quarta-feira, 19 de junho de 2013

Capítulo 14 - Quando for tarde demais...

Acabou… simplesmente. Foi nesta certeza que me fui tentando mentalizar, a cada todos os dias, depois do último confronto com Ruben.
Tinha forças suficientes capazes de me fazerem aguentar o dia, capazes de me fazerem enfrentá-lo e seguir com a minha vida da melhor maneira que conseguia, mas com a chegada da noite vinha também aquela solidão, o meu mundo agora reduzido somente a mim, desmoronava e tudo parecia estar errado. As saudades que sentia dele eram mais fortes do que tudo e acabavam, de uma maneira ou de outra, por vir rebentar em meu peito e então eu chorava, chorava muito horas a fio até o cansaço e exaustão me vencerem por completo e levarem consigo, e apenas por alguns momentos, todo o meu pesar. E para ocupar minimamente esse vazio que ele tinha deixado na minha vida inteirei-me da minha agenda apertada para aquele Verão e entreguei-me unicamente ao trabalho… Era para ele que vivia e foi por ele que marquei presença num lugar e noutro do país antecipando a minha jornada a algumas cidades da Europa.
Mas foi difícil, não vou mentir… Foi difícil para mim aceitar aquela nova realidade, pois em parte fora por minha culpa – porque alguém tinha de ter culpa – de que a minha relação com Ruben tenha chegado a este fim, mas agora era já tarde demais para voltar atrás e escrever um novo começo.

- Bom dia, avó linda! – saudei com um sorriso nos lábios ao atravessar as portas da sala de estar para me juntar a ela na primeira refeição do dia

- Bom dia, meu amor! – despoletei-lhe um beijo carinhoso no topo da cabeça ao cruzar a cabeceira da mesa e puxei uma cadeira para também me sentar e tomar o pequeno-almoço – Já de pé? Contava que ainda ficasses a dormir mais umas horinhas… Dei conta de ontem teres chegado tarde…

- Pois mas já não tinha muito sono, e para além disso ainda tenho de ir tratar de alguns assuntos antes do voo desta tarde. – argumentei, relembrando sucintamente os meus planos traçados para aquela manhã, agora que a poeira parecia ter assentado minimamente, e estendi um guardanapo de pano sob o meu colo

- Ainda ontem chegaste do Porto e hoje já estás pronta para ir para Madrid… Dessa maneira vais ficar esgotada num instante, filha! – relembrou num relance os últimos dias que eu tinha vivido agitadamente, e que só por isso agradecia a Deus por tal me manter ocupada o suficiente para não me isolar no meu canto… algo que infelizmente eu ainda tendia a fazer

- É o meu trabalho, avó, e até ao final do Verão vai ser assim. – disse solenemente, e do centro da mesa alcancei a caixa de cereais de frutos vermelhos que iria adicionar à minha taça alagada com uma pródiga camada de iogurte natural caseiro, para uma nutrição rica em fibras – Mas com o começo da faculdade prometo abrandar o ritmo, pelo menos já não vou andar a correr de um lado para o outro!

- Tu vê lá, Joana! Não andas a dormir nada de jeito e já nem te vejo a alimentar em condições…

- Não se preocupe, avó, eu sei tomar conta de mim… Já não sou nenhuma bebé! – evidenciei com um sorriso no rosto e levemente passei os dedos nas costas da sua mão que ela mantinha sobreposta à mesa, de maneira a tranquilizar aquela sua preocupação natural de segunda mãe – Então e o avô? Já saiu? – inquiri ao notar a ausência da figura imponente e masculina daquela casa, que se bem conhecia já teria ido tomar domínio do negócio da família

- Já, já saiu… Até parece que não sabes como é o teu avô… Gosta de ser sempre o primeiro a entrar e o último a sair daquele hotel!

- Ele é que não abranda o ritmo nem por nada, não sei onde é que vai buscar tanta energia!

- Nem eu sei, minha filha, nem eu sei… - aquela sua interjeição a que eu tinha dado início, fizeram rebentar em nós suaves e breves gargalhadas… das primeiras que eu dava em dias

- É verdade, avó, há uma coisa que tenho andado para lhe dizer… Queria ter falado consigo há mais tempo mas como ainda não tinha tido oportunidade, e visto que estamos a ter agora este tempinho…

- Claro, minha filha, diz… - ela deu um curto trago do seu café fumegante e preparou-se inteiramente para me ouvir

- Lembra-se de eu lhe eu ter dito quando vim aqui para casa, que esta era uma situação temporária, que logo que conseguisse voltar a instalar-me em Lisboa e resolver algumas burocracias, ia viver por minha conta… Lembra-se disso, não lembra, avó?

- Sim, lembro… Mas porquê, estás a pensar em mudar-te? Sabes que podes ficar aqui o tempo que quiseres e precisares, sempre te disse isso e a minha intenção mantém-se desde então! – proferiu afavelmente, assegurando-me do porto de abrigo que eu sempre iria ter

- Eu sei, avó, mas sinto que já é altura de dar este passo! Já assentei, as coisas estão calmas, a minha vida está estável… - enunciei niveladamente, mas referindo-me apenas – omitindo portanto à minha avó – ao lado financeiro e profissional da minha vida, já que o meu lado sentimental estava resumido a destroços – Penso que assim que voltar de Londres esteja em condições para começar logo com a mudança!

- Vejo que estás decidida e já tens tudo pensado… – ela mostrou-se um sorriso triste, talvez por, em meses desde que cheguei, ter de me deixar voar para fora do seu ninho – Mas e já sabes para onde vais? Vais arrendar um apartamento?

- Hum, hum, não… Nada disso! – neguei rapidamente, pois os meus projectos eram outros – Estive a pensar e vou voltar para a casa onde sempre vivi… Vou voltar para a casa dos meus pais!

Da maneira como olhou para mim deu-me a entender claramente que ficara surpreendida com a tomada da minha decisão, não seria de esperar que eu estivesse disposta a voltar à casa que me viu crescer… Não depois de todas as recordações que esta guardava e, talvez, mantinha ainda vivas.

- Tens a certeza que é isso que queres fazer…? Ficar naquela casa?

- Claro, claro que tenho! Foi lá que eu cresci, é lá que eu tenho as minhas raízes… Não faz sentido deixar a casa ao abandono só porque os tempos mudaram e as circunstâncias agora são outras… As últimas lembranças que eu tenho dela podem não ser as melhores, mas fui muito feliz lá e quero tentar recuperar isso!

- Se a tua vontade é essa, então a casa é tua! O teu pai nunca mais lá entrou desde que se foi embora e inclusive já falou com o teu avô em querer vendê-la, mas visto que queres lá ficar…

- Quero, avó, é lá que eu quero ficar! – gracejei, anuindo qualquer outra hipótese em instalar-me num outro lugar que não aquele

- Pronto então! – aquela sua interjeição foi o encerrar de um assunto que não voltaria a ser contestado – A casa continua em óptimas condições, de vez em quando a Maria tem ido até lá para não estar muito tempo fechada e dar um jeitinho… Lavar o chão, limpar o pó, abrir as janelas para arejar um pouco… Quanto a arrumações não tens de te preocupar!

- Pronto, mas talvez dê um jeito na decoração… Mudar algumas coisas!

- Isso já é contigo, faz como achares melhor… – ela sorriu-me carinhosamente e eu retribuí o mesmo sorriso de volta

- Bem… É melhor então eu ir andando, que ainda tenho umas coisas para fazer e está a fazer-se tarde! – olhei rapidamente o meu relógio de pulso e verificando o ligeiro aperto das horas, acabei de beber apressadamente os restantes três goles do meu sumo e depois de limpar os lábios ao guardanapo, levantei-me e voltei a recostar a cadeira à mesa

- Senta-te mais um pouco, Joana… Termina pelo menos o teu pequeno-almoço antes de ires… Mal tocaste na comida, filha! – uma vez mais a sua carga de responsabilidade que tinha sobre mim alterou-a com a luzinha vermelha da minha saúde e bem-estar, e isso reflectiu-se no seu pedido, que eu indubitavelmente não dei relevância

- Até logo, avozinha! – dei-lhe um beijinho na bochecha, que eu esperei vir a ser a melhor recompensa pela minha desobediência à sua vontade, e quando alcancei a minha mala que tinha deixado pousada sob o pequeno móvel, saí direccionada até ao meu carro, que me iria levar numa viagem de pouco mais de uma hora




***  



Encorajei-me com um suspiro depois de trancar as portas do jeep e começar a caminhar, pois sabia quer iria precisar de ter calma e um pouco de fôlego para o momento que se seguia e o qual eu própria decidiria enfrentar, movida não por obrigação mas por precisar de fazê-lo, pois só assim iria conseguir aliviar o peso dos meus ombros e o transtorno da minha alma, para ter um pouco mais de paz.

- Joana… - a figura, para mim muito saudosa, da mãe de Ruben, prostrou-se passivamente na minha frente quando veio abrir a porta da sua casa e, inesperadamente, me encontrou a mim no lugar de uma visita não aguardada

- Olá, Dona Anabela! – saudei simplesmente, sem saber o que melhor poderia dizer

- Oh minha filha! – os seus olhos brilharam quando tiveram a certeza absoluta que era eu, e não demorou nada até aos nossos corpos se abraçarem, extravasando o sentimento quase maternal de que partilhávamos

Confesso que me surpreendeu aquela hospitalidade e carinho, pois cheguei até a recear a sua atitude quando me visse, por algo que o Ruben lhe pudesse ter dito no que respeita o fim da nossa relação, e o quanto ela poderia ter tomado partido contra mim. Mas isso, ao contrário do que eu vinha preparada para contar, não aconteceu… A mãe de Ruben ladeava-me num abraço aconchegante, sem qualquer antipatia, certamente feliz por eu estar ali. 

- Como estás? Não imaginas como fico contente de te ver… – as suas mãos delicadas consolaram o meu rosto e naturalmente os meus olhos rasaram em lágrimas, que por muita força de vontade não eu não deixei que se precipitassem

- Vim vê-la, falar consigo… Tinha que vir!

- Então vem, minha filha, entra… - ela tomou rapidamente controlo da situação e abrindo espaço junto à ombreira da porta, deu-me carta branca para ingressar na sua casa

- Com licença… - pedi num aceno cordial, não absolvendo da boa educação e num simples e instintivo gesto mirei toda a sala de estar e as restantes divisões que se anexavam em meu redor, deslindando o que a minha memória me levara a esquecer nos três anos que se passaram

- Bela, eu tenho de ir… Já está quase na hora da minha aula! – de repente surgiu uma voz, uma voz feminina que não me era totalmente indiferente e que cheguei mesmo a descodificar sem quaisquer dificuldades logo depois

- Paula? – detive-me por instantes quando o meu olhar pousou na zona dos sofás, que era então ocupada pelo espectro de alguém que me era muito bem conhecido

- Joana, és tu? – ela olhou-me num rompante misericordioso e inesperado, de quem não acreditava no que vi-a

- Oh Paulinha! – o meu coração amoleceu num sorriso de emoção, por ao fim de tanto tempo voltar a encontrar a guarida de uma amiga com quem perdera contacto desde a minha partida – a namorada de Mauro 

- Oh, és mesmo tu! – fui eu que tomei iniciativa e lancei-me calmamente até ela em alguns pares de passos para a abraçar – Meu Deus, há quanto tempo!

- É verdade, Paulinha… Há quanto tempo, que saudades! – partilhámos dois beijinhos na face e depois predispusemo-nos à mirada uma da outra, para que nos pudéssemos observar mutuamente

- Mudaste tanto… Estás cada vez mais bonita! – a sua mão palmeou suavemente a minha face e um sorriso meigo foi compartilhado entre nós

- Se falarmos em mudanças temos que falar de ti! – ela gargalhou no segundo que descobriu ao que eu me referia e eu vi-me tentada a acompanha, ao olharmos as duas a sua barriga que tinha sofrido uma drástica alteração – Está linda, nunca pensei que já estivesse tão grande…

- Nunca pensaste? – talvez a minha escolha de palavras não tivesse sido a melhor e por isso ela tenha ficado ligeiramente confusa

- Sim… O… - fui apanhada no meu próprio deslize e arrependi-me no mesmo instante em que o suscitei, mas não tinha como emendá-lo – … O Ruben já me tinha falado da tua gravidez… - lembro-me perfeitamente de ele ter mencionado mais que uma vez na da gravidez da cunhada, em São Francisco, referindo-se também ao bebé que estava para nascer – e o motivo o qual me fizera mostrar um sorriso triste – como “o nosso sobrinho”

- O Ruben contou-te… - se tentou disfarçar, não conseguiu, pois eu vi bem o olhar de pena que ela trocou com a Dona Anabela, mas que eu parti do início em não dar muita importância… a última coisa que queria é que tivessem pena de mim

- Fico muito feliz por vocês, espero que venha perfeitinho e com muita saúde! – senti-me tentada a tocar na barriguinha dela que anunciava claramente as últimas semanas da gestação, mas contive-me, não queria causar nenhum constrangimento a mim e muito menos a ela

- Há-de vir, se Deus quiser! Vai ser recebido com todo o amor do mundo.

- Tenho a certeza que sim… E Deus há-de querer, Paulinha. – disse-lhe com tanta sinceridade quanto lhe desejava o melhor, para aquela que deve ser a fase mais bela e incrivelmente especial na vida de qualquer mulher… a maternidade

- Bem, vocês devem querer conversar e eu também tenho de ir… Bela, obrigada pelo pequeno-almoço e pela companhia, eu telefone-lhe depois, está bem?

- Paula, se é por minha causa não tens de ir já… Eu posso voltar noutra altura!

- Não, não é nada disso… - ela apressou-se a negar a minha infundada suposição, tranquilizando-me com um sorriso ameno e prosseguiu com um explicação que contudo, eu não pedi – Mais daqui a pouco tenho uma aula de preparação para o parto e não me quero atrasar!

- Logo à noite estou a contar contigo e com o Mauro para o jantar… - proferiu a Dona Anabela, prezando sempre a aproximação e aconchego daqueles que amava

- Claro, pode contar connosco que estaremos cá! – ela consentiu num cordial aceno com a cabeça para logo depois voltar a dirigir-se a mim, antecipando uma despedida – Gostei muito de te ver, Joana! Entretanto se não nos voltarmos a encontrar antes do meu parto, encontramo-nos depois… Independentemente de tudo quero que conheças o Gabriel!

Gabriel… Iria chamar-se assim o mais aguardado membro do clã Amorim. 
Ela acariciou a sua barriga e sorriu-me num gesto luzente de gratidão. Quando nos voltámos abraçar, inconstantes de um reencontro incerto, senti os olhos da Dona Anabela pregoados a nós… Tal como eu e Paula, e se bem a conhecia, ela deveria estar também emocionada com aquele momento e com as resultantes circunstâncias que o compunham.
Elas caminharam até à porta, eu deixei-me permanecer e segui-as simplesmente com o olhar… Acenei a Paula uma última vez e esperei que a mãe de Ruben voltasse para junto de mim para ter-mos então uma conversa que estava destinada a acontecer, e a qual somente me poderia voltar a dar alguma paz de espírito.

- Então, Dona Anabela… Como é que está? – comecei logo por dizer assim que nos sentámos no sofá da sua sala, pois não pensara em iniciar um dialogo que não fosse daquela maneira

- Eu cá estou, minha filha… Uns dias melhor, outros nem por isso… É como Deus quer! - um sorriso abrasador e um olhar bondoso que eu sabia reconhecer nela, ameigaram a sua figura maternal e permitiu que os nossos laços afectivos voltassem a ser reconstruídos – Mas e tu? Eu quero saber de ti… Como é que tens andado, o que tens feito?

- Eu tenho andado cheia de trabalho, que felizmente não me tem faltado e vai dando para me manter ocupada… - isso era sem dúvida a grande vantagem que eu tirava da minha agenda preenchida, pois as horas lotadas que passava a fazer aquilo que mais gostava, eram o suficiente para manter a minha cabeça livre de pensamentos desalmados 

- Hum, mas isso é óptimo!

- É, é de facto! E a propósito disso tenho voo pela hora do almoço para Madrid, vou estar quinze diazinhos fora e por isso quis vir até aqui antes de ir…

- Fico um pouquinho mais contente, sabendo que te vais distraindo aqui e ali, e pelo sucesso profissional que estas a ter, mas como estás? Estás bem?

- Sim, estou… Não trago o maior sorriso do mundo na cara, como gostava, mas sim, estou bem. – aquela minha tristeza permanente não tinha um botão para desligar, como é óbvio, mas sempre que a situação o pedia eu esforçava-me por compor o melhor sorriso e disfarçar o meu lado mais atormentado… embora esse esforço nem sempre resultasse

- Ora, eu ando cá há mais tempo que tu, és quase como uma filha para mim e conheço-te melhor do que aquilo que tu pensas… Sabes que não precisas de me esconder nada, o Ruben não está aqui para nos ouvir…

O simples mas doloroso facto de ela ter assestado à tona da conversa o nome do filho, o nome do homem que eu amava, foi como se setas me tivessem sido lançadas aos joelhos e eu perdera assim as forças de sustento das minhas pernas, e dei graças silenciosamente por estar sentada naquele momento, porém a seta lançada ao meu coração, essa, não tinha remédio possível capaz de me libertar daquela dor que me causara.
Senti-me quebrar, dispersar do verdadeiro motivo que me levara ali e conseguir pensar apenas na ausência de Ruben e o quanto ela me consumia por dentro, me fragilizava e fazia vacilar a cada passo findado da longa caminhada da minha vida.

- Está a ser difícil seguir com a minha vida sem o Ruben, é verdade e não o nego, mas infelizmente não há mais nada que eu possa fazer quanto a isso…

- Talvez haja, baixar os braços e desistir é que não é a solução… - ela tentou acender um rastilho de esperança para o reatar da relação, mas ao que parecia esta já não tinha pólvora para arder

- Não fui eu que desisti, Dona Anabela… Fiz o que podia e mesmo assim não foi o suficiente.

- Ouve, Joana, eu não sei o que se passou para vocês chegarem ao fim do que em tão pouco tempo tinha recomeçado… O Ruben pensa que o deixaste e… - temi que ela começasse com um vale de injúrias em minha oposição, apesar de acreditar que não seria capaz de o fazer, mas mesmo assim sobrepus as minhas palavras às suas

- Eu sei, eu sei perfeitamente o que Ruben pensa e foi exactamente por isso que eu vim até aqui falar com a senhora… Eu não queria que ficasse apenas com uma versão da história e tirasse uma ideia errada de mim e do que aconteceu para eu ter estado tantos dias sem dar quaisquer notícias, principalmente sem ter dito nada ao Ruben…

- Eu não preciso que me digas nada, que me dês justificações do que aconteceu, até porque isso é um assunto que só a vós diz respeito, mas basta-me olhar para ti para saber que não farias isso ao meu filho… Os teus olhos não te deixam mentir!

- Parece que os meus olhos ao Ruben já não dizem nada… - indaguei num murmúrio desfalecido, a sua mão delicada voltou a conhecer a pele do meu rosto, e pela primeira vez senti os seus dedos despenderem sobre a minha face as lágrimas que silenciosamente tomaram vantagem de mim

- Tu sabes como ele é, minha filha… Ele teve medo de ficar sem ti outra vez, pensava que te tinha perdido tal como há três anos… - antes que aquela conversa começasse a tomar caminhos acidentados pela aquela sua última interjeição, que ela terá feito com certeza sem a intenção de me ferir, procurei esclarecer de imediato as actuais circunstâncias, que em nada se assemelhavam às ocorridas no passado

- Eu só o deixei nessa altura porque fui forçada a fazê-lo e a Dona Anabela sabe isso! Por vontade própria nunca o faria, e muito menos agora! – relembrei sucintamente e deixei-me choramingar, contrapondo a exaltação que seria suposto eu entrever pelo desalento que me magoava

- Porque é que vocês não tentam de novo? Porque é que não conversam outra vez, agora que os ânimos já estão mais calmos…

- Não, Dona Anabela… Ele não está disposto a ouvir-me e sinceramente eu não estou disposta a voltar a rebaixar-me para ele. Por muito que me custe dizê-lo, acho que agora já é um bocadinho tarde… para nós.

- No que toca ao amor, nunca é tarde demais para lutar e ser-se feliz…

- O Ruben não confia mais em mim, foi ele mesmo que mo disse, e quando não há confiança no amor, então eu não sei de que serve lutar… - a minha voz tremeu de retaliação por ter sido obrigada a proferir as palavras que o meu coração entristecia sentir

- Custa-me tanto ver-vos assim, ainda para mais sabendo que gostam um do outro, que se amam… Não mereciam estar a passar por tudo isto, quando já tiveram que passar por tanto… Ficaram tanto tempo longe um do outro para agora, depois de conseguirem colocar o passado de parte, voltarem a seguir caminhos diferentes…

- Se o passado nos fez seguir caminhos diferentes, talvez não devêssemos ter voltado a juntá-los. – talvez aquele, no meio de toda a história, fosse o facto mais verdadeiro que eu primeiro não quis ver mas que por si só se tinha tornado bastante evidente

- Quem me dera ter as palavras certas para te dizer, meu amor, mas não tenho… - sob o seu colo as suas mãos acolheram a minha como um sinal de lamento, guarnecido de um ar pesaroso o qual o olhar de Dona Anabela ilustrou na perfeição 

- Agora… Bem, agora resta-me erguer a cabeça e seguir enfrente, esquecer tudo o que me faz mal…

- Com isso queres dizer que vais esquecer o Ruben? – a mãe dele olhou-me de um jeito e de uma maneira que só ela sabia, como se me lê-se, como se visse o meu verdadeiro interior e nele tudo o que de mais secreto guardava… podia adivinhar ela querer ouvir de mim uma segura negação, contudo eu não poderia mentir a mim mesma

- Para seguir com a minha vida não posso estar presa a ele, à memória dele, isso mais tarde ou mais cedo acabaria por me deitar ainda mais abaixo, acabaria por me arrasar… Tenho de pelo menos tentar esquecê-lo e recordar apenas que ele já foi o melhor de mim.

- Tens a certeza que é isso que queres fazer? – a minha resposta seria irremissível e não tardou a chegar 

- Não, não é isto que quero fazer, mas tenho alternativa?

A pergunta imposta por mim ficou interminavelmente suspensa entre nós, aguardando uma réplica que até ao final daquele nosso encontrou nunca chegara a ser dada, por muita pena não somente minha.
Por entre as lágrimas que ainda me banhavam o rosto mergulhando-o em profunda apatia, libertei um sorriso triste ao voltar olhá-la, o sorriso mais triste que tinha e encolhi levemente os meus ombros… assoberbados pela dor de uma perda que não tinha reparação possível.



***



- ¿Usted va a querer algo? – ouvi a hospedeira de bordo perguntar, numa simpatia e disponibilidade que por vezes chegavam a tocar os extremos da etiqueta que lhe era exigida pela companhia

Não lhe respondi no instante em que ela me dera oportunidade para falar e deixei que fosse Pedro e o meu segurança Alexandre, a fazê-lo primeiro.
Permaneci sossegada no meu canto a enxergar pela pequena janela do meu lado esquerdo, o crepúsculo da noite que assentara há somente umas horas. Passara os últimos cerca de dez dias em Madrid e agora, sobrevoando mais uma vez os céus, preparava-me para conhecer as Terras de sua Majestade e abraçar pela primeira vez a incomparável e encantadora cidade de Londres, e queimar assim a última fornada da semana de trabalho que me esperava.
Já estava mais calma, ainda que pouco, o tempo ajudara-me não a curar as feridas – pois tão cedo essas não iriam cicatrizar –, mas ajudaram-me porém a saber lidar com a dor que estas me proporcionavam sempre que os meus dedos não receavam em calcá-las, ao relembrar-me do que não devia. Como tal também já não chorava a toda a hora quando me deixava ir abaixo e perdia a vontade de tudo, e foi por muito apoio do Pedro e de todas as pessoas fantásticas que conheci nos dias passados, que aprendi a reconstruir um sorriso lindo e confiante na cara e encarar cada dia como se fosse o último.

- Joana, a senhora está a perguntar se queres alguma coisa…? – a mão do meu melhor amigo e agente tocou a minha perna ao chamar-me com insistência pela aquela que já era a segunda vez, de maneira a recolher a minha atenção que naquele momento estava em todo o lado menos ali – Joana!

- Hum? Ah… Não… No, yo no quero nada, gracias. – acordei em fim daquele transe sinóptico e interceptei a hospedeira loira de lábios pintados de um vermelho exagerado, e mostrei-lhe um sorriso que forcei apenas pela minha educação

- Voy entonces traer sus peticiones. – proferiu num tom agradável de voz, dirigindo-se aos rapazes e com um sorriso cortês voltou a deixar-nos – Com su licencia…

- E tu, oh chocinha… Não dizes nada? – Pedro meteu-se comigo, num timbre e atitude proeminente em me ver mais animada do que eu estava – Desde que entrámos no avião que não abres a boca…

- O que queres que eu diga? – perquiri com um sorriso que tinha tanto de recatado como de desafiador

- Tu é que sabes… Mas pensava que te iria ver mais entusiasmada, afinal sempre quiseste conhecer Londres! – ele tinha razão, viajar até à capital do Reino Unido sempre fora um dos objectivos que planeava concretizar e o que noutra altura me deixaria radiante, agora pouco me importava

- Mas eu estou entusiasmada…

- Hum, hum… Vê-se! Por dentro estás a rebentar de alegria e só não te pões a saltar em cima do banco de tanto entusiasmo, porque não seria esteticamente correcto fazê-lo! – ele ironizou cada palavrinha e mesmo que tivesse lutado contra isso não consegui deixar de soltar duas breves gargalhadas que eclodiram em meu peito pelo seu jeito engraçado e espontâneo de ser

Recompus-me no meu cantinho do banco e encostei a cabeça ao ombro de Pedro, fechando os olhos em seguida para tentar descansar na escassa hora que restava antes de voltar a pisar terra firme. Um arrepio aconchegante percorreu-me a espinha expandindo-se por cada membro quando senti os seus lábios cuidadosos despoletarem no topo da minha cabeça, a doçura e tranquilidade de um beijo, que me permitiu relaxar no mesmo segundo sem mais hesitações.

- Tens de ser forte e ultrapassar isso, pequena… - proferiu com a voz dissipada num sussurro que apenas eu pude ouvir, e que foi soprado até ao interior do meu ainda fragilizado coração

- Eu sei… - ciciei no mesmo tom, sabendo perfeitamente ao que ele se referia e o motivo o qual ainda mexia muito comigo, na verdade mais daquilo que devia e eu queria – Mas é tão difícil…

Era difícil de facto, depois de tudo ter de colocar uma pedra sobre o assunto e esquecer, contudo vivera os meus últimos dias e iria continuar a viver demovida por uma certeza eminente que eu mesma criara e a qual não iria quebrar: seguir com a minha vida em frente sem olhar para trás…  




Olá, meninas! :)
Aqui fica mais um capítulo da história!
Espero que gostem e deixem-me os vossos comentários, eles são um incentivo e uma motivação enorme para a continuação da escrita.

Beijinhos,
Joana :)



quarta-feira, 12 de junho de 2013

Capítulo 13 - Corações em silêncio (Parte III)

Com o rosto dominado por uma palidez de desmaio, apaguei o cigarro sob o cinzeiro que encontrei sobre a mesinha redonda do alpendre.
Vi o Ruben caminhar até ao sopé trazendo a menina no seu colo e subiu o pequeno lanço de escadas, aproximando-se vagarosamente sem perder em momento algum, contacto visual comigo. Inesperadamente ele travou o seu percurso que o iria levar até ao interior da casa e somente ficou ali, a ver-me, a enxergar-me, a olhar-lhe com um desprezo altivo e uma mágoa que eu consiga tocar e que me ardia por dentro, queimando-me os pulmões e deixando o meu coração em cinzas.

- Desculpa… - pedi-lhe com os olhos contornados de lágrimas, num timbre de voz melindroso que me falhara das cordas vocais

Despi-me perante ele ao assumir que tinha falhado, mas nem assim ele ponderou mostrar-me alguma piedade. Pensava que queria ouvir-me, que queria obsorver uma explicação pelo tempo da minha ausência… mas estava enganada. Ruben não procurava ali saber o que quer que fosse, muito menos saber de mim, e depois de me lançar um último olhar que chegara quase a atingir a arrogância, fustigou-se pela porta de entrada levando Sofia consigo a deixá-la olhar para trás e procurar-me, naturalmente confusa com um momento que não compreendera.
Senti-me diminuir, ficar pequenininha com o seu menosprezo como se entre nós não houvesse mais nada a dizer. Procurei apoio ao sentar-me no degrau superior das escadas, cheguei os joelhos ao peito e deixei-me chorar… Só conseguia chorar.

- Joana… - a sempre meiga e carinhosa voz de Adriana surgiu nas minhas costas, talvez tivesse vindo ter comigo pela chegada de Ruben e a minha conseguinte demora em voltar a juntar-me ao grupo – Oh pequenina… - apercebendo-se do meu estado só por ter dado conta do meu soluçar, ela veio sentar-se a meu lado e abraçou-me, colocando a minha cabeça sobre o seu ombro

- Ai, Adriana… - soltei num desabafar recatado, de quem carregava muita dor no peito

- O que é que aconteceu? O que é que ele te disse?

- Nada… Não me disse absolutamente nada e foi isso que me magoou… Receber aquele desprezo, aquela indiferença do homem que eu amo e perdi! – proferi numa só rajada antes que voltasse a soluçar pelo processo do ciclo ventilatório

- Tem calma, vá… Respira!

- Acabou, Adriana, acabou mesmo… - nunca pensara em puder vir a dizê-lo, mas aquela era a verdade e por muito que me tivesse destroçado tê-la proferido em voz alta e com todas as letrinhas, eu não podia fechar os olhos às sequelas deixadas e fingir que os últimos dias não aconteceram

Após ela ter vencido a minha resistência passiva em voltar ao jardim das traseiras, pois para mim seria uma luta constante ter que enfrentá-lo durante as próximas horas, seguimos as duas para o jantar, depois de me recompor minimamente a fim de ninguém estranhar a minha súbita apatia.
Um pouco mais das duas horas seguintes foram inteiramente dispensadas no jantar elogiado por todos que Brenda preparou, mas que eu mal provei pela minha falta de apetite.
Apensar dos nossos lugares se distanciarem confortavelmente não pude deixar de reparar no esforço que Ruben fazia para evitar que os nossos olhares se encontrassem assim como evitava também entrar nas conversas para as quais eu era chamada. Apeteceu-me por muitas vezes levantar-me da mesa e ir para um canto do jardim desvairar-me novamente em lágrimas mas não tinha outra alternativa se não a de continuar a conter-me, tapar a boca e fechar os olhos do coração.

- O que tens mami? – a pequena Sofia que tomara aconchego no meu colo depois da refeição, apercebeu-se melhor que ninguém das feições desalentadas do meu rosto

- Nada, meu amor, não tenho nada… – menti o melhor que pude, mas a sua perspicácia de criança conseguia ser bem mais forte do que conversa de escapatória que nós adultos usávamos para fugir às perguntas as quais não queriamos responder com sinceridade

- Nada não, alguma coisa deves ter para estares com esses olhinhos… - os seus deditos tocaram as minhas faces e senti-os escaldarem sobre a minha pele

- Estou só um bocadinho cansada, amor…

- Também estás t’iste, num estás? Podes falar comigo, mami… Eu estou aqui pa tudo. – ela esforçou-se por dar uma entoação séria ao seu discurso, tal como uma menina crescida, e aqueles que ainda estavam reunidos à mesa e  atentos à nossa conversa, não se contiveram em breves gargalhadas enquanto que eu apenas lhe sorri amavelmente por todo o seu carinho e compreensão que valorizei muito

- Larga de meter o narizinho na vida da sua madrinha, moleca! – alertou-a a sua mãe, aviso o qual Sofia não deu sequer importância e eu desvalorizei, dizendo a Brenda que estava tudo bem com um simples e modesto sorriso que lhe dirigi

- Sabes o que é que o papi me diz shempre que eu estou t’iste? – o simples facto de mencioná-lo na conversa despertou a sua atenção e a partir daquele instante Ruben ficou mais atento a nós

- Não, pequenina… O que é que o padrinho te diz?

- Ele diz que temos de tirar de nós os nossos maus sentimentos, enrolá-los numa bola gigante e chutá-la com muita força até à lua… E então essa bola levará tudo aquilo que te faz chorar e tu irás… Tu irás sentir-te melhor!

Acho que aquele conselho, que sabiamente Ruben criara para a nossa pequena afilhada conseguir compreender melhor e afastar as suas tristezas, foi motivo suficiente para que os nossos olhares chocassem por segundos que a mim mais me pareceram horas, contudo não chegara perto de ser tempo suficiente para que os nossos corações falassem um com o outro e chegassem a um entendimento.
Se aquele era realmente um bom conselho para crianças, porque não poder funcionar com os mais crescidos? Será que se ele formasse uma bola com todas as suas mágoas e ressentimentos por mim, e a chutasse para a lua, se iria sentir melhor? Iria perceber que estava a ser injusto, perceber que minha ausência não passara de uma tremenda adversidade e assim voltar para mim…

- Você ainda não viu seus presentes, guria… Quer abri-los não? – dei graças a Deus por Luisão ter falado e quebrar assim o gelo, pois começara a instalar-se um clima um quanto pesado provocado por mim e por Ruben, levando a que todos se começassem a aperceber da situação travada entre nós

- Quero, papá… Quero! – ela ficou entusiasmada com a sua nova tarefa e isso pareceu distraí-la para desligar a sua atenção da nossa conversa que acabara por não ser terminada – Vou abri-los agora!

- Então podes já começar pelo o meu! – disse-lhe convictamente, peguei na minha mala e dentro dela procurei por um envelope que depois de achá-lo, entreguei nas mãos da minha pequenina que continuava ainda no meu colo

- O que é mami?

- Abre e vê… - sorri, afastando-lhe a franjinha da frente dos olhos e vi bem a sua surpresa ao desvendar o meu presente para si, que eu tinha a certeza que ela iria adorar

Dentro do envelope trouxera três bilhetes para a entrada no paraíso de qualquer criança… A Disneyland Resort Paris. Uma passagem para criança e as outras duas para adultos, com estadia em hotel parisiense incluída para aquela que seria uma viagem familiar de Verão.

- Como… Como é que tu shabias que eu queria ir à Disney? – os seus olhos arregalaram-se para mim e brilharam de alegria, mas a sua surpresa era evidente 

- Digamos que foi um passarinho que me disse… - respondi, piscando discretamente o olho a Brenda que me tinha revelado nas nossas últimas conversas, o sonho de infância que Sofia já havia partilhado com os pais

- Então e tu, oh padrinho lindo… Não trouxeste nada para a tua afilhada? – Fábio meteu-se com Ruben espicaçando-o, visto que ele permanecera meio aluado no momento da minha oferta à menina

- Ah… Pois, a prenda… - por algum motivo que à partida nos foi desconhecido, Ruben ficou atrapalhado e sem saber ao certo o que dizer, pois reparei que tinha guardado algo dentro do bolso traseiro dos seus calções-bermudas

- Upa, upa… O que é que nós temos aqui? – mais uma vez foi Fábio a fazer das suas, vangloriando-se com também um envelope que lhe sacara do bolso, e tal como eu também ele tinha dado conta que Ruben o tivera entre as suas mãos e por alguma razão voltou a guardá-lo

- Ei, puto, tá quieto… Dá cá isso! – ordenou-lhe e todos nós estranhámos aquela sua reacção

- Mas o que é que será que tu aqui escondes, ãh? – ele continuou a deter o envelope dobrado nas suas mãos, e depois de ter conseguido escapar às tentativas que Ruben fizera para lho tirar, Fábio abriu-o e mais tarde deu-nos a conhecer o seu conteúdo – Oh Sofiazinha, a mim parece-me que tu és uma miúda cheia de sorte!

- Po’quê? – ela perguntou na sua curiosidade habitual

- Porque ganhaste não uma mas sim duas viagens à Disneylândia! – ele aproximou-se a nós duas mostrando-nos os bilhetes – Parece que mesmo sem querer, os teus padrinhos deram certinho com a mesma prenda… Sintonia não lhes faltou!

- Fábio… - rosnou Ruben, certamente e ao contrário dos nossos amigos que assistiam a tudo aquilo levemente divertidos, ele não estava a achar piada àquelas provocações

- Não precisas de ficar envergonhado, mano… - ele não perdeu uma oportunidade para se meter de novo com Ruben, que então ficara visivelmente acanhado com nossa “sintonia” – Vocês são os padrinhos, sabem das coisas que a miúda gosta, não há mal nenhum em terem tido pontaria para o mesmo presente… A Sofia é que fica a ganhar no meio disto tudo! É ou não é, pequenita?

Ela apenas reagiu com um sorriso rasgado de felicidade extrema e batendo ritmadamente as palminhas, como se lhe tivesse saído a sorte grande… E saiu, de facto.

- Mamã, papá… Podemos ir lá as duas vezes? Podemos, podemos?

- Os bilhetes têm datas diferentes… - referenciou Fábio, comparando os meus bilhetes com os de Ruben

- Não sei, meu anjo… Isso vai depender do nosso trabalho, podemos não conseguir disponibilidade pra esses dias todos… - disse Brenda, acentuando a pesada carga horária tanto do seu emprego como do de Luisão

- Se os teus papás só puderem fazer uma viagem, eu sei bem quem podia ir contigo na outra…

- Tu, queres ver… - insinuou Ruben rapidamente

- Não, oh ciumento… Eu estava mais a pensar em ti e na Joana!

- Sim, Fábio, claro… - ele riu-se e depois ironizou, e de certa forma aquela sua atitude magoou-me

- Não, pad’inho, ele tem razão… Uma vez vou com os meus papás e na outra vou com vocês! – a menina saltou do meu colo para ir para o de Ruben

- Eu não vejo porque não… Se vocês quiserem ir com ela, por nós tudo bem, né meu amô? - consentiu o Luisão, tendo sido apoiado por Brenda

- Claro, ué! Afinal a oferta foi vossa, acho mais que merecido tirarem uns dias pra vocês e irem também!

Nem eu nem Ruben dissemos o que fosse para confirmar ou desmentir a nossa ida, na verdade nem foi preciso, pois mesmo sem nos dar-mos a esse trabalho eles próprios fizeram o favor de traçar planos para nós, como se não tivéssemos se quer poder de escolha ou decisão naquele assunto.

- Então e o resto das prendas, Sofiazinha? Não me digas que só por teres recebido a melhor delas todas já não queres saber das nossas… - Adriana interveio, num jeito inofenciso e brincalhão

- O resto das p’endas levei-as pró meu quarto… Eu vou lá buscá-las!

- Deixa-te estar, princesa, a madrinha vai lá. – encontrei naquela situação uma oportunidade perfeita para me afastar um pouco daquele ambiente e respirar um novo ar… um ar só meu

Parei primeiro no alpendre coisa de cinco minutinhos para fumar outro cigarro… Não que quisesse propriamente fazê-lo mas a tensão e ansiedade que acumulei durante todo o jantar, não me deixaram outra margem de refúgio se não a de me vingar naquele acto puramente consumista.
Depois alcancei o interior da casa e com um andar notavelmente mais calmo e subtil, subi até ao piso superior onde sabia se situarem os quartos, entre eles o de Sofia.
Caminhei entre o corredor e foi ao atravessá-lo quase por completo que comecei a sentir o soalho de madeira que revestia o chão, flutuar debaixo dos meus pés… Alguém caminhava atrás de mim usando-se de passadas pesadas de alguém frustrado, diria mesmo, que queimavam distância e se aproximavam de mim mas não me atrevi a olhar, pois quem me seguia fizera questão que eu soubesse da sua identidade nos segundos seguintes.

- Mas o que é… O que é que estás a fazer? Larga-me! – ele apareceu repentinamente do meu lado direito, e aplicando uma força que classificaria mesmo como sendo bruta, agarrou-me no braço e continuando a andar, arrastou-me consigo – Solta-me, estás a magoar-me!

- Primeiro vamos ter uma conversinha… Só nós os dois! – falou friamente sem me olhar e só me voltou a soltar quando entrámos ao acaso pela porta de um quarto, fechando-me lá consigo



***


(Ruben)

Vi-a sair disparada mal tivera oportunidade para fazê-lo, e não muito na intenção de efectivamente fazer um favor e ir buscar as prendas da Sofia, mas sim porque queria fugir, queria fugir daquele lugar e de mim porque era uma cobarde e não conseguia permanecer imparcial a um confronto quando os problemas pendiam para o seu lado.

- E então, vamos a mais um cartada? Aviso já que quero a desforra! – ouvi o Fábio lançar um desafio geral, dirigindo-se mais propriamente a Luisão

- Se for pra fazer você perder de novo… Aí eu topo! – Luisão gozou na cara dele, dando um toque de cotovelo no braço de Javi, o seu parceiro de jogo

- Não não, perder não… Eu vou dispensar aqui o caracoleta e deixar isto pra quem sabe! – ele desemaranhou os caracóis do topo da cabeça do David o que originou uma pequena guerra de socos inofensivos e empurrões entre os dois, mas acabaram por se controlar – Ruben, tu jogas comigo, mano! Vamos dar um bailinho a estes gajos! – ele lançou-me a proposta e eu apenas lhe acenei, nem dizendo que sim nem que não

- Não acha que já é hora? – David falou-me num tom baixo e moderado quando voltou a tomar o seu lugar e se sentou ao meu lado

- Hora de quê? – inquiri simplesmente e dei um gole da minha cerveja

- Não se faça de desentendido, pô! Ficarem nesse impasse não tem jeito nenhum! Você devia ir falar com ela… Resolver esse lance!

- Não há nada para resolver, David! A Joana deixou bem clara a nossa situação quando resolveu deixar-me pela segunda vez, portanto…

- Sabe que por vezes nem tudo o que parece ser, o é realmente… Acho que devia pensar nisso!

Aquela conversa do David, que ainda por cima tinha como base a defesa da Joana, estava a tirar-me do sério… Como se ele não soubesse o que eu tinha passado nos últimos dias, como se ele não soubesse o quanto tinha sido difícil para mim acalmar aquela dor, e agora estava ali… A fazer-me reconsiderar a minha dignidade e atestá-la com um confronto, cara a cara, olhos nos olhos, com a mulher que contra a minha vontade ainda amava tanto e a mesma que me deixara uma vez mais na corda bamba daquele amor.

- Queres que eu vá falar com ela, não é? Eu vou, eu vou. Mas então digo-te que não vai ser uma conversa nada agradável… Ela pode não vir a gostar daquilo que tenho para lhe dizer! – disse-lhe, completando os meus lábios com um sorriso de tirania

- Toma atenção ao que diz e ao que faz, não se atreva a magoar ela, manz… Tô só avisando! – ele agarrou-me o braço logo me levantei, mas depressa o fiz soltar-me quando o olhei e sacudi a sua mão, para então seguir as pisadas da Joana

- Ei, Ruben! – a clamação de Fábio fez-me olhar para trás quando já tinha percorrido metade do jardim – Então? Onde vais? Pensava que íamos jogar…

- Eu vou… Eu volto já! – dei uma resposta muito rápida e desapareci da vista de todos ao entrar em casa

O cheiro quase manipulador do seu perfume aos meus sentidos, que pairava no ar junto à escadaria, deu-me a indicação necessária de onde a poderia encontrar. Subi os degraus em três ou quatro lances saltando alguns escalões e encontrei-a, ainda a percorrer o corredor superior… Não reponderei o motivo pelo qual estava ali, por um só segundo, e frustradamente precipitei-me até ela, agarrei-a com força pelo braço e só a soltei quando fechei a porta do quarto para onde a tinha levado, pronto a exigir dela respostas a dúvidas que ficaram por esclarecer.
Não iria ser fácil, não iria ser nada fácil ter aquele confronto pois cada vez que a olhava só tinha vontade de a beijar e nunca mais deixá-la ficar longe de mim, mas esses eram impulsos que eu tinha de esconder e sobretudo controlar…

- Deixa-me passar, Ruben… Eu quero sair.

- Não, nem penses… Tu não vais a lado nenhum! – recusei sem pensar duas vezes o pedido que me fizera calmamente, colocando-me entre ela e a porta, que não a deixaria atravessar se fosse para fugir de novo

- O que é que pretendes com isto? O que é que queres?

- O que é que eu quero?! Só podes estar a brincar… Parece-me óbvio, não?

- Não, a mim não me parece que seja óbvio! Porque com esse teu comportamento de alguém completamente frustrado, com esse tom de voz e a maneira como olhas para mim agora e como olhaste durante todo o jantar, eu não sei o que queres… Se ouvir-me ou julgar-me… - não me admirava a capacidade que ela tinha em desvendar-me, porque a verdade é que conseguia conhecer-me melhor do que eu próprio me conhecia a mim

- Eu só quero que me digas porquê! Porque é que me mentiste, porque é que me deixaste! – exigi num sopro forte que me abandonou os pulmões, e que com ele levou toda a calma e bom senso que eu iria precisar

- Eu não te deixei… - ela ia continuar a farsa mas eu impus-me às suas explicações engendradas

- Gostas de me ver sofrer, de me ver cair e bater bem no fundo, é isso não é? Só pode ser isso, não encontro outra explicação para me teres deixado outra vez e me teres tratado como se eu fosse um qualquer…

- Já disse que não te deixei, Ruben! Eu não te deixei! – vociferou bem alto para que eu pudesse ouvir claramente, mas eu não queria ouvir… não queria ouvir – Perdi o nosso voo e na mesma altura o Pedro apareceu lá para ir buscar-me… Estive estes dias em Punta Cana a gravar uma publicidade televisiva, uma proposta de última hora que me caiu em cima e não pude recusar! Eu tinha um contrato assinado, Ruben… Foi por isso que não vim mais cedo!

- E estás à espera que eu acredite em ti? Depois de tudo esperas mesmo que eu acredite naquilo que dizes?

- Não acreditas? – perguntou, olhando-me com uma esperança sem fim

- O que é que tu achas? – perquiri prontamente e caminhei para o seu lado oposto – Estás uma semana sem dizeres nada, eu super preocupado contigo por não saber nada de ti e agora apareces com uma desculpa do tamanho do mundo, à espera que eu caia nela?! Por favor, Joana, não sou assim tão parvo!

- Pelos vistos és! Caso contrário não duvidavas de mim… A minha palavra chegava-te!

- Pois chegava, mas a tua palavra deixou de ter relevância para mim a partir do momento em que decidiste estragar tudo quando me abandonaste! – falei com uma raiva enorme, que não consegui controlar – Portanto, quanto à pergunta que fizeste se eu acreditava ou não em ti… A resposta é claramente um não.

- Mas eu estou a dizer-te a verdade, caramba! Será assim tão difícil conseguires compreender isso?!

- Acho, sinceramente acho muito difícil, ora pensa comigo: Primeiro, não sei se te lembras, tivemos aquela pequena discussão quando eu te pedi que fugíssemos juntos e uns dias depois, naquele agendado para o nosso regresso, tu perdes o avião e ficas uma semana sem dizeres absolutamente nada! – enumerei cronologicamente sem medo de a ferir ou susceptibilizar, estava apenas a constatar factos

- Eu já te expliquei porquê! O que é que queres que eu te diga mais para que acredites em mim? Diz-me, por favor, porque eu já não sei! – os seus olhos mudaram de cor e encheram-se de lágrimas, que mais cedo ou mais tarde iriam ceder nos trilhos do seu rosto

- Nada, não precisas de me dizer mais nada! Mesmo que eu faça um esforço, mesmo que eu tente, a mágoa que me fazes sentir é demasiado grande para que consiga acreditar em ti…

- Mas foram coincidências, Ruben… Eu perdi o telemóvel uns dias antes do voo e não tinha como te contactar, perdi o avião por um contratempo… Foram meras coincidências que causaram isto tudo!

- Depois de tudo isto, dizes que foram coincidências? Coincidências, Joana?! – o meu timbre elevou-se superficialmente sob a catapulta daquela discussão que se adivinhava longa, e creio que tivesse sido esse meu sobressalto que levara o seu corpo a tremer – Pois eu digo-te que não foram as coincidências que causaram isto, foi a tua cobardia, e é por causa dessa cobardia que nunca chegámos nem nunca iremos chegar a lado nenhum! Para mim não existem maiores clarividências que estas de que fugiste de nós, com a mesma cobardia de há três anos!

- Eu não acredito que estás a dizer uma coisa dessas… - a sua voz perdeu brutalmente intensidade e as lágrimas não tardaram em escorrer-lhe pelos olhos

- Digo-te mais, até! Se eu não estivesse aqui agora, nós provavelmente nem estaríamos a ter esta conversa porque muito provavelmente tu nem te irias dar ao trabalho em me procurar!

- Como podes dizer isso? Eu procurei-te sim, aliás, foi a primeira coisa que fiz quando cheguei a Lisboa! – afirmou com uma certeza inquebrável na voz, mas mais uma vez não eu não lhe quis dar ouvidos  

- O quê? – um riso desconfortável de ironia apoderou-se de todas as minhas feições – Como é que tu ainda tens o discernimento de mentir dessa maneira? Está claro que não me procuraste, caso contrário não era a ter esta discussão que estaríamos a fazer agora…

- Então aparece que agora está tudo mais claro… - ela viu a minha cara de constatação e foi por isso que continuou – Ai tu não sabes? O Mauro não te contou?

- O Mauro? O que é que o meu irmão tem a ver com isto?

- Pelos vistos tem tudo… - enxugou friamente as lágrimas mas nem por isso aquela situação a deixava de magoar… a cada minuto um pouco mais – O teu mano não te contou que eu fui ao Algarve no fim-de-semana passado para falar contigo? Não te contou que eu e ele estivemos juntos lá? E também não te contou que ele me pediu, expressamente, para te deixar seguir com a tua vida, sem mim, e nunca mais te procurar? Com que então ele não contou nada disso… (!)

- Isso… Isso não é verdade! – virei-lhe as costas e recusei-me a confiar em cada palavra, por muito que preferisse não fazê-lo

- Não é verdade? Tens a certeza? – senti-a caminhar amedrontadamente até a mim, e sabia que o facto de tê-la novamente tão perto, a respirar exactamente o mesmo ar que eu, iria fazer-me vacilar, mas eu não podia deixar isso acontecer, não podia.

- Se fosse verdade ele ter-me-ia contado, ele sabe o quanto és… O quanto eras importante para mim, sabe que eras a minha maior prioridade! O Mauro nunca me iria esconder uma coisa dessas!

- Pelos vistos escondeu, Ruben… Mas ouve, por mim tudo bem se preferires cair no erro de achares que eu te estou a mentir, mais uma vez, e acreditares no silêncio do Mauro… Afinal ele é teu irmão, e eu não passo de uma mentirosa cobarde que te abandonou pela segunda vez! – a imponência de sarcasmo que ela utilizou para arguir as minhas acusações, apertou-me o peito de uma maneira tão angustiante que eu nunca teria sido capaz de imaginar… até àquele momento

- Seja como for, eu não acredito que o meu irmão tenha sido capaz de me omitir esse episódio, mas vou fingir que sim, por dois minutos vou fingir que sim e pergunto-te: O que é que mudou? – finalmente voltei-me para ela, e o meu coração ficou apertado no seu canto, ao constatar o seu silêncio súbito e ver que novas lágrimas tinham então tomado novamente conta do seu rosto de anjo, do anjo que eu gostava de chamar de meu… – Exactamente… Não mudou nada! Vais dizer-me o quê? Que o Mauro te apontou uma arma à cabeça e preferiste fazer o que ele te disse do que ires ter comigo para resolvermos tudo e ficarmos bem? Poupa-me, Joana!

- Não, não foi o Mauro que me fez mudar de ideias, não foi ele que me fez desistir de ir falar contigo…

- Não foi? Foi quem, então?

- Foi a Inês! – respondeu rapidamente, fazendo-me congelar

- A Inês?! Porquê a Inês?

- Eu vi-vos na discoteca… Cheios de cumplicidade, de sorrisos, olhares…

- Ei, podes parar por aí… Que raio de insinuação é essa? – depressa me enchi de raiva e impaciência, não me agradava aquela evolução de raciocínios, tal como não me agradava o rumo que aquela nossa disputa estava a levar

- Não é insinuação nenhuma… Estou apenas a dizer o que vi!

- Pois a mim parece-me que viste mal! – argumentei a meu favor, se o que ela dizia ter visto era realmente verdade, então naquela noite eu não deveria estar no meu perfeito estado de sanidade, pelos copos que já devia ter bebido a mais – Se tu, mesmo depois do que vivemos em São Francisco, e mesmo depois de tudo o que vivemos antes, pensaste que eu e a Inês… Então tu não me conheces mesmo!

- O que é que queres que eu te diga? No momento eu não sabia o que havia de pensar… O Mauro disse-me aquelas coisas e depois vi-vos lá juntos. O que é que querias que eu fizesse?

- QUERIA QUE FICASSES COMIGO! – gritei num sopro de desesperança bem na frente dela, um rugido tão forte que pôde dissipar-se por todo o andar superior da casa – Queria que me amasses até ao fim das nossas vidas, queria que cumprisses todas as promessas que fizemos um ao outro, queria tudo aquilo que hoje já não posso ter!

- Mas tu podes ter… Tu podes ter-me, simplesmente não me queres mais. – ela estava tão indefesa, tão frágil, e eu já não me sentia capaz o suficiente para protegê-la

Ficámos a olhar um para o outro à espera que alguém tomasse uma nova reacção… Eu tremia, todo o meu ser pendia para ela, para a mulher da minha vida, para a mulher que eu queria que fosse a mãe dos meus filhos, e aquela tentação era irresistível… Mas de novo aquela sensação de abandono passou por mim e regelou-me o sentimento.

- Penso que agora já seja tarde demais… – disse-lhe num tom incrivelmente moderado, e os meus olhos raiaram-se de um vermelho que me fazia querer chorar muito, mas graças ao meu orgulho não o fiz

A Joana olhou-me, desta vez com uma mágoa, uma desilusão que eu não soube desmistificar. Afastou-se de mim e aproximou-se da porta, tomando a maçaneta na sua mão para se ir embora e deixar-me ali, envolto nos meus fantasmas.

- Isso mesmo, foge! Sempre fugiste e passarás o resto da tua vida a fugir!

- Não dá mesmo para conversar contigo! – ela mirou-me de relance uma última vez e depois saiu, deixando para trás somente o estrondo da porta a bater

Os remorsos não tardaram em soquear-me o estômago, gritarem aos meus ouvidos, e por isso, e só por isso fui atrás dela… Ainda havia muita coisa para ser dita e não podia deixar que virasse costas e se fosse embora daquela maneira, apesar de ter consciência de eu próprio ter contribuído para isso.

- Joana! Joana, espera… Volta aqui! Joana! – chamei-a enquanto atravessava todo o corredor num passo apressado, mas ela ia a correr e conseguia ouvi-la chorar… ao assomar-me ao cimo da escadaria vi-a atravessar a porta para o exterior o mais depressa que conseguiu, não me dando mais tempo para o que quer que fosse – Merda! – pontapeei com força o gradeamento das escadas, levei as minhas mãos à cabeça e agitei-as freneticamente no cabelo, começava a desesperar e não sabia mais o que fazer



***


(Joana) 

O Ruben magoara-me de todas as maneiras possíveis, atirando o meu coração para o meio da rua e enxovalhando-me sem um pingo de compaixão. Não quis continuar ali com ele e vim-me embora, bati a porta com força e desci as escadas tão depressa que ainda não sei como não caí. Ainda o senti vir atrás de mim e implorar-me que não partisse, mas parti… Antes de voltar ao jardim enxuguei o rescaldo de lágrimas que me esfriava a pele e recompus-me o melhor que pude para ir despedir-me de todos.

- Amor, então? – Adriana veio ter comigo mal me viu, notando o meu ar devastado, que no entanto eu tentava esconder

- Vou-me embora, Adriana, a minha noite já chegou ao fim…

- O que é que aconteceu? – ela lançou-me um olhar preocupado de alto a baixo, mas eu não estava disposta a falar… não ali e não naquele momento

- Depois falamos, está bem? Não consigo ficar aqui mais um minuto! – mostrei-lhe um sorriso pequenino e dei-lhe um beijo na bochecha carregado de carinho e gratidão

- Falamos mesmo! – ouvi-a dizer já quando me dirigia à mesa onde todos confraternizavam animadamente entre conversas paralelas

- Brenda, Lu, vou indo… Obrigada pelo serão, estava tudo óptimo!

- Oh já? Fica mais um pouquinho, ainda é cedo… - ele expressou bem a sua vontade em eu ficar, ao contrário da minha que era muito pouca… quase nenhuma na verdade

- Fica, meu anjo… A gente ainda nem partiu o bolo do niver! – referiu Brenda tristemente pela minha retirada antecipada, apoiando o pedido do marido

- Eu gostava muito mas tenho mesmo de ir… Desculpem! – lamentei, sem me alongar em explicações – Por favor diz à Sofia que eu não pude mesmo ficar para lhe cantar os parabéns e dá-me um beijinho meu muito grande!

- Claro, meu anjo, pode ficar sossegada que eu dou pra ela! – fiquei um pouquinho mais leve pelo amparo dela por não ter oportunidade de me despedir da minha afilhada, visto que não estava junto a nós e ao percorrer a mesa num relance os meus olhos estacaram nos de David, que me olhava expectante por provavelmente saber com quem estive e somente lhe mostrei um sorriso triste e um pequeno encolher de ombros que foi o suficiente para ele compreender – Boa noite a todos!

Despedi-me de um modo geral que foi correspondido por todos os meus amigos, peguei na minha mala e assim que virei costas aquela vontade enorme de chorar regressou.
Cortei novamente caminho pelo interior da casa para alcançar o alpendre de entrada mas arrependi-me no mesmo instante em que o pisei… Encontrei Ruben encostado ao pilar da vedação, provavelmente à minha espera mas decidi por bem ignorá-lo… Não iria suportar outra discussão.
Enchi os meus pulmões de ar esperando receber algum alento e precipitei-me ao pequeno lanço de escadas que acabou por me levar à calçada que percorri no centro do jardim. Mas enganei-me redondamente se em algum segundo pensei que tinha superado aquela prova de fogo.

- Isso, vai! Vira as costas a tudo e a todos… Vai, foge! É o melhor que sabes fazer, não é? Fugir… - de novo as suas recriminações atacaram-me já quando me aproximava do portão, e não foi minha vontade ficar-lhes indiferente

- Realmente tens razão no me disseste há pouco… Eu não te conheço mesmo! – falei-lhe com algum rancor e voltei-me de frente para ele, vendo-o descer vagarosamente os três de degraus para a calçada – Como é que és capaz de me tratar dessa maneira?

- Costuma-se dizer que as pessoas só têm aquilo que merecem…

- Sinceramente, Ruben! Eu… Eu odeio-te!

Tomei manobra do puxador maciço do portão e a lacrimejar saí em direcção ao passeio onde junto ao qual tinha estacionado o meu jeep.
Pensei que tinha então chegado o fim, do tudo ou do nada, o fim de um conflito de valores, de uma disputa de palavras amargas entre nós, pensei que tivesse chegado o nosso fim! Mas confesso que nunca pensei no momento que se seguiu…

- O que é que disseste? – ele viera atrás de mim e detivera-se na entrada à beira do portão, interrompendo-me a caminhada no passeio penodal para enxergá-lo mais uma vez – Repete, Joana! O que é que tu disseste!? – ordenou com uma pose altamente sisuda e autoritária

- Disse que te odiava… - é óbvio e eu tinha plena noção disso, que estava a falar da boca para fora, que não sentia nada daquilo, muito pelo contrário até, mas tinha a cabeça quente, a ferver… não me dei conta da medida das palavras – Já ouviste bem agora, Ruben? Eu odeio-te! – posto isto voltei a seguir o meu rumo e com um premir de botão das chaves, destranquei o carro… só queria sair dali  

Foi então ao olhar acima do ombro que o vi caminhar furiosamente até mim, movido por uma exaltação penetrante que me roubou o ar. Pegou em mim fazendo-me praticamente tirar os pés do chão e jogou-me violentamente contra o meu carro, esborrachando-me entre a porta de condutor e o seu corpo.
Ele era vitimado de uma respiração brusca e nervosa, ao contrário da minha que permanecia suspensa, enquanto o meu coração padecia estacado pela surpresa e emoção sem forças para se desafogar.   

- Tu não me odeias, ouviste bem? Não voltes a dizer isso quando eu sei muito bem aquilo que ainda te une a mim! – proferiu como se fosse o dono da razão, apoiando a sua certeza ao comprimir ainda mais o seu corpo contra o meu, obrigando-me a conter o fôlego

Comecei aos poucos a perder a força nas pernas e só me mantive em pé porque permanecia completamente colada a Ruben. Ficámos então perdidos num silêncio que não nos incomodou nem um pouco, enquanto eu tentava inutilmente não me afogar nos olhos dele, que me fixavam num jeito quase asfixiante como duas imensas luas novas. E de repente parece que tudo mudou, embora que apenas por alguns momentos… Pareceu-me vê-lo desfazer-se da armadura que o ajudava a lutar contra nós e o seu comportamento sofreu uma trágica mudança, ele mudou para regressar ao Ruben que sempre conheci, e numa nova atitude sua voltei a encontrar a razão porque continuava tão apaixonada por ele.

- Em que é que estás a pensar? – ele falou muito baixinho, permitindo que a pontinha do seu nariz rosasse levemente na minha

- Estou a pensar no quão bom e oportuno seria, se me pedisses para fugir contigo agora… - respondi num murmúrio tremelicado de ingenuidade e paixão   

Ele não disse absolutamente nada, porque a verdade é que nem era preciso. A sua mão acariciou levemente a minha face e seu nariz passeou pelo meu pescoço, momento em que consegui sentir o seu bafejar inquietado arrepiar a minha pele, desconcertando-me profundamente. Depois voltou a olhar-me nos olhos como se partilhássemos o mesmo pensamento do que iríamos fazer a seguir… E exactamente no mesmo instante, no mesmo segundo, os nossos lábios precipitaram-se ao centro e procuraram o toque um do outro, há muito esperado, há muito ansiado. As suas mãos seguraram o meu rosto, para garantir que eu não fugiria dos seus braços e tudo culminou no envolvimento em segredo das nossas línguas, que mataram as saudades que foram preenchendo o vazio dos últimos dias, e oh, que saudades… Foi tão bom!
Tudo naquele beijo era Ruben… Uma inigualável frustração que o fazia afundar os dedos na minha cintura, apertando-a com força; uma insegurança e um temor que proporcionaram às nossas línguas um dançado violento e docemente delirante que nos envolveu numa entrega tão profunda como há muito não me lembrava.
Mas de repente tudo aquilo conheceu o seu desfecho… O seu corpo deixou de fazer pressão contra o meu, as suas mãos fugiram debaixo da minha blusa, e a sua língua desenlaçou-se da minha assim como as nossas bocas que se afastaram apenas por vontade dele. Tentei voltar a beijá-lo mas o seu rosto recuou e o seu indicador selou os meus lábios.

- Eu não consigo… Desculpa mas eu não consigo… - foram estas as suas palavras que ditaram o começo do fim

Olhei-o confusa, com o coração a bater a mil e uma incerteza sufocante que não me deixava pensar direito e encontrar uma explicação àquele seu comportamento que eu estava longe, muito longe de imaginar.

- Estes últimos dias não me saem da cabeça, e não consigo parar de pensar no que me voltaste a fazer… Por mais que me esforce eu não consigo voltar a confiar em ti, Joana… E não sei se algum dia conseguirei verdadeiramente.

Um, dois, três socos lançados ao meu abdómen e um revirar do estômago que encontrou o seu avesso. Acho que aquela foi a pior sensação do mundo, a sensação do meu coração a quebrar-se em milhões de pedacinhos irreparáveis. 
Quis gritar com ele, quis perguntar-lhe porquê, quis implorar-lhe que não fizesse aquilo, mas o fim foi uma situação incontornável e eu não fiz nada mais do que manter o meu silêncio e esperar para ver o que aconteceria a seguir.
Esse momento, porém contra a minha vontade, não tardou em chegar… Vi-o pressionar o puxador e abrir a porta do meu carro, esperando que eu entrasse.

- Acho que o melhor é ires embora… - pediu-me segurando a porta, sem ter sequer a coragem de me olhar dentro dos olhos

- É o melhor? É o melhor para quem, Ruben? – perguntei num fio de voz, aguardando por uma nova atitude dele, uma atitude que apagasse as suas últimas palavras e reescrevesse a última parte do novo capítulo da nossa história, mas não recebi mais nada da sua parte senão insensibilidade e o fel de desistência

- É o melhor… para todos. – ciciou por fim ao embate dos nossos olhares

Não insisti, não resisti mais. Estava cansada de lutar contra o imbatível. Recusei-me a novas palavras que levariam a novas conversas, conversas que não nos levariam a lado nenhum e passei à sua frente, tomei o lugar privilegiado do meu carro e fechei a porta rapidamente logo que entrei, evitando que fosse ele a fazê-lo por mim. Ainda tivemos tempo de nos olharmos, vacilantes, pelo vidro, contudo nada mais foi acrescentado… Estávamos ambos magoados, ambos a sofrer, mas quando tínhamos tudo, foi ele próprio quem não quis por fim àquela dor e por isso mesmo eu já não fazia mais nada ali.
Antes que rebentasse num choro liguei o carro e fazendo um esforço enorme para não voltar a olhá-lo – pois sabia que da próxima vez que o fizesse, os meus olhos iriam tomar outra atitude –, saí do estacionamento e arranquei a uma velocidade superior da que eu estava habituada.
Agora estando no meu perímetro de segurança não pude evitar e lancei uma mirada ao retrovisor, onde acabei por conseguir enxergá-lo… lá ao fundo, imobilizado no meio da estrada a ver-me partir. Tal como já previra as lágrimas subiram até aos meus olhos e enturvaram-nos por completo… Não sabia para onde estava a ir, que rumo tinha tomado, e sem uma visão clara sobre a estrada anoitecida, tornava-se cada vez mais difícil e perigoso conduzir. Tentei não deixar fugir o volante das minhas mãos, tentei não perder o controlo, mas a vontade de chorar era cada vez maior e estava a levar a melhor de mim. Era noite cerrada e podia dizer que jornadeava praticamente sozinha, sem companheiros de estrada, mas nem sempre foi assim… Ia de tal maneira perdida em pensamentos que devia ter deixado com a pessoa que ficara para trás, tão imersa no ex-líbris da minha própria dor, que nem dera conta de ter quebrado a lei e interposto a via contrária… As luzes fortes de um outro carro que seguia na minha direcção quase me cegaram e só no segundo em que ouvi a soada da buzina que caí em mim, fiz uma manobra repentina com o volante e um desvio rápido que me obrigou a parar o carro numa valeta à berma da estrada.

- Onde é que tens a cabeça? Só fazes asneira! Só fazes asneira! – repreendi a mim mesma, batendo frustradamente com as palmas das mãos no volante… não ganhara para o susto

Tinha o coração mais acelerado do que nunca, as lágrimas voltaram percorrer a pique o meu rosto mas desta vez sem retorno nem vista a um cessar.
Solucei torpidamente como uma criança ao recordar o recente momento que travara com Ruben e acho que nunca desejara tanto desaparecer da face da terra como até então. Sentia-me arrasada, humilhada e nada que estivesse para vir conseguiria apagar aquela angústia e sofrimento de que estava a ser vitimada.

- Acabou… acabou… - repeti num silvar derradeiro de um amor que me dera a vontade de viver e que agora, desfeito, voltara a tirá-la de mim… chorei muito ali sozinha até não ter mais forças para continuar a fazê-lo, embebida numa esperança sem fim que aos poucos me abandonava 




Olá, meninas! :)
Aqui vos deixo um novo capítulo da história!
Espero que gostem e deixem-me os vossos comentários, eles são um incentivo e uma motivação enorme para a continuação da escrita.

Beijinhos,
Joana :)