quarta-feira, 10 de julho de 2013

Capítulo 17 - Algumas coisas simplesmente não voltam mais (Parte II)

O doce mês de Agosto cessara-se em dias rápidos que voaram no calendário a uma velocidade furiosa, levando a tomada de uma nova jornada que conhecera o seu início nos primeiros dias de Setembro. Escusado será dizer que pelas adversidades óbvias não fui na viagem a Paris com a minha afilhada e com o Ruben, e como a faculdade se tendia cada vez mais a aproximar a um ritmo implacável, despendi a minha última e sagrada semana de férias longe do sol da Caparica e hospedei-me em terras de nuestros hermanos, na belíssima Barcelona, onde num retiro pude tirar o máximo proveito das regalias do descanso e enriquecimento cultural, que trouxe na bagageira comigo no regresso à minha Lisboa. E como um verdadeiro retiro assim o exige, isolei-me e não fiz uso de qualquer aparelho electrónico, incluindo o meu telemóvel, que mantive desligado durante toda a semana… Quem quisesse falar comigo teria de deixar mensagem no voicemail ou então no meu atendedor de chamadas do telefone de casa.
Quanto aos problemas do coração, bem… eles permaneciam no mesmo lugar, é verdade, mas eu estava sem dúvida mais recomposta, mais serena, e sobretudo mais confiante em trazer a cabeça erguida para não deixar fugir a oportunidade de olhar as coisas boas que a vida tinha para me oferecer, sem propensão a relembrar com tanta frequência o que me havia sido retirado.

- Em casa… Finalmente… - perjurei num suspiro de alívio, recém-chegada do aeroporto depois de quase duas horas retida num trânsito colossal, que instalara um panorama de autêntica desordem por um acidente provocado na estrada em que o meu táxi seguia

Coloquei a mala de viagem junto ao móvel de entrada e fiz uso da pequena taça para onde lancei as chaves. Sentia-me completamente estoirada e na minha cabeça apenas a ideia de tomar um duche fresco e ir descansar logo a seguir, se aprimorava, mas quando tomei compasso de subida até ao piso superior para rumar ao meu quarto, reparei na luzinha intermitente do atendedor de chamadas que avisava o guardo de uma ou mais mensagens de voz deixadas durante a minha ausência, e por isso adiei só por uns instantinhos os meus afazeres e tomei pose do pequeno aparelho que manuseei.

 “Tem quatro novas mensagens. – logo a seguir ao bip ouvi a típica voz feminina anunciante – Primeira mensagem recebida dia 31 de Agosto às 16 horas e 31 minutos: Joana, olá! Daqui fala o Nuno Baltazar… Querida, gostava de falar contigo sobre um desfile que vou fazer em Portimão… Eu sei que deves ter outros compromissos e ainda para mais agora com a típica agitação de mais um ano de faculdade, mas agradecia imenso que quando pudesses me ligasses, ou então aparecesses aqui no estúdio. Depois diz algo… Um beijo!”

Provavelmente era já tarde para lhe ligar ou marcar com encontro em prol do assunto que ele queria travar comigo, somente agora poderia fazê-lo para me desculpar por não ter dado notícias mais cedo, mas isso também era algo que deixaria para fazer mais tarde e por isso continuei a ouvir as mensagens e passei de imediato para a seguinte.

“Segunda mensagem, recebida dia 6 de Setembro às 12 horas e 17 minutos: Hey, meia-leca! Sou eu, o Pedro… o teu melhor amigo, sabes? Ah! E o melhor agente do mundo também! E não estou a dizer isto para me gabar… sabes bem que é verdade, portanto! – era incrível o sentido de humor daquele rapaz, a sua alegria e boa-disposição acima da média… sempre a fazer piadinha, sempre a tentar fazer-me rir – Adiante, gostava de ter notícias tuas, mas claro… só se for possível! Isto agora vai-se de férias uma semana, corta-se o contacto com os amigos e arrivederci(!) Parece que temos de ter uma conversinha muito séria… Quando chegares dá sinais de vida! Ok, já estou a falar de mais… Então é isso, adeus!”

“Terceira mensagem recebida dia 6 de Setembro às 18 horas e 30 minutos: Hello, hello, beauty! É o William! Já há algum tempo que não falamos… Como estás? Tentei ligar-te para o telemóvel mas esteve sempre desligado, gostava de ter notícias tuas, miúda! Então eu liguei porque queria muito falar contigo, estou a pensar em ir passar alguns dias aí a Portugal para matar saudades e precisava mesmo de falar contigo sobre a minha ida… Quando puderes diz-me alguma coisa, ok? Um beijo, miúda, fica bem!

Um novo bip seguiu-se anunciando a última mensagem.

“Quarta mensagem, recebida hoje às 9 horas e 54 minutos: Olá Joaninha, é a Bárbara! Sei que tens estado de férias em Barcelona, mas logo quando voltares gostava de falar contigo… Estou a organizar um jantar entre o nosso grupo de meninas do liceu, já algum tempo que não estamos juntas e raramente nos vemos por estar cada uma em sua universidade, por isso achei uma boa ideia preparar este encontro e fazermos um programinha só de mulheres… Liga-me assim que ouvires esta mensagem, sim? Um beijinho grande!”

Bárbara era uma antiga colega dos tempos do meu secundário e uma amiga muito querida que mantinha próxima ainda nos dias de hoje. Por uma eventualidade do destino reencontrámo-nos na mesma faculdade aquando o meu regresso definitivo à capital, inclusivamente fazíamos algumas cadeiras que os nossos cursos tinham em comum, facto esse que contribuiu para não voltarmos a perder o contacto uma da outra.
Fiquei contente e devo dizer que bastante entusiasmada com o telefonema dela, tinha já muitas saudades das minhas meninas e agora com algumas a viver longe, tinha-se tornado difícil vermo-nos… Algo que estaria para mudar com um encontro engendrado ao qual eu não podia deixar de ir.
Deixando as respostas às outras mensagens em stand-by, peguei no telefone para marcar o número da Bárbara, e enquanto do outro lado da linha ouvia chamar, encaminhei-me até à sala de estar onde ao canto do sofá fiz o meu pousio.

- Estou sim? – estando por largos segundos suspensa, sem resposta do outro lado, e quando já pensava que a chamada ia ser perdida acabando por ir parar ao voicemail, a voz suave de Bárbara ressoou ao auscultador

- Oi, Bá! – saudei simples e meigamente, e um sorriso abriu instantaneamente caminho entre os meus lábios

- Jojo, és tu? Ai, ainda bem que ligaste! Que bom! – ela ficou notavelmente feliz por me ouvir e o seu entusiasmo ressalteador acabou por completar o meu

- Acabei de ouvir a mensagem que me deixaste…

- Então já voltaste das tuas férias!

- Sim, cheguei há pouco a casa. – assertivei, levando o meu olhar a percorrer os recantos silenciados da sala, enquanto na minha cabeça revia a agitação de tarefas que tinha pela frente com a chegada do meu penúltimo ano de faculdade, dentro de pouquíssimos dias

- Óptimo, isso quer dizer que ainda tens tempo de te preparares para o nosso jantar… - Bárbara falou calmamente, como se eu já estivesse a contar com os planos para aquela noite, planos esses que eu não esperava que fossem propostos para tão cedo e tão em cima da hora

- O quê? Mas é hoje?

- Sim. Já falei com elas e vai ter mesmo que ser hoje… Desculpa se é apertado para ti, mas a Bia e a Matilde voltam amanhã para Coimbra e a Carolina regressa a Aveiro ainda esta noite, já sabes que com o regresso das aulas aí à porta…

- Sim, claro, eu percebo! Mas então diz-me… Onde e a que horas? – inquiri, disponibilizando-me inteiramente, julgando ter tempo ainda de sobra para o encontro

- É naquele restaurante italiano onde fomos almoçar há uns tempos… às nove e meia! Depois talvez dêmos um saltinho a uma discoteca das redondezas com boa música para dançarmos um bocadinho… Parece-te bem?

- Sim, para mim está óptimo! – concordei de imediato, vendo que no relógio tinha um intervalo de duas horas para me preparar e sair de casa – Encontramo-nos no bar do restaurante?

- Sim, pode ser! – o seu tom foi denunciante e pude adivinhar-lhe um sorriso imensamente rasgado no rosto naquele exacto instante

- Então está combinado!

- Está combinadíssimo, princesa!

- Pronto, eu vou então arranjar-me para não chegar atrasada! – se havia coisa que eu detestava era a falta de pontualidade, no sentido geral mas especialmente comigo também, aliás, preferia ser eu a ter de esperar pelas pessoas do que fazê-las esperar por mim

- E eu vou telefonar às meninas a acertar as horas e o ponto de encontro…

- Está bem, amor… Às nove e meia no italiano.

- Certíssimo, lá nos encontramos!

- Então, até já… Beijinho princesa! – despedi-me com um sorriso saudosista

- Um beijinho também para ti, amor… Até já! – o sinal na linha seguiu-se intermitente dando por findada a nossa conversa

Aquele jantar iria certamente fazer-me bem… Sair, espairecer, rever pessoas que foram muito importantes para mim em determinada fase do clico da minha vida, e deitar, nem que fosse apenas por uma noite, todos os problemas, tormentos e preocupações para trás das costas. Era tempo de pensar em mim, de cuidar de mim e finalmente estava mais do que disposta a fazê-lo.
Voltei a lançar uma simples mirada ao relógio de parede para me orientar nas horas e sem grandes demoras tomei caminho até ao andar superior da casa, onde entre as quatro paredes da casa de banho me embrenhei nas malhas de um banho fresco e relaxante, que levei adiante em dez minutos. Enxuguei o corpo, vesti a parte debaixo da langerie e por cima um roupão de linho negro, e voltei a enveredar pelo quarto, para escolher um conjunto de roupa e ser o mais breve possível a preparar-me… Teria sido de facto um bom esforço se não tivessem tocado à campainha e destabilizado o meu canto. Olhei a minha figura num simples relance que se encontrava inalterável aquando saída da casa de banho, e fui assim mesmo até à porta.

- Já vai, já vai! – proferi num tom forçosamente alto, pela insistência fosse de quem fosse do outro lado da porta, enquanto percorria o corredor superior para me precipitar às escadas, descê-las aos saltinhos e alcançar a entrada  

Sem ter a necessidade de olhar pelo óculo, rodei a maçaneta na minha mão e abri a porta… a pior atitude que poderia ter tomado. Diante dos meus olhos a figura extremamente saudosa, porém de quem eu não esperaria voltar a ver – não tão cedo e não ali – prostou-se à minha frontaria, esperando que o recebesse no meu pequeno mundo… agora só meu.
Fiquei sem palavras, não havia nada ali que eu pudesse dizer-lhe e a preencher esse silêncio os seus actos falaram por nós. Ele tinha um ar misterioso que há muito tempo não lhe vi-a, a sua boca que eu não sabia se sorria ou se estava a conter a vontade de fazê-lo, um olhar enigmático que me percorreu o corpo indiscretamente, como se estivesse a desfrutar do que vi-a, levando-me a ficar constrangida entre aqueles pequenos trajes e ao meu coração a bater que nem um louco, por voltar a ficar exposto para quem o magoara.
Ele permaneceu parado a olhar para mim e somente para mim, não me desviando do seu foco por um segundo…
Queria por um fim àquele tormento, e tentei, ao voltar a fechar a porta sem uma única palavra ser proferida entre nós, mas ele não deixou… Colocou instintivamente o pé a barrar o trinco e com uma força extra que empregou nas mãos voltou a abri-la, forçando a sua entrada na minha casa.

- É assim que recebes as tuas visitas? – a voz quente e embriagante de Ruben, voltou a soar aos meus ouvidos após algumas semanas demarcadas pelo seu silêncio, mas eu não quebrei ao ouvi-la, não podia fazê-lo

- As visitas indesejadas, sim! – retorqui sem impasses, tentando impor alguma formalidade entre nós que no entanto ele quebrou em meia dúzia de gestos e actos

- Posso entrar? – apesar da pergunta colocada, ele já havia passado o limite da entrada e pelo próprio pé começou a redescobrir os cantos à casa que já conhecia, enveredou pelo corredor principal para virar à esquerda e entrar na sala de estar

- Acabaste de o fazer… - completei numa reprimenda que ele já não ouviu, voltei a fechar a porta e segui atrás, procurando por explicações que me mereciam ser dadas – O que é que tu estás aqui a fazer? – logo que voltei a retomar o contacto visual entre nós, na frente do meu peito cruzei os braços, predispondo-me a enfrentar a situação e não vacilar com ela

- Eu? – tomando uma atitude que eu lhe desconhecia, ele entrou num jogo perigoso de poder e sedução e queria levar-me consigo, mas eu não podia deixar-me ir… simplesmente não podia – Eu vim ver-te! Trouxe vinho para acompanhar o jantar! – proferiu com uma rectidão e domínio inquebrável a traçar-lhe a conduta da voz, pousando a garrafa de vinho branco que trouxera, sob a mesinha de apoio ao centro

- O quê? Só podes estar a brincar… - achando-o com um descaramento descomunal, ironizei um sorriso de quem estava prestes a ser apanhada numa armadilha… não sei se de dolência ou de saudade – Mas qual jantar?

- Passei por aqui para conversarmos um pouco, já há algum tempo que não nos vemos… Acho que um jantar ficava bem para… descontrairmos um pouco. – fazendo-se em sua casa, tomou lugar ao centro do sofá de três lugares e acomodou-se relaxadamente – Estás sozinha, não estás?

- Isto é algum tipo de brincadeira? É que se for eu não estou a achar piada nenhuma… Não tens mais ninguém para ires torturar? 

- Por acaso tenho, mas escolhi-te a ti! – deu uma resposta muito rápida e sorriu

- Ok, Ruben, já chega… Vai-te embora. – pedi atempadamente, antes que a calma entre nós fosse perdida e o cenário até então pacífico, desmoronasse para um que não seria bonito de se ver

- Queres que me vá embora? Mas ainda agora cheguei… - a sério que não lhe conhecia aquela faceta… estava ali, sentado no sofá da minha casa, completamente sereno, como se tivesse sido anestesiado por uma poção do esquecimento e adormecido sobre tudo o que se passara entre nós, sobre tudo o que nos acontecera… estava ali com a maior descontração do mundo, só ainda não sabia que intenções trazia escondidas por detrás dela

- Estou a pedir-te educadamente, Ruben… Vai-te embora, por favor!

- E eu estou a recusar educadamente o teu pedido, Joana! – ele mostrou um sorriso ligeiro porém glorioso, como se estivesse a controlar toda a situação – Pensei que agora que estamos sozinhos, podíamos falar um pouco, sem discussões, sem ressentimentos…

- Pois mas pensaste mal, eu já tenho planos para hoje… Aliás, tenho que me ir arranjar antes que chegue atrasada, portanto, se fazes o favor…

- Desmarcas! – a sua resposta foi tão rápida e breve que nem deu para eu percebe-la em condições

- Desculpa?

- Desmarcas tudo o que tens combinado… Hoje os teus planos cruzam-se com os meus. – a forma como ele falou foi tão intensa, tão profunda, que senti cada pequena vibração ascender a minha espinha levando-me a arrepiar por completo

- A Inês sabe que estás aqui? – inquiri, mesmo retendo para mim a remota opinião de que ela não fazia a menor ideia que o noivo ali estava… comigo, caso contrário a situação mudava de figura

- O que é que acontece se eu disser que não? – os seus ombros encolheram-se desprendidamente, e eu limitava-me a ficar cada vez mais impressionada com o que estava a acontecer

- Ruben, sai! – voltei a exigir, esperando que desta vez ele respeitasse o meu lado, que com o avançar moroso de tudo aquilo, ficava coerentemente comprometido

- Obriga-me! – atirou em jeito de desafio, que eu não iria obviamente levar a cabo

- Ouve, eu já não tenho idade nem paciência para estes joguinhos, portanto se quiseres brincar sugiro que procures outra pessoa… A tua noiva, por exemplo! A porta fica ali! – esforcei-me por responder com o máximo de frieza e vigor, lançando o meu indicador à porta de saída… não iria permitir qualquer aproximação entre nós, por mais inofensiva que pudesse parecer

- Joana, vê se entendes uma coisa, eu vim cá para falar contigo e não vou sair desta casa enquanto não o fizer, ponto final.

- Mas eu não quero falar contigo, será que ainda não percebeste?

- Então lamento mas vais ter que levar comigo… eu não vou a lado nenhum! – cruzou uma perna sobre a outra e estendendo os braços totalmente sobre o encosto do sofá, fincou bem a sua posição, sabia que quando ele metia uma ideia na cabeça se tornava um alvo muito difícil de abater, mas no final um de nós teria de ceder, eram estas a consequências do jogo ditado por ele

- Tu por acaso andaste a beber antes de vires para cá? – embora da redundância e perspicuidade da minha pergunta, para a qual a resposta era claramente negativa, por um momento achei que Ruben não estava completamente consciente das problemáticas que poderia suscitar por estar ali comigo… isolados do resto do mundo

- Eu? Não… Acho que nunca estive tão sóbrio! – e eu acho que nunca ele me parecera tão certo do que dizia como naquele instante, como se de alguma forma me estivesse a dar um sinal de que não haveria outro lugar no mundo onde devesse estar senão ali

- Ruben, sai… Vai-te embora! É a última vez que te peço… Eu não quero arranjar problemas, nem a ti nem a mim.

- E eu volto a dizer: Não saio daqui enquanto não conversarmos decentemente, é a minha única condição. – aquela sua insistência exaustiva, começava morosamente a tirar-me do sério e de alguma maneira, ainda não sabia como, teria de agir antes que a situação tomasse um caminho sem retorno

- Queres conversar decentemente? Olha que assim de repente não estou a ver nenhum assunto que tenhamos em comum para discutir, a não ser claro, que tenhas vindo até aqui na tua condição de afilhado, afinal vou ser a tua madrinha, não é?

- Joana, por favor…

- Por favor, digo eu! Eu não quero que haja mais nenhuma ligação entre nós que possa levar outras pessoas a pensar coisas erradas se souberem que estivemos juntos… A melhor coisa que temos a fazer é voltarmo-nos a ver apenas no teu casamento… Até lá o melhor é continuarmos a manter a distância. – julgando ter encerrado ali o problema, delimitei as linhas em nosso redor que não deveríamos pisar para não invadirmos o espaço um do outro, o que evidentemente poderia acarretar algum desconforto para nós

- Porque é que me estás a pedir isso? Qual é que é o teu problema?

- O meu problema? – o meu rosto declarou uma expressão de evidência incontestável, que depois veio a ser apoiada nas minhas palavras que eu jamais poderia remexer para a sua tese – Tu és o meu problema, Ruben… Tu!

- Odeias-me assim tanto, é? – inquiriu de olhar trémulo, que se guiou pelo meu enquanto se erguia do sofá e a passo por passo tomava proximidade de mim, uma proximidade perigosa que inculpava e comprometia as linhas que eu havia já traçado, de forma a quebrar o nosso ponto de ligação, que não voltaria a unir-se

- Eu? Não… Claro que não! – aquela minha mania de me defender por detrás do sarcasmo… como se ainda esperançasse sair menos magoada atacando com essa arma que era a única que tinha à mão, mas por momentos gostava de pensar que sim – Claro que eu não te odeio, eu odeio-me a mim e sabes porquê? Porque fui eu que desisti da pessoa que dizia ser o amor da minha vida, sou eu que agora estou comprometida e feliz ao lado de outro homem, não é?!

- Joana, espera… Ouve-me! – ele caiu no maior erro que poderia cometer, o mais fatal de todos que poderia dar início ao nosso ponto de ruptura… a sua mão pegou a minha levemente, quebrado a barreira do contacto físico que mantivéramos erguida durante tanto tempo… demasiado, e tão discretamente como as nossas mãos se uniram, do mesmo jeito se separaram, assim que ele viu nos meus olhos o desconforto que me estava a causar – Eu sei que fui uma besta, que te magoei muito mas…

- Sai daqui… Se ainda tens um pingo de bom senso como eu sei que ainda tens, vais esquecer o que te trouxe aqui, vais respeitar a minha vontade e vais-te embora sem dizeres absolutamente mais nada. – não queria as desculpas dele, não queria o arrependimento dele, muito menos explicações que remediariam coisa nenhuma, e antes que as lágrimas que já me contornavam os olhos, cedessem pelos caminhos do meu rosto, vi-me forçada a exigir a sua saída da minha casa, e principalmente da minha vida

- Eu não quero ir… - o murmúrio trémulo dele quase me fez ceder, quase, levando Ruben a não dar-me ouvidos, algo que francamente já não me surpreendia, e permaneceu na minha frente à espera de me ver tomar alguma atitude, que no entanto não demorou em chegar

- É assim que vai ser, não é? Então deixa-te estar… Faço um favor a mim mesma e saio eu!    

- O quê? Joana, espera… Onde vais?

Sabendo o quanto ainda o amava, eu não podia continuar ali, não podia continuar a castigar-me daquela maneira, fazia-me mal… Estar sem ele era mau, era péssimo,  mas estar com ele ainda para mais naquelas circunstâncias, conseguia ser ainda pior. Não dei qualquer importância ao facto de estar apenas em meia langerie e roupão, dei meia volta e rodei o meu corpo no sentido da saída, que eu pretendia alcançar o mais rápido possível para sair daquele sufoco demasiadamente doloroso. Porém, Ruben voltou a barrar-me com novos obstáculos, a tentar reter-me na sua jogada, na sua manipulação… Continuou a puxar os cordões da minha paciência e tentar levar-me ao limite máximo do suportável.
Em passadas rápidas vi-o rasgar passagem ao meu lado para cruzar à minha frente e obstruir-me a saída, que eu não iria transpor, não segundo a sua vontade.

- Perdeste alguma coisa aqui? – indagou tentando armar-se em engraçadinho logo assim que alcançou a porta, colocando-se entre mim e ela

- Perdi… Perdi a vontade de ficar a olhar para ti.

- Tens bom remédio, fecha os olhos… Mas garanto-te que não vais a lado nenhum!

- Porque tu não queres?

- Porque eu não deixo!

- Deixas sim… Enquanto estiveres na minha casa vais respeitar o que eu te digo, por isso, sai da frente!

- Passa por cima! Eu não dou nem um passo.

- Estás a querer provocar-me?

- Estou a conseguir?

- Ruben… - coloquei-o sob aviso, que ele mais uma vez ignorou e veio a desrespeitar

- Queres sair não queres? Olha só… - por um descuido meu que nem calculara, ele apanhou as chaves da porta e rodando-as na fechadura, trancou-me lá dentro consigo

- Ruben, o que é que estás a fazer? Ruben! Dá-me as chaves! – exigi num sopro pesado, estendendo a minha mão na frente do seu peito

- Quais chaves? Estas chaves? – ele exibiu-as sob a palma da sua mão, e antes que eu conseguisse a oportunidade de alcançá-las, ele voltou a cerrá-la e escondeu-as posteriormente – Vem buscá-las! – desafiou num sorriso de puro desdém ao resguardar as chaves no bolso traseiro das suas jeans

- Ai, estás a deixar-me doida!

- Por mim? – ele era perito em fazer-me perder a noção do real, e de novo aquele sorriso que já se tinha tornado a sua imagem de marca, voltou a emergir à tona do seu rosto, fazendo-me apaixonar de novo na curva dos seus lábios

- Cala a boca, Ruben! Cala a boca! – obriguei, começando a ficar totalmente fora de mim pelas suas intervenções rápidas que facilmente me deixavam sem resposta

- Obriga-me! – atestou, fechando o sorriso que há pouco ilustrara para colar praticamente os seus olhos aos meus, num abeiramento que me fez conter a respiração

Ele nunca deveria ter dito aquilo, nunca deveria ter-me posto à prova daquela maneira, pois o facto de me sentir encurralada fez-me perder o pouco controlo que ainda me restava e libertar os meus instintos num impulso que prometera a mim mesma nunca mais voltar a ter… mas tive, e beijei-o. Coloquei o seu rosto, por barbear, entre as minhas mãos hesitantes, e precipitei os meus lábios aos dele, num toque ousado que a mim me aqueceu o peito e me deixou os joelhos a tremer, e a ele sem reacção, apesar de o ter sentido corresponder tenuemente mas apenas no segundo a seguir.

- Desculpa, isto não devia ter acontecido… Desculpa. – afastei-me logo que voltei a cair em mim, num pedido de desculpas que mereciam ser dadas, pois tinha passado o risco que eu mesma impusera entre nós, e não me poderia sentir mais ridícula e envergonhada perante ele com a minha atitude

- Só há uma coisa que eu não desculpo… - por instantes ele ficou completamente absorto, petrificado com o que tinha acontecido, mas depois tomou de novo uma reacção que eu nunca esperara ver-lhe – Não desculpo o facto de teres parado… - numa impulsão que eu não esperava de todo, vi-o avançar e senti as suas mãos atacarem a minha cintura, atirando-me com ele de encontro à parede que tínhamos mais próxima

- Não, isto não pode voltar a acontecer… - senti o seu corpo empurrar o meu, a esborrachá-lo contra a parede, fazendo-me perder as forças e suster novamente o ar nos meus pulmões

- Foste tu que me beijaste… - evidenciou num sorriso recatado, dando impulso para que o diálogo que se seguiu fosse proferido inteiramente em murmúrios dispersos pelas nossas bocas que resistiam impacientemente a um novo encontro

- Foi um erro, um deslize…

- Um deslize ou saudade? – a pontinha do seu nariz percorreu o meu e num arrepio perplexo senti a sua mão abrir passagem entre o meu roupão e tocar-me a barriga

- O qu… O que é que estás a fazer? – a minha voz estremeceu mais do que nunca, estando os nossos rostos a tocarem-se sucessivamente por iniciativa dele, fazendo-me sentir dar o passo que restava para lhe cair nos braços… aos braços do homem da minha vida

- A perder a cabeça, acho eu… - os seus lábios quentes roubaram um beijo aos meus, que não esteve em meu perfeito juízo recusar, mas cheguei a recear que ele voltasse a fazer-me o mesmo que fez no aniversário da nossa pequena Sofia

- Acho que é melhor controlares-te, Ruben…

- Está difícil…

- Não te esqueças que és comprometido, devias fazer um esforço… antes que cometas alguma loucura…

- Louco eu já estou… - a sua citação fez-me fechar os olhos, na esperança que se não visse isso me tornaria invisível, me faria deixar de sentir, mas eu continuava a sentir tudo, até a humidade do meu pescoço que foi percorrido com beijos… só ele conhecia aquela minha fraqueza, só ele sabia como aquele toque poderia fazer-me vacilar, e soube usá-lo irremediavelmente bem contra mim

- Ruben, pára… Nós não podemos. – as minhas mãos tocaram-lhe o peito, mas não foi impedimento nenhum para ele… tentei a todo o custo, com todas as minhas forças resistir, mas tornava-se cada vez mais impossível continuar a fazê-lo

- Shiu, não digas nada…

- Isto está tão errado, tão errado…

- Eu sei… Mas não dá para aguentar mais… – os seus olhos fixaram os meus ternamente, como duas imensas luas novas que espelharam apenas o começo da nossa noite

- Porque é que tinhas de aparecer agora? Eu estava a tentar esquecer-te…

- E estavas a conseguir?

- Estava a fazer um esforço. – reforcei a minha posição, cada vez mais debilitada entre os braços dele que não me dariam fuga possível, mas também eu já não queria fugir

- Pena esse esforço não ter dado certo, não é?

- É… é uma pena… - proferi em palavras soltas o que o desejo me ditara, e quebrei ao sentir a sua língua abrir passagem entre os meus lábios, que eu não pude continuar a manter selados por mais tempo

Por mais que tivesse tentado lutar contra aquilo, já tínhamos vencido o mínimo de limites que nos eram exigidos, e era tarde demais para voltarmos atrás… Era impossível pararmos agora. O encontro adjacente das nossas línguas deu largas ao desejo que embriagávamos, envolvendo-se exaustivamente dando pujança aos prazeres carnais que não tínhamos como continuar a negar.
Uma espessa camada de névoa toldou-nos a razão e esquecemo-nos por completo a distinção do certo e do errado. Tinha plena consciência que não deveria arriscar, que não deveria deixar-me levar pela voz do coração, mas esta gritava tão alto que eu não pude ficar-lhe indiferente, porém, ainda que não quisesse parar, a muito custo tive de interromper o beijo.

- E se alguém descobre? – coloquei em questão, num murmúrio melindroso que embateu nos lábios dele, ainda encostados aos meus, numa dúvida que fazia daquele acto puro de rendição, um crime que não nos inquietávamos em estar a cometer

Um novo beijo. Por entre um sorriso delirante, Ruben fez surgir um novo beijo desconcertantemente rebelde e provocador que dissipou todas as minhas dúvidas. Beijou-me como se não houvesse mais amanhã, como se o mundo tivesse deixado de existir lá fora… nada mais importava, nada mais interessava se não nós dois, a vivermos aquele momento, a vivermos um para o outro. As nossas línguas voltaram a encontrar-se e percorreram juntas os cantos das nossas bocas que já conhecíamos de cor, os nossos corpos abraçaram-se num aperto forte e aconchegante, fazendo-me desejar que aquele momento não tivesse um fim próspero e destinado a acontecer.
Foi uma questão de segundos até sentir as suas mãos segurarem as minhas coxas, puxando-me para si para me tomar no seu colo, pegando-me com uma facilidade tremenda.

- Porque é que nós só estamos bem a fazer-nos mal? – a sua vez de falar chegou traída pela falta de folgo que havia sido sucumbido aquando do nosso último beijo e sorrir-lhe foi inevitável – Porque é que és totalmente… completamente… e irremediavelmente… irresistível? – proferiu num sorriso colmatado de safadeza, para repuxar o meu lábio inferior entre os seus dentes, logo em seguida

- E porque é que tu és completamente… totalmente… e irremediavelmente… detestável? – sussurrei de volta, totalmente rendida aos carinhos dele dos quais eu já tinha tantas, tantas saudades

- Não gostas…? Hum…? – o seu murmúrio disperso ao meu ouvido fez-me tremer nos seus braços, provocando-me uma sensação de calor interior como já não sentia há muito, e sinceramente eu não queria que aquela sensação desaparecesse

Voltei a puxá-lo para mim ao cruzar as mãos na nuca dele, sendo esta a minha vez de ser eu a beijá-lo, por própria vontade, por próprio querer… era o que eu mais queria. Quando o senti apertar-me mais forte para me levar consigo para onde quisesse, reforcei o meu apoio rodeando totalmente a sua cintura com as minhas pernas, e só me voltou a pousar quando com a mão que tinha livre desviou alguns dos objectos que ocupavam a base do móvel de entrada que me fez ocupar a um canto, e sem nunca os nossos corpos caírem na eventualidade de voltarem a desgrudar um do outro.
A partir daí os nossos tons de voz mudaram para mais baixos, meigos e secretos, o diálogo entre nós passou a ser outro, as frases tornaram-se mais curtas e rápidas pela pressa que tínhamos em voltar a beijar-nos.

- Tenho de ligar à Bárbara… - aproveitei os pouquíssimos segundos de desencontro dos nossos lábios para expressar o dever que teria de ser feito, desmarcando os planos que tinha para aquela noite e dar lugar a outros radicalmente inesperados, e com o braço esticado tentei chegar ao telefone

- Não, ligas depois… - contradisse-me Ruben num timbre mimado, de quem não queria suspender nem abdicar daquele momento

- Mas eu preciso avisá-la que não vou poder ir ao jantar…

- Não, tudo o que tu precisas está aqui. – sem nunca perder o contacto com os meus lábios, que eram carinhosamente afagados pelos seus, a sua mão percorreu-me lentamente o braço, tomou controlo do meu pulso e fez-me pousar novamente o telefone no suporte

- És tão convencido… e egoísta também!

- Pois sou! Quero-te só para mim! – com um puxão forte que ele forçou nas minhas coxas, soltei um pequenino e indeclinável grito, pelo impacto remoto e tentador dos nossos corpos que se grudaram instantaneamente

Ruben beijou-me mais louco do que nunca, ainda os nossos lábios não se tinham encontrado, já as nossas línguas faziam a procura urgente uma da outra, e ao se encontrarem de novo, não rescindiram forças de se voltarem a separar. O meu controlo, nunca tão frágil com até então, estava a cair em desfalque pela tentação profunda que me invadia, tanto a mim como a ele, que eu sentia querer tanto aquilo como eu. Não dava para aguentar, não dava para resistir, era fatal e estávamos os dois rendidos aos prazeres e encantos que redescobríamos numa nova busca pelo amor que nos unia, unia-nos e a prova estava ali mesmo, a ser testada por nós.
As suas mãos começaram a percorrer-me o corpo descontroladamente, tal como as minhas, que correram ao instinto de querer retirar-lhe a t-shirt e retirei mesmo, quando os meus dedos se prenderam nas bainhas e ele compactuou comigo ao elevar os braços para que fosse eu a despir-lha. Estávamos a jogar um jogo tão perigo, mas tão bom e pediamos mais e mais… Sabíamos que ia acontecer e não havia nada que pudesse alterar isso.
Quando ele não resistiu em iniciar uma brincadeira de mordidelas sucessivas no delinear do meu pescoço, as suas mãos tomaram outras andanças e fustigaram-se entre a abertura do meu roupão… subiram a minha barriga e só pararam no meu peito, que ele acariciou em investidas suaves e deleitantes, que me fizeram suspirar no embate de mais um beijo.

- Leva-me para o quarto… - pedi-lhe numa confissão impensada junto do ouvido dele, e posso jurar que o senti tremer… e não foi de certo pelas minhas mãos geladas tocarem a sua barriga escaldante e tonificada, a razão era só uma e foi outra

Ele interrompeu as carícias por instantes e fitou-me na incerteza de ter ouvido claramente a minha maior vontade. Os seus olhos mergulharam nos meus com um brilho invulgar e arrepiante, que fez o meu coraçãozinho apaixonado extravasar numa arritmia arrebatada e enlouquecida que fazia o sangue escaldado que me corria nas veias, cursar novos caminhos que aumentaram a frequência da minha respiração. Fiquei hesitante e um quanto embaraçada nos primeiros momentos por me ter exposto e confessado daquela maneira, não estava certo fazê-lo, continuava ciente disso, mas aquilo era amor, era amor de todas as formas e feitios e eu não queria abrir mão dele.
Só sosseguei quando distingui por entre o silêncio, um sorriso majestoso inundar as profundezas dos seus lábios, que se apressaram a ir novamente ao encontro dos meus, facultando um encaixe perfeito e urgente, e beijar-me com um fulgor que eu não lhe conhecia, com um carinho, com uma saudade, oh… E nesse instante eu tive a mais plena certeza… Ele ia ter-me, eu ia ser dele.
Os seus braços voltaram a amarrar-me com força para si e ele voltou a pegar-me e a tomar-me no seu colo, como se não quisesse que eu o largasse, e apertando-me os glúteos carinhosamente, dirigimo-nos às escadas, que devo confessar, tivemos algumas dificuldades em subir… Ruben persistia em querer beijar-me a cada degrau que ascendia, custasse o que custasse, o que claramente lhe diminuía a amplitude de visão e só ao fim de algum tempo distribuído entre alguns tropeções e solenes risadas entre nós, que alcançámos por fim o piso superior. Fiquei surpreendida, muito surpreendida na verdade, por ele não se ter enganado na porta e ir direitinho ao meu quarto… Cheguei a pensar que depois de tanto tempo ele já não se lembrava onde ficava, mas enganei-me, aquela simples recordação não se havia apagado da sua memória e não sei bem porquê mas aquele pequeno pormenor deixou-me a sorrir por dentro.
Entrámos e ele pousou-me sob a cama e preencheu de imediato o seu lugar colocando-se sobre mim sempre com o cuidado em distribuir o peso do seu corpo para não me magoar. A pouquíssima intensidade de luz que eu deixara acesa e que provinha dos candeeiros elevados às duas mesinhas de cabeceira, e que insidia em nós, apenas me deixava discernir alguns contornos do seu rosto e manter os restantes na descrição… Tonificando o seu lado mais misterioso e encantador que lhe conhecia. 
Continuámos a beijar-nos no meio daquilo tudo, a tocar-nos, a suspirarmos melodias de prazer que nos deixavam cada vez mais rendidos um ao outro e nos davam certezas infrangíveis de que aquele momento estava destinado a ser vivido, para voltarmos a ser nós mesmos… um só.

- Quero que saibas que isto não muda nada… Continuo a odiar-te… - provoquei amenamente de respiração debilitada, estando a ser dominada por ele e pelo amor que lhe sentia

- É? Diz-me então o quanto me odeias… Diz… - aquela voz embargante foi dispersada e embateu no toldo dos meus lábios, no segundo antes de estes se deliciarem com mais um beijo inadiável e avassalador

- Odeio-te muito… muito, muito…

- Foi um bom esforço, no entanto eu continuo a odiar-te mais. – nada me deu mais deleite de ouvir do que aquilo, e de olhar pregado ao meu, os seus dedos ágeis recorreram à facilidade de desatar o laço do meu roupão que ainda me cobria o corpo, e expor-me para si sem mais reservas

Como não seria certo nem justo para nós mesmo usarmos a palavra que destacava o sentimento, usámos a oposta que soubemos descodificar bem demais.
Na súplica seguinte já estávamos a beijar-nos de uma maneira profundamente enlouquecida, as nossas bocas ainda não se tinham voltado a descolar, dando continuidade ao beijo longo que era somente furado por amenas gargalhas que eu dispersava, por senti-lo a fazer cócegas demasiadamente desconcertantes na minha barriga.

- Hum, Ruben… - cerrei as pálpebras num lance e deixei pender a cabeça ainda mais para trás, aquando dos leves belisques que com os dentes ele preenchia os meus ombros, eu mordiscava incessantemente o lábio inferior, na obtusa esperança de poder vir a amenizar a temperatura exageradamente elevada do meu corpo – Porque é que as coisas erradas sabem tão bem? – divaguei num sopro discreto, só meu

As suas mãos voltaram a subir vagarosamente e aferrolharam as minhas nádegas, acariciando-me os glúteos e deixando-me completamente arrepiada.
Foi-me impossível controlar os suspiros que se soltavam da minha boca, de cada vez que encontrava pontos de fuga por entre os beijos, eu estava a endoidecer e ele também, quando Ruben trocava o prazer dos meus lábios humedecidos, pelo gosto da essência espalhada por todos os poros da pele do meu corpo… e sem nunca parar de me acarinhar com movimentos um tanto desabusados, mas totalmente deleitosos, que ele sabia o meu corpo tanto bem-querer.

- Adoro ver-te assim, adoro… - um rasgo perfeito de lábios abriu alas a um sorriso seu, que adornou o seu semblante perfeitamente

Beijei-o no pescoço, nos ombros, no rosto, nos lábios… Beijei-o muito e senti-o deliciar-se a cada toque meu. Ele mordeu-me o pescoço, vagou o meu peito com uma enxurrada de beijos e percorreu a minha barriga com leves contornos de língua que a humedeceu. Depois de algumas reviravoltas sob a cama e de muitos mais mimos e carinhos que se seguiram, ficámos inteiramente despojados um para o outro, prontos para nos amarmos da forma mais bela e genuína que existia.
Ruben voltou a proteger o meu corpo sempre com o máximo cuidado, e foi em mais um dos nossos beijos que ele me apanhou na surpresa desarmada e entrou dentro de mim num único movimento que fez o meu coração parar. Olhou-me com um sorriso tão meigo e doce que o meu peito rebentou numa alegria desmesurada, por voltar a ter comigo o bem mais preciso da minha vida. Foi então que um ritmo lento e calmo foi comandado por ele, e este foi gradualmente aumentando a sua intensidade em concordância com as necessidades dos nossos corpos que precisavam cada vez mais de serem correspondidas, e onde o máximo parecia não ser mais o suficiente e pedia por mais e mais. O carinho com que Ruben me tratou foi indescritível e acho que nunca em outros momentos que já partilháramos ao sabor de um acto de amor como aquele, ele se entregara tanto mim como até então… Entregou-me o seu corpo, a sua alma, todo o seu ser a mim, e só a mim.
Quando aquele vai e vem se intensificou sem margem a abrandar, o meu coração começou a bater mais forte e mais depressa, e toda eu tremi com a onda de calor que me invadiu… Ruben ao aperceber-se disso não demorou em vir em meu cuidado, e amarradas ao colchão ele sossegou as minhas mãos inquietas que prendeu com as suas, num entrelace de dedos que me serenou e em beijos que a sua boca confortou a minha, quando de testas coladas as nossas respirações fatalmente ofegantes se envolviam uma na outra sem qualquer pudor. Não proferimos uma única palavra aquando do momento que estávamos a viver, a não ser os nossos nomes que clamávamos em gemidos murmurejados que não nos preocupávamos em controlar.
O limite dos nossos esforços ia sendo recompensado e finalmente chegou… aquela sensação, aquela enorme onda de prazer arrebatou-nos por completo e em simultâneo… Ele estremeceu nos meus braços, o meu corpo contraiu-se levemente e as minhas unhas cravaram e arrastaram-se nas suas costas, obrigando-o a fechar os olhos e conter-se, mas tinha sido tão bom que as nossas vozes rapidamente se dispersaram em gemidos satisfeitos e totalmente prazerosos que ecoaram por todo o quarto, e que depois apaziguámos na boca um do outro, selando aquele acto perfeitamente vivido com mais um beijo louco de línguas, que nos preencheu a aura em pleno. E depois somente o senti pulsar-se dentro de mim, transbordando o calor de prazer que nos viandava e percorria o corpo.
Senti-me novamente amada, como se nunca o tivesse deixado de ser, e o vazio que me resguardara nos últimos tempos, foi preenchido por Ruben… O homem e o grande amor da minha vida.   
Continuámos a fazer amor com calma, lentamente, como se o estivéssemos a fazer pela primeira vez, como se aquela fosse a nossa primeira vez. Naquela noite Ruben remexeu todos os cantinhos do meu corpo, do meu coração, aqueles que só ele conseguia ver e tocar.

- Porque é que vieste? – promulguei depois de alguns momentos que passámos em silêncio, abraçados ao centro da cama – Porque é que voltaste a procurar-me?

- Não sei… - Ruben fez-me erguer o rosto que eu mantinha pousado sobre o seu peito e desviou suavemente os cabelos soltos que me cobriam as faces – Estava a morrer de saudades tuas, não aguentava mais… - confessou baixinho, e antes de aguardar por uma reacção minha, voltou a beijar-me

- Hum, estou a ver… E o que vai acontecer de cada vez que sentires saudades minhas? Vais deixar a tua noiva em casa, vens procurar-me e matar as saudades? 

- Shiu… dorme. – ele pediu meigamente em mais um encosto de lábios, e talvez somente por não ter nenhuma resposta para me dar, abraçou-me com mais força e a pouco e pouco fomos sentindo o cansaço tomar vantagem sobre nós

- Eu amo-te, Ruben… - de olhos fechados e já a adormecer, sussurrei um burburinho da noite, o sentimento mais verdadeiro, tão apertado em meu peito pelo tamanho da sua grandeza

- E eu amo-te a ti… - não sei se o ouvi a dizê-lo realmente ou se foi apenas um fruto da minha infundada imaginação, comandada por aquilo que o meu coração queria ouvir, enquanto eu já no limbo do sono me desprendia da realidade, adormecendo nos braços dele 






Boa noite, queridas leitoras! :)
Venho trazer-vos um capítulo novinho... Espero que gostem e aguardo
pelas vossas opiniões.

Um beijinho grande,
Joana :)


sexta-feira, 5 de julho de 2013

Capítulo 17 - Algumas coisas simplesmente não voltam mais (Parte I)


Virei a página. E não vou mentir… Claro que custava, claro que ainda doía, ainda magoava, mas graças a Deus estava a conseguir dar a volta por cima dos destroços e a oferecer um novo rumo à minha vida, sem mais desilusões nem enganos que a abalassem.
Ficar em casa dos meus avós mais dois dias do que planeara primeiramente, ajudou-me a recompor um bocadinho, retirar os alinhavos que selavam os tecidos rasgados da minha alma e erguer de novo a cabeça, que se abaixara depois da partida definitiva do ainda dono do meu coração.

- Pronto, aqui está tudo… Tudo arrumadinho! – proferi, depois de fazer correr o fecho da última mala… finalmente com as bagagens prontas e aviadas para me mudar para a minha “nova” casa

- Tens a certeza de que é isto que queres fazer? – a minha avó, que permanecia junto à porta do meu quarto, expressou uma vez mais naquela manhã, o seu querer e vontade indubitáveis em eu continuar a viver debaixo da sua alçada

- Oh avó… - num suspiro deambulado, a minha cabeça inclinou-se delicadamente para o lado quando os meus olhos a procuraram num acto de profundo carinho e compaixão, e os meus pés não hesitaram em traçar caminho ao encontro dela – Já falámos sobre isto. Eu vou ficar bem, sei cuidar de mim, já não sou uma menininha…

- Para mim serás sempre uma menininha, a minha netinha… - desabafou enquanto me abraçava, num aperto caloroso e extremamente aconchegante – Já estava tão habituada a ter-te aqui comigo…

- Eu sei, avó, mas também eu não vou mudar de cidade nem de país… Vou só mudar de casa, e ela não fica tão longe daqui quanto isso!

- Então não te esqueças de nos vires visitar, está bem?

- Claro que não me esqueço, avó! Sempre que puder venho cá vê-la a si, ao avô, ao Leonardo, à Rosa… Sim? – cuidadosamente e num gesto delicado, os meus dedos trinaram os cabelos curtos e pintados dela, que lhe emolduravam perfeitamente o rosto de uma senhora de sessenta e cinco anos de vida

- Vamos então… Eu vou contigo até ao carro. – ladeadas uma pela outra, e também por Leonardo que prestou o seu auxilio ao ajudar-me com as malas, descemos até ao largo da entrada onde tinha o meu carro estacionado – Toma as tuas chaves… E liga quando te instalares!

- Obrigada, avó! – fechei a bagageira onde tinha arrumado as malas, e na minha mão recebi as chaves da minha casa, que nos últimos anos haviam ficado na posse dos meus avós – E pode ficar descansada que assim que tiver tudo arrumadinho, tudo no sítio e bem instalada, eu ligo-lhe!

- Conduz com cuidado, meu amor! – aconselhou, deixando o seu instinto protector falar, numa preocupação acrescida e jamais ultrapassada que tinha em minha guarda e a qual eu lhe agradecia, pois o facto que nos pode reconfortar mais é o de termos a certeza eminente de que há sempre alguém que se preocupa e que vai estar lá para cuidar de nós

- Adeus, avozinha! – dei-lhe um beijinho carinhoso na sua face de pele macia e um abraço, que apesar de curto foi apertadinho o suficiente para extravasar o sentimento fraternal de que partilhávamos – Adeus, meu querido Leonardo! – como não podia deixar de ser, e como ele fazia praticamente parte da família, despedi-me também com um beijinho do meu querido mordomo

Sorri aos dois numa gratidão irretorquível e tomei passos livres até à porta do meu jeep e entrei, pronta para iniciar então mais uma, e desta vez nova, jornada.
A viagem durou cerca de uma meia hora e verdade seja dita que eu vinha tão embrenhada aos meus pensamentos tanto quanto ia concentrada na estrada e em todos os movimentos que nela circulavam, que nem dei pelo tempo passar, e somente dei conta de onde estava no último cruzamento antes da rotunda, e tudo à minha volta, tudo o que me rodeava, tornou-se demasiado familiar para mim. Aproximei-me dos muros que cercavam os jardins da imponente vivenda e com um simples e rápido toque no pequeno mecanismo preso às chaves, activei o portão de sensores que abriu automaticamente ao meu sinal, continuei com as mãos no volante guiando até aos interiores e deixei o carro estacionado fora da garagem, pois iria voltar a sair dentro de um par de horas.
Alberguei uma mala em cada mão e passo ante passo fui ao encontro da entrada que fazia ligação com o interno da casa. O simples facto de fazer rodar a chave entre a minha mão provocou em mim uma sensação de Dejá Vu, como há muito eu já não sentia. O som típico da chave a rodar na fechadura indicou o destranque e com um empurrão ligeiro na porta pesada, permiti a sua abertura total para uma maior e mais precisa contemplação à primeira vista.

- Lar doce lar… - demandei, num desabafo provavelmente intencionado pelo karma, que ao fim de três anos me mostrava ali o ponto do meu recomeço

Dei os primeiros passos no hall, deixando as malas junto da porta, não me contive em curiosidade em redescobrir todos os recantos e pormenores adormecidos na minha memória, mas ao percorrer as primeiras divisões apercebi-me que tudo como fora deixado assim permanecia… Tudo continuada igual, tal qual a minha memória preservada, continuava tudo nos mesmos sítios, as mobílias, as fotografias emolduradas, os quadros das paredes, até o cheiro a jasmim e hortelã pairava no ar, fazendo-me levar a recordar a doce frescura dos meus tempos intocáveis de infância, e que indiscutivelmente tinham sido dos mais felizes.
Como uma imagem dissipada diante dos meus olhos, revi-me naquela casa, em tempos, aquando ainda era criança e onde a meninice ainda me retinha nas malhas da inocência… descia as escadas de um modo comicamente trapalhão, correndo para os braços do meu pai que me esperava junto ao sopé, pronto a receber e mimar a menina dos seus olhos. Mas agora tudo me parecia distante, triste demais para recordar.
Abri a porta do meu antigo quarto e entrei, sorrateiramente, como se de alguma maneira estivesse a invadir o quarto de outra pessoa, a vida passada de outra pessoa. Olhei, vi, e enxerguei cada objecto em meu redor, e nada do que eu pudesse sentir ultrapassaria a sensação de estar em casa.
Aproximei-me de uma das mesinhas de cabeceira e um objecto em particular chamou pela minha atenção, e sem mesmo dar conta, um filamento de lágrimas formou-se à tona dos meus olhos… Uma fotografia, uma fotografia que eu deixara para trás aquando a minha partida, perdurava ali, preservando um momento de felicidade numa imagem, como se o tempo tivesse sido parado e não passasse… Naquela fotografia padecia eu ainda no corpo e sorriso de uma garotinha, os meus pais e o meu irmão, ainda no seu primeiro ano de vida, sorriamos de tão felizes que estávamos, só não poderíamos adivinhar os maus tempos que estariam para vir e com eles levarem toda aquela nossa felicidade, que num sorriso de trágico engano, chegáramos a julgar ser eterna.

- Que saudade… – ditei num murmúrio avassalado de sonhos que chegaram ao fim, retendo a fotografia na minhas mãos e passando com a falange dos dedos sobre o vidro da sua moldura, na esperança de conseguir tocar-lhes

Daquela maneira restava-me agarrar as recordações esquivas e preservar a sensação de calor que elas me proporcionavam.
Trouxe as malas para o quarto mas pouco lhes mexi, apenas para retirar uma muda de roupa que iria vestir para sair, tinha marcada uma entrevista para uma revista feminina para logo depois de almoço e por isso teria de deixar as arrumações para quando voltasse.
Troquei as jeans por uma saia longa e fresquinha e os ténis por umas sandálias leves que me iriam permitir andar confortável durante toda a tarde. Deixei o meu cabelo modelarmente liso e solto, e reforcei a longevidade das minhas pestanas com duas leves passagens de rímel.



Quando alcancei o meu pulso para colocar o relógio, deparei-me com mais uma lembrança, mas desta fez era uma daquelas lembranças para a qual eu não queria voltar a olhar: a pulseira que Ruben me oferecera quando completáramos um ano de namoro e a qual gravava o sentimento, que ingenuamente, juráramos ser sempre. Retirei-a sem pensar mais no assunto e foi numa caixinha de madeira sustida em cima da cómoda, onde na qual eu costumava guardar todas as minhas bijutarias, que a coloquei bem fechada, prometendo-me não ter mais a vontade de voltar a pegar nela.

- Capítulo encerrado! – pressagiei a mim mesma, tentando convencer-me com o duelo das minhas próprias palavras

Seria um capítulo encerrado, seguramente, se eu já não o amasse tanto, se já não desejasse correr-lhe para os braços ou se já não sonhasse com o momento em que ele viesse procurar-me, pedir-me desculpa e implorar-me que voltasse para ele. Mas claro que nada disso iria acontecer… Ele agora ia casar, tinha planos para o futuro que não se cruzavam com os meus e estava feliz ao lado de outra mulher.
Agitei a cabeça aleatoriamente de modo a afastar esses pensamentos que poderiam desarmar-me num choro intempestivo que eu prometera naquela noite não voltar a ceder por ele.
Voltei a descer e foi na cozinha que eu fiz a paragem seguinte, como sabia que a Maria tinha ido às compras lá para casa a mando da minha avó, deveria ter lá qualquer coisa para preparar o almoço, mas a vontade de cozinhar sumiu-se mal a senti chegar… Preferi antes optar por uma coisa mais rápida de fazer, simples e leve, e por isso fiquei-me apenas por um iogurte de pedaços e uma peça de fruta que retirei directamente da fruteira.

“- Isso é lá almoço de gente!” – se a minha avó ali estivesse, era o que de certeza ela me iria dizer, e com base nisso, não pude deixar de me rir com aquele meu devaneio

Levei a maçã comigo e fui comê-la para a sala, despojando-me no sofá onde já há tanto tempo eu não tomava lugar. Alcancei o comando e liguei a televisão, não na finalidade em prestar-lhe alguma intenção, porque àquela hora deveriam de estar a passar na maior parte dos canais, aqueles programas entediantes que ninguém suficientemente capacitado deveria ver, mas liguei-a sim por sentir a falta de vozes naquela casa, a agitação e rumor que era frequente e que agora tinham sido substituídos por um silêncio albergado e aterrador ao qual não gostava de me sentir envolta.
Como ainda me restava um tempinho para sair, coloquei o meu portátil em cima dos joelhos e acedi à caixa de correio electrónico, que eu não abria há semanas, na esperança de encontrar algo para ler.

- Que estranho, não tenho este… - indaguei numa sonância de estranheza, quando ao deslizar o cursor sobre o ecrã, me detive ao deparar-me com uma mensagem de um endereço que não constava na minha lista de contactos, e por isso foi a primeira que abri

Na minha frente descodificou-se uma mensagem breve a qual eu já não esperava, mas discerni rapidamente de quem era, e ao traçar uma leitura integral traduzi mentalmente e sem dificuldades o seu conteúdo.


“Querida Joana,

Sei que já passaram algumas semanas, mas desde o nascimento da minha filha que a minha vida tem andado meio desordenada, uma verdadeira agitação, e o pouco tempo livre que vou tendo é inteiramente dedicado à minha bebé.
Como não tive tempo de te agradecer devidamente naquele dia a enorme ajuda e apoio que me prestaste, agradeço-te agora e através deste e-mail, na incerteza de nos voltarmos a ver. Não há palavras que possam descrever a minha gratidão nem gestos que possam retribuir o que fizeste por mim no momento em que mais precisava de alguém do meu lado, e de repente apareceste tu, uma total estranha que me deu a mão e me prestou o maior e mais ansiado auxílio num momento em que as emoções estavam à flor da pele, e só te posso agradecer do fundo do coração por isso.
Já agora, e pensei que gostasses de saber, como ainda não tínhamos decidido um nome para dar à bebé, eu e o meu marido decidimos de forma unânime, chamá-la de Joanne, em atributo a ti, visto que estiveste presente no momento em que ela nasceu e foste a primeira a recebê-la nos braços.
Ela é uma bebé linda e saudável que cresce dia após dia, e eu não poderia estar mais feliz e radiante com esta bênção de Deus, e posso dizer que estou a viver a fase mais bonita da minha vida.
Contigo espero que esteja tudo bem, tal como espero receber notícias tuas assim que leres este e-mail.

Beijinhos,
Olívia

P.S.: Em anexo deixei-te algumas fotografias da minha princesinha :)”       


Ficar emocionada foi algo que eu não tive como evitar, porque o facto era que aquela mensagem tinha-me aquecido o coração e revitalizado a alma, ou o que ainda restava dela. Cheguei inclusive a sentir as lágrimas de novo subirem à linha dos meus olhos e correrem depois pelas faces em dois fios muito fininhos, estarrecendo a alegria súbita que me invadiu quando olhei carinhosamente as fotografias da bebé, e também um sorriso meu surgiu no meio de tudo aquilo.
Escrevi-lhe de volta, respondendo em breves mas precisas linhas, o meu agradecimento e a mais profunda gratidão pelo lisonjeamento por se terem inspirado no meu nome para colocaram um à menina, disse-lhe também que me encontrava bem – literalmente – e despedi-me desejando-lhe as maiores felicidades a ela e à família, que agora era preenchida com um novo membro que veio certamente dar mais luz e sentido à vidas dos recém-papás.
Fechei o tampo do computador e olhei à minha volta num suspiro que se dissipou pelas quatro paredes… Como o tempo podia alterar a vidas das pessoas e como as pessoas mudavam com ele.

- Bolas, tenho que me ir embora! – olhando o relógio de pulso num relance despreocupado, facultei o pouco tempo que me restava para chegar ao meu compromisso daquele dia, e por isso mesmo coloquei o computador sob a mesinha de apoio da sala, desliguei a televisão e saí de casa, alcançando antes a minha mala que não poderia esquecer



*** 



- Joana? – de olhar meio perdido pelo jardim em busca de alguém que me orientasse, ouvi e seguidamente vi uma voz acompanhada pelo caminhar moroso de uma rapariga que dera por mim e que se apressou a vir ao meu encontro – Joana, ainda bem chegaste… Olá!

- Oh, olá… Boa tarde! – cumprimentou-me com um aperto de mão repuxado a dois beijinhos, a rapariga sorridente que eu supus ser colaboradora da Lux, a revista para a qual aceitei dar uma pequena entrevista – Peço desculpa por chegar agora… Venho muito em cima da hora?

- Não, não… Ainda temos tempo! Eu sou a Catarina, fui eu que marquei contigo a entrevista… - de sorriso e simpatia permanente em seu rosto jovial, começámos a caminhar pelo jardim de uma casa privada, que eu sabia ter sido reservado para aquela sessão, onde vi ainda estarem a fazer a montagem e preparação do cenário para as fotografias – Foi difícil dares com o sítio?

- Ah… Não, nem por isso! As tuas indicações ao telefone também foram preciosas! – referi calmamente, desviando uma tira de franja dos meus olhos, e num instante breve soltámos breves gargalhadas

- Óptimo, ainda bem que pude ajudar! Então vamos fazer o seguinte… Se já estiveres pronta para começar, iniciamos com a sessão, vais mudar de roupa lá dentro, a maquilhagem, e concluímos então com as perguntinhas… Parece-te bem?

- Sim, sim… Parece-me óptimo! – acordei num movimento singular da cabeça, pronta para pôr mãos ao trabalho

Comecei por trocar de roupa que a produção havia leccionado e trazido propositadamente, fiz a maquilhagem e na hora seguinte predispus-me inteiramente ao trabalho fotográfico.

- Joana, eleva um pouquinho mais o queixo… Isso, continua a não olhar para a câmara, fixa-te noutro ponto! – recomendou o fotografo, que ia sempre dando dicas à minha postura antes de mais um flash – Preciso aqui de uma ventoinha, por favor!

O tempo correu num pestanejar sucinto de olhos, que não esteve ao meu alcance prescindir, pois nos últimos dias o tempo tinha sido tudo menos favorável para mim, fazendo-me querer perpetuar àquela dor que ainda habitava o meu coração, e quando dei por isso, estava já sentada à mesa do jardim juntamente com Catarina, albergadas por um enorme guarda-sol que nos protegia na hora de mais calor.

- Então, Joana, vamos falar um bocadinho, descontraidamente, eu vou fazendo-te umas perguntas e quero que estejas à vontade para responder, vê isto como uma conversa… E como tal a conversa vai ficar registada aqui no gravador para depois podermos seleccionar e editar as perguntas porque provavelmente não sairão todas.

- Ok, vamos a isso! – disponibilizei-me inteiramente, mas sabendo em primeira mão que aquela conversa não se arrastaria para certos assuntos da minha vida íntima e privada que eu iria continuar a manter reservados, e os quais me poderiam suscitar vários níveis de desconforto, como seria o caso dos meus relacionamentos

- Joana, há pouco alguém ali da produção perguntou-te se querias ir ver as fotografias e tu disseste que não… Porquê? Não costumas ver as fotografias enquanto ainda estás em sessão?

- Geralmente não o faço e evito fazê-lo, não gosto de me ver enquanto ainda estou a trabalhar… Gosto apenas de ver o resultado final, porque senão vou concentrar-me muito nos pormenores… A cabeça que deveria ter ficado mais inclinada, o olho que deveria ter ficado mais aberto, essas coisas… E acho que ia acabar por ser tornar em algo mais robótico do que propriamente natural.

- Eu estava a ver e tu tens ali umas posses… Numas estás com ar de sedução, depois fazes ar de menina, no que é que pensas quando estás a ser fotografada?

- Muito sinceramente eu não costumo pensar em nada em particular, concentro-me apenas no que o fotografo me está a pedir e tento fazer o meu melhor.

- E quanto aos teus admiradores, às pessoas que seguem o teu trabalho… És muito assediada na rua?

- Se sou muito assediada na rua? Não, não de todo… É uma coisa muito moderada, acho que consigo passar bem despercebida! – depreciei, deixando-nos às duas rir levemente – Também não sou nenhuma cantora nem actriz, acho que o trabalho de manequim é uma coisa mais discreta! – completei logo depois, verbalizando o facto de não me ver como uma celebridade nem tampouco como uma estrela nacional

- E o que é que te tira do sério? O que te faz perder a paciência…

- Eu não costumo perder a paciência com muita facilidade, mas quando isso acontece provavelmente a mentira está envolvida… Eu não tolero muito bem a mentira, não tolero que me mintam.

- Então és pró-verdade, achas que a verdade devesse-se ser sempre dita…

- Eu quando falo numa mentira, refiro-me a uma mentira pesada e não àquelas mentirinhas inofensivas do dia-a-dia… Mas sim, em regra geral sou a favor da verdade. A menos que… E eu acho que a mentira só deve entrar quando é para esconder uma coisa que vai causar uma dor maior com a verdade. Mas sem dúvida que a mentira é geralmente uma coisa que me tira do sério. 

- Lembraste de alguma vez te teres visto numa revista que viesse a dizer alguma coisa sobre ti que achasses mais engraçada?

- Hum, eu acho que sim, deixa-me pensar… Ah! Vi uma revista já há algum tempo, e não me lembro em qual foi, provavelmente foi numa daquelas que adora fazer uma tempestade num copo de água, onde me apanharam sozinha no centro comercial, e especialmente naquela momento eu estava mais cabisbaixa, é natural que não tenha que andar pelos corredores do shopping histericamente feliz… Pronto e então puseram como título “Joana sofre por amor” ou “Joana abalada por amor”, era qualquer coisa do género, e diziam que eu supostamente tinham acabado o meu relacionamento com o Pedro Morgado, que por acaso é o meu melhor amigo e também o meu agente… Enfim, fizeram uma novela em volta do assunto por já termos sido vistos imensas vezes juntos e cheguei a comentar isto com ele e rimo-nos imenso à custa do assunto! – voltei a rir-me recordando aquele episódio, e Catarina  voltou a acompanhar-me na chacota

- Sabemos que ainda estás a estudar… Tens outros sonhos para além desta carreira? Foi sempre isto que quiseste ou tinhas outros sonhos em criança?

- O que eu queria ser em menina era bailarina, e foi o meu avô que me abriu caminho para esse sonho… Inscreveu-me no ballet clássico e andei lá cerca de sete anos, mas acabei por não seguir por esse caminho, primeiro porque não suporto muito bem a dor e então no ballet é muito rigoroso, há muita disciplina e como eu sempre tive os pés assentes na terra, resolvi seguir os passos da minha mãe e cursar Direito, algo que sempre me fascinou e seguir também no caminho da moda surgiu ali no meio, era uma coisa que eu queria muito e adoro fazer.

- E como está a ser o teu dia-a-dia?

- A azáfama de sempre… Estive duas semanas fora em Madrid e Londres, em trabalho, e há coisa de um mês estive em Punta Cana a gravar um anúncio… E ando assim, a aproveitar o máximo dia de férias que vou tendo antes que chegue mais um ano de faculdade.

- Ainda bem que te referiste a Punta Cana porque era o que eu ia mencionar a seguir… Fala-nos um pouco desse trabalho que fizeste lá, como foi a experiência?

- Foi uma óptima experiência, talvez das melhores que já tive… Ter sido escolhida para representar uma marca mundial e trabalhar com uma equipa fantástica, ainda para mais naquele paraíso que são as Caraíbas, foi um grande privilégio. – a simples tendência de tocar naquele assunto referindo apenas o melhor dele, fez-me recordar os dissabores que este também me trouxera

- E tens ideia de quando é que esse anúncio sai cá em Portugal?

- Vai depender de quando sair também o produto, como é óbvio, mas tenho ideia que eles me disseram que talvez para o final do ano já esteja disponível cá e com isso o anúncio também vai estrear…

- E que conselhos darias a quem quer começar uma carreira de manequim?

- Conselhos? Acho que ainda não me sinto com capacidade de dar muitos conselhos, falo pela minha experiência. Sobretudo porque hoje em dia vulgariza-se muito o ser manequim, o ser modelo, porque parece ser mais fácil de acessar do que realmente o é. Acho que as pessoas sem dúvida alguma devem ter paixão, e quando se tem paixão por algo devesse lutar por isso, conseguir a formação que tiver ao alcance e tentar entrar no mercado de trabalho, sem desistir, com humildade sempre, com garra, vontade de vingar e sonhem… com os pés assentes mas sonhem.

- Desejos que tens para o futuro?

- Desejos para o futuro… Os meus desejos passam por em primeiro lugar ser feliz, ser feliz é o objectivo principal, a minha família, amigos e todas as outras pessoas, a felicidade e tudo o que lhe seja inerente, é o principal. – desejei, mesmo sabendo que o meu poço de felicidade não estava mais comigo, não me fazia mais feliz



***    


- Joana, muito obrigada pela tua disponibilidade e colaboração, foi um prazer trabalhar contigo! – depois da conclusão do trabalho, faltou rematar com os acertos de uma despedida breve com a simpática Catarina

- O prazer foi meu! – voltámos a trocar dois beijinhos logo depois de ela me acompanhar até à saída

- Quando tivermos as fotografias prontas, eu entro em contacto contigo para que as possas ver antes da publicação!

- Ok, muito obrigada! – agradeci uma vez mais, na demanda de regressar à simplicidade do meu dia-a-dia

Saí pelos mesmo portões por onde entrei, de acesso directo ao jardim, e em passadas serenas que não se apressavam em correr para lado nenhum – porque já não tinha efectivamente para onde correr –, as minhas sandálias soquearam o asfalto do passeio que engendrava o caminho de volta ao meu carro.
Fizesse o que fizesse, percorresse os caminhos que percorresse, o meu dia acabaria sempre da mesma maneira… Sozinha de regresso a casa. Era assim a rotina da minha vida e não havia muito do que eu pudesse ainda fazer para alterar o seu ciclo.
Num suspiro de intransigente fastio, rodei a chave na ignição e esperei que o meu veículo me levasse por trilhos menos morosos dos que eu já havia percorrido.
Aquela era a hora de ponta e o trânsito da enorme Lisboa encontrava-se descomunal, travando-me consigo nos acessos por largos e acentuados minutos, que se não fosse a música de rádio que passava no carro, a irromper pelo marasmo da espera, eu iria facilmente entrar numa onda de desespero.

- “Some people want it all, but I don't want nothing at all/ If it ain't you baby, If I ain't got you baby/ Some people want diamond rings, some just want everything/ But everything means nothing If I ain't got you…” – o meu telemóvel tocou inesperadamente no suporte junto do tablier, permitindo-me por esse motivo atender a chamada em altifalante

- Estou sim? Pedro? – inquiri na incerteza eminente de estar a falar com o meu melhor amigo, pois os meus olhos fugiram instantaneamente do ecrã do meu telemóvel para pousarem na auto-estrada que retomara o seu movimento, não me permitindo ver com clareza o nome que surgira no visor

- Olá minha jóia! – o seu tom bem-aventurado de uma disposição levitada, forçou-me a um sorriso que sobressaiu em meus lábios entre a máxima naturalidade

- Hum… Estamos tão bem dispostos hoje…

- Se fosse só hoje… Quando é que me viste mal disposto, diz lá? Nunca, nunquinha! Eu estou sempre de bom humor!

- Vi-te mal disposto quando perdemos o campeonato…

- Oh, tá bem… Mas isso não conta, tinha motivos suficientes! – desta feita foi um tom de voz mais rezingão que se apoderou do seu palavreado, e isso ressentiu-se em duas breves e distintas gargalhadas que soltei

- Hum… Mas então, estás bem?

- Estou… Cheguei agora da praia com a Ana, estava a precisar de dar um mergulho e apanhar sol…

- Pois, boa vidinha, é o que é! – espicacei num timbre aveludado, que assegurava tratar-se apenas de uma pequena picardia que entre nós era bastante frequente

- Também mereço, então! Pensa que é só a menina que tem direito a férias e a descanso? Essa é boa!

- Férias e descanso ponto e vírgula, que aqui a menina hoje teve que…

- Ah, é verdade! Como é que correu lá aquilo da revista? Sempre foi esta tarde, não foi? – atropelando-me nas palavras, Pedro não conseguiu esperar que eu acabasse de falar para reclamar pela sua vez, que chegou mais cedo do que o esperado

- Sim… Correu tudo bem, eles foram super simpáticos comigo! – afirmei, relembrando sucintamente o trabalho que se prolongou durante toda a tarde, mas que marcara um resultado positivo e satisfatório a todos

- Ainda bem… E tu, pequenina, como é que estás?

- Bem… acho. – respondi movida pela indeterminação em que o meu coração se encontrava a todos os minutos, aprendendo a viver com as saudades que jamais poderiam voltar a ser extintas pela pessoa que ainda o guardava junto do seu… ou assim eu pensava – E… Já soubeste das novidades?

- Das novidades? Quais? – ele sabia, não sei explicar como mas simplesmente eu sentia que ele sabia do que eu falava, e então um silêncio apaziguador refastelou-se entre a nossa conversa

- Por favor, Pedro… De certeza que já sabes! O casamento do Ruben… - só eu sei o quanto me custou conjugar aquelas palavras na mesma frase, especialmente quando esse frase não me incluía a mim

- Ah! O casamento do Ruben… - notei que ele não queria falar sobre o assunto, talvez para evitar que eu saísse magoada, e por isso não o forçou, mas mais magoada do que eu já estava… era um pouco impossível – Ah… Sim, já sei! Aliás, estive com ele na praia, encontrei-o com a Inês e fizeram-nos logo o convite!

- Vais? – foi unicamente a pergunta que procurei nele ser esclarecida

- Vou. Sou amigo dele, conhecemo-nos há anos e a Ana conhece bem a Inês… Não havia razões nem motivos para não aceitarmos ir.

- Estou a ver… - acordei, e agradeci mentalmente a Deus por ele não me poder ver, porque a pouco e pouco as lágrimas já começavam a formar-se nos meus olhos… cansados de carregar tamanha dor

- Também soube que aceitaste ser a madrinha dele…

- Sim, aceitei. – disse somente, mas receando ouvir uma advertência da parte dele, que afinal, acabou por se confirmar às minhas expectativas

- Porquê, Joana? – era aquela a pergunta mais óbvia e para a qual eu tinha mais dificuldades em responder, preferia guardar as justificações só para mim, justificações que ninguém entenderia e dificilmente seriam aceites, mesmo por Pedro – Não vês que só vai servir para sofreres ainda mais? Porque é que fizeste isso?!

- Porquê não fazê-lo? Afinal já não somos nada um ao outro… Eu tenho que enfrentar isto, tenho que conseguir ultrapassar, e curar, virar as costas não vai resolver nada…

- Curar? Oh Joana, falas do amor como se fosse uma doença!

- Eu sei que não é, mas magoa, dói e faz-me sofrer como se fosse!

- E tu só estás a contribuir para isso indo a esse casamento, não percebes? – ele só queria o meu melhor, não podia censurá-lo, mas o melhor para mim naquela situação era esquecer o Ruben e provar isso quando o visse no altar ao lado de outra mulher, a trocar alianças e proferir um compromisso eternizado por um “sim, aceito”… e não sentir mais aquela vontade de chorar por tê-lo perdido

- Não vou pedir que me entendas, Pedro, mas gostava que aceitasses a minha decisão, tal como eu a aceitei ao tomá-la! – pedi-lhe, tentando reunir para a mim toda a calma e força do mundo, que precisava para seguir com a minha vida em diante, momento após momento

- Desculpa, mas eu não consigo… É demais para mim ver-te nesse estado, de rastos… Tu não mereces estar a passar por nada disto, muito menos sozinha.

- Vai passar, Pedro… Eu vai passar, mais tarde ou mais cedo… - não poderia haver melhor remédio que o tempo, só ele me ajudaria a sarar as feridas do coração, as que não custava quase nada fazer mas que tardavam tanto a remediar



***



Cheguei a casa ao final da tarde, já o sol se punha no horizonte e as horas convalesciam para a noite morosa, que já não tardava em cair.
A primeira coisa que fiz foi mudar de roupa e colocar-me à vontade para andar pela casa, visto que já não iria sair mais naquele dia, e o cansaço permanente e a pouca vontade de voltar a ver pessoas, contribuir em muito para passar o meu serão sozinha… Provavelmente só na companhia da televisão que veria até adormecer e nada mais.
Fui ao meu quarto e na permuta da indumentária que trazia, viste uns boxers largos na perna e uma camisola de alças, os pés optei por deixá-los despidos – sempre tivera o hábito de andar descalça pela casa – e atei o cabelo num coque bem preso ao cocuruto da cabeça. Resolvi ir à cozinha adoçar a boca com um suminho de laranja, retirei um copo do armário e antes de abrir o frigorífico para retirar a jarra, deparei-me com um bilhete fixado a íman na porta.


“Menina Joana,

não resisti em passar por cá para lhe trazer um empadão de carne como eu sei que a menina gosta, deixei no forno é só aquecer. Trouxe-lhe também umas pecinhas de roupa que se deve ter esquecido, umas revistas e o jornal do dia, caso não tenha comprado.
Coma tudo, não quero que agora longe da minha cozinha se desleixe na sua alimentação, e não se esqueça de ir a casa dos seus avós fazer-nos uma visitinha.

Um beijinho, Rosa”


Senti-me mimada e acarinhada por todos aqueles que gostavam de mim e faziam os possíveis para que eu me sentisse bem, e era esse apoio que ainda me permitia rasgar os lábios e sorrir, mesmo quando a vontade não era muita.
Como a fome ainda não me tinha ressaltado o estômago, fiquei-me somente pelo sumo que levei comigo para beber lá fora, no jardim das traseiras. Quando passei pela sala para alcançar o exterior pelas portas corridas de vidraça, reparei no pequeno molho de três ou quatro revistas trazidas pela querida Rosa e deixadas na mesinha de apoio ao lado do portátil. Peguei nelas e levei-as para o alpendre, onde me sentei à mesa redonda em ferro, apanhando a brisa fresca de Verão nas faces e predisposta a começar a minha noite com a leitura trivial e desconstraída da marketing português, esperando encontrar entretenimento que me ajudasse a passar o tempo.  

- Ora vamos lá ver o que há aqui… - debitei  brandamente para o ar, dando o primeiro gole no meu sumo para me agarrar depois à revista que surgia no topo de todas, e fiz dela a primeira a enxergar 

As primeiras duas revistas que comecei por folhear falavam primordialmente sobre moda e saúde, mas foi ao dar uma passagem de olhos pela terceira que se fazia corresponder à imprensa cor-de-rosa, que fui quase que obrigada a reter toda a minha atenção ali, recordando o meu ponto de quebra pela notícia que o meu coração me guiou a ler.

“Ruben Amorim volta a realizar sonhos” – li em letras maiúsculas o fulcral do artigo, seguido de uma citação que veio dar nome ao subtítulo – “É uma alegria enorme saber que os consegui fazer felizes…”

“Cumprindo a missão de realizar sonhos, Ruben Amorim, que deu nome e vida ao projecto ‘Sorrisos Perfeitos’ (em parceria com a Nova Gente), voltou a fazer sorrir os mais novos num passeio a cavalo muito especial.
Três crianças do Centro de Acolhimento ‘Casa das Cores’, uma instituição que alberga crianças vítimas de negligência e maus-tratos, tiveram o melhor presente que poderiam receber quando souberam que iriam ver o seu sonho concretizado através da ajuda e apoio do jogador do Benfica.
A pequena Mafalda de 5 anos, juntamente com Henrique e Tomás de 7, foram com o futebolista conhecer o Centro Hípico da Quinta da Marinha, em Sintra, onde no picadeiro puderam dar os seus primeiros trotes e galopes a cavalo.
“Nós gostamos muito do Ruben, ele fez acontecer uma coisa que queríamos muito e ficámos logo amigos!” – garantiu Mafalda, que não largou o colo do jogador durante a maior parte do passeio. Fora das quatro linhas o médio continua a surpreender em missões de solidariedade, e a Nova Gente que os acompanhou neste dia, garante que foi uma experiência enriquecedora e certamente inesquecível tanto para os pequenos como para Ruben Amorim, que partilhou connosco a felicidade que o preencheu: “É incrível como estamos sempre a aprender com as crianças, e eu hoje aprendi muito com eles… É evidente o carinho e amor de que carecem e foi uma satisfação e privilégio muito grande para mim, poder dar mais cor à vida deles. São uns miúdos adoráveis e merecem tudo de bom.” O final da tarde completou-se com uma ida aos gelados que encheu a barriga e satisfez os prazeres do coração de todos, levando o jogador a acrescentar: “É uma alegria enorme saber que os consegui fazer felizes Ver o sorriso deles fez o meu dia valer a pena.”

Mesmo que não pudesse demonstrá-lo, não pude deixar de sentir um enorme orgulho por ele, por continuar a ser um exemplo que muitos deveriam seguir, a brindar com simplicidade os desejos dos meninos que não têm possibilidades de ver os seus sonhos prescritos na realidade, por infelicidades da vida.
Sabia que aquele era o Ruben, o meu Ruben, genuíno, tal como também sabia que a partir dali, seria apenas através daquelas circunstâncias e à distância de revistas e jornais, que iria continuar a manter contacto com ele… o contacto mais impessoal de todos.
    




Olá, queridas leitoras! :)
Venho trazer-vos um novo capítulo da história, espero que gostem e deixem
os vossos comentários, muitas e novas emoções estão ainda para vir! 

Beijinhos a todas,
Joana :)