalmente e sem qualquer perigo. – prelecionou-me na sua calma permanente que a caracterizada, tentando tranquilizar-me – Graças a Deus que não passou de um susto.

- Está mesmo tudo bem com ele?

- Está tudo óptimo, não tem mais com que se preocupar. – a meu pedido inseguro, ela reforçou a sua afirmação anterior com um sorriso a preencher-lhe os lábios, dando-me o maior alívio que poderia receber – Acho que alguém lá em cima está a torcer por este bebé…

É verdade, ouvir aquela boa-nova foi como sentir uma enorme lufada de ar fresco abater-se sobre mim… Estava ainda a tentar habituar-me à ideia de não estar sozinha, de um novo e pequenino alguém estar ligado a mim, mas no fundo, bem dentro do meu ser, eu nunca quis perdê-lo.
E foi então que no meio do silêncio e passividade que nos rodeava, que chorei, com ambas as mãos a cobrirem o meu rosto, de alma patente a novos sentires, a novas sensações, que me deixei chorar sem mais afogos, libertei-me e deixei-me simplesmente levar por tudo de novo o que sentia, por tudo o que tinha passado, pelas lembranças que me assolaram a memória e vi passar na frente dos meus olhos em flashes sucessivos: a morte da minha mãe; o último abraço que dei ao meu irmão; o sorriso do Ruben, a nossa separação, o nosso primeiro beijo, a última vez que fizemos amor; e a primeira imagem de um filho, o nosso filho. Derreter-me em lágrimas foi a única saída que encontrei para me libertar, precisava fazê-lo… de outra maneira iria sufocar no meu próprio leito.


***


- Então a nossa próxima consulta fica marcada para a próxima semana. – quando regressámos ao consultório, sentadas à secretária, continuámos a trocar impressões, comigo a receber conselhos essenciais ao bem-estar e harmonia da gravidez, sem mais percalços, sem mais distúrbios emocionais que possibilitassem novos sustos como aquele que havia ocorrido, ou algo ainda mais grave…

- Sim, daqui a uma semana cá estarei. – dispus-me imediatamente sem qualquer impedimento, assumindo o acordo de cada uma das minhas novas responsabilidades que compunham aquele compromisso, o mais importante da minha vida: a maternidade

- E por favor não se esqueça do que lhe disse. Como há pouco pudemos confirmar, a Joana tem um útero frágil e qualquer risco que corra pode comprometer a vida do seu filho, e é por isso que lhe recomendo dois dias de repouso absoluto, sem sair da cama…

- E a minha faculdade? – inquiri, tomando consciência do compromisso que mantinha também com o meu futuro profissional, mas que em nada poderia sem comparado e era superior em prioridade ao mais recente  

- A faculdade vai ter que ficar para segundo plano, para já. Agora o mais importante é concentrar-se na sua gravidez… E é por isso que tem de descansar o mais que puder, tenha cuidado com a alimentação, não exagere no exercício físico, e o mais essencial de tudo: evite a todo o custo as emoções fortes… é muito importante que o faça.

Evitar as emoções fortes penso que era o maior desafio que iria enfrentar, algo de que eu não estava livre era mesmo das emoções, essas que há meses a fio me perseguiam e que com certeza não eram as melhores de se sentir. Mas iria fazer um esforço, pelo meu bem-estar e principalmente pela saúde do bebé, eu ia fazer um esforço para me afastar de tudo o que nos podia fazer mal e isso incluía manter a distância de certas ocasiões e de certas pessoas.   

- Claro, do que depender de mim vou fazer os possíveis e impossíveis para que tudo corra bem.

- Pronto, então parece que estamos conversadas. – mostrado uma simpatia constante, ela exibiu um novo sorriso  enquanto sincronicamente nos levantámos para tomarmos caminho até à porta de saída – E Joana, qualquer coisa que precise, não hesite, apareça sempre que precisar… É preciso ter muita coragem para aceitar ser mãe solteira, e a Joana tem essa coragem, não a perca. – exacto, mãe solteira… era isso que eu iria ser, quisesse ou não

- Obrigada… Obrigada por tudo. – tive de simular um sorriso, porque por mais que quisesse que saísse naturalmente, este teve a tendência a retrair-se… coloquei a mala na dobra do braço e acompanhada até à porta, preparei-me para sair do consultório da doutora Maria João, onde despendi as minhas últimas quase duas horas

- Então até para a semana…

- Até para a semana. – quando ela me abriu a porta, despedimo-nos com um curto e cordial abraço que encerrou o momento mais difícil que vivi naquela manhã

Quando voltei a sair da clínica corri numa única direcção até alcançar o meu carro e fechei-me lá dentro. O meu corpo combaliu pesadamente contra o assento, tal como a minha cabeça que caída para trás, o acompanhou até encontrar apoio. Conseguia pensar em tanta coisa ao mesmo tempo, tanto quanto conseguia pensar em nada… Sentia-me completamente sem rumo, sem direcção, sem braços para onde correr, sem abrigo para onde fugir. As lágrimas começaram a delinear novamente os traços do meu rosto, agora silenciosamente e com a minha permissão, sem que tivesse aquela vontade de retê-las… Não estava ali ninguém para me ver, nem para me julgar, e por isso mesmo deixei-me ser quem eu era: uma mulher que sozinha, descobria como lidar com a maior surpresa que a vida lhe reservou. 
Quando me acalmei, rodei a chave na ignição e arranquei com carro para sair dali, tinha um destino traçado na minha mente, o único para onde queria ir e o qual eu sabia que me iria acolher sem me renegar. Conduzi então até à Lourinhã para visitar a praia que conhecia desde pequena eque fora desde sempre uma das minhas prediletas, a da Areia Branca, a praia que eu e Ruben mais costumávamos frequentar no período antes e aquando namorávamos, e gostávamos de apelidar como “nossa”.
Apesar de ter parado de chover e o céu estar a ser contemplado com algumas abertas por onde os raios de sol penetravam, não desci até à areia como das outras vezes e deixei-me permanecer na calçada, sentada no muro enquanto olhava a beleza do mar e absorvia os seus aromas. Aquele era um dos meus lugares preferidos, conhecia-o desde miúda e foi lá que despendi algumas das fases mais felizes da minha vida, era um lugar que guardava a ingenuidade das crianças, os amores da adolescência e as novas oportunidades da meia idade... Aquele foi o mar que praticamente me viu crescer.

- O que é que hei-de fazer à minha vida, meu Deus? – praguejei numa aclamação intimista que só eu e Ele podíamos partilhar, e para a qual a resposta só me iria ser esclarecida com o avançar vagaroso e torturável do tempo

Continuei ali, perdida em memórias de tudo o que era irrecuperável, do que não podia mais ser vivido e tentei não deixar a nostalgia entrar no meu peito, quando a vontade de reaver o que tinha perdido era maior que a razão de ser.
Aproveitei para olhar à minha volta e ver com atenção… Parecia que tinha ganho uma nova vida, senti-me como se tivesse morrido e nascido de novo… Os sons, os cheiros, tudo me despertava novas emoções, tudo parecia ter ganho novos significados, mais beleza. Olhei tudo com mais atenção e dei mais valor a tudo o que em meu redor a vida fazia e tudo o que era feito dela. Perguntei-me se seria possível o estado de esperanças oferecer-me novos sentidos para olhar o mundo, visto que um novo crescia dentro de mim.
Fechei os olhos e somente ouvi. Escutei o silvar das ondas e em vão tentei descobrir o que elas queriam dizer, porém a procura pela minha paz de espirito foi interrompida quando da mala senti o modo de vibração do meu telemóvel que dava sinal de uma nova chamada.

- Estou? – embora não conhecesse o número do remetente, nem tampouco o tinha gravado na minha lista de endereços, não hesitei em atender somente na preocupação de poder ser alguma urgência, no entanto não houve qualquer contestação do outro lado – Estou, sim? Quem fala?

Continuei sem obter qualquer resposta, apenas ouvia o sibilar de uma respiração que ressoava ao auscultador Uma respiração profunda, que de uma maneira descabidamente inexplicável era capaz de me roubar o fôlego a cada instante que era findado e eu continuava sem perceber o que estava a acontecer ali.

- Vai ter de me desculpar, mas se não tem nada para me dizer, eu eu vou desligar…! Com licença. disposta a terminar com aquela que eu pensava ser uma brincadeira de mau gosto, preveni-o(a) de que ira encerrar aquilo que não chegaria a lado nenhum… a meu cego ver

- Não, não, espera! Não desligues… - aquele timbre, aquela bem-dita voz que eu era capaz de reconhecer em qualquer recanto, surgiu junto do meu ouvido e tocou a emoção do meu coração saudoso

- Ruben? – a minha voz estremeceu ao compasso do seu nome que ditei, para confirmar a mim mesma que era mesmo ele que permanecia do outro lado da linha

- Sim, sou eu… Desculpa não ter respondido logo, mas não sabia bem o que havia de dizer…

Mas que fantástico sentido de oportunidade, não haja dúvida… Ele podia ter ligado em todos os outros dias, em qualquer ocasião, mas escolheu logo aquela(!) Mal ele desconfiava do segredo recente que eu guardava e o mesmo que ainda não fazia ideia de como lho havia de partilhar, mas teria de o fazer, mais cedo o mais tarde, de uma maneira melhor ou não, mas ele teria de saber.

- Porque é que ligaste, Ruben? – foi a questão mais lucida e coerente que lhe coloquei, ainda cheguei a perguntar-me como tinha ele arranjado o meu número, mas isso pouco importava agora

- Eu não sei… Senti que devia fazê-lo, estive a olhar para o telemóvel tanto tempo até ganhar coragem para ligar, e bem… Aqui estou. – não entendi direito o que ele pretendia por estar a fazer aquilo, acho que no fundo nem ele sabia, porém eu compreendia o que era agir por impulso – Como é que estás?

- Como é que eu estou…? Estou bem, acho. – não conseguia disfarçar a surpresa do telefonema mais inesperado que podia receber, e ocultar-lhe a verdade foi algo que eu não tive como evitar

- Estás mesmo bem?

- Sim… Porque não haveria de estar? – hesitei uns segundos no limiar da verdade com a mentira, pois Ruben era a pessoa que me conhecia melhor do que ninguém, e desvendar o meu íntimo era algo que ele fazia de olhos fechados, sem esforço algum

- O David disse-me que tens andado doente estes dias, e fiquei preocupado contigo… Queria saber como estavas.

- Eu já estou bem, não foi nada demais. – mais uma vez a minha autodefesa fugiu da minha boca automaticamente, como uma resposta ensaiada que lhe escondeu tudo aquilo o que eu ainda não estava preparada para lhe contar

- Mesmo assim, foste ao médico? Cuidaste bem de ti?  

Mas porque carga de água estávamos nós a ter aquela conversa? Sinceramente. Porque razão ele estava tão interessado, tão preocupado comigo? Nós não erámos mais um casal, aquele tipo de conversas não deveria mais existir entre nós, aquele cuidado e aquele carinho não deveriam constar mais nos nossos discursos, simplesmente. Mas pelo discurso dele, pela sua maneira cuidada e meiga em falar comigo, na sua maior simplicidade conseguiu formar lágrimas por detrás das minhas pálpebras doridas, e fazendo o maior esforço do mundo para conseguir segurá-las, fechei instintivamente os olhos e obriguei-as a recuar.

- Não dizes nada? – ele insistiu, no seu jeito preocupado de ser, foi fácil encontrar o desalento que lhe embebeu a voz e esse facto só serviu para esborrachar ainda mais o meu pequeno coração apaixonado contra o peito – Fala comigo, Joana…

- Eu já te disse tudo o que querias saber, talvez o melhor agora seja desligarmos a chamada… - esperei alguns segundos para me acalmar um pouco e voltar a falar-lhe, pois temi que o meu choro prestes que já ameaçava, assaltasse num rompante a minha voz e consequentemente me expusesse perante ele

- Não, não desligues já, deixa-me ouvir a tua voz…

- Ruben, pára com isso, não queiras entrar por aí…

- Desculpa. Mas a verdade é que nunca pensei que fosse tão difícil…

- O que é que é tão difícil? inquiri a medo

- Lidar com as saudades… As saudades que eu tenho tuas, as saudades de nós…

- Não digas isso, por favor.

- Tu perguntaste.

- Não o deveria ter feito.

- Agora já sabes… - aquela troca de palavras começava a matar-me, e o meu receio só aumentava se ele caísse no embuste de me deixar sem resposta – E tu… tens saudades?

- Isso agora não importante mais, não interessa.

- Interessa pra mim! – o seu desânimo e suplicação tocaram o mais profundo de mim, aquela conversa estava a deixar-me profundamente desconfortável e eu começava a não saber lidar com as emoções, que de tão fortes estas intimidavam em tomar o meu controlo total – Tens saudades do jeito como éramos?

- Eu não quero ter estava conversa contigo, vou desligar…

- Porquê? Porque é que foges?

- Eu não estou a fugir, simplesmente acho que estando nós nestas circunstâncias, esta conversa não tem cabimento nenhum, não faz qualquer sentido, e muito menos quando a estamos a ter por telefone! – quando eu pensava que tinha conseguido dar a volta por cima, e colocar um ponto final naquela loucura, ele não baixou defesas e encurralou-me contra a parede

- Queres que eu vá ter contigo? Só volto a ter treino mais logo, eu vou buscar-te agora e conversamos cara a cara, olhos nos olhos em qualquer lugar… onde tu quiseres!

Silenciosamente, linhas finas de água cursaram os caminhos tumultuosos das minhas faces que a brisa agreste esfriava. Obriguei a mim mesma manter-me em silêncio enquanto continuava a segurar o telefone junto do meu ouvido e escutava a sua respiração desassossegada que aguardava por uma resposta minha. Se prenunciasse uma palavra que fosse naquele momento, um choro atormentado que se desencadearia, denunciar-me-ia e isso era a última coisa que queria naquele instante.
O meu peito explodia a cada nova emoção que o invadia, e Ruben continuava em linha à espera de um sinal meu… Não sabia o que dizer-lhe, contudo sabia o que queria e o que devia de ser feito… 




Olá, meninas! :)
Mais uma vez peço desculpas pela demora em trazer novidades, 
mas não me foi mesmo possível fazê-lo mais cedo.
Depois quero dar-vos o meu muito obrigada! Vocês não imaginam o quão me é gratificante, enquanto escritora, chegar aqui e receber o vosso apoio e carinho
em palavras de incentivo que me dão um alento enorme 
para continuar esta história que também é vossa.
Peço para continuarem a deixar-me os vossos
comentários, é muito importante para mim, e principalmente nesta fase da história,
receber as vossas opiniões.
Espero que gostem deste novo capítulo, e boa leitura! :)

Beijinhos,
Joana

  

domingo, 15 de setembro de 2013

Capítulo 20 - Uma promessa para toda a vida (Parte II)


Abri os olhos devagarinho, de pestanejar intermitente e melindroso, obrigando-me a despertar daquela sonolência pesada a que o meu corpo se arremetera provavelmente durante um bom par de horas. Rodei a cabeça em algumas direcções enquanto o meu olhar se ambientava à luz diurna e buscava por algo que me fosse familiar, levando-me a consciencializar do lugar onde estava. Aquando eu me mantinha deitada, levei somente alguns segundos para conseguir discerni-lo na perfeição, e quando o meu subconsciente voltou à sua normal funcionalidade, apercebi-me que tinha sido trazida novamente para a segurança e repouso do meu quarto de hotel.

- Le mieux que'elle se repose dans prochaines heures. Arujourd'hui n'est pas conseillé de retourner au travail.

- Oui, douteur. Vous avez besoin d'autre chose? – duas vozes provindas do corredor ao meu lado direito, estimularam toda a minha atenção, que no mesmo instante procurou por atribuir a cada uma delas a respectiva figura dona

A algum custo, e ainda cacetada por um abalo latejante que ecoava dentro da minha cabeça, elevei ligeiramente o tronco apoiando os cotovelos sob o colchão, e num relance discreto perscrutei o fundo do corredor, onde junto da porta conversavam já numa compreensível despedida em breves trocas de palavras da língua francesa, Pedro, e um senhor que eu não conhecia e não fazia a mínima ideia de quem era ou o que fazia ali. Um homem provavelmente na casa dos seus sessenta anos, de barba e cabelo grisalho, impecavelmente engravatado e portador de um pequeno malote negro que segurava ao lado do corpo. Fiquei intrigada com aquele cenário, e por isso mantive-me atenta esperando conseguir enxergar algo que me elucidasse.

- No… Juste vous regardez pour elle. – sugeriu o senhor, numa contextualização que me abrangia a mim, claramente, e pelo que ainda ouvi as minhas dúvidas não demoraram a desaparecer… ele era um médico que havia sido chamado para me ver – Les repost est essentiel pour s'assurer qu'elle n'a pas beaucoup d'effort au moins jusqu'à ce qu'elle se sentait mieux.

- Ok, merci beaucoup pour votre aide.

- Se vouz avez besoin de quoi que ce soit d'autre, si la fièvre monte, alors appelez-moi. – disponibilizou-se inteiramente, o que os levou a despedirem-se com um aperto vogaz de mão no acto seguinte –  Bon après-midi.

- Bon après-midi, docteur Pierre. – Pedro abriu-lhe a porta e tal como ele, eu vi o senhor sair educadamente, deixando-nos a sós no quarto

Vi-o então atravessar o corredor tomando um compasso de marcha afluente até à zona da cama onde eu repousava, e olhou-me sorridente antes de me falar, e notavelmente mais aliviado por ver os meus estímulos despertos. 

- Ei, miúda… Já acordast… - mesmo antes de o deixar completar a exclamação que me iria fazer, interrompi-o com o início de uma reprimenda

- Chamaste um médico?!

- Desculpa?

- Foi preciso chamares um médico? – impondo-me a um pequeno esforço acrescido que fez uma leve tontaria vagar uma vez mais a minha cabeça, puxei o meu corpo para trás de modo a sentar-me à cabeceira da cama

- O quê…? Joana, é claro que foi preciso chamar um médico…! Que conversa é essa?

- Desculpa mas eu acho que não havia necessidade nenhuma… Que mania de dramatizares, bolas! Eu estou bem, ou pelo menos vou ficar… - hesitei um pouco porque para ser franca, eu não estava em perfeita condição física tal como desejava… sentia uma impressão no estômago, a cabeça a pesar-me sob os ombros, e calafrios que me percorriam o corpo intempestivamente – Seja o que for, isto passa!

- Estás a ouvir aquilo que estás a dizer? Tu desmaiaste, Joana! Desmaiaste! – o seu tom de censura que não pretendia ferir-me, mas sim trazer-me apenas para a realidade, circunscreveu o episódio menos feliz desta manhã – Perdeste os sentidos... Caíste redonda no chão mal voltaste a entrar no estúdio, toda a gente que estava lá, viu… Achas mesmo que não havia motivos para "dramatizar"? Para me preocupar contigo depois do que aconteceu?!

- Eu sei, mas…

- Mas nada… - o seu olhar complacente cruzou-se com o meu num segundo de piedade, e a sua voz contemporizou um volume mais moderado que suspendeu uma pequena zanga entre nós – Caramba… Tu tens ideia do susto que me pregaste? Do susto que pregaste a todos?

- Desculpa… - pedi num rasgo de sinceridade, que me obrigou a descer o queixo e aprisionar o olhar às mãos trémulas que se cruzaram sob o meu colo

- Sabes que não tens que pedir desculpa, não tens culpa do que te tem estado a acontecer… - ele arriscou, sem medo, uma aproximação entre nós e não hesitou em chegar-se à minha beira e sentar-se a meu lado de frente para mim, num espacinho vago no colchão – Eu tive que chamar um médico… Percebes porquê, não percebes?

- Sim, eu percebo… - por instantes coloquei-me na posição dele e consegui compreender o seu lado, a sua atitude para comigo, que não era mais do que um dever sentido por alguém que se importa e quer cuidar

- Como é que te sentes?

- Mais ou menos… Sinto-me cansada como se tivesse corrido uma maratona inteira, estou cheia de frio…

- É normal, ainda estás com febre…

- O que é que o médico disse? Ele disse o que tinha? – perguntei melindrosa a uma resposta pesada, e somente serenei pela feição não muito preocupada de Pedro

- Não. Ele só te viu a febre, mediu-te a tensão e viu o nível de açúcar no sangue, e digo-te já que os níveis estavam baixíssimos… Tu tens andado a alimentar-te em condições, como deve ser?

- Claro que me alimento em condições! Sabes que não sou de muito alimento mas como sempre o suficiente e o saudável. – referi, recordando os cuidados básicos de saúde que eu desde sempre induzi à minha alimentação… nos últimos tempos, e devido também aos desgostos da vida que tinha sofrido recentemente, tinha menos apetite, não controlava devidamente os horários das minhas refeições o que por vezes me levava a saltar algumas, mas nunca deixei de comer

- Bem, eu falei com o doutor e estive a contar-lhe a tua rotina, e pelas evidências ele também notou que devia ser do cansaço, o stress com que tens vivido…

- E não me receitou nada?

- Não. Disse que não é aconselhável fazeres grandes esforços, tens de descansar bem e o preferível é antes de mais nada, consultares o teu médico de família para teres a certeza do que tens… - já podia adivinhar que iria ouvir um discurso daquele género, e apesar de serem recomendações sinuosas, não deixavam de ser certeiras e irrevogáveis para eu seguir – E isto não quer dizer que tenhas obrigatoriamente alguma coisa, algo de grave, mas o melhor é fazeres uns exames…

- Sim, com isso não te preocupes que já tratei do assunto. – informei, uniforme à conversa que travara com a minha querida Adriana, mesmo antes do… pequeno incidente

- Já trataste do assunto?

- Sim, liguei à Adriana e pedi-lhe que me marcasse umas análises gerais, o mais rápido possível…

- Óptimo, fizeste bem. Fico mais descansado assim, e tu também vais ficar. – assim o esperava, não queria ter de carregar outro peso em cima dos ombros, ter outra ferida para sarar

- Que horas são? – apesar de saber não ter acontecido, sentia-me como se tivesse estado a dormir durante dois dias interiores, o que me à feito perder a noção total do tempo

- São quase horas do jantar…

- Já?! – as minhas sobrancelhas crisparam de espanto e os meus olhos recorreram à enorme janela de cortinas ligeiramente abertas, predispondo o cair antecipado, e o qual eu não dera conta de chegar, da noite – Nem dei pelo tempo passar…

- Natural… Depois de te trazermos para o quarto, tomaste um calmante e desde então que estiveste a dormir. – horas e horas que passara a dormir, não admirava que ainda me sentisse tão sonolenta

- Como ficou a produção fotográfica?

- Foi adiada… Eles não quiseram continuar sem ti. Mas não te preocupes, amanhã, e se te sentires melhor, concluímos tudo… - ele descansou-me, no entanto não pude deixar de me sentir culpada por ter atrasado e comprometido aquele trabalho todo – Vai é ser um dia bastante puxado visto que domingo já estamos de regresso a Lisboa. – a sua mão acariciou levemente as minhas, unidas, e um sorriso tranquilizante padeceu em seus lábios – Mas então eu vou lá em baixo num instante comer qualquer coisa, e já mando trazer o jantar para ti…

- Não, Pedro, por favor… Não tenho fome nenhuma. – não sei porque estupidez a minha me interpus ao seu informado, muito bem sabendo a sua opinião quanto àquele assunto

- É que eu nem me vou dar ao trabalho de voltar a discutir sobre isto contigo, portanto… - quando o seu corpo se ergueu na minha frente, um novo sorriso, e desta vez conjurado por um fel de ironia, foi desenhado no semblante dele e unicamente dirigido a mim, expressando bem a sua opinião e vontade – Tens aí um alguidar com água fria… Enquanto estiveste a dormir, molhei-te a cara e a testa com a toalha para baixar a febre… Se sentires o corpo muito quente, vai fazendo o mesmo.

- Não demoras, pois não? – a minha interrogação, camuflada pela intenção que não escondi, expôs tenuemente a minha vontade em não querer ficar sozinha durante muito tempo… a solidão deveria ser a minha pior inimiga quando as minhas defesas se mostravam em baixo e toda eu me sentia peramente doente

- Não, descansa… Eu venho já. – a sua mão afagou meigamente o meu cabelo, um carinho que já há muito ninguém que me fazia, ou melhor, nem há tanto tempo assim... lembrei-me de Ruben e do nosso último abraço, da sua última carícia

Uma vez mais foi o meu olhar que acompanhou cada movimento seu e o viu chegar junto da porta, abri-la, lançar-me uma última mirada como se certificando de que eu ficava bem e preparou-se então para sair e deixar-me por instantes remetida ao meu próprio isolamento… Pelo menos foi assim que eu pensei, mas acabei por ser agradavelmente surpreendida.

- Chico? – mal rodou a maçaneta na sua mão e abriu a porta, Pedro viu-se confrontado com a visita inesperada do manequim com quem eu já partilhava uma recente, mas premissa, amizade

- Nossa, Pedro, ia bater agora mesmo… - apenas consegui ver uma parte da figura de Francisco disposto em perfil, pois a outra parte do seu corpo permanecia escondida entre o aro da porta

- Foi um bom timing… - eles riram-se brevemente da coincidência circunstancial e eu permaneci o mais atenta que pude àquele cenário, que se desenrolava não muito longe da minha vista e do meu alcance

- E aí… Eu vinha dar uma olhada, ver ela… Como ela 'tá?

- Parece-me melhorzinha, esteve a dormir toda a tarde mas ainda tem febre… Vamos ver se com o tempo e algum descanso ela melhora.

- Posso entrar?

- Podes, claro! – vi-o abrir passagem para que Francisco pudesse entrar, ele acabou por fazê-lo educadamente no instante que se seguiu – E ainda bem que apareceste… Eu vou lá a baixo ao restaurante e era porreiro se ficasses a fazer-lhe um pouco companhia… Não queria muito ter de deixá-la sozinha para o caso de poder vir a precisar de alguma coisa.

- Eu cuido dela, pode ir descansado… Sério! – exibindo um sorriso imperitamente simpático, ele disponibilizou-se prontamente para que eu ficasse ao seu cuidado e responsabilidade por um par de minutos

- Fico mais descansado assim… Obrigado! Até já.

- Ora essa! Até já. – Pedro saiu então, com o coração e a alma, adivinhei eu, mais leves e tranquilos, por saber certamente que eu ficava em boas mãos, num momento um quanto difícil para mim – Oi, guria… - enquanto ainda caminhava no corredor, ele encontrou-me deitada sob a cama e não resistiu em contemplar-me com um daqueles seus sorrisos meigos e travessos no rosto

- Oi… - copiando-lhe a saudação aliada pelo sotaque, com um pouco mais de dificuldade, também os meus lábios se rasgaram num sorriso sincero por voltar a vê-lo

- E aí… Como cê ‘tá?

- Estou bem… - quando ele acentuou o seu olhar pesadamente sobre mim, perscrutando-me com toda a atenção, achei por bem considerar por uma reposta mais verídica que me expusesse correctamente – Mais ou menos…

- Cê que não faz ideia do susto que pregou na gente… Nossa, todo o mundo ficou preocupado com você quando te viu cair redondinha no chão.

- Eu sei, e peço desculpa pelo desconforto que causei…

- Oh, larga de ser bobinha… - ele entendeu, como evidente, que o que acontecera comigo não fora de propósito e por isso mesmo não tinha que me auto-responsabilizar por nada

- Oh, mas mesmo assim… - a minha teimosia, excessiva por vezes, desnudou-me um sorriso recatado fazendo-me voltar a contrapor  

- O que importa agora é que cê melhore e recupere rapidinho. Deixa que eu te ajudo. – vendo-me pegar no paninho molhado que tinha sob a mesinha de cabeceira, ele ocupou a vagues do lugar ao meu lado da cama e ofereceu-me auxílio que eu não pedi, mas que os seus olhos me desvendaram no conforto do silêncio – A Sara ficou de vir te ver daqui a pouco, foi só no restaurante e vem logo.

- Vocês estão a dar demasiada importância, a preocupar-se demasiado… - intervim, sentido a água calda arrefecer-me a testa – E eu agradeço-vos, do fundo do coração, mas não é preciso ralarem-se tanto comigo…

- Eu só perdoo você ‘tar falando bobeira porque eu sei que ainda tem febre… - rimo-nos levemente, foi inevitável não descartarmos uma ou duas gargalhas pela expressão de comicidade que ele usou

Francisco continuou a humedecer-me a cara e uma nova conversa entre nós surgiu e foi-se desenrolando naturalmente por si. Falámos dele tocando alguns pormenores da sua vida íntima e pessoal que tal como eu, ele tencionava a resguardar dos olhos e ouvidos de terceiros, dos acontecimentos que esta estava a levar, das novidades que a preenchiam… E sabia que mais tarde ou mais cedo, quando ele se silencia-se e me transmitisse o testemunho, a minha vez de falar chegaria, e consigo chegaria também o momento de tocar na minha ferida, aquela que ainda me doía, que custava a sarar mais do que todas as outras que já tivera, e o meu medo em me descontrolar em emoções vinha inevitavelmente colado ao peito, e estas prometiam reacender logo sentissem a mais pequena das ameaça assim que eu ouvisse o nome dele.

- Eu esqueci de perguntar pra cê… Me conta, como vão as coisas com o seu namorado…? Como é o nome dele mesmo? – afinal mais cedo do que eu esperava, a ferida voltou a ser tocada, ardendo em chamas e conjurando ao meu coração uma dor quase insuportável, aquando mencionado um assunto que sinceramente eu pensei já ter sido esquecido por ele

- Ruben… - se ouvir o nome da pessoa que ainda detinha todos os meus sentimentos, julguei vir a ser intolerável às minhas memórias de nós, tanto as melhores que eu guardava como as menos boas, ter de ditá-lo, ter de pronunciá-lo com os meus lábios, apenas serviu para me desolar severamente por uma vez mais tomar a noção do que o que um dia havia sido real, hoje não passava de meras e tristes recordações 

- É isso aí… Ruben(!) Cês resolveram aquela parada?

- Chico, se não te importas, eu não… - não queria falar sobre o assunto, ainda custava, ainda doía, e temia que continuasse a ser daquela maneira durante mais uns tempos

- Me desculpa… - apenas pela minha discreta fuga à conversa, e expressividade que esmoreceu drasticamente, ele culpabilizou-se de ter suscitado uma conversa delicada que eu não estava preparada para voltar a ter, tal como se apercebeu que nada havia sido resolvido com o meu agora, ex-companheiro de vida

- Não tens de pedir desculpa, também não podias adivinhar, não é? – os meus músculos faciais contraíram-se num sorriso que foi somente libertado para que ele não se sentisse desconfortável – Mas se queres mesmo saber, não… Não resolvemos absolutamente nada.

- Oiça, dá pra ver que esse assunto mexe consigo, não tem que falar se não quiser, sério que não… Eu entendo. – revelou compreensivelmente, ciente de que não tínhamos aquele nível de proximidade muito grande, mas aos poucos encetávamos a construí-lo

Estávamos sempre mais propícios a desabafar sobre a alma, a abrirmos o nosso coração a quem mal conhecemos, talvez por não termos medo de sermos julgados e por não nos iludirmos em esperanças no apoio e consolo de quem não nos é nada, mas com Francisco começava a ser diferente… Tenuemente ele mostrava ser o amigo que eu precisava ter a meu lado, e cada vez mais ele dava provas de querer ficar comigo.

- Está tudo bem, não te preocupes. Tem de chegar o dia em que não doa mais ao falar sobre isto… Tenho que ultrapassar. – e talvez aquele fosse o dia… respirei profundamente esperando reunir todo o ânimo que conseguisse, e preparei-me para lhe contar o que tinha acontecido desde que saíra de Punta Cana e regressara a Portugal

Contei-lhe tudo… Os largos minutos que partilhámos sorveram uma conversa íntima entre nós que confesso, em alguns momentos tive dificuldade em dominar e levar até ao fim. Desde a discussão exaltada que tivemos na casa dos pais da nossa afilhada, até ao encontro destinado no Colombo e o posterior momento vivido nas garagens, mas não tive coragem suficiente para lhe confessar a noite de amor e entrega que partilhámos há uns tempos… Um episódio de tão bom e maravilhoso que fora, eu queria apagar do cofre das minhas mais doces lembranças só para não recordar de um ensejo que eu e Ruben, como aquele, não voltaríamos a partilhar.
Francisco permanecera muito atento à minha narrativa, como se estivesse a ouvir o relato de um livro, que no futuro próximo não teria mais nada para contar, não iria ter mais páginas para ler nem novos relatos para acrescentar… Estava morto, tão morto como a nossa história que nunca conheceria o seu fim… pelo menos não o mais feliz.

- E o que aconteceu depois de ele dizer que ainda te amava? Cês se beijaram? Se acertaram? – rematando alguns detalhes do situação mais recente que traváramos no nosso último encontro, ele não me escondeu a sua ânsia em poder ver um novo rumo da minha felicidade

- Não, não foi nada disso que aconteceu… - por muito que eu tivesse desejado poder afirmar o verídico das suas questões ao que de facto aconteceu, eu não podia mudar os factos e escrever uma nova realidade, e evitando mais dúvidas, terminei com o desfecho daquela tarde, recordando-me de cada detalhe


****

- Ruben… - a voz despertadora de Inês, soou a alguns metros de nós, fazendo o nosso sonho ser perfurado pela realidade

Demorarmos a responder à formalidade da sua chegada quebrando o abraço, acentuou o clima pesado que se veio a fundar no meio de nós e o facto de estarmos tão próximos num contacto proibido, só veio a comprometer a nossa posição que agora estava aquém das conclusões, precipitadas ou não, de Inês.

- Já tenho o que preciso… Vamos embora? – ela foi fria do jeito com que falou e este foi unicamente dirigido a Ruben, que sentiu toda a tensão apoderar-se dos seus músculos e feições

- Sim, vamos… - vi-o segurar a chave no ar e destrancar o carro, acção que permitiu Inês precipitar-se à porta do lugar de pendura… os seus saltos embatiam pesadamente contra o pavimento provocando um ruído que fazia o meu coração bater mais depressa pela culpa que começava a sentir, apesar de não ter acontecido nada na sua ausência

- Depois eu ligo-te para acertarmos então alguns pormenores… - ao passar por nós, ela não se esqueceu de me relembrar a ajuda que eu lhe ofereci relativamente ao casamento, e no final sorriu-me, forçadamente como eu bem reparei, e mesmo antes de entrar no carro… algo ali a perturbava, a ameaçava, e talvez esse algo fosse a inexplicável aproximação e intimidade que eu e o seu noivo não escondíamos ter um para com o outro

- Eu também tenho de ir… Vemo-nos no casamento. – quando improvisei uma despedida e tomei ritmo para sair dali, Ruben voltou a surpreender-me

- Espera! Não nos podemos ver antes? – foi prudente e carinhoso no tom de voz que suavizou, apesar de Inês já se encontrar dentro do veículo, e mais uma vez o seu querer em voltar a estar comigo voltou a ser transparecido, mas ambos sabíamos o que era verdadeiramente correcto

- Adeus, Ruben. – e ali estava o correcto… a distância(!) dei-lhe um beijo no rosto e com o coração mutilado por um desgosto inconsolável, fui embora com a tentação de olhar para trás, mas tive força suficiente para não ceder a ela
****


- E não falaram mais nada um pró outro? Cada um seguiu o seu caminho… simplesmente? – depois de me ouvir, Francisco pareceu-me integrado como tudo tinha acabado… tão depressa e com tanta coisa por ser esclarecida

- Não havia mais nada a dizer, Chico… A Inês apareceu e tivemos de seguir os nossos caminhos, como se eles não se tivessem voltado a cruzar. – um tremelicar discreto tomou domínio dos tiques do meu queixo ao mesmo tempo que o meu olhar enturvou pelas linhas de água que o preencheu, mas consegui não chorar – Ele seguiu o seu caminho ao lado da noiva, da futura mulher e provavelmente da futura mãe dos seus filhos, e eu segui o oposto e sozinha… Tal como pretendo cursá-lo durante os próximos tempos.

- Ah, qual é? Fala isso não… Vai ver que quando menos esperar vai tudo dar certo, a vida vai dar um jeito!

- Não, não vai, mas é bom pensarmos que sim… É mais reconfortante. – apesar de os tempos se mostrarem intempestivos, eu não ia baixar as armas e deixar de lutar por mim… agora só por mim e pela felicidade que pretendia encontrar

- Então agora para esquecer esses problemas, eu quero ver um sorrisão nesses lábios, vá… - ele queria apenas fazer sentir-me melhor, queria ver-me animada… mas eu não estava com disposição nenhuma para me animar

- Francisco, não… - molenguei na minha recusa, mas ele não desistiu

- Francisco, sim! Ué! Vá, me mostra… Quero ver um mega sorriso! O maior que tiver…

De tanta insistência, eu cedi… não tinha outra escolha. Cerrei os olhos, rasguei os lábios e mostrei um sorriso exageradamente largo e forçoso que exibia o delineo perfeitamente correcto dos meus dentes. Fi-lo rir pelo jeito mais cómico da minha feição e acabei por me juntar a ele, agora de uma forma natural e espontânea.

- Assim 'tá melhor. – final e muito tenuemente comecei a sentir-me melhor, talvez fosse aquele o encerrar de um capítulo e o começo de um novo… reservado com melhores esperanças e promessas das quais eu não poderia abrir mão – Cê tem um sorriso lindo, não deixe nunca ele se apagar do seu rosto.




***


- O carro já está lá em baixo é nossa espera para irmos… Tens tudo pronto?

- Sim, podemos ir. – afirmei, olhando em meu redor para me certificar que não deixaria nada para trás assim que saísse daquele quarto

- Deixa que eu levo. – num gesto de cavalheirismo que já lhe conhecia, Pedro retirou-me da mão a única mala de viagem que eu trouxera e ele mesmo a transportou na sua, deixando-me assumir a chefia do caminho que liderei à sua frente, até nos recolhermos no elevador

O fim-de-semana conheceu rapidamente o seu fim num pestanejar de olhos, e com o fim do trabalho veio a contagem decrescente para o meu regresso a casa. Tinha melhorado significativamente, o que graças a Deus me permitira terminar as fotografias para o catálogo juntamente com os meus colegas. Não me sentia totalmente reestabelecida, totalmente saudável, mas já não tinha febre e os calafrios e dores de cabeça deixaram de ser tão constantes.
Antes do voo, Adriana ligara-me a informar das análises gerais que havia solicitado, e estas estavam marcadas para o início da semana bem cedo, o que me confortou visto que não tinha mais que esperar e poder esclarecer todas as dúvidas, sem deixar arrastar a situação por muito mais tempo. Foi então que na segunda-feira, e antes de seguir para a minha primeira aula na faculdade, que passei pela clínica para fazer a deliberação de mais um tormento que me tinha andado a tirar o sono, rezando para que tudo corresse pelo melhor e que a vida não me tivesse pregado mais uma partida.


***


- Então daqui estamos despachadas… Temos o seu contacto, depois avisamos para poder vir levantar os resultados. – depois de todos os testes feitos, a analista que me tirou sangue, caminhou comigo até à recepção, mostrando a sua boa educação e máximo profissionalismo

- E não me sabe dizer quando é que esses resultados estão prontos…? – perguntei porque a primeira coisa que fiz denotar mal entrara naquela sala, foi a minha urgência pelos resultados dos testes

- Não lhe posso garantir a máxima rapidez, mas vou fazer os possíveis para dentro de dois dias ter uma resposta e uma consulta marcada caso seja necessário, mas para todos os casos ligo a confirmar… Não se preocupe.

- Muito obrigada! – restou-me agradecer-lhe por todo o cuidado e atenção que me foram despendidos, e depois disso só me restava mesmo esperar

Quando saí da clínica a primeira coisa que fiz foi procurar o meu telemóvel e ligar a Adriana, que aguardava por um telefonema meu. Enquanto falávamos dirigi-me ao parque de estacionamento e ocupei o meu carro, que não iria dirigir antes de terminar a chamada.

- Isto não é normal, não são sintomas normais… - continuei a desafogar com ela, colocando os meus receios sob a mesa

- O que é que estás a querer dizer com isso?

- Estou a querer dizer que eu… Eu posso estar doente! Tu sabes o historial médico da minha família, eu já te contei… A minha avó e a minha mãe… - antes que eu terminasse a minha mais patusca suspeita, ela apressou-se a calar-me com meias palavras que afugentaram as minhas

- Joana, é que nem te atrevas a colocar essa hipótese, ouviste bem? Tu estás doente coisíssima nenhuma!

- Adriana, eu tenho medo… Pronto. – ciciei sentindo uma reviravolta no estômago pelo nervosismo, enquanto cruzava o cinto de segurança na minha frente

- Mas medo de quê? Não precisas de ter medo, vais ver que…

- Amô, cê viu onde deixei meus ténis que me deu pelos anos? – a voz de David foi perfeitamente audível através da linha telefónica, e foi inevitável a nossa conversa não ser interrompida, apenas que por alguns segundos

- Deixaste-os na sala, David… Foi onde te descalçaste da última vez que os usaste! – ela avivou-lhe a memória já um pouco olvidada e depois retomou a nossa chamada, por instantes suspendida – Desculpa… - perdoou-se e pegou na sua última interjeição de maneira a dar-lhe continuidade – …vais ver que estás perfeitinha de saúde! Tudo isto não passará de um susto.

- Eu não sei… E se for mais do que susto? Se estiver algo de errado comigo? Algum problema?

- Joana, pára de fazer suposições inúteis, não podes estar nessa ansiedade. Talvez seja só uma virosezita… – o seu racionalismo e a sua voz calmante, tranquilizaram-me por alguns momentos, mas sabia que assim que desligasse a chamada e a deixasse de ouvir, todas as dúvidas e inquietações voltariam

- E se for mais do que uma simples virose?

- Vamos esperar pelo resultado das análises e depois logo se vê… Não vale de nada estares a sofrer por antecipação.

- Eu tenho medo do que possa ser, Adriana… - não perguntem como, mas eu sentia que algo em mim não estava bem, não era algo comum, era algo mais… mais do que eu pudesse supor, e toda eu tremia só de imaginar o que poderia estar reservado para mim

- Amor, não tenhas… Eu estou aqui para tudo o que precisares, qualquer coisa que seja, nós arranjamos uma solução.

Apesar de todo o carinho, de todo o alento que ela se esforçou por me transmitir, eu não consegui ficar mais sossegada e afastar da cabeça os mais obscuros e auto-destrutivos pensamentos. O meu medo pela minha saúde era enorme, acho que nunca estivera tão assustada como até então… E se ele viesse a ser confirmado?





Boa tarde, minhas queridas leitoras! :)
Antes de mais devo-vos um enorme pedido de desculpas pela demora 
em deixar-vos com novidades, mas vocês já sabem os motivos que me impossibilitaram a fazê-lo. 
Quero também agradecer-vos do fundo do coração todo o apoio e carinho
 que tiveram para comigo, bem como a vossa compreensão,
 não imaginam a força que os vossos comentários me deram... Muito obrigada!
E sem mais demoras fiquem então com o novo capítulo da história, 
espero que gostem e não se esqueçam de me deixar as vossas opiniões! :)

Beijinhos,
Joana