domingo, 21 de julho de 2013

Capítulo 18 - Por mais distantes que estejam, ainda continuam perto...

O número dos dias do calendário era riscado sucessivamente, fazendo girar as folhas que praticamente de um modo imperceptível, a passagem do tempo fazia voar, e apesar de uma nova estação do ano já ter sido recebida há coisa de dois ou três dias, as temperaturas rigorosas do Verão ainda não tinham baixado, fazendo as delícias aos amantes de praia.
As aulas já levavam quase um mês de avanço, fazendo-me andar a um ritmo alucinante entre carradas de livros que tinha para estudar e trabalhos que faziam um peso extra na minha nota sumativa do semestre. Apesar de nos primeiros tempos ter sido difícil e um quanto doloroso tentar tirar Ruben da minha cabeça e principalmente do meu coração, agora poderia dizer que já não o lembrava com tanta frequência como dantes, e por isso também o poderia agradecer a William, que a passar umas férias em Lisboa, estava em minha casa há já alguns dias, e o seu apoio a mim tinha sido fundamental para fazer-me esquecer a tristeza e enfrentar a mágoa da perda com um sorriso, que me abria espaço a novos caminhos a percorrer no dia-a-dia.

- A sério que se eu estivesse mais cinco minutos dentro daquela sala, dava-me alguma coisinha má! – rabujou Bruna, minha colega de curso e amiga, aquando saíamos da faculdade

Vinha acompanhada não só por Bruna mas também por Madalena e Bárbara, que depois da última e única aula da tarde, nos dirigimos ao estacionamento para junto dos nossos carros, num ambiente divertido e descontraído de sempre, que entre o nosso grupinho era já bastante habitual. 

- Oh, não sejas assim… Eu até gosto de o ouvir falar… Ok, é um bocado chato, isso é, mas temos que lhe dar um desconto, como ele diz… Entusiasma-se a dar a matéria! – o meu reparo em relação ao professor que leccionava a cadeira de Direito e Processo Penal, fê-las perderem-se em gargalhas devido à expressão teatral a que dei uso

- E então, meninas… Têm planos para esta tarde? – perguntou Madalena, depois de acalmados os ânimos e fazendo-nos abrandar os passos antes de cada uma se dirigir ao respectivo carro

- Hum, hum, eu tenho! Vou dar um passeio com o Simão e depois ele vai levar-me a jantar…

- Ui, ui, estou a gostar de ver… Estamos tão apaixonadas, Bruninha! - Bárbara metera-se com ela levemente, espelhando a felicidade de um coração preenchido como era o de Bruna – Então e tu, Joana… O que tens pensado fazer esta tarde?

- A minha tarde vai ser passada com o nariz enfiado nos livros… Ainda tenho resumos para fazer e muito que estudar!

- Oh, a sério! Nós estávamos a pensar em ir dar uma voltinha juntas… - esclareceu Madalena, uma provável conversa anterior que havia partilhado com Bárbara

 - Não meninas, desculpem mas não vai dar… Tenho mesmo que estudar, já que este fim-de-semana não estou cá, tenho que aproveitar o máximo de tempo disponível… - esclareci calmamente, estabelecendo as minhas prioridades

- Ah pois é… Vais para Paris! Gente com sorte é assim!

- Muito engraçadinha, menina Bá… Mas para sua informação eu vou em trabalho! Por isso que tenho de estudar agora, não se esqueçam que temos frequência já para a semana, e além disso não quero deixar o William outra vez sozinho…

- O William? É aquele rapaz que está em tua casa, não é? Bem giro, digo-te já então!

- E bem comprometido também… Ele tem namorada, Madalena, por isso podes ir tirando o cavalinho da chuva!

- Eu só estava a dizer que ele era giro, não me quero casar com ele… - esclareceu atempadamente, fazendo suscitar novos risos – Mas então ele que venha também… Vá lá, Joana, não nos podes fazer uma desfeita dessas, para cortes já basta a Bruna que nos vai trocar pelo namoradinho… Anda lá!

- Pronto, ok… Ganharam! Mas não me quero demorar muito tempo por lá, combinado? – por tanta insistência delas, eu não teve outra solução em vista senão a de ceder, e no mesmo instante em que aceitei, o histerismo de alegria entre elas foi absurdamente cómico de se ver – E onde querem ir?

- Não sei… Podíamos ir talvez dar uma voltinha pelo Colombo, lanchávamos por lá e tal…

- Olha a mim parece-me uma boa ideia… - concordou logo Bárbara

- A mim também… Vou só a casa tomar um duche e pegar o William, e encontra-nos… Está bem para vocês?

- Sim, por mim tudo bem… - apoiou Madalena que foi acompanhada pelo aceno positivo de Bárbara – Daqui a mais ou menos duas horas?

- Hum, feito! – um sorriso intocável surgiu nos meus lábios no mesmo instante – Então meninas até já, e até amanhã pra ti, Bruninha! – despedi-me de todas com um beijinho que desprendi na palma da mão e depois soprei para o ar, começando a  afastar-me na direcção do seu jeep

Coloquei os óculos de sol na cara e entrei no carro, pronta para vinte minutos de condução, isto na melhor das hipóteses, pois se encontrasse o típico trânsito nas ruas de Lisboa, o tempo de estrada prolongar-se-ia muito mais.
Aquando de mãos ao volante, e a preencher a solidão de uma simples viagem, ocupei-me inteiramente dos meus pensamentos que me arrastaram para o enredo desfechado do meu mais recente desgosto de amor, que partilhara com – o agora já não meu – Ruben… E foi acompanha por eles que eu completei o  regresso a casa. 
Parece que foi um acaso da vida que nos juntou e foi o destino a separar-nos, talvez para nos mostrar que não fomos feitos para ficarmos juntos, foi bom enquanto durou, mas nada mais que isso. Se o amei? Sim, muito, e ainda continuava a amá-lo, todos os dias, mas todos os dias era um esforço que eu fazia para amá-lo um pouquinho menos.

- Will, já cheguei… Estás em casa? – assim que entrei em casa e enquanto retirava as chaves da fechadura, a minha voz avultada percorreu praticamente todas as divisões, procurando pela presença de uma única pessoa, que primeiramente não deu sinais de si

Pousei a mala juntamente com livros e um caderno de apontamentos, sob do aparador de entrada, e percorrendo o piso inferior procurei pelo meu amigo, que depois equacionara poder estar só mesmo no interior da vivenda, pela carteira e telemóvel dele que vi ao pousar os meus pertences no móvel.

- Will? – voltei a chamar por ele ao transpor o lado de dentro da sala de estar, que tinha as portas corrediças de acesso ao jardim, abertas

- Aqui fora! – respondeu ele num tom igualmente elevado, vindo do exterior que  acabei por enveredar, guiada pelo prenúncio daquela voz

- Ah muito bem… Estás aqui ao solinho! – disse-lhe eu com um sorriso nos lábios, ao vê-lo sair da piscina do jardim onde dera alguns mergulhos para fugir às temperaturas elevadas que se faziam sentir - Que rica vidinha! – brinquei, pegando na toalha estendida na relva para lhe dar

- Claro, aqui é que se está bem! – um sorriso de orelha a orelha foi exibido no rosto dele, abrindo já os braços pronto para me abraçar

- Não, nem penses… Estás todo encharcado! – impedi-o mesmo antes de ele conseguir chegar perto de mim,  e no lugar de um abraço, ficou um beijo que William me deu carinhosamente na bochecha – Hum… Assim está melhor. E como foi o teu dia? Sais-te?

- Sim, fui dar uma voltinha por aí, estive com velhos amigos… Foi bom. – proferiu sempre sorridente, os seus planos de tarde que terminaram aquando voltou a casa, falando enquanto enxugava o seu corpo à toalha – E o teu dia como foi? Aposto que foi bem mais entusiasmante e divertido que o meu…

- Sim, foi super divertido, nem imaginas! - não evitei em ironizar suavemente num simples e sofisticado revirar de olhos, que mostrou o desânimo e cansaço em cima dos meus ombros pelas horas e horas que passara na faculdade – Olha, tens alguma coisa para fazer esta tarde? Algo combinado?

- Hum… Não, não tenho. Já não estava a pensar voltar a sair de casa hoje… Mas porquê?

- Porque a Bá e a Madalena insistiram para que fossemos lanchar com elas ao Colombo, pensei que pudesses vir…

- Essas não são as tuas amigas que estiveram cá no outro dia a fazerem contigo um trabalho?

- Sim, são elas mesmo! – afirmei, relembrando sucintamente o encontro que eles já tinham tido, e por isso já se conheciam minimamente – Eu é só tomar um duche e já vou… E tu o que dizes? Vens também?

- Sim, pode ser, mas não vou já… Ainda quero descansar um bocadinho, depois prometo que vou lá ter com vocês.

- Pronto, tu é que sabes! Mas então não demores muito que eu não quero vir tarde para casa…

- Sim, não te preocupes… Podes ficar descansada. – William voltou a beijar-me desta vez na testa, e voltando a desprender-se da toalha que atirou de novo ao chão, desapareceu entre um novo mergulho que o fez afundar nas águas límpidas da piscina

Com um sorriso rejuvenescedor e acarinhado por ter ali consigo um dos meus melhores amigos, que me prestava um carinho e apoio condicional bem como apagava os meus momentos de maior solidão, voltei a recolher-me aos interiores da casa para me arranjar e sair o mais atempadamente que conseguisse.
Subi até ao meu quarto e foi na casa de banho que me desprendi em dez rápidos minutos de um duche fresco. Vesti uma roupa simples e igualmente fresca que seleccionei directamente do roupeiro e retoquei a maquilhagem em tons muito leves e discretos.
Quando voltei a descer encontrei William na sala ao telemóvel, e pela despedida que ainda ouvi de raspão antes de ele desligar, foi o suficiente para lhe desmistificar o sorriso imensamente belo que se apoderou totalmente das feições do seu rosto de homem feito.

- Ai, o amor, o amor… - suspirei ao sentar-me no sofá e ocupar o lugar vago ao lado dele

- Já estou cheio de saudades dela…

- Podias tê-la trazido…

- Oh, eu queria que ela viesse comigo, mas era chato ter de faltar às aulas logo no primeiro mês de faculdade...

- Pois, tens razão… Mas este fim-de-semana já estás de volta a Nova Iorque e vais poder matar as saudades todas! – disse animadamente de forma a despoletar-lhe outro sorriso, pela proximidade de tempo que ele tinha para voltar a correr para os braços da sua namorada

- É verdade! E tu sempre vais a Paris?

- Sim… Abalo quinta-feira depois das aulas e regresso no voo de domingo de manhã. – proferi, recordando o preenchimento da minha agenda de trabalho naquele fim-de-semana, que me faria conhecer a bendita cidade do amor pela primeira vez – Mas bem, é melhor eu ir andando antes que elas me chateiem o juízo por chegar tarde. Como é que vais para lá?

- Apanho o metro E onde é que nos encontramos?

- Quando chegares ligas-me que eu depois digo-te onde estamos.

- Topadíssimo!

- Vá, mas toma atenção e não e te deixes dormir a sério, senão estou mesmo haver que já não apareces lá…

- Já disse para ficares descansada que eu vou… Vou só passar um bocadinho pelas brasas.

- Hum, está bem… Até já, grandalhão! – levantei-me, coloquei a mala na dobra do braço e com um rápido passar de dedos no topo da cabeça dele, despenteei-lhe levemente o cabelo

- Até já, minorca! – ripostou em contraste, numa brincadeira amena que só serviu para nos rirmos mesmo antes de eu me dirigir a saída, pronta para rumar a um lugar que eu mal sabia ter algumas surpresas reservadas para mim



***



- Não vais comer mais? – perguntou Madalena ao ver-me arrastar o tabuleiro do meu crepe que mal tinha provado, para um canto da mesa, dando a breve indicação de que não pretendia voltar a tocar-lhe

Estávamos as três sentadas numa mesa redonda junto à casa de crepes, que tinhamos escolhido unanimemente para fazermos a compra do nosso lanche, que até então elas até estavam a desfrutar entre uma conversa ligeira e animada, menos eu, que só em pensar no simples facto de que a última vez que estivera ali fora com Ruben e Sofia, perdi a vontade de comer.

- Não… Este chocolate todo está a enjoar-me! – referi numa pequena careta agonizada pela reviravolta que tinha sentido no meu estômago, e dei dois goles do meu ice tea que trouxera a acompanhar

- Ultimamente não tens andado a comer nada de jeito, amor… - constatou Bárbara sentindo em si a preocupação evidente pelo meu estado de bem-estar físico e mental – Qualquer dia desapareces de tão magrinha que estás!

- Oh, não é nada disso… Simplesmente não ando com grande apetite, só isso. – eu descentralizei a atenção que fora desviada para mim e para a minha saúde, desvalorizando a importância que lhe estava a ser dada

- Sabes o que isso é? Falta de namorado…

- Oh Madalena não comeces…

- O que foi? É verdade… Que eu saiba a nossa Joaninha anda livre que nem um passarinho, e o que não faltam por aí são pardalitos jeitosos à procura de ninho! E eu até conheço alguns, se quiseres até tos apresento… - ela falou muito naturalmente, forçando a piada à conversa que fez Bárbara, e até a mim que preferi manter-se à margem da conversa, rirmo-nos discretamente

- Oh minha querida Madalena, isso não é muito da Joana, sabes? Encontros às cegas não faz o género dela… - proferiu com a máxima certeza e rectidão, ou não fosse ela conhecer-me tão bem pela nossa amizade que já perdurava há mais de seis anos, ainda dos tempos do nosso secundário

- Oh, está bem… Só estava a tentar ajudar. – cruzando os braços na frente do seu peito, ela deixou-se retaliar tombando levemente o corpo na cadeira

- E ajudaste, não te preocupes… Pelo menos fiquei a saber onde posso procurar se quiser fazer novas amizades! – tentando reconfortá-la da melhor maneira possível,  mostrei-lhe um sorriso agradecido e um piscar de olho promissor, pela tentativa de esforço que ela fizera para me ver um pouquinho mais feliz

Quando terminámos o lanche, saímos da restauração e posso dizer que fui praticamente arrastada com elas para a zona das lojas, onde em mais de uma hora nos perdemos em compras e mais compras, que felizmente para mim e para os meus pezinhos que já sofriam em cima dos saltos altos, tiveram vista a um cessar. Já passava das seis horas da tarde e William ainda não tinha aparecido para desânimo meu, e como começava a ficar tarde, nem a Bárbara nem a Madalena tinham mais razão para prolongar a sua estadia ali, por outros compromissos e responsabilidades ainda marcadas para o fecho daquele dia.

- Joana, ainda ficas? Nós já temos de ir embora… - asseverou Madalena em pleno corredor quando saímos de uma loja

- Não sei se o William ainda vai aparecer… Acho que vou ficar mais um bocadinho por aqui e ver se ele vem… - proferi meio desalentada, olhando em meu redor para procurar pela figura que encaixasse o semblante dele na perfeição

- Talvez seja melhor ligares-lhe…

- Sim, se entretanto ele continuar sem dar sinais de vida, é o que vou fazer.

Despedimo-nos todas com beijinhos partilhados no rosto de cada uma e um abraço, na promessa de nos voltarmos a encontrar no dia seguinte na faculdade.
E assim do nada ali tinha ficado eu… Sozinha à espera que alguém me encontrasse. Foi então que não tendo em vista outra solução, alcancei o meu telemóvel do interior da mala e marquei o número do Will, pronta para ligar-lhe e demandar-lhe uma reprimenda pelo compromisso a que ele tinha faltado.

- Sim, Will, sou eu… Onde estás? – perquiri logo assim que do outro lado da linha o ouvi responder

- Desculpa, adormeci e perdi a noção do tempo…

- Estou à tua espero há horas! – falei, mas atrás dele ouvi-a imenso barulho, várias vozes a falarem ao mesmo tempo, que me fez lembrar um aeroporto ou até mesmo aquele lugar, que se encontrava num autêntico frenesim 

- Eu sei, desculpa… - ele perdoou-se imediatamente, mas continuava difícil conseguir ouvi-lo, o ambiente à minha volta também não era o mais propício pois uma amálgama de pessoas enchia o corredor onde me encontrava, fazendo do centro comercial uma animação viva pela sua fluente agitação

- Sim, tudo bem, mas onde é que estás? – Will levou algum tempo a responder mas quando o fez a sua voz não ressoou ao telefone como seria de esperar, rodei ligeiramente a cabeça para trás e consegui vê-lo correr na minha direcção

- Estou mesmo aqui! – olhei-o a sorrir pela pequena partida que me havia pregado e desligar o seu telemóvel que segurava na mão – Desculpa, não resisti!

Mesmo antes de eu ter tempo de tomar alguma atitude, senti-o abraçar-me por trás fazendo-me levantar os pés do chão, e não consegui evitar um gritinho espontâneo pela surpresa, que fez as pessoas que estavam mais próximas de nós, olharem-nos, como se aquilo tivesse sido uma brincadeira de um… casal. Porém estavam redondamente enganadas se pensaram dessa maneira, o William e eu partilhávamos de uma amizade forte, uma ligação de quase irmãos, que nos últimos dias tinha aquecido o meu pobre coração, ainda machucado.

- És tão parvo! – logo que me soltou dei-lhe uma leve palmada no peito, pela sua gracinha que me tinha ruborizado as bochechas de vergonha – Podias ter dito logo que já cá estavas…

- Sabes como é… Gosto de manter o suspanse… - ele mostrou-se mais uma vez engraçadinho e o seu rosto voltou a acolher um sorriso largo que me fez baixar a guarda

- E que suspanse… Oh oh! – a falange do meu indicador arrebitou-se e rodopiou no ar, pelo marasmo da minha asseveração – E diz-me, tens fome? Queres ir comer alguma coisa…?

- Fome não tenho, mas um cafezinho até tomava!

- Então vamos… Acho que um café também me vai saber bem. – ou então não, mas isso eu só viria a entender depois… o meu braço direito encaixou-se no dele, que me ofereceu, e daquele jeito encaminhámo-nos até a um café




***



(Ruben)

Trabalho; preparativos para o casamento; trabalho e mais preparativos para o casamento… Era desta maneira que estava cingido o planeamento da minha rotina nestas últimas semanas.
Passei noites seguidas a pensar na conversa que há algumas semanas atrás tivera com a Adriana, quando ela me procurara a fim de esclarecer as minhas intenções, questionar pelas minhas atitudes, tentar entender os meus sentimentos… Mas como poderia explicar-lhe se eu mesmo não os conseguia entender ainda? Parecia tudo tão fácil e ao mesmo tempo tudo tão difícil, tudo o que fiz, todas as decisões que tomei… E erradas decisões essas, que agora era já demasiado tarde para eu solucionar, e por isso apenas me restava lamentar em silêncio e consentir as consequências dos meus actos, aceitando a moeda de troca… Aprender a viver um amor que eu não sentia.

- Amor, vou experimentar estas calças… - a Inês veio até à minha beira, apanhando-me a vaguear pela loja

- Já escolheste?

- Sim, gostei destas… São giras, não são?

- Sim, são… São giras… - concordei, ainda assim na hesitação de conseguir fazer uma boa apreciação, porque o facto era que opinar sobre escolhas de roupa, ainda para mais roupa de mulher, não era de certeza o meu forte

Como se não bastasse chegar cansado a casa depois de dois treinos naquele dia, a Inês ainda me arrastou com ela para a confusão das lojas do Colombo, afim de a ajudar a fazer compras… Não sei porque razão ela ainda o fazia, porque conhecer-me bem como ela conhecia, já deveria ter percebido que eu detesto andar de loja em loja a ver de roupa.

- Então ficas aqui? Eu vou ali dentro ao provador e volto já…

- Sim, vai que eu fico aqui…

- Se precisar da tua opinião depois eu chamo-te.

Apenas me limitei a sorrir-lhe, afundei as mãos nos bolsos e caminhei para a saída da loja. Esperando conseguir encontrar alguma paz e sossego, agora sozinho, encostei-me e apoiei os braços no gradeamento do corredor e comecei a observar as pessoas à minha volta, e dei por mim a perguntar o que elas escondiam por detrás dos sorrisos, da pressa, da agitação, da alegria, e confesso que não resisti em tentar comparar a minha vida com a delas, que eu desconhecia totalmente… Teriam elas a felicidade que mostravam ter, ou era tudo fachada apenas para esconderem a tristeza que não tinham coragem de mostrar? Tal como eu… Não me sentia completamente infeliz, mas faltava-me algo, algo que eu não podia recuperar e que tinha sido a razão do meu sorriso, o meu mundo, o meu tudo, que estupidamente eu traíra e magoara, e agora já não me era nada.
A Adriana tinha razão quando disse que eu tinha mudado… Mudei a partir do momento em que supus ter perdido o meu único grande amor, pela segunda vez, mudara para pior e sentia-me mal com isso… Por ter agido como um verdadeiro idiota e me ter recusado a acreditar nela, por não lhe ter dado ouvidos quando ela tinha todo o direito de se explicar, por ter quebrado a confiança que aprendêramos a construir em mais de um ano de namoro. Aquele Ruben de há dois meses atrás não era eu, mas estava a conseguir recuperar-me e a trazer-me de volta.
Dizem que por detrás de um grande homem está sempre uma grande mulher, mas então eu já não sabia que homem era eu, pois a mulher da minha vida eu tinha perdido para sempre.

- Foste tão estúpido, tão estúpido… - ainda me lamentava pelo rumo precipitado que tinha dado à minha vida, a forma como desiludi as pessoas que amava pela minha tomada de decisões, e a decisão mais fulcral que me atormentava o pensamento, era a do meu futuro a ser construído ao lado de uma pessoa que eu não conseguia amar, e viver longe daquela que um dia quis que fosse a mãe dos meus filhos, aquela com quem eu queria envelhecer ao lado e que ainda amava tanto

Aos poucos fui abrindo os olhos e levantando a cabeça, que pelo peso na consciência eu deixara tombar ligeiramente para a frente, enquanto me debatia interiormente com os meus pensamentos, mas nem quis acreditar no que vi a seguir… No corredor do lado oposto ao que me encontrava, e perfeitamente enquadrada na minha frente, estava ela… A Joana, a mulher que nunca mais viria regressar aos meus braços. Ao primeiro instante fiquei contente por voltar a vê-la, mas depois pareceu que tudo à minha volta se desmoronou… Vi outro homem aproximar-se dela e abraçá-la, pegar no meu mundo e tomá-lo nos seus braços. Não consegui reconhecê-lo, mas consegui enxergar bem os sorrisos que ambos trocavam e que espelhavam a felicidade que deviam estar a sentir, sim, ela estava feliz e ao contrário do que desejava, eu não era mais motivo dessa felicidade.
Estaria Joana com ele? Voltara ela a refazer a sua vida ao lado de outro homem? Teria ela conseguido esquecer-me e seguido enfrente? Um sobressalto no meu coração deixou-me os joelhos a tremer só por colocar aquela hipótese em evidência, uma hipótese que só poderia ser verdadeira.
Então era aquela a sensação que ela sentiu ao voltar a ver-me ao lado de Inês, era aquela a sensação de ser-se trocado, a sensação de vermos o nosso lugar na vida do nosso grande amor, o lugar que chegáramos a pensar nos pertencer para sempre, ser substituído por outra pessoa.
Senti uma tristeza tão grande e um vazio tão inexplicável em mim, que só me apetecia chorar. “Os homens não choram…”, também se ouve dizer. Então os valentões que pensarem assim que se apaixonem primeiro, mas que se apaixonem a sério, perdidamente, que encontrem o amor, o tesouro mais precioso da vida deles e depois que o percam para sempre, depois que venham falar comigo e me digam se um homem chora ou não, mesmo que por amor.
Continuei a olhá-los e eles continuavam a sorrir enquanto conversavam, enquanto se tocavam… E foi antes que visse alguma coisa que viesse confirmar ainda mais as minhas suspeitas, algo que me viria a deitar ainda mais abaixo, que me voltei e tornei a entrar na loja, onde a Inês já me procurava.

- Ruben, chega aqui, amor… - mal me viu ela chamou-me e fez sinal para que me aproximasse

- Oh Inês, ainda vais demorar muito com isso? Eu quero ir embora… - abatido pelo cenário anterior que assistira, e o qual tão cedo não iria conseguir esquecer, demonstrei-lhe a minha vontade súbita de apenas querer ir embora e voltar para casa

- Queres ir embora? Mas eu ainda não me decidi sobre o que vou levar… - lamuriou, desconhecendo totalmente a maior causa que me desalentava e me fazia querer deixar aquele lugar o quanto antes – Amor, o que achas destas blusas? Qual delas gostas mais? – perquiriu elevando uma blusa em cada mão para, como sempre, perguntar pela minha a opinião

- Não são as duas iguais? – senti uma linha fina traçar a minha testa que entretanto se enrugara, aquando a pergunta óbvia que coloquei, não reparando à primeira vista qualquer diferença que distinguisse as peças de roupa

- Claro que não são iguais, Ruben! Esta tem renda na gola e na bainha, e esta não… - evidenciou com uma disposição como se fosse um dever eu ter que saber os pormenores de bordados de roupa feminina – Diz-me qual das duas gostas mais…

- Oh Inês, eu não sei… Eu sei lá!

- Estou a pedir-te a opinião, Ruben, acho que não é uma coisa difícil de se fazer… Apontas para uma blusa e pronto, eu vou experimentar!

- Mas porque é que precisas de saber se eu gosto ou não gosto? A roupa é para ti, és tu que a vais usar, não eu…

- Olha não sei, porque se calhar és o meu noivo e eu gosto de ficar bonita para ti… - não era a minha intenção magoá-la com o que disse, mas parece que exagerei na maneira como manuseei as palavras e isso reflectiu-se na forma como ela falou, ríspida e ofendida… até no olhar

- Desculpa, pronto… Mas tu sabes que eu não gosto de vir às compras, não me sinto bem a andar aqui às voltas…

- Se fosse para estares a jogar consola ou a fazer outra coisa qualquer com os teus amiguinhos, já não te importavas! – ela falou com uma frieza abrupta a conjecturar-lhe a voz, e virou-me as costas, começando a caminhar na direcção oposta

- Oh Inês, não é nada disso… - tentando impedir que aquele pequeno desentendimento originasse algo de maior, segui atrás dela – Mas nós já andamos aqui há horas para trás e para a frente, e ainda não compraste uma única peça de roupa que fosse! – tentei ser o máximo coerente possível, explicando-lhe as razões compreensíveis do meu desânimo

- Sim, tens razão, desculpa… - finalmente ela travou o seu compasso de marcha e olhou-me – Eu sei que não gostas de fazer compras e andas há imenso tempo a aturar-me entre lojas e mais lojas… Vai dar uma voltinha por aí enquanto eu me decido quanto ao que levo, depois ligo-te para nos encontrarmos.

- Não te importas?

- Oh, é óbvio que eu preferia que estivesses comigo, mas vocês homens são assim, no que toca a ir às compras com as namoradas, enfim… Mas não, não me importo, vai lá…

- Então eu vou tomar um café.

- Está bem, depois quando estiver despachada vou lá ter contigo. – sorri-lhe, pronto para a deixar e ter um momento só para mim, mas Inês voltou a chamar-me antes que eu tivesse a oportunidade de me afastar – Ruben?

- Diz… - voltei-me novamente para a sua frontaria e encarei-a

- Não me vais dar um beijo antes de ires? – apenas para lhe satisfazer o pedido, aproximei-me dela uma vez mais e com um simples e único toque de lábios, ofereci-lhe um beijo, que não sei se infelizmente para mim ou para ela, foi o mais impessoal e sem sabor de todos, pelo menos do que senti da minha parte

- Até já. – novamente com a mesma postura de há pouco, com as mãos recolhidas nos bolsos e de olhar cabisbaixo, saí da zona das lojas e caminhei para a restauração 

Com o avançar das horas, a hora do jantar aproximava-se e por isso os cafés e restaurantes começavam a encher. A minha ida ali tinha só um propósito, beber um café sossegado e esperar por Inês numa mesa, fugindo assim à confusão e tédio das lojas, onde passara uma grande parte da minha tarde.
Acerquei-me da bancada de um café e atrás de uma pequena fila esperei pela minha vez, que felizmente e para a minha satisfação, não tardou muito a chegar.

- Aqui tem os dois cafés e o seu troco, obrigada e boa tarde! – ouvi a empregada falar com o rapaz que estava a ser atendido na minha frente

- Obrigado! – ele agradeceu de volta, mas quando voltou o corpo numa só rajada, por pouco não fez colidir o seu tabuleiro contra mim, que arredei passo para trás no mesmo segundo – Peço desculpa.

Tencionei-me a responder-lhe, mas não fui capaz… A voz ficou-me retida na garganta quando na minha cabeça a imagem dele se identificou rapidamente com a de uma pessoa que eu já tinha visto antes. Ele era o mesmo homem que avistei com a Joana há alguns minutos, e se a memória não me falhava totalmente, não era só dali que o conhecia, podia jurar que já o tinha visto antes, só não sabia de onde.
Seguindo-o com o olhar, observei-o meticulosamente a caminhar até chegar à mesa onde estava instalado e quando a alcançou, reparei que ainda estava acompanhado por Joana, que sentada numa cadeira, o esperava. Voltaram a mostrar-se sorridentes um com o outro e por muito que tivesse lutado contra, eu não consegui ficar indiferente a toda aquela cumplicidade… demasiada, até.

- Desculpe… Senhor? Em que posso ajudar? – pela insistência da empregada de balcão, que se esforçara por me trazer de volta, notei que a minha atenção já tinha sido promulgada bem mais que uma vez, mas esta estivera focada bem longe dali

- Ah… É um café curto e uma garrafa de água, por favor. – pedi, tendo no instante seguinte desviado o meu olhar curioso novamente para a mesa deles, tendo lá permanecido até ao meu pedido ter sido pago – Muito obrigado, boa tarde! – agradeci-lhe educadamente, e com o tabuleiro nas mãos procurei por uma mesa disponível onde me pudesse sentar

Queria saber o que se passava entre eles os dois, embora soubesse que não tinha o direito de me voltar a meter-me na vida, e principalmente no foro pessoal da Joana, mas era impossível permanecer imparcial ao que estava ali a acontecer. Queria saber mais, precisava, e naquele instante era essa a única certeza que tinha.  




Queridas leitoras, aqui está a continuação da história!
Espero que gostem deste capítulo, o próximo será publicado logo assim que puder, e não se esqueçam de comentar, as vossas opiniões são muito importantes.

Um beijinho grande, Joana :)



terça-feira, 16 de julho de 2013

Capítulo 17 - Algumas coisas simplesmente não voltam mais (Parte III)

A madrugada seguinte prevaleceu inerte e passiva lá fora, despindo dos céus o crepúsculo da noite para dar lugar a um novo dia que aos poucos e muito timidamente, começava a raiar.
Joana acordou quando os seus sentidos a fizeram despertar pela falta de conforto e aconchego de outro corpo que já não abraçava o seu. A sua mão estendeu-se ao outro lado da cama para o procurar, mas nada mais sentiu do que o vazio da presença dele, que deixara para trás uma temperatura arrepiantemente arrefecida no colchão e lençóis, muito desigual à da noite anterior.
Estranhando por não o ter ali, ela levantou-se vestindo no corpo umas cuequinhas e uma t-shirt larga, e decidiu procurá-lo.

- Ru? – chamou por ele ainda meio ensonada, batendo levemente à porta da casa de banho privativa que o seu quarto oferecia, e não obtendo qualquer resposta, invadiu o seu interior, mas este imperava alheio à presença dele – Ruben…?

Abandonou o quarto, desceu calmamente as escadas e enveredou pelo corredor principal do piso inferior… Um silêncio mórbido e penetrante invadia cada canto da casa, e a cada passo que Joana dava, uma inexplicável sensação de desesperança e mal-estar ia-se sorrateiramente instalando no mais profundo de si, levando-a a querer que ali algo não estava bem, algo estaria para acontecer e que ainda a iria magoar muito, como um mau presságio antevendo o desmanchar da sua vida que não estava destina a ser vivida em pleno, tal como ela queria e um dia imaginara.
Procurou-o na cozinha, na sala de estar, mas não encontrou nada que denunciasse a sua permanência ali, e foi então que caminhando num só rumo, alcançou o alpendre das traseiras como o único lugar que restava para procurar.

- Ruben, estás aqui? – logo que deslizou a porta corrediça e enveredou pelo alpendre, o seu olhar varreu todo o jardim, vislumbrando cada recanto onde o pudesse encontrar mas foi totalmente em vão, nenhum sinal dele… nada – Que estranho… Será que se foi embora?

Cismando nessa mesma dúvida, que só mais tarde viria a ter a sua resposta, ela voltou para dentro, com o coração apertadinho no seu canto, deixando que uma nuvem pesada toldasse todos os seus sentires, que não eram os melhores naquele momento. 
Tomou de novo caminho directo para o hall de entrada no propósito de voltar a subir para o seu quarto, mas algo em que o seu olhar se encaixou não a deixou chegar nem perto do primeiro degrau. Em cima do móvel de entrada estava deixado um papel rasurado… um bilhete prenunciador de mais um desengano.

- O que é isto? – na estranheza austera de tudo aquilo, Joana retirou a chave da casa sobreposta ao papel a qual Ruben guardara na noite anterior, e seguro entre as suas mãos começou a ler o recado escrito a uma caligrafia acelerada mas totalmente legível, e não foi capaz de controlar as lágrimas que escorreram então pelo seu rosto


“Joana,

Não sei o que mais posso dizer-te a não ser o pedido de desculpas que mereces de mim. Desculpa por tudo… Pelo jeito que te tratei nos últimos tempos, pela forma como te magoei, pelo nosso amor que eu desisti.
Sou um fraco e não mereço o amor que tens por mim, e é acobardado por essa fraqueza que estou a ir embora esta madrugada, a escrever-te este bilhete enquanto tu estás tão serena a dormir.
Apesar de ambos sabermos que o que aconteceu ontem entre nós ter sido uma loucura, eu não me arrependo de ter sido louco nessas horas… Queria-te, desejava-te e tivemo-nos um ao outro… pela última vez.
Como sabes os tempos mudaram e também eu tive que mudar… O meu casamento está marcado e eu não posso faltar a esse compromisso. Não tens de ir se não quiseres, não tens de ser a minha madrinha se essa não for a tua vontade. És livre para seguires com a tua vida e ser feliz, mais feliz do que eu algum dia fui capaz de te fazer.
Estou para aqui a escrever e nem sei bem o quê, parece que ando às voltas… É assim que me tenho sentido, a andar em voltas constantes e ir parar sempre ao mesmo lugar. Não espero que compreendas esta minha atitude nem que me perdoes já, pois eu mesmo ainda estou a tentar perdoar-me por não te ter ouvido e arrependo-me por agora ser tarde demais.
Tu, mais do que ninguém, mereces tudo de bom na vida, e agora já não estou tão certo de ser eu a pessoa digna de te dar esse tudo que mereces, e por isso afasto-me para que encontres o teu caminho, agora diferente do meu. No futuro, se os nossos caminhos se encontrarem, espero que consigamos sorrir um para o outro, sem mais mágoas do nosso passado, por isso não vamos mexer-lhe mais, vamos preservá-lo e guardar as coisas boas e lembrarmos o quanto crescemos com ele e o quanto nós dois crescemos juntos.
Queria saber o que escrever agora para me despedir, mas nunca fui com despedidas…

Ruben”

Chegou ao fim e nem quis acreditar no que os seus olhos, rasos de lágrimas que caíam abruptamente, tinham acabado de ler… Ficou simplesmente de rastos. Pelo seu choro que se intensificou, as suas costas embateram na porta e foi contra ela que o seu corpo deslizara desamparado até encontrar o chão.

- Acabou, acabou mesmo… - balançando-se entre um soluçar que de mansinho se instalara, ela recusou-se a ouvir as vozes da verdade… eram atrozes demais

Sentiu-se sem rumo, sem chão debaixo dos pés, quando ingenuamente chegara até a colocar a hipótese de ver a sua história amorosa completa e finalmente feliz, depois da noite de amor que partilhara com Ruben… Mas estava enganada, redondamente enganada e mais uma vez sentiu-se afogar na desilusão da uma sina que não previra um final afortunado.
Quando ganhou forças, embora que muito poucas e tentadas a abandoná-la a qualuquer momento, guiou-se deambulando tremulamente sob os seus pés para a sala, e foi no sofá que fez o seu poisio seguinte e necessário.
Encolheu-se tristemente a um canto do sofá e abrindo os portões do seu peito a novos mares, deixou-se chorar. Não podia culpar Ruben por estar a sentir-se assim, porque lá no fundo ela mesma sabia que depois daquela noite o encantamento podia passar e tudo voltaria ao normal… Longe dos braços um do outro. Mas um fiozinho de esperança morou sempre consigo, e Joana não pôde deixar de se agarrar a ele.
Os ponteiros do relógio de parede marcavam as seis horas da manhã, e lendo e relendo vezes e vezes sem conta aquele bilhete, ela deixou-se ficar ali perdida durante mais um par de horas… esperando preencher aquele vazio e acalmar aquela dor, esperando não voltar a sentir mais.



***



- Estou a ir… - adormecida no sofá, ela acordou com o toque da campainha… calçou as suas havaianas, compôs a t-shirt e ajeitou o cabelo, isto para conseguir disfarçar minimamente o seu estado de apatia que se arrastou até antes de se deixar dormitar, e de passada vagante encaminhou-se até à porta principal

- Olá, amor! – era Adriana, a namorada de David com quem formara uma amizade já muito forte e achegada, indiscutivelmente essencial a momentos como aquele

- Adriana, que surpresa! – por não ter sido avisada antecedentemente da sua visita, Joana ficou admirada por vê-la, mas nos lábios abrilhantou um sorriso sincero, contente por tê-la ali – Entra, amor!

- Com licença. – pediu com extrema educação que desde sempre importara na sua personalidade, e logo que lhe foi aberta passagem, não hesitou em entrar no mundo resumido da amiga – Desculpa ter vindo sem avisar, mas como a tua semana de férias já passou e tinhas o telemóvel desligado…

- Não te preocupes, fizeste bem em vir… Já estava com saudades tuas! – enunciou no calor de dois beijinhos que partilharam e num abraço aconchegante de destilou a porção elevada dos dias que perfilharam a ausência pessoal uma da outra

- E eu tuas, pequenina… Tenho muita coisa para te contar, temos que pôr a conversa em dia! – ao quebrar o abraço demasiadamente reconfortante, Adriana teve pela primeira vez uma visão nítida e total sobre o rosto desconsolado de Joana, que esta não teve como puder esconder-lhe – Que olhinhos são esses, amor?

- Oh… São alergias… - uma desculpa fácil e perfeitamente aceitável àquela condição, que ela deu sob o seu primeiro pensamento – Sabes como é nesta altura do ano… Fui ao jardim quando acordei e fiquei logo com esta linda cara!

- Pois, nesta época é natural… Tens que tomar alguma coisa… - engolindo as palavras que ouvira, Adriana acarinhou o rosto dela, com a delicadeza de um breve passar de dedos

- Sim, eu tomo, não te preocupes! – tranquilizou-a no mesmo instante sorrindo para a serenar, e abraçadas guiaram-se num único trajecto até cursarem a sala de estar – Já tomaste o pequeno-almoço? 

- Não, ainda não… Na verdade vinha cá para te apanhar exactamente para irmos tomar o pequeno-almoço fora, passearmos um bocadinho, conversar…

- A mim parece-me uma óptima ideia, mas antes de sairmos tenho mesmo que tomar um café… Queres que também tire um para ti?

- Sim, pode ser… Aceito! – admitiu no seu tom meigo habitual, enquanto deixava que o seu olhar percorresse toda a sala, que conhecia pela primeira vez

- Então senta-te e fica à vontade… Demoro dois minutos.

E dois minutos foi o bastante para Adriana desvendar o mistério do qual não desconfiava, mas que a amiga lhe escondera desde a sua entra naquela casa. Joana desapareceu no corredor, deixando para trás e esquecida, a evidência que tinha contra si por ter sido não vítima de alergias como se desculpara, mas de uma corrente de choro, e a prova disso fora deixada pousada no sofá bem ao alcance de Adriana. Ela sentou-se a um canto e no primeiro relance lançado ao pousar a sua mala de mão perto de si, passou-lhe despercebido, mas acabou por dar conta do papel sobre o qual tinha colocado a mala, e olhando com mais atenção, reparou na caligrafia que conseguiu reconhecer indiscutivelmente… Foi-lhe impossível controlar a forte curiosidade de que fora alvo e não ler aquele bilhete manchado de lágrimas.

- Aqui estão os cafezinh… - ao entrar de novo, Joana interrompeu as suas próprias palavras pelo cenário debuxado na sua frente, não aguardado e do qual ela se devia ter precavido antecipadamente,  ao professar interiormente o discurso justificativo que lhe devia dar

Adriana tinha lido tudo, cada palavrinha, cada pedido de desculpa, cada vírgula, cada parágrafo, e muito dificilmente seria capaz de ficar mais incrédula do que mostrara parecer. Os seus olhos divergiram entre aquele papel e o rosto de Joana, que então fora invadido por uma palidez amadurecida pelo pasmo que lhe percorrera todo o corpo, na incerteza do que deveria ser dito naquele momento, mas evidentemente que alguma coisa teria de ser dita.

- Posso perguntar-te o que é isto? – foi a questão mais óbvia e eficaz de se fazer, no entanto a mais difícil de se achar respondida

- Nada de importante… - menosprezou, colocando seguidamente sob a mesinha de apoio, o pequeno tabuleiro sortido com duas chávenas de café e um bule de açúcar, Joana tentou ao máximo disfarçar o interesse daquele papel rasurado em palavras de perdão e despedida

- O Ruben escreveu-te um bilhete a pedir-te desculpa… a dizer que não se sente arrependido pela noite que vocês passaram juntos… a despedir-se de ti e a encorajar-te a seguires com a tua vida enfrente… - ela foi revelando à medida que do papel que detinha na sua mão, distinguia os pontos chave do mesmo – … e dizes que não é nada de importante?

- Adriana, por favor… - era evidente para todos que Joana não queria falar sobre aquilo, a sua cabeça estava ainda demasiado quente para conseguir falar sobre o assunto que a debilitava tanto, quando as lágrimas não estavam totalmente desvanecidas para as poder segurar  

- Eu sei que não me deves quaisquer explicações, mas juro que não entendo o que se passa entre vocês os dois… - ela não pretendia ali levantar qualquer tipo de acusação, apenas tentar entender as tempestades instauradas no coração dos dois amigos – Quando é que ele te deixou isto?

- Esta manhã… - respondeu num tom nivelado praticamente abaixo do que seria considerado audível, tomando o lugar disponível no sofá de coro negro

- Hoje? Estão esta noite de que o Ruben fala aqui, aconteceu ontem? Vocês estiveram juntos ontem?

- Sim, foi ontem.

- E pela forma como ele aqui diz, já posso imaginar o que deve ter acontecido…

- Ele veio cá porque queria conversar comigo, provavelmente para me dizer o que diz aí nesse bilhete, mas entretanto fomos perdendo o controlo e quando dei por mim, já estava no colo dele a beijá-lo…

- E acabaram a…

- Acabámos a fazer amor… - completou numa confissão em robustez enfraquecida, que não a deixou premulgar nenhum sorriso, pelas clarividências patentes 

- Ai, Joana, não sei o que te diga… Sabes que vocês foram muito irresponsáveis, não sabes? Principalmente o Ruben, caramba! Ele agora está comprometido com outra pessoa, e desculpa, tu sabes que eu não digo isto para te magoar, mas temos que ser um bocadinho racionais.

- Eu sei e compreendo. O que aconteceu...

- Eu tenho que ir falar com ele! – Adriana ergueu-se num pulo rápido e eficaz do sofá que permanecia a ocupar, obtusa na intenção de procurar o melhor amigo e enfrentá-lo, para de alguma forma tentar compreender as novas atitudes por ele tomadas e porquê, e as quais não faziam de todo parte da carácter dele – O Ruben não podia ter feito uma coisa destas!

- Não, Adriana, por favor… - Joana pediu-lhe piedosamente para que não o fizesse e levantou-se também, tentando demover-lhe aquela ideia não só porque sabia bem que Ruben não gostava de ser confrontado, como também nenhum ajuste de contas seria capaz de alterar o rumo de tudo o que já tinha acontecido – Tu não lhe digas nada, pelo amor de Deus! A culpa foi minha também…

- Mas foi o Ruben que veio cá, foi ele que veio procurar-te!

- E eu deixei! – asseverou  guardando para si a certeza íntima de que também ela contribuíra com a sua cota para  ter deixado a noite entre eles chegar tão longe, e Ruben não poderia ser responsabilizado sozinho, quando foram os ambos a querer e a entregarem-se a um momento que nunca deveria ter acontecido – Nós envolvemo-nos porque eu deixei, eu quis, Adriana, eu quis muito ser dele e deixei-me levar…

- Porque tu ainda o amas…

O facto de Adriana ter tocado na ferida, no assunto proibido, fez Joana despoletar  lágrimas suaves e muito pouco aflitivas que em nada se poderiam comparar nem se persuadiam às últimas de um choro a que se tinha entregue há poucas horas. Este era um lacrimejar ligeiro, silencioso, que nada mais lamentava do que o fim definitivo e real da história de amor da sua vida.

- Amo-o e perdi-o para sempre.

- Oh pequenina, não fiques assim… Isso vai passar, vai passar… - professou numa promessa que não tinha a responsabilidade de cumprir, chegando-se à beira dela para reconfortá-la – Ficaste com esperanças por  terem passado a noite juntos?

- De certa forma sim, não vou mentir… A maneira que nos tivemos um ao outro foi tão especial, tão indescritível, que por momentos me fez acreditar que tudo voltaria ao normal entre nós, mas por outro lado eu sabia que não era aquela recaída que nos ia fazer voltar. Acabámos definitivamente e da melhor maneira possível, vamos deixar ficar assim as coisas… - por entre as últimas lágrimas que caíam, ela mostrou um sorriso triste mas abonado por uma nova esperança, pronta a  arregaçar as mangas e começar de novo... Desta vez apenas por sua conta

- Mas olho para ti e vejo que continuas magoada, a sofrer…

- E quem nunca sofreu por um grande amor? Faz parte… Tanto ele como eu cometemos erros e temos que responder por eles… Embora esteja muito abalada com a situação, agora compreendo que não poderia ter sido de outra maneira…

- Sabes que eu estou aqui para tudo o que precisares… Não te vou deixar ir abaixo por causa disto, tu és forte e seu que vais conseguir dar a volta por cima! - desta forma e apoiada incondicionalmente pela amiga, por sentir não estar sozinha, ela ganhou de novo a vontade de sorrir

- E o tempo vai ajudar-me, tenho a certeza… E para além do mais ele esta com a Inês e eu nunca iria meter-me no meio deles para separá-los, seria incapaz de uma coisa dessas. – disse em conformidade da sua ininterrupta sensatez, pois Joana jamais seria capaz de se interpor na felicidade alheia apenas para reatar a sua

- Eu sei, princesa… E não imaginas a pena com que fico de vos ver assim.

- Ainda nos resta a amizade… Espero que esse seja um factor que nos permita relacionar pelo menos com a mínima civilização.

- E a amizade chega-te?

- Tem que chegar… Vai ser apenas esse laço que a partir de agora nos vai unir… nada mais. – e era somente esse que os poderia continuar a manter próximos, estando os outros laços que um dia os uniram, desgastados e corroídos pela fatalidade que os separou

Não disseram mais nada, não voltaram a tocar no assunto que ainda se encontrava tão débil e frágil para poder ser discutido em condições. Joana estava magoada, profundamente triste, mas o choque inicial já tinha sido apaziguado em si e agora somente restava aprender a lidar com as suas vertentes da melhor forma... Lutar por si e ser feliz à sua maneira, lutar pelo que acreditava, mudar para melhor, e se havia algo que poderia mudá-la era sem a menor dúvida a dor, que a amargurava mas que também a fortalecia e a fazia crescer.
O silêncio que se arrastou nos minutos que se passaram, deu som às vozes de ambas que se resguardaram a mais palavras que não iriam ser proferidas naquele momento, talvez mais tarde, quando a poeira assentasse e o desgosto por uma perda inconsolável deixasse de ser o ponto ressalteador que ali ainda a abalava.
Adriana deixou-se ficar a abraçá-la, a enxugar-lhe as lágrimas que uma vez ou outra lá se deixavam cair, a mostrar-lhe que o apoio e amizade incondicional que lhe prestava, poderiam ser mostrados não mais do que por simples gestos, que pareciam ser tão básicos mas fundamentais e suficientes ao que era preciso.

- Cabeça a minha… Lembrei-me agora! Acho que vamos ter que deixar o nosso pequeno-almoço para outra altura, tenho uns assuntos para resolver! – ao fim de algum tempo e só por tê-la visto mais calma, ela começou a sua engendra no intento de conseguir ir embora para procurar uma pessoa, Adriana teve que dar uma mentirinha inofensiva que encobrisse a mudança repentina de planos, a qual Joana não imaginava o que seria, porque se imaginasse com certeza que a tentaria impedir

- Há algum problema?

- Não, nada disso! Apenas me lembrei que tenho que passar com urgência pela secretaria da minha faculdade para entregar uns papéis da licenciatura, e não pode passar mesmo desta manhã… Desculpa!

- Oh, não sejas tonta… Não tens nada que pedir desculpa, vai lá! Combinamos para outro dia! – ignorante aos planos de Adriana, nunca em momento algum ela estranhou ou questionou a saída fugaz da amiga, que tinha como único propósito colocar-se num frente a frente com Ruben, exigindo por explicações dele que muita gente queria ouvir 

- Pronto, eu depois ligo-te!

- Claro, vou ficar à espera! Queres que te acompanhe até à porta?

- Não, amor, não é preciso. Dá cá um beijinho… - pediu meigamente, acompanhando um abraço apertado de despedida, que fez Joana sentir-se acarinha e principalmente amada por quem nutria um carinho enorme –Qualquer coisa que precises, já sabes… Não hesites, eu virei ter contigo assim que puder. Adoro-te, pequenina!

- Eu também te adoro… - foi assim que disserem um adeus de despedida que esperaram ser curto para se voltarem a encontrar, levando desta maneira Adriana a sair e recolher-se no seu carro, para dirigir num só rumo e direcção que a levariam a encontrar respostas que ninguém se lembrara de procurar 

Novamente sozinha, e quando pensava que naquele momento nada mais poderia destabilizar o seu canto, o telefone de casa deu sinais de si com um telefonema madrugador que em nada motivava Joana a atender, mas que pela a insistência da segunda tentativa seguida, a fez levantar-se custosamente do sofá para ir buscá-lo e trazê-lo consigo para o seu ponto de apoio que voltou a fazer na sala, e só depois de ficar confortavelmente deitada na posição fetal, que atendeu finalmente a chamada.

- Sim? escutou de pálpebras cerradas, quando começou a sentir uma ligeira e aguda dor dar sinais de si na periferia da sua cabeça

- Hi, beautiful! – aquela pronuncia suave, aquela voz quente e embalante só poderiam pertencer a uma única pessoa, que Joana deslindou no mesmo instante e que a deixou incrivelmente reconfortada por dentro, ao estar a ouvi-la

- Will? – inquiriu para uma confirmação, ainda assim sabendo que se tratava do seu muito saudoso amigo que se fazia ouvir directamente da cidade das luzes – Oh Will, que bom que ligaste… Que saudades!

- Muitas saudades, piolha! – ele apoiou-a no sentimento mútuo de que partilhavam, e ambos não conseguiram esconder o sorriso que lhes desenhou os lábios no mesmo segundo, em que voltavam a retomar o contacto que se mantivera intocável nos dois meses anteriores – Então e diz-me como é que estás? Como é que vai a vidinha?

- Oh, cá vai… Devagar devagarinho, mas bem… Como Deus quer. – proferiu simplesmente, não tentada a suscitar algum assunto que ainda a deixava demasiadamente susceptibilizada

- Hum… Que vozinha é essa? Pareces-me triste… - mesmo sem ter a oportunidade de vê-la, de a olhar olhos nos olhos para lhe decifrar a combustão dos sentires incendiados, William notou-lhe apenas na voz que algo não estava bem

- Não, não é nada, não te preocupes… - disse que era nada quando na verdade era tudo, tudo estava errado, tudo estava voltado de cabeça para baixo, e o seu mundo ao contrário não tinha maneiras de se endireitar… talvez com o tempo, só com o tempo – E tu, grandalhão, como é que estás?

- Eu estou óptimo! Estou de férias e finalmente licenciado! – informou extremamente contente e feliz, por ver um dos seus sonhos finalizado pela sua concretização

- Já estás licenciado? Ai que bom, parabéns! – deixando que a felicidade de William completasse e preenchesse a sua própria felicidade, que até à uns minutos era nenhuma, Joana não pode deixar de patentear o orgulho que lhe sentia, por uma etapa na vida dele ultrapassada e conseguida com sucesso

- É verdade pois… Ainda estava a pensar inscrever-me este ano para tirar o mestrado, mas decidi fazer uma pausa para trabalhar e depois logo se vê, quem sabe…

- Estou muito contente por ti, Will… A sério que estou! – confessou mantendo o sorriso, e sentindo o vazio no coração ser consolado pelo calor aconchegante que ele lhe oferecia – É verdade, ouvi a mensagem que me deixaste… Vens cá passar férias, é?

- Sim, foi para falar sobre isso que também te liguei… Estava a pensar em ir passar aí alguns dias…

- Mas isso é óptimo… E precisas de alguma coisa?

- Preciso, por acaso… Os meus pais já venderam a casa onde morávamos e não tenho onde ficar, não queria ter de ir para nenhuma pensão nem hotel…

- Oh, mas se é por isso já podias ter dito! Ficas cá em casa comigo, não tem problema nenhum.

- A sério que não? Eu ficava-te eternamente agradecido…

- Não, claro que não! Até me vai saber bem ter-te aqui… - garantiu na certeza de que uma companhia como a de Will lhe iria fazer bem para matar as saudades que tinha do amigo, e também para se sentir o menos só possível, principalmente naquela fase, seria uma ajuda preciosa para voltar a rejuvenescer

- Obrigado, obrigado, obrigado! – agradeceu no seu jeito engraçado e realmente agradecido que a fez gargalhar levemente por ouvir a sua reacção formidavelmente feliz

- Não precisas de agradecer, totó… - ela brincou com ele e deixou-se embrenhar numa nova aura que lhe estava a ser oferecida, uma aura mais leve que dava para afastar a escuridão que envolveu a sua anterior – E quando é que estás a pensar em vir?

- Daqui a uma semana, mais ou menos… E a minha estadia aí vai depender também do emprego que conseguir ou não arranjar. Ando a candidatar-me a alguns trabalhos e logo que receba uma resposta, volto para cá.

- Está bem, então vamos falando até lá… Depois diz-me alguma coisa e põe-me a par do voo para te ir esperar ao aeroporto.

- Digo, claro. – consentiu positivamente, na confirmação de planos que lhe estavam a correr como desejado – Mas bem, minha linda, sei que falámos pouquinho mas liguei só mesmo para saber como estavas e para te falar sobre a minha passagem aí, e agora vou ter que desligar que tenho de ir o quanto antes a entregar uns currículos.

- Claro, anda vai lá… Não te esqueças de me ires dizendo qualquer coisa!

- Não esqueço, fica descansada. – ele sorriu e uma despedida breve desfechou a conversa deles – Adeus, pequenina, e fica bem!

- Tchau, Will… Beijinhos! – a nostalgia de um adeus breve instaurou-se na sua voz, que a tornou mais suave e vulnerável      

Joana desligou a chamada de curtíssimos minutos e atirou o telefone para o fundo do sofá. Suspirou pesadamente enquanto olhava em seu redor e uma vez mais o vazio e a solidão voltaram, e com eles o silêncio imperador fizeram-na recordar do triste cenário da sua vida… Triste por pouco tempo, pois sem outra alternativa ela estava decidida a pegar na sua vida e dar-lhe uma volta refortalecida, que iria fazer dela uma nova mulher, com novas ambições, com novas perspectivas para o futuro, e oxalá uma mulher com uma nova e maior vontade de voltar a amar.




***




- Bom dia, Dona Luísa! – saudou Adriana à porteira do prédio, assim que numa postura inquebrável atravessou as portas duplas de vidro que resguardavam os interiores do condomínio privado

- Bom dia, Adriana… Quer que avise o menino Ruben que vai subir?

- Não, Dona Luísa, deixe estar… Vou fazer-lhe uma surpresa! – ironizou levemente, demarcando caminho para o elevador

Nem era tarde nem cedo… A conversa rigorosa que ela queria travar com Ruben era já para ter chegado há mais tempo, mas sempre com circunstâncias novas a atravessarem-se no caminho de ambos, a altura tivera de ser adida… Até àquele momento! Não haveria mais desculpas para fugir ao inevitável, e ele iria ouvir o que provavelmente não queria e o que andara há demasiado tempo a evitar… 

- Adriana… - sensivelmente pouco tempo depois de bater, Ruben veio abrir-lhe a porta, e felizmente para ele que estava sozinho em casa

- Olá, Ru… Posso entrar? – ele beijou-lhe delicadamente a face e Adriana retribuiu amigavelmente o mesmo gesto na dele

- Ah… Eu estou quase de saída, mas sim… Entra! – abrindo passagem entre o seu braço que se ergueu no ar e a ombreira, ela pôde entrar sem reservas no apartamento dele – Não estava a contar contigo… Precisas de alguma coisa?

- Sim… Preciso de conversar contigo… - informou calmamente impetras a manter a calma desde o início, evitando apanhá-lo numa surpresa rompante e disparar com acusações precipitadas

- E tem de ser agora? – foi fácil de notar que ele estava apertado de tempo e com alguma pressa, e por isso seguiu para o seu quarto para acabar de preparar o saco de treino – Tenho que sair para o Seixal daqui a alguns minutos…

- O que eu tenho para falar contigo não pode mesmo esperar… Levo-te dez minutos. – seguindo atrás dele, Adriana acompanhou-o, redundante a aproveitar cada minuto que lhe era dispensado para falar – Posso perguntar-te onde estiveste ontem à noite ou é indiscrição? – ela não foi de rodeios e atingiu o assunto mestre numa só rajada

- O quê? Porque é que queres saber? – Ruben estranhou aquela pergunta de início, mas pouco e pouco raciocinando, foi capaz de chegar lá 

- Não queres responder?

- Se vieste aqui só para fazeres essa pergunta, suponho que já saibas a resposta… - equacionou rapidamente, antevendo as represálias que ainda iria ouvir da melhor amiga

- Dormiste com a Joana, Ruben? Dormiste com ela?!

- Sim, dormi! Dormi com a Joana… Fui ontem a casa dela e dormimos juntos, e então? – com toda a firmeza ele não tentou sequer mentir, pois era óbvio que teria factos  suficientes reunidos contra si e esses não poderia negar

- E dizes isso com a maior descontração do mundo…

- E como é que pretendias que eu dissesse?

- Não estás arrependido?

- Não… Se queres saber não estou. – referiu, embora estivesse ciente e sentisse um leve peso na consciência por ter traído a pessoa com quem era comprometido agora, mas se não tivesse partilhado aquele momento com Joana, arrepender-se-ia ainda mais – Foi um erro, foi e sabemos disso, mas não estou arrependido.

- Ruben, o que é que te passou pela cabeça? Tu estavas noivo da Inês! – evidenciou num tom claro de censura que pretendia unicamente atingi-lo

- E continuo a estar… O meu momento com a Joana foi… - foi desnecessário tentar caracterizar o momento que partilhara com Joana, Adriana fizera-lhe o favor de fazê-lo por si

- Foi uma despedida!?

- Sim, exactamente, foi uma despedida! Agora cada um pode seguir o seu caminho, e preservar as coisas boas que ficaram de nós, bem como a forma como acabou… Eu já estou a fazer isso com o meu, e espero que a ela consiga fazer o mesmo, só lhe desejo o melhor! – não o dizia da boca para fora, Ruben sentia-o de facto, apesar do seu caminho ter que seguir por trilhos diferentes e distantes dos de Joana

- E que desculpa deste à Inês por não teres vindo dormir a casa? – inquiriu, rematando os cabelos soltos para trás dos ombros, enquanto o seu pé irrequieto fazia bater ritmadamente a sola do sapato contra o soalho

- Não dei desculpa nenhuma porque vim dormir a casa.

- Vieste de madrugada, por tanto! – os seus braços contundentes abraçaram o peito aquando da sua reflexão certeira

- Mas que interrogatório e especulações são essas agora?! Que mania de todos se meterem na minha vida! – praguejou já um quanto irritado com aquela conversa, que por muito que tentasse disfarçar, estava a mexer consigo e a fazê-lo vacilar a cada instante um pouco mais

- Pois, e logo tu que estás tão enganado sobre a vida, Ruben… Tão enganado…

- O que é que queres dizer com isso?

- Se eu não te conhecesse tão bem diria que não estavas a sofrer com tudo isto, mas estás… - realmente Adriana foi a única pessoa capaz de decifrá-lo, capaz de trazer à margem os sentimentos mais obscuros e revoltados que Ruben cismava em manter escondidos de todos

- Eu… Eu não sei do que é que estás a falar! – negou tão depressa quanto conseguiu, no entanto escorregando num pequeno deslize que fez a sua voz falhar quando perdeu a intensidade

- Sabes, é claro que sabes… Porque é que procuraste a Joana?

- Acaba já com essa conversa, Adriana! – ordenou, antes que Adriana referisse o ponto chave que iria fazê-lo quebrar, que iria desalentá-lo por completo e levá-lo às amarras de uma tristeza que já começava a sentir

- Não precisas de dizer nada, ambos sabemos porque o fizeste… - referiu na máxima perspicácia, vendo-o inquietantemente nervoso enquanto fazia a travessia entre o roupeiro e a sua cama, arrumando o seu equipamento dentro do saco

- Não queiras tornar esta conversa ainda mais desagradável…

- Eu não estou a tornar desagradável coisíssima nenhuma! Sinceramente, Ruben, eu já nem te reconheço… O que é que aconteceu para ficares assim?

- Assim? Assim como?! Estás a referir-te ao quê?

- Ora, tu sabes bem ao que eu me refiro…Tu não és mais o mesmo Ruben, sempre contente, bem disposto e a fazer os outros rir… Ficaste mais fechado, mais frio e insensível… E tudo isto desde que chegaste do teu estágio em São Francisco.

- Oh Adriana, por favor, estás a ver coisas onde elas não existem… Eu continuo a ser o mesmo! – desaprovou imediatamente, tentando escapar de mansinho por baixo da porta, relativamente ao apontamento absoluto que ela fizera sobre si

- Não, não continuas! És o meu melhor amigo, caramba! Eu conheço-te e sei perfeitamente quando mudas e tu estás mudado… Parece que não tens mais aquela vontade de sorrir nem de viver a vida como tinhas dantes… - evidenciou o que todos, ou praticamente todos os mais próximos de Ruben, achavam, levando-o a encobrir o motivo das mais recentes atitudes e comportamentos que não eram nada dele e as quais nunca o caracterizaram

- As circunstâncias da vida são capazes de mudar uma pessoa, e se isso aconteceu comigo, então eu peço desculpa se as minhas atitudes e comportamentos susceptibilizaram de alguma forma alguém…

- A única pessoa aqui a quem te tens de pedir desculpa, é a ti, Ruben… - revelou numa lividez intocável de pena que sentia por ele, que mesmo conscientemente o levava a magoar-se a si próprio também – Tu és muito melhor que isso, muito melhor… E eu gostava de ter o meu velho melhor amigo de volta.

- E como é que isso será possível, estando este Ruben… Estando eu… - buscando por palavras que descrevessem o seu novo eu, Ruben perdeu-se na ambiguidade de não querer acabar o que começara por dizer – Olha esquece, a verdade é que também ninguém quer saber!

- Eu quero! E tenho a certeza que as pessoas que gostam de ti, que te amam, também querem saber… - proferiu muito convicta do que dizia, adivinhando depois o que ele quereria ter dito mas não tivera coragem para terminar – Estando tu magoado…? Era isso que ias dizer?

- Sim, era isso. Estou magoado, desnorteado, perdido com tudo o que aconteceu…

E ele estava de facto perdido… Ele sentia-se perdido e apenas se esforçava para que ninguém descobrisse. Tinha vivido os últimos tempos isolado, à sombra de si próprio e evitara falar fosse com quem fosse sobre os seus sentimentos, as suas emoções que haviam sido arremessadas pelos torpedos e reviravoltas da vida. Sentia-se em baixo, esgotado, mas não mostrava… Ele que cometera os seus desacertos e aprendera a viver com eles em silêncio e a cada dia.

- É dessa maneira que te tens sentido, mas penso que ninguém diria isso, Ruben… Apesar de estares distante, mostras sempre firmeza nas decisões que tomas, nas atitudes que tens para contigo e para com os outros, ninguém seria capaz de notar que ainda estas a sofrer…

- Tu notaste. – evidenciou, pelo reparo que a própria Adriana suscitara sobre si – Desde que… Desde que regressei dos Estados Unidos… Sem a Joana. Felizmente tu não sabes o que é ser deixado pela pessoa que mais amas, sem uma única explicação… Anos depois ela reaparece na tua vida, voltam-se a apaixonar e de repente desaparece outra vez, sem dizer nada, dias a fio… Foi demais para mim, Adriana, foi demais para mim voltar a sentir o mesmo da primeira vez, ou ainda pior… A partir daí eu fiquei completamente fora de mim…

- E lá estás tu a martelar no mesmo, mas que teimoso… A Joana não te deixou!

- Eu sei! Agora sei disso… Eu agora acredito nela, juro que acredito…

- Ai sim? E apeteceu-te abrir os olhinhos só agora, foi? – a sua testa franziu levemente pela sua contestação, logo que as suas sobrancelhas se arquearam num arco incontestável – Pois então agora já vais tarde, Ruben… Decidiste acreditar nela tarde demais!

- Não precisas de reforçar o evidente… Já me sinto mal o suficiente para agora estar a ouvir represálias…

- E é bom que sintas, ouviste bem? É bom que sintas! Tu foste um grandessíssimo burro orgulhoso que não gosta de admitir que por vezes pode errar! – acusou com o indicador arrebitado no ar, não se preocupando em feri-lo com palavras mais amargas – Agiste como um autêntico palerma ao não lhe teres dado ouvidos, e agora acreditas nela…

- Já ofendeste tudo o que tinhas para ofender? Estás mais alíviada agora? – inquiriu logo que Adriana acabou de falar, não rejeitando de forma alguma as queixas que ela lhe atribuiu

- Por acaso até estou… Já andavas a merecer ouvi-las! E se ninguém não te mergulha a cabeça na realidade, eu não me importo de assumir essa função!

Depois da sentença dada, veio o silêncio. Ruben mostrou-se mais abatido do que em algum momento mostrara estar desde que Adriana aparecera, o seu olhar compadeceu mirrado de angústia e incerteza e a sua postura perdera a firmeza pela então demência do seu espírito. Ver-se confrontado por tanta verdade, fê-lo balançar nas escolhas que fizera para a sua vida.

- Posso fazer-te uma pergunta?

- Força… - permitiu, sabendo que mesmo que não o fizesse, Adriana prosseguiria na mesma

- Porque é que pediste à Joana para ser a tua madrinha de casamento?

- Acredita que isso foi uma coisa da qual eu não me orgulho nada de ter feito…

- Como assim?

- Eu nunca depois de reatar o noivado com a Inês, pus em hipótese convidar a Joana para o casamento, quanto mais para ser a minha madrinha… - esclareceu verdadeiramente, retendo sofregamente  para si o tormento que por aquela história, causara a Joana

- E porque é que o fizeste, então?

- Porque a Inês me pediu uma prova de amor… Ela soube que eu e a Joana voltamos a ficar juntos em São Francisco, e ela estava insegura, pensava que eu ainda amava a Joana para agora querer voltar a casar com ela…

- E pensou muito bem! – por não querer mostrar nenhuma emoção há referência dela, Ruben fechou o saco que já tinha pronto e saindo do quarto rumou para a sala de estar, juntamente com Adriana que voltou a segui-lo

- … E foi isso, pedir à Joana para ser a minha madrinha era a prova de como eu não sentia mais nada por ela, foi isso que a Inês me pediu, mas eu sempre pensei, sempre, que ela não fosse aceitar…

- Mas aceitou e acredito que lhe tenha custado muito tomar essa decisão. Ela é uma mulher muito forte, corajosa…

- Pois é… - concordou com um sorriso ameno que foi desaparecendo naturalmente logo que prosseguiu – E eu detesto magoá-la, podes pensar o contrário mas esta é a verdade… detesto vê-la a sofrer, a chorar, muito menos quando é por minha causa.

- Podia ser tudo tão diferente se não tivesses sido tão casmurro naquela altura… - em consequência da interjeição de Adriana e ao fim de alguns minutos em silêncio, os olhos de Ruben começaram a ficar húmidos e a ganhar uma nova cor, um raiar forte e profundo de vermelhidão que ilustrou a condescendência do seu estado de espírito, que minuto após minuto se deixava abater pelas verdades que a ele lhe eram ditas

- Agora já não vale a pena olhar para trás e lamentar o passado, o que está feito, está feito, e tenho que arcar com as responsabilidades das decisões e compromissos que tomei desde então.

- O teu maior compromisso e responsabilidade neste momento é teu casamento.

- Sim, nisso tens razão, eu já desfiz este noivado uma vez, seria mau demais voltar a fazê-lo… Tenho a certeza que iria desiludir muitas pessoas se o voltasse a fazer.

- Acredita que estás a desiludir mais ainda levando este casamento para a frente…

- Eu sei, e não precisas de mo dizer, eu sei que desiludi muita gente com a retoma deste noivado Desiludi a minha mãe, desiludi o David e até a ti, e talvez até tenha sido precipitado mas agora já não posso reconsiderar e voltar atrás…

- E sabes porque é que nos desiludiste, Ruben? Porque nós gostamos muito muito de ti, e não queremos ver-te cometer um erro que te pode deixar indeterminadamente infeliz

- Isso não vai acontecer… Eu vou tentar construir a minha felicidade. - afirmou meramente confiante, mas sem conseguir conter um suave lacrimejar que surgiu na linha de água dos seus olhos, fazendo um esforço tremendo para não deixar nenhuma lágrima rolar

- E podes explicar-me como tencionas fazer isso amando tu outra pessoa?!

- Vou esquecer essa pessoa e vou aprender a amar a Inês de novo… Já a amei uma vez, posso apaixonar-me de novo por ela! – fiando-se nas suas próprias palavras, Ruben fez de tudo para acreditar nelas, mas essa decisão não estava nas mãos dele para ser tomada… dependia apenas das condições do seu coração

- Tu nunca amaste a Inês como amas a Joana, Ruben…! O vosso amor um pelo outro é genuíno, é puro… Não há cá isso que tens com a Inês do "aprender a amá-la"… O amor que tens com a Joana só aparece uma vez na vida, acredita nisso! Não terás outra oportunidade.

- Eu sou uma besta… Uma besta… - fatalmente arrependido pelo amor que perdera para sempre, e como agora era já tarde demais para recuperá-lo, o desespero domou-lhe todo o corpo, o que permitiu a sua cabeça inclinar ligeiramente para a frente, assumindo as culpas que a ocupavam

O coração de Ruben ressentiu-se por fim, o que o levou rebentar num choro aflitivo e exasperado, que fez Adriana olhá-lo com outros olhos, com os olhos de quem sabe ver para lá das acções e palavras que poderiam ser enganadoras, e envolvê-lo num abraço de apoio e carinho que sentia ele estar a precisar muito.
A máscara caiu e ao de cima reapareceu o antigo Ruben, magoado, triste e a sofrer como ninguém imaginava, a deixar-se finalmente chorar, como já não chorava há muito tempo.

- Esse coração não está totalmente curado de um grande amor, tu mesmo provaste isso ao procurares a Joana e teres ido lá a casa ontem… - acrescentou, prologando a sua afirmação anterior – Vocês acabaram por não resistir ao que sentem e envolveram-se sem reservas…

- Eu juro que não era essa a minha intenção. Eu ia lá, conversávamos um pouco, eu pedia-lhe desculpa e vinha embora, apenas isso… - revelou num soluçar apertado no peito que era sacudido a cada respiração esforçada - Mas depois ao vê-la, parece que me esqueci de tudo, o que ia lá fazer, tudo! Eu perdi o controlo e deixei-me levar…

- … Pelo que sentias! - completou-o Adriana sem hesitações – Ai, Ruben, gostava tanto de poder compreender-te, de saber o que vai nessa cabecinha… - os dedos da sua mão improvisaram um pente que deslizou no cabelo dele, de maneira a fazê-lo acalmar um pouco

- Eu tenho que ir… - anunciou, limpando rapidamente as lágrimas do rosto para do chão pegar o enorme saco de desporto e colocá-lo ao ombro

- Ruben, espera… - Adriana ainda tentou travá-lo, testemunhando o estado transtornado que o abalava e que ele queria a todo o custo dar a mínima importância e manter longe dos olhares de todos

- Quando saíres não te esqueças de fechar a porta. – deu-lhe um beijo rápido no topo da cabeça e saiu, deixando para trás ainda umas quantas incógnitas em redor daquela conversa, que não se viriam tão cedo a serem devidamente esclarecidas

Ele saiu lavado em lágrimas, deixando somente de arrasto no corredor, o som do soluçar que ainda não tinha conseguido estabilizar do seu choro recente.
Ruben podia enganar muita gente, mas não podia enganar-se a si próprio, e depois do confronto que travara com ele, Adriana pôde tirar uma única conclusão, a autêntica e derradeira, sem a mínima dúvida a patentear-lhe o pressentimento: “Ele vai casar-se, isso é certo, mas não vai ser com a Inês…”.





Queridas leitoras, fica aqui mais um capítulo! :)
Espero que gostem e deixem os vossos comentários,
Boa leitura!

Beijinhos a todas,
Joana :)