quarta-feira, 12 de junho de 2013

Capítulo 13 - Corações em silêncio (Parte III)

Com o rosto dominado por uma palidez de desmaio, apaguei o cigarro sob o cinzeiro que encontrei sobre a mesinha redonda do alpendre.
Vi o Ruben caminhar até ao sopé trazendo a menina no seu colo e subiu o pequeno lanço de escadas, aproximando-se vagarosamente sem perder em momento algum, contacto visual comigo. Inesperadamente ele travou o seu percurso que o iria levar até ao interior da casa e somente ficou ali, a ver-me, a enxergar-me, a olhar-lhe com um desprezo altivo e uma mágoa que eu consiga tocar e que me ardia por dentro, queimando-me os pulmões e deixando o meu coração em cinzas.

- Desculpa… - pedi-lhe com os olhos contornados de lágrimas, num timbre de voz melindroso que me falhara das cordas vocais

Despi-me perante ele ao assumir que tinha falhado, mas nem assim ele ponderou mostrar-me alguma piedade. Pensava que queria ouvir-me, que queria obsorver uma explicação pelo tempo da minha ausência… mas estava enganada. Ruben não procurava ali saber o que quer que fosse, muito menos saber de mim, e depois de me lançar um último olhar que chegara quase a atingir a arrogância, fustigou-se pela porta de entrada levando Sofia consigo a deixá-la olhar para trás e procurar-me, naturalmente confusa com um momento que não compreendera.
Senti-me diminuir, ficar pequenininha com o seu menosprezo como se entre nós não houvesse mais nada a dizer. Procurei apoio ao sentar-me no degrau superior das escadas, cheguei os joelhos ao peito e deixei-me chorar… Só conseguia chorar.

- Joana… - a sempre meiga e carinhosa voz de Adriana surgiu nas minhas costas, talvez tivesse vindo ter comigo pela chegada de Ruben e a minha conseguinte demora em voltar a juntar-me ao grupo – Oh pequenina… - apercebendo-se do meu estado só por ter dado conta do meu soluçar, ela veio sentar-se a meu lado e abraçou-me, colocando a minha cabeça sobre o seu ombro

- Ai, Adriana… - soltei num desabafar recatado, de quem carregava muita dor no peito

- O que é que aconteceu? O que é que ele te disse?

- Nada… Não me disse absolutamente nada e foi isso que me magoou… Receber aquele desprezo, aquela indiferença do homem que eu amo e perdi! – proferi numa só rajada antes que voltasse a soluçar pelo processo do ciclo ventilatório

- Tem calma, vá… Respira!

- Acabou, Adriana, acabou mesmo… - nunca pensara em puder vir a dizê-lo, mas aquela era a verdade e por muito que me tivesse destroçado tê-la proferido em voz alta e com todas as letrinhas, eu não podia fechar os olhos às sequelas deixadas e fingir que os últimos dias não aconteceram

Após ela ter vencido a minha resistência passiva em voltar ao jardim das traseiras, pois para mim seria uma luta constante ter que enfrentá-lo durante as próximas horas, seguimos as duas para o jantar, depois de me recompor minimamente a fim de ninguém estranhar a minha súbita apatia.
Um pouco mais das duas horas seguintes foram inteiramente dispensadas no jantar elogiado por todos que Brenda preparou, mas que eu mal provei pela minha falta de apetite.
Apensar dos nossos lugares se distanciarem confortavelmente não pude deixar de reparar no esforço que Ruben fazia para evitar que os nossos olhares se encontrassem assim como evitava também entrar nas conversas para as quais eu era chamada. Apeteceu-me por muitas vezes levantar-me da mesa e ir para um canto do jardim desvairar-me novamente em lágrimas mas não tinha outra alternativa se não a de continuar a conter-me, tapar a boca e fechar os olhos do coração.

- O que tens mami? – a pequena Sofia que tomara aconchego no meu colo depois da refeição, apercebeu-se melhor que ninguém das feições desalentadas do meu rosto

- Nada, meu amor, não tenho nada… – menti o melhor que pude, mas a sua perspicácia de criança conseguia ser bem mais forte do que conversa de escapatória que nós adultos usávamos para fugir às perguntas as quais não queriamos responder com sinceridade

- Nada não, alguma coisa deves ter para estares com esses olhinhos… - os seus deditos tocaram as minhas faces e senti-os escaldarem sobre a minha pele

- Estou só um bocadinho cansada, amor…

- Também estás t’iste, num estás? Podes falar comigo, mami… Eu estou aqui pa tudo. – ela esforçou-se por dar uma entoação séria ao seu discurso, tal como uma menina crescida, e aqueles que ainda estavam reunidos à mesa e  atentos à nossa conversa, não se contiveram em breves gargalhadas enquanto que eu apenas lhe sorri amavelmente por todo o seu carinho e compreensão que valorizei muito

- Larga de meter o narizinho na vida da sua madrinha, moleca! – alertou-a a sua mãe, aviso o qual Sofia não deu sequer importância e eu desvalorizei, dizendo a Brenda que estava tudo bem com um simples e modesto sorriso que lhe dirigi

- Sabes o que é que o papi me diz shempre que eu estou t’iste? – o simples facto de mencioná-lo na conversa despertou a sua atenção e a partir daquele instante Ruben ficou mais atento a nós

- Não, pequenina… O que é que o padrinho te diz?

- Ele diz que temos de tirar de nós os nossos maus sentimentos, enrolá-los numa bola gigante e chutá-la com muita força até à lua… E então essa bola levará tudo aquilo que te faz chorar e tu irás… Tu irás sentir-te melhor!

Acho que aquele conselho, que sabiamente Ruben criara para a nossa pequena afilhada conseguir compreender melhor e afastar as suas tristezas, foi motivo suficiente para que os nossos olhares chocassem por segundos que a mim mais me pareceram horas, contudo não chegara perto de ser tempo suficiente para que os nossos corações falassem um com o outro e chegassem a um entendimento.
Se aquele era realmente um bom conselho para crianças, porque não poder funcionar com os mais crescidos? Será que se ele formasse uma bola com todas as suas mágoas e ressentimentos por mim, e a chutasse para a lua, se iria sentir melhor? Iria perceber que estava a ser injusto, perceber que minha ausência não passara de uma tremenda adversidade e assim voltar para mim…

- Você ainda não viu seus presentes, guria… Quer abri-los não? – dei graças a Deus por Luisão ter falado e quebrar assim o gelo, pois começara a instalar-se um clima um quanto pesado provocado por mim e por Ruben, levando a que todos se começassem a aperceber da situação travada entre nós

- Quero, papá… Quero! – ela ficou entusiasmada com a sua nova tarefa e isso pareceu distraí-la para desligar a sua atenção da nossa conversa que acabara por não ser terminada – Vou abri-los agora!

- Então podes já começar pelo o meu! – disse-lhe convictamente, peguei na minha mala e dentro dela procurei por um envelope que depois de achá-lo, entreguei nas mãos da minha pequenina que continuava ainda no meu colo

- O que é mami?

- Abre e vê… - sorri, afastando-lhe a franjinha da frente dos olhos e vi bem a sua surpresa ao desvendar o meu presente para si, que eu tinha a certeza que ela iria adorar

Dentro do envelope trouxera três bilhetes para a entrada no paraíso de qualquer criança… A Disneyland Resort Paris. Uma passagem para criança e as outras duas para adultos, com estadia em hotel parisiense incluída para aquela que seria uma viagem familiar de Verão.

- Como… Como é que tu shabias que eu queria ir à Disney? – os seus olhos arregalaram-se para mim e brilharam de alegria, mas a sua surpresa era evidente 

- Digamos que foi um passarinho que me disse… - respondi, piscando discretamente o olho a Brenda que me tinha revelado nas nossas últimas conversas, o sonho de infância que Sofia já havia partilhado com os pais

- Então e tu, oh padrinho lindo… Não trouxeste nada para a tua afilhada? – Fábio meteu-se com Ruben espicaçando-o, visto que ele permanecera meio aluado no momento da minha oferta à menina

- Ah… Pois, a prenda… - por algum motivo que à partida nos foi desconhecido, Ruben ficou atrapalhado e sem saber ao certo o que dizer, pois reparei que tinha guardado algo dentro do bolso traseiro dos seus calções-bermudas

- Upa, upa… O que é que nós temos aqui? – mais uma vez foi Fábio a fazer das suas, vangloriando-se com também um envelope que lhe sacara do bolso, e tal como eu também ele tinha dado conta que Ruben o tivera entre as suas mãos e por alguma razão voltou a guardá-lo

- Ei, puto, tá quieto… Dá cá isso! – ordenou-lhe e todos nós estranhámos aquela sua reacção

- Mas o que é que será que tu aqui escondes, ãh? – ele continuou a deter o envelope dobrado nas suas mãos, e depois de ter conseguido escapar às tentativas que Ruben fizera para lho tirar, Fábio abriu-o e mais tarde deu-nos a conhecer o seu conteúdo – Oh Sofiazinha, a mim parece-me que tu és uma miúda cheia de sorte!

- Po’quê? – ela perguntou na sua curiosidade habitual

- Porque ganhaste não uma mas sim duas viagens à Disneylândia! – ele aproximou-se a nós duas mostrando-nos os bilhetes – Parece que mesmo sem querer, os teus padrinhos deram certinho com a mesma prenda… Sintonia não lhes faltou!

- Fábio… - rosnou Ruben, certamente e ao contrário dos nossos amigos que assistiam a tudo aquilo levemente divertidos, ele não estava a achar piada àquelas provocações

- Não precisas de ficar envergonhado, mano… - ele não perdeu uma oportunidade para se meter de novo com Ruben, que então ficara visivelmente acanhado com nossa “sintonia” – Vocês são os padrinhos, sabem das coisas que a miúda gosta, não há mal nenhum em terem tido pontaria para o mesmo presente… A Sofia é que fica a ganhar no meio disto tudo! É ou não é, pequenita?

Ela apenas reagiu com um sorriso rasgado de felicidade extrema e batendo ritmadamente as palminhas, como se lhe tivesse saído a sorte grande… E saiu, de facto.

- Mamã, papá… Podemos ir lá as duas vezes? Podemos, podemos?

- Os bilhetes têm datas diferentes… - referenciou Fábio, comparando os meus bilhetes com os de Ruben

- Não sei, meu anjo… Isso vai depender do nosso trabalho, podemos não conseguir disponibilidade pra esses dias todos… - disse Brenda, acentuando a pesada carga horária tanto do seu emprego como do de Luisão

- Se os teus papás só puderem fazer uma viagem, eu sei bem quem podia ir contigo na outra…

- Tu, queres ver… - insinuou Ruben rapidamente

- Não, oh ciumento… Eu estava mais a pensar em ti e na Joana!

- Sim, Fábio, claro… - ele riu-se e depois ironizou, e de certa forma aquela sua atitude magoou-me

- Não, pad’inho, ele tem razão… Uma vez vou com os meus papás e na outra vou com vocês! – a menina saltou do meu colo para ir para o de Ruben

- Eu não vejo porque não… Se vocês quiserem ir com ela, por nós tudo bem, né meu amô? - consentiu o Luisão, tendo sido apoiado por Brenda

- Claro, ué! Afinal a oferta foi vossa, acho mais que merecido tirarem uns dias pra vocês e irem também!

Nem eu nem Ruben dissemos o que fosse para confirmar ou desmentir a nossa ida, na verdade nem foi preciso, pois mesmo sem nos dar-mos a esse trabalho eles próprios fizeram o favor de traçar planos para nós, como se não tivéssemos se quer poder de escolha ou decisão naquele assunto.

- Então e o resto das prendas, Sofiazinha? Não me digas que só por teres recebido a melhor delas todas já não queres saber das nossas… - Adriana interveio, num jeito inofenciso e brincalhão

- O resto das p’endas levei-as pró meu quarto… Eu vou lá buscá-las!

- Deixa-te estar, princesa, a madrinha vai lá. – encontrei naquela situação uma oportunidade perfeita para me afastar um pouco daquele ambiente e respirar um novo ar… um ar só meu

Parei primeiro no alpendre coisa de cinco minutinhos para fumar outro cigarro… Não que quisesse propriamente fazê-lo mas a tensão e ansiedade que acumulei durante todo o jantar, não me deixaram outra margem de refúgio se não a de me vingar naquele acto puramente consumista.
Depois alcancei o interior da casa e com um andar notavelmente mais calmo e subtil, subi até ao piso superior onde sabia se situarem os quartos, entre eles o de Sofia.
Caminhei entre o corredor e foi ao atravessá-lo quase por completo que comecei a sentir o soalho de madeira que revestia o chão, flutuar debaixo dos meus pés… Alguém caminhava atrás de mim usando-se de passadas pesadas de alguém frustrado, diria mesmo, que queimavam distância e se aproximavam de mim mas não me atrevi a olhar, pois quem me seguia fizera questão que eu soubesse da sua identidade nos segundos seguintes.

- Mas o que é… O que é que estás a fazer? Larga-me! – ele apareceu repentinamente do meu lado direito, e aplicando uma força que classificaria mesmo como sendo bruta, agarrou-me no braço e continuando a andar, arrastou-me consigo – Solta-me, estás a magoar-me!

- Primeiro vamos ter uma conversinha… Só nós os dois! – falou friamente sem me olhar e só me voltou a soltar quando entrámos ao acaso pela porta de um quarto, fechando-me lá consigo



***


(Ruben)

Vi-a sair disparada mal tivera oportunidade para fazê-lo, e não muito na intenção de efectivamente fazer um favor e ir buscar as prendas da Sofia, mas sim porque queria fugir, queria fugir daquele lugar e de mim porque era uma cobarde e não conseguia permanecer imparcial a um confronto quando os problemas pendiam para o seu lado.

- E então, vamos a mais um cartada? Aviso já que quero a desforra! – ouvi o Fábio lançar um desafio geral, dirigindo-se mais propriamente a Luisão

- Se for pra fazer você perder de novo… Aí eu topo! – Luisão gozou na cara dele, dando um toque de cotovelo no braço de Javi, o seu parceiro de jogo

- Não não, perder não… Eu vou dispensar aqui o caracoleta e deixar isto pra quem sabe! – ele desemaranhou os caracóis do topo da cabeça do David o que originou uma pequena guerra de socos inofensivos e empurrões entre os dois, mas acabaram por se controlar – Ruben, tu jogas comigo, mano! Vamos dar um bailinho a estes gajos! – ele lançou-me a proposta e eu apenas lhe acenei, nem dizendo que sim nem que não

- Não acha que já é hora? – David falou-me num tom baixo e moderado quando voltou a tomar o seu lugar e se sentou ao meu lado

- Hora de quê? – inquiri simplesmente e dei um gole da minha cerveja

- Não se faça de desentendido, pô! Ficarem nesse impasse não tem jeito nenhum! Você devia ir falar com ela… Resolver esse lance!

- Não há nada para resolver, David! A Joana deixou bem clara a nossa situação quando resolveu deixar-me pela segunda vez, portanto…

- Sabe que por vezes nem tudo o que parece ser, o é realmente… Acho que devia pensar nisso!

Aquela conversa do David, que ainda por cima tinha como base a defesa da Joana, estava a tirar-me do sério… Como se ele não soubesse o que eu tinha passado nos últimos dias, como se ele não soubesse o quanto tinha sido difícil para mim acalmar aquela dor, e agora estava ali… A fazer-me reconsiderar a minha dignidade e atestá-la com um confronto, cara a cara, olhos nos olhos, com a mulher que contra a minha vontade ainda amava tanto e a mesma que me deixara uma vez mais na corda bamba daquele amor.

- Queres que eu vá falar com ela, não é? Eu vou, eu vou. Mas então digo-te que não vai ser uma conversa nada agradável… Ela pode não vir a gostar daquilo que tenho para lhe dizer! – disse-lhe, completando os meus lábios com um sorriso de tirania

- Toma atenção ao que diz e ao que faz, não se atreva a magoar ela, manz… Tô só avisando! – ele agarrou-me o braço logo me levantei, mas depressa o fiz soltar-me quando o olhei e sacudi a sua mão, para então seguir as pisadas da Joana

- Ei, Ruben! – a clamação de Fábio fez-me olhar para trás quando já tinha percorrido metade do jardim – Então? Onde vais? Pensava que íamos jogar…

- Eu vou… Eu volto já! – dei uma resposta muito rápida e desapareci da vista de todos ao entrar em casa

O cheiro quase manipulador do seu perfume aos meus sentidos, que pairava no ar junto à escadaria, deu-me a indicação necessária de onde a poderia encontrar. Subi os degraus em três ou quatro lances saltando alguns escalões e encontrei-a, ainda a percorrer o corredor superior… Não reponderei o motivo pelo qual estava ali, por um só segundo, e frustradamente precipitei-me até ela, agarrei-a com força pelo braço e só a soltei quando fechei a porta do quarto para onde a tinha levado, pronto a exigir dela respostas a dúvidas que ficaram por esclarecer.
Não iria ser fácil, não iria ser nada fácil ter aquele confronto pois cada vez que a olhava só tinha vontade de a beijar e nunca mais deixá-la ficar longe de mim, mas esses eram impulsos que eu tinha de esconder e sobretudo controlar…

- Deixa-me passar, Ruben… Eu quero sair.

- Não, nem penses… Tu não vais a lado nenhum! – recusei sem pensar duas vezes o pedido que me fizera calmamente, colocando-me entre ela e a porta, que não a deixaria atravessar se fosse para fugir de novo

- O que é que pretendes com isto? O que é que queres?

- O que é que eu quero?! Só podes estar a brincar… Parece-me óbvio, não?

- Não, a mim não me parece que seja óbvio! Porque com esse teu comportamento de alguém completamente frustrado, com esse tom de voz e a maneira como olhas para mim agora e como olhaste durante todo o jantar, eu não sei o que queres… Se ouvir-me ou julgar-me… - não me admirava a capacidade que ela tinha em desvendar-me, porque a verdade é que conseguia conhecer-me melhor do que eu próprio me conhecia a mim

- Eu só quero que me digas porquê! Porque é que me mentiste, porque é que me deixaste! – exigi num sopro forte que me abandonou os pulmões, e que com ele levou toda a calma e bom senso que eu iria precisar

- Eu não te deixei… - ela ia continuar a farsa mas eu impus-me às suas explicações engendradas

- Gostas de me ver sofrer, de me ver cair e bater bem no fundo, é isso não é? Só pode ser isso, não encontro outra explicação para me teres deixado outra vez e me teres tratado como se eu fosse um qualquer…

- Já disse que não te deixei, Ruben! Eu não te deixei! – vociferou bem alto para que eu pudesse ouvir claramente, mas eu não queria ouvir… não queria ouvir – Perdi o nosso voo e na mesma altura o Pedro apareceu lá para ir buscar-me… Estive estes dias em Punta Cana a gravar uma publicidade televisiva, uma proposta de última hora que me caiu em cima e não pude recusar! Eu tinha um contrato assinado, Ruben… Foi por isso que não vim mais cedo!

- E estás à espera que eu acredite em ti? Depois de tudo esperas mesmo que eu acredite naquilo que dizes?

- Não acreditas? – perguntou, olhando-me com uma esperança sem fim

- O que é que tu achas? – perquiri prontamente e caminhei para o seu lado oposto – Estás uma semana sem dizeres nada, eu super preocupado contigo por não saber nada de ti e agora apareces com uma desculpa do tamanho do mundo, à espera que eu caia nela?! Por favor, Joana, não sou assim tão parvo!

- Pelos vistos és! Caso contrário não duvidavas de mim… A minha palavra chegava-te!

- Pois chegava, mas a tua palavra deixou de ter relevância para mim a partir do momento em que decidiste estragar tudo quando me abandonaste! – falei com uma raiva enorme, que não consegui controlar – Portanto, quanto à pergunta que fizeste se eu acreditava ou não em ti… A resposta é claramente um não.

- Mas eu estou a dizer-te a verdade, caramba! Será assim tão difícil conseguires compreender isso?!

- Acho, sinceramente acho muito difícil, ora pensa comigo: Primeiro, não sei se te lembras, tivemos aquela pequena discussão quando eu te pedi que fugíssemos juntos e uns dias depois, naquele agendado para o nosso regresso, tu perdes o avião e ficas uma semana sem dizeres absolutamente nada! – enumerei cronologicamente sem medo de a ferir ou susceptibilizar, estava apenas a constatar factos

- Eu já te expliquei porquê! O que é que queres que eu te diga mais para que acredites em mim? Diz-me, por favor, porque eu já não sei! – os seus olhos mudaram de cor e encheram-se de lágrimas, que mais cedo ou mais tarde iriam ceder nos trilhos do seu rosto

- Nada, não precisas de me dizer mais nada! Mesmo que eu faça um esforço, mesmo que eu tente, a mágoa que me fazes sentir é demasiado grande para que consiga acreditar em ti…

- Mas foram coincidências, Ruben… Eu perdi o telemóvel uns dias antes do voo e não tinha como te contactar, perdi o avião por um contratempo… Foram meras coincidências que causaram isto tudo!

- Depois de tudo isto, dizes que foram coincidências? Coincidências, Joana?! – o meu timbre elevou-se superficialmente sob a catapulta daquela discussão que se adivinhava longa, e creio que tivesse sido esse meu sobressalto que levara o seu corpo a tremer – Pois eu digo-te que não foram as coincidências que causaram isto, foi a tua cobardia, e é por causa dessa cobardia que nunca chegámos nem nunca iremos chegar a lado nenhum! Para mim não existem maiores clarividências que estas de que fugiste de nós, com a mesma cobardia de há três anos!

- Eu não acredito que estás a dizer uma coisa dessas… - a sua voz perdeu brutalmente intensidade e as lágrimas não tardaram em escorrer-lhe pelos olhos

- Digo-te mais, até! Se eu não estivesse aqui agora, nós provavelmente nem estaríamos a ter esta conversa porque muito provavelmente tu nem te irias dar ao trabalho em me procurar!

- Como podes dizer isso? Eu procurei-te sim, aliás, foi a primeira coisa que fiz quando cheguei a Lisboa! – afirmou com uma certeza inquebrável na voz, mas mais uma vez não eu não lhe quis dar ouvidos  

- O quê? – um riso desconfortável de ironia apoderou-se de todas as minhas feições – Como é que tu ainda tens o discernimento de mentir dessa maneira? Está claro que não me procuraste, caso contrário não era a ter esta discussão que estaríamos a fazer agora…

- Então aparece que agora está tudo mais claro… - ela viu a minha cara de constatação e foi por isso que continuou – Ai tu não sabes? O Mauro não te contou?

- O Mauro? O que é que o meu irmão tem a ver com isto?

- Pelos vistos tem tudo… - enxugou friamente as lágrimas mas nem por isso aquela situação a deixava de magoar… a cada minuto um pouco mais – O teu mano não te contou que eu fui ao Algarve no fim-de-semana passado para falar contigo? Não te contou que eu e ele estivemos juntos lá? E também não te contou que ele me pediu, expressamente, para te deixar seguir com a tua vida, sem mim, e nunca mais te procurar? Com que então ele não contou nada disso… (!)

- Isso… Isso não é verdade! – virei-lhe as costas e recusei-me a confiar em cada palavra, por muito que preferisse não fazê-lo

- Não é verdade? Tens a certeza? – senti-a caminhar amedrontadamente até a mim, e sabia que o facto de tê-la novamente tão perto, a respirar exactamente o mesmo ar que eu, iria fazer-me vacilar, mas eu não podia deixar isso acontecer, não podia.

- Se fosse verdade ele ter-me-ia contado, ele sabe o quanto és… O quanto eras importante para mim, sabe que eras a minha maior prioridade! O Mauro nunca me iria esconder uma coisa dessas!

- Pelos vistos escondeu, Ruben… Mas ouve, por mim tudo bem se preferires cair no erro de achares que eu te estou a mentir, mais uma vez, e acreditares no silêncio do Mauro… Afinal ele é teu irmão, e eu não passo de uma mentirosa cobarde que te abandonou pela segunda vez! – a imponência de sarcasmo que ela utilizou para arguir as minhas acusações, apertou-me o peito de uma maneira tão angustiante que eu nunca teria sido capaz de imaginar… até àquele momento

- Seja como for, eu não acredito que o meu irmão tenha sido capaz de me omitir esse episódio, mas vou fingir que sim, por dois minutos vou fingir que sim e pergunto-te: O que é que mudou? – finalmente voltei-me para ela, e o meu coração ficou apertado no seu canto, ao constatar o seu silêncio súbito e ver que novas lágrimas tinham então tomado novamente conta do seu rosto de anjo, do anjo que eu gostava de chamar de meu… – Exactamente… Não mudou nada! Vais dizer-me o quê? Que o Mauro te apontou uma arma à cabeça e preferiste fazer o que ele te disse do que ires ter comigo para resolvermos tudo e ficarmos bem? Poupa-me, Joana!

- Não, não foi o Mauro que me fez mudar de ideias, não foi ele que me fez desistir de ir falar contigo…

- Não foi? Foi quem, então?

- Foi a Inês! – respondeu rapidamente, fazendo-me congelar

- A Inês?! Porquê a Inês?

- Eu vi-vos na discoteca… Cheios de cumplicidade, de sorrisos, olhares…

- Ei, podes parar por aí… Que raio de insinuação é essa? – depressa me enchi de raiva e impaciência, não me agradava aquela evolução de raciocínios, tal como não me agradava o rumo que aquela nossa disputa estava a levar

- Não é insinuação nenhuma… Estou apenas a dizer o que vi!

- Pois a mim parece-me que viste mal! – argumentei a meu favor, se o que ela dizia ter visto era realmente verdade, então naquela noite eu não deveria estar no meu perfeito estado de sanidade, pelos copos que já devia ter bebido a mais – Se tu, mesmo depois do que vivemos em São Francisco, e mesmo depois de tudo o que vivemos antes, pensaste que eu e a Inês… Então tu não me conheces mesmo!

- O que é que queres que eu te diga? No momento eu não sabia o que havia de pensar… O Mauro disse-me aquelas coisas e depois vi-vos lá juntos. O que é que querias que eu fizesse?

- QUERIA QUE FICASSES COMIGO! – gritei num sopro de desesperança bem na frente dela, um rugido tão forte que pôde dissipar-se por todo o andar superior da casa – Queria que me amasses até ao fim das nossas vidas, queria que cumprisses todas as promessas que fizemos um ao outro, queria tudo aquilo que hoje já não posso ter!

- Mas tu podes ter… Tu podes ter-me, simplesmente não me queres mais. – ela estava tão indefesa, tão frágil, e eu já não me sentia capaz o suficiente para protegê-la

Ficámos a olhar um para o outro à espera que alguém tomasse uma nova reacção… Eu tremia, todo o meu ser pendia para ela, para a mulher da minha vida, para a mulher que eu queria que fosse a mãe dos meus filhos, e aquela tentação era irresistível… Mas de novo aquela sensação de abandono passou por mim e regelou-me o sentimento.

- Penso que agora já seja tarde demais… – disse-lhe num tom incrivelmente moderado, e os meus olhos raiaram-se de um vermelho que me fazia querer chorar muito, mas graças ao meu orgulho não o fiz

A Joana olhou-me, desta vez com uma mágoa, uma desilusão que eu não soube desmistificar. Afastou-se de mim e aproximou-se da porta, tomando a maçaneta na sua mão para se ir embora e deixar-me ali, envolto nos meus fantasmas.

- Isso mesmo, foge! Sempre fugiste e passarás o resto da tua vida a fugir!

- Não dá mesmo para conversar contigo! – ela mirou-me de relance uma última vez e depois saiu, deixando para trás somente o estrondo da porta a bater

Os remorsos não tardaram em soquear-me o estômago, gritarem aos meus ouvidos, e por isso, e só por isso fui atrás dela… Ainda havia muita coisa para ser dita e não podia deixar que virasse costas e se fosse embora daquela maneira, apesar de ter consciência de eu próprio ter contribuído para isso.

- Joana! Joana, espera… Volta aqui! Joana! – chamei-a enquanto atravessava todo o corredor num passo apressado, mas ela ia a correr e conseguia ouvi-la chorar… ao assomar-me ao cimo da escadaria vi-a atravessar a porta para o exterior o mais depressa que conseguiu, não me dando mais tempo para o que quer que fosse – Merda! – pontapeei com força o gradeamento das escadas, levei as minhas mãos à cabeça e agitei-as freneticamente no cabelo, começava a desesperar e não sabia mais o que fazer



***


(Joana) 

O Ruben magoara-me de todas as maneiras possíveis, atirando o meu coração para o meio da rua e enxovalhando-me sem um pingo de compaixão. Não quis continuar ali com ele e vim-me embora, bati a porta com força e desci as escadas tão depressa que ainda não sei como não caí. Ainda o senti vir atrás de mim e implorar-me que não partisse, mas parti… Antes de voltar ao jardim enxuguei o rescaldo de lágrimas que me esfriava a pele e recompus-me o melhor que pude para ir despedir-me de todos.

- Amor, então? – Adriana veio ter comigo mal me viu, notando o meu ar devastado, que no entanto eu tentava esconder

- Vou-me embora, Adriana, a minha noite já chegou ao fim…

- O que é que aconteceu? – ela lançou-me um olhar preocupado de alto a baixo, mas eu não estava disposta a falar… não ali e não naquele momento

- Depois falamos, está bem? Não consigo ficar aqui mais um minuto! – mostrei-lhe um sorriso pequenino e dei-lhe um beijo na bochecha carregado de carinho e gratidão

- Falamos mesmo! – ouvi-a dizer já quando me dirigia à mesa onde todos confraternizavam animadamente entre conversas paralelas

- Brenda, Lu, vou indo… Obrigada pelo serão, estava tudo óptimo!

- Oh já? Fica mais um pouquinho, ainda é cedo… - ele expressou bem a sua vontade em eu ficar, ao contrário da minha que era muito pouca… quase nenhuma na verdade

- Fica, meu anjo… A gente ainda nem partiu o bolo do niver! – referiu Brenda tristemente pela minha retirada antecipada, apoiando o pedido do marido

- Eu gostava muito mas tenho mesmo de ir… Desculpem! – lamentei, sem me alongar em explicações – Por favor diz à Sofia que eu não pude mesmo ficar para lhe cantar os parabéns e dá-me um beijinho meu muito grande!

- Claro, meu anjo, pode ficar sossegada que eu dou pra ela! – fiquei um pouquinho mais leve pelo amparo dela por não ter oportunidade de me despedir da minha afilhada, visto que não estava junto a nós e ao percorrer a mesa num relance os meus olhos estacaram nos de David, que me olhava expectante por provavelmente saber com quem estive e somente lhe mostrei um sorriso triste e um pequeno encolher de ombros que foi o suficiente para ele compreender – Boa noite a todos!

Despedi-me de um modo geral que foi correspondido por todos os meus amigos, peguei na minha mala e assim que virei costas aquela vontade enorme de chorar regressou.
Cortei novamente caminho pelo interior da casa para alcançar o alpendre de entrada mas arrependi-me no mesmo instante em que o pisei… Encontrei Ruben encostado ao pilar da vedação, provavelmente à minha espera mas decidi por bem ignorá-lo… Não iria suportar outra discussão.
Enchi os meus pulmões de ar esperando receber algum alento e precipitei-me ao pequeno lanço de escadas que acabou por me levar à calçada que percorri no centro do jardim. Mas enganei-me redondamente se em algum segundo pensei que tinha superado aquela prova de fogo.

- Isso, vai! Vira as costas a tudo e a todos… Vai, foge! É o melhor que sabes fazer, não é? Fugir… - de novo as suas recriminações atacaram-me já quando me aproximava do portão, e não foi minha vontade ficar-lhes indiferente

- Realmente tens razão no me disseste há pouco… Eu não te conheço mesmo! – falei-lhe com algum rancor e voltei-me de frente para ele, vendo-o descer vagarosamente os três de degraus para a calçada – Como é que és capaz de me tratar dessa maneira?

- Costuma-se dizer que as pessoas só têm aquilo que merecem…

- Sinceramente, Ruben! Eu… Eu odeio-te!

Tomei manobra do puxador maciço do portão e a lacrimejar saí em direcção ao passeio onde junto ao qual tinha estacionado o meu jeep.
Pensei que tinha então chegado o fim, do tudo ou do nada, o fim de um conflito de valores, de uma disputa de palavras amargas entre nós, pensei que tivesse chegado o nosso fim! Mas confesso que nunca pensei no momento que se seguiu…

- O que é que disseste? – ele viera atrás de mim e detivera-se na entrada à beira do portão, interrompendo-me a caminhada no passeio penodal para enxergá-lo mais uma vez – Repete, Joana! O que é que tu disseste!? – ordenou com uma pose altamente sisuda e autoritária

- Disse que te odiava… - é óbvio e eu tinha plena noção disso, que estava a falar da boca para fora, que não sentia nada daquilo, muito pelo contrário até, mas tinha a cabeça quente, a ferver… não me dei conta da medida das palavras – Já ouviste bem agora, Ruben? Eu odeio-te! – posto isto voltei a seguir o meu rumo e com um premir de botão das chaves, destranquei o carro… só queria sair dali  

Foi então ao olhar acima do ombro que o vi caminhar furiosamente até mim, movido por uma exaltação penetrante que me roubou o ar. Pegou em mim fazendo-me praticamente tirar os pés do chão e jogou-me violentamente contra o meu carro, esborrachando-me entre a porta de condutor e o seu corpo.
Ele era vitimado de uma respiração brusca e nervosa, ao contrário da minha que permanecia suspensa, enquanto o meu coração padecia estacado pela surpresa e emoção sem forças para se desafogar.   

- Tu não me odeias, ouviste bem? Não voltes a dizer isso quando eu sei muito bem aquilo que ainda te une a mim! – proferiu como se fosse o dono da razão, apoiando a sua certeza ao comprimir ainda mais o seu corpo contra o meu, obrigando-me a conter o fôlego

Comecei aos poucos a perder a força nas pernas e só me mantive em pé porque permanecia completamente colada a Ruben. Ficámos então perdidos num silêncio que não nos incomodou nem um pouco, enquanto eu tentava inutilmente não me afogar nos olhos dele, que me fixavam num jeito quase asfixiante como duas imensas luas novas. E de repente parece que tudo mudou, embora que apenas por alguns momentos… Pareceu-me vê-lo desfazer-se da armadura que o ajudava a lutar contra nós e o seu comportamento sofreu uma trágica mudança, ele mudou para regressar ao Ruben que sempre conheci, e numa nova atitude sua voltei a encontrar a razão porque continuava tão apaixonada por ele.

- Em que é que estás a pensar? – ele falou muito baixinho, permitindo que a pontinha do seu nariz rosasse levemente na minha

- Estou a pensar no quão bom e oportuno seria, se me pedisses para fugir contigo agora… - respondi num murmúrio tremelicado de ingenuidade e paixão   

Ele não disse absolutamente nada, porque a verdade é que nem era preciso. A sua mão acariciou levemente a minha face e seu nariz passeou pelo meu pescoço, momento em que consegui sentir o seu bafejar inquietado arrepiar a minha pele, desconcertando-me profundamente. Depois voltou a olhar-me nos olhos como se partilhássemos o mesmo pensamento do que iríamos fazer a seguir… E exactamente no mesmo instante, no mesmo segundo, os nossos lábios precipitaram-se ao centro e procuraram o toque um do outro, há muito esperado, há muito ansiado. As suas mãos seguraram o meu rosto, para garantir que eu não fugiria dos seus braços e tudo culminou no envolvimento em segredo das nossas línguas, que mataram as saudades que foram preenchendo o vazio dos últimos dias, e oh, que saudades… Foi tão bom!
Tudo naquele beijo era Ruben… Uma inigualável frustração que o fazia afundar os dedos na minha cintura, apertando-a com força; uma insegurança e um temor que proporcionaram às nossas línguas um dançado violento e docemente delirante que nos envolveu numa entrega tão profunda como há muito não me lembrava.
Mas de repente tudo aquilo conheceu o seu desfecho… O seu corpo deixou de fazer pressão contra o meu, as suas mãos fugiram debaixo da minha blusa, e a sua língua desenlaçou-se da minha assim como as nossas bocas que se afastaram apenas por vontade dele. Tentei voltar a beijá-lo mas o seu rosto recuou e o seu indicador selou os meus lábios.

- Eu não consigo… Desculpa mas eu não consigo… - foram estas as suas palavras que ditaram o começo do fim

Olhei-o confusa, com o coração a bater a mil e uma incerteza sufocante que não me deixava pensar direito e encontrar uma explicação àquele seu comportamento que eu estava longe, muito longe de imaginar.

- Estes últimos dias não me saem da cabeça, e não consigo parar de pensar no que me voltaste a fazer… Por mais que me esforce eu não consigo voltar a confiar em ti, Joana… E não sei se algum dia conseguirei verdadeiramente.

Um, dois, três socos lançados ao meu abdómen e um revirar do estômago que encontrou o seu avesso. Acho que aquela foi a pior sensação do mundo, a sensação do meu coração a quebrar-se em milhões de pedacinhos irreparáveis. 
Quis gritar com ele, quis perguntar-lhe porquê, quis implorar-lhe que não fizesse aquilo, mas o fim foi uma situação incontornável e eu não fiz nada mais do que manter o meu silêncio e esperar para ver o que aconteceria a seguir.
Esse momento, porém contra a minha vontade, não tardou em chegar… Vi-o pressionar o puxador e abrir a porta do meu carro, esperando que eu entrasse.

- Acho que o melhor é ires embora… - pediu-me segurando a porta, sem ter sequer a coragem de me olhar dentro dos olhos

- É o melhor? É o melhor para quem, Ruben? – perguntei num fio de voz, aguardando por uma nova atitude dele, uma atitude que apagasse as suas últimas palavras e reescrevesse a última parte do novo capítulo da nossa história, mas não recebi mais nada da sua parte senão insensibilidade e o fel de desistência

- É o melhor… para todos. – ciciou por fim ao embate dos nossos olhares

Não insisti, não resisti mais. Estava cansada de lutar contra o imbatível. Recusei-me a novas palavras que levariam a novas conversas, conversas que não nos levariam a lado nenhum e passei à sua frente, tomei o lugar privilegiado do meu carro e fechei a porta rapidamente logo que entrei, evitando que fosse ele a fazê-lo por mim. Ainda tivemos tempo de nos olharmos, vacilantes, pelo vidro, contudo nada mais foi acrescentado… Estávamos ambos magoados, ambos a sofrer, mas quando tínhamos tudo, foi ele próprio quem não quis por fim àquela dor e por isso mesmo eu já não fazia mais nada ali.
Antes que rebentasse num choro liguei o carro e fazendo um esforço enorme para não voltar a olhá-lo – pois sabia que da próxima vez que o fizesse, os meus olhos iriam tomar outra atitude –, saí do estacionamento e arranquei a uma velocidade superior da que eu estava habituada.
Agora estando no meu perímetro de segurança não pude evitar e lancei uma mirada ao retrovisor, onde acabei por conseguir enxergá-lo… lá ao fundo, imobilizado no meio da estrada a ver-me partir. Tal como já previra as lágrimas subiram até aos meus olhos e enturvaram-nos por completo… Não sabia para onde estava a ir, que rumo tinha tomado, e sem uma visão clara sobre a estrada anoitecida, tornava-se cada vez mais difícil e perigoso conduzir. Tentei não deixar fugir o volante das minhas mãos, tentei não perder o controlo, mas a vontade de chorar era cada vez maior e estava a levar a melhor de mim. Era noite cerrada e podia dizer que jornadeava praticamente sozinha, sem companheiros de estrada, mas nem sempre foi assim… Ia de tal maneira perdida em pensamentos que devia ter deixado com a pessoa que ficara para trás, tão imersa no ex-líbris da minha própria dor, que nem dera conta de ter quebrado a lei e interposto a via contrária… As luzes fortes de um outro carro que seguia na minha direcção quase me cegaram e só no segundo em que ouvi a soada da buzina que caí em mim, fiz uma manobra repentina com o volante e um desvio rápido que me obrigou a parar o carro numa valeta à berma da estrada.

- Onde é que tens a cabeça? Só fazes asneira! Só fazes asneira! – repreendi a mim mesma, batendo frustradamente com as palmas das mãos no volante… não ganhara para o susto

Tinha o coração mais acelerado do que nunca, as lágrimas voltaram percorrer a pique o meu rosto mas desta vez sem retorno nem vista a um cessar.
Solucei torpidamente como uma criança ao recordar o recente momento que travara com Ruben e acho que nunca desejara tanto desaparecer da face da terra como até então. Sentia-me arrasada, humilhada e nada que estivesse para vir conseguiria apagar aquela angústia e sofrimento de que estava a ser vitimada.

- Acabou… acabou… - repeti num silvar derradeiro de um amor que me dera a vontade de viver e que agora, desfeito, voltara a tirá-la de mim… chorei muito ali sozinha até não ter mais forças para continuar a fazê-lo, embebida numa esperança sem fim que aos poucos me abandonava 




Olá, meninas! :)
Aqui vos deixo um novo capítulo da história!
Espero que gostem e deixem-me os vossos comentários, eles são um incentivo e uma motivação enorme para a continuação da escrita.

Beijinhos,
Joana :)


sexta-feira, 7 de junho de 2013

Capítulo 13 - Corações em silêncio (Parte II)

Com os olhos rasos pelas lágrimas que derramara durante a maior parte da viagem que fizera de volta a Lisboa, e apesar de já ser tarde, conduzi até à casa das duas pessoas com quem eu sabia poder partilhar um pouquinho da minha dor, de maneira a torná-la mais leve e pequena. Estacionei o carro junto ao prédio, e fazendo uso do elevador subi até ao andar debuxado na minha cabeça.

- Joana? – foi Adriana que ao fim de alguns minutos de eu ter batido, me veio abrir a porta, envergando uma camisa de dormir e um robe de cetim, fresco para a época verana

Não consegui conter mais aquele sufoco e foi quando encontrei o olhar meigo de uma amiga que me joguei nos braços dela, surpreendendo-a num aperto sofredor que eu implorei interiormente para que se fosse embora e me deixa-se, mas infelizmente para mim, ele era percistente demais para me deixar viver e respirar.

- Então, princesa…? Então? – ela sentiu que eu não estava bem e como tal não renegou aquele abraço, que também a mim me desarmou e me fez precipitar algumas lágrimas

- Desculpa, desculpa ter vindo a estas horas e ainda por cima sem avisar, mas eu não sabia para onde mais podia ir… - ainda num choramingar atabalhoado, perdoei-me rapidamente quebrando o enlace dos nossos corpos e encarei-a pela primeira vez 

- Fizeste bem em vir aqui, claro… Sabes que eu nunca te fecharia a porta! – a sua mão delicada fez uma pequena festa na minha face e eu senti-me verdadeiramente em porto seguro - Mas anda, vamos entrar…

Sem me afrontar com qualquer pergunta, ela acolheu-me no lar de David, que agora também era seu e o qual era albergado por uma calmaria passiva, quase adormecida. Ela seguiu pelo pequeno corredor e eu limitei-me a acompanhá-la até à sala de estar.

- Senta-te… Acho que temos de conversar. – pela primeira vez desde que ali chegara notei-lhe alguma retaliação na voz, o que de certa maneira me deixou ligeiramente desconfortável

- Adriana se é sobre… - eu ia começar a falar mas ela anticipou-se às minhas explicações

- O que é que se passou, Joana? É verdade que deixaste o Ruben? – Adriana foi rápida e directa na procura de respostas mas por consequência as suas dúvidas causaram mais impacto em mim do que se uma bomba relógio tivesse sido activada em função dos sinais vitais do meu corpo – É verdade, Joana?

- O quê? Não! É claro que não! Quem é que te disse isso? – inquiri num laivo temoroso, de que não fora só Mauro que tomara ordem em meu ataque mas também ela, a amiga mais íntima e na qual eu mais confiava

- Não foi preciso ninguém me dizer… Eu mesma vi com os meus olhos… - a sua voz descodificou-se num arrastar suave de pena e incompreensão, por tudo o que parecera estar recomposto e agora puder finalmente dar certo, abatera-se com um simples estalar de dedos

- Como é que ele estava? – não pude deixar de lhe perguntar por ele, como sua melhor amiga, Adriana saberia com certeza

- Mal… Como deves imaginar. A última vez que estivemos juntos ele estava um autêntico farrapo, nem parecia mais o mesmo Ruben… O nosso Ruben!

- Eu não queria que nada disto tivesse acontecido, não queria que as coisas tomassem este rumo, a sério que não… - as lágrimas voltaram ao berço dos meus olhos e ameaçaram embalar o meu rosto entre novos mares

- Amô? Quem que tava batendo na porta? – meio ensonada, e sem reparar em mim à vista desarmada, a figura de David assolou-se à ombreira da porta totalmente aberta, envergando somente umas calças de pijama

- David… - ergui-me do sofá assim que o vi, poupando Adriana ao esclarecimento da sua pergunta

- Joana… - ele pareceu-me surpreso por me ver ali, contudo não expressou tanta satisfação ao contrário do que eu esperava – O que cê tá fazendo aqui? – não conseguiu usar-se do seu tom meigo habitual que empregava sempre que falava para mim e esse pequeno pormenor, parecendo que não, susceptibilizou-me um pouco

- A Joana veio cá porque…

- Eu vim cá porque não sei o que fazer, regressei hoje, encontrei isto tudo voltado de pernas para o ar e sinto-me desamparada…

- Ué, fala sério?  uma levante espicaçada de ironia transpôs-lhe a voz, para o meu desalento  Engraçado que cê fala nisso porque o Ruben também se sentiu desamparado quando se viu cá sem você!

- David… - Adriana pediu-lhe apenas com o olhar para que tivesse calma comigo e fosse mais ponderado nas palavras

- Não, Adriana, ele tem razão… É compreensível, tendo em conta o que eu fiz, ou melhor… O que eu não fiz! – não podia levar a mal aquela pequena posição de ataque que David dispunha a meu alvo pois Ruben era o seu melhor amigo e como tal, perante a minha – até à data – inexplicável atitude, foi natural para mim perceber que ele tinha tirado o seu partido e as suas próprias conclusões

- O que cê não fez? Nisso tá certa… Cê não parou um minuto pra pensar nos estragos que poderia causar novamente ao homem que você dizia amar, e pensou só em você no instante em que decidiu voltar a abandoná-lo!

- Não me julgues… É só que te peço isso… - de novo lá estava aquela censura que não se cansava em apunhalar-me, e ter que ouvi-la da boca de alguém que eu gostava tanto como era o caso de David, mingou-me o coração… ou o que ainda restava dele – Não me julgues sem conheceres os dois lados da história!

- Que dois lados, pô! Você mentiu pra ele quando lhe disse que regressavam juntos a Lisboa, esteve esses dias todos sem dar sinais de vida… Essa história tem só um lado e olha que ele tá bem à vista de todos! – ele parecia-me seguro em cada palavra que acrescentava e nada arrependido por proferi-las

- Amor, vamos acalmar um pouco, está bem? A Joana veio aqui, certamente porque tem alguma coisa para nos dizer… Não é? – a sempre coerente Adriana tentou tomar ordem da fasquia que tanto eu como David queríamos transpor para nos fazermos ouvir um ao outro, e depois olhou para mim num só intuito de que eu apoiasse a sua pressuposição

- É, é isso mesmo… Eu queria falar com vocês e explicar-vos o que aconteceu!

- Acho que já vai, deixa cá ver… Já vai cinco dias tarde…

- Bolas, David, será que podes acabar com as provocações e sentares-te aí para que possamos conversar?! Como adultos que somos…

Confrontado com o requerimento da sua namorada e poucos instantes após, David resignou-se no seu lugar isolado que ocupou na poltrona enquanto eu e Adriana nos dispusemos no sofá de três lugares… Preparando-nos para termos enfim uma conversa sincera e frontal que satisfizesse todos os lados.

- O Ruben pensa que cê o deixou outra vez… Aliás, como acho que todos nós pensámos. – ele voltou a falar mas desta feita num tom mais ponderado e muito pouco criticador, quase nada na verdade, que procurava apenas colocar-me a par do temor que eu já tinha calculado

- E porquê? Têm-me em tão má conta, é isso? – num impulso levantei-me novamente colocando-me na frente dos dois, mas sem nunca deixar a minha voz transpor a barreira de som permitida para aquela conversa, agora mais pacifica – Vocês sabem porque razão eu me fui embora da primeira vez, sabem porque é que o tive de o deixar… Acham que seria capaz de voltar a fazê-lo?

- Honestamente, o que queria que a gente pensasse? Cê deu o fora, esteve esses dias todos sem dizer nada, Joana!

- Teria sido amigável da vossa parte não me apontarem o dedo, não julgarem nem as minhas intenções nem os meus actos sem antes os conhecerem.

- Percebe que ninguém aqui está a querer julgar-te…

- Talvez não, Adriana, mas é o que me fazem querer… Não esteve nas minhas mãos fazer o que quer que fosse para alterar a situação naquele dia, no dia em que tínhamos voo marcado para voltarmos, as coisas aconteceram por si só como uma avalanche de azares! – inconscientemente comecei a perder o controlo do discurso, pois uma vez mais e sem eu ter posse dos meus instintos, as gotas de orvalho rasgaram discretamente as minhas faces

- Mas o que é que aconteceu afinal? Porque é que desapareceste de repente e ficaste incontactável? – ela puxou-me para junto de si de maneira a retomar o meu poisio e então dar a vez a explicações as quais já era tempo de colocar em cima da mesa na frente deles

Voltei a sentar-me e senti os seus olhares expectantes recaírem sobre mim. Aguardavam um discurso plausível e sobretudo aceitável da minha parte, o suficiente para justificar o mal-entendido deixado em pontas de linho desfiadas pela sina de duas vidas que o destino não queria ver juntas.
Suspirei penetrante e dei início à tão aguardada narrativa que captou totalmente as suas atenções e manteve as suas vozes silenciadas, obviamente depois dos minutos que dispensei a falar dando depois lugar às dúvidas que tanto um como o outro não tiverem como evitar, que surgissem nos remates do meu disserto.
Por fim, e depois de esclarecer-mos o que antes não fora compreendido, já tinha David sentado junto a mim, colocando-se entre mim e a Adriana e confortando-me em seus braços, notavelmente arrependido por me ter assaltado com acusações mal dera pela minha presença naquela sala.

- Me desculpa por ter duvidado de você! Não fui um bom amigo e você não merecia… Desculpa! – novamente ele quis esmiuçar o quão precipitado tinha sido em prol do meu julgamento e não hesitou em voltar a pedir pelo meu perdão

- Dê, está tudo bem… Esquece isso, sim? – os meus dedos delicados embrenharam-se nos seus caracóis mais rebeldes, e ainda fragilizada por todo o núcleo do meu dilema, mostrei-lhe um sorriso tranquilizador que assegurou o nosso titular de amizade, que ainda confrontado com aquela situação, em momento algum fora posto em causa… desta maneira senti-me depois confortável para me desviar um pouco do assunto – Quem é que sabe que eu e o Ruben nos voltámos a envolver?

- Pouca gente… - começou Adriana por dizer – Acho que quase ninguém, na verdade! Sabemos nós, talvez alguns dos rapazes do nosso grupo, a Dona Anabela e…

- …e o Mauro! – completei num sussurro mesmo antes de ela terminar

- Bem e eu acho que me vou deitar que tô cansado! – ressentido pelas tarefas de um dia provavelmente longo, o corpo de David ergueu-se prostrando-se na nossa frente, retirando-se assim discretamente de um final de conversa que passara a ter interesse somente para mim e para Adriana

- Vai descansar, amor, eu já vou ter contigo! – os lábios de ambos encontraram-se num único toque apaixonado, quando David a procurou para consular uma despedida que seria breve e depois se dirigiu a mim com a mesma finalidade

- Depois a gente fala com mais tempo e calma, moleca. Com o tempo as coisas voltam ao devido lugar, confia…

- Obrigada, David. – agradeci com a maior sinceridade, apesar de saber que não poderia deixar o meu destino apoiar-se em esperanças de palavras bonitas, e segundos depois senti a minha testa levemente húmida por um beijo que ele carinhosamente me havia ofertado

- Boa noite… - desejou-me e eu desejei-lhe igual, vendo-o depois cruzar a porta da sala de estar para tomar destino até ao seu quarto

- O que estavas a dizer sobre o Mauro? Estiveste com ele? – quando voltámos a ficar sozinhas, foi Adriana que retomou a conversa interrompida, num tom de voz muito leve

- Estive… A primeira coisa que fiz quando voltei foi procurar o Ruben e como soube que ele tinha ido passar o fim-de-semana ao Algarve, fui até lá! Entretanto encontrei o Mauro, ou melhor, o Mauro encontrou-me a mim e bem, acho que consegues imaginar como foi…

- Vocês discutiram…

- Discutimos. Digamos que ele não teve grandes dificuldades em atirar-me com as culpas pelo que eu “voltei a fazer” ao Ruben, e disse-me coisas que sinceramente preferia nem ter ouvido.

- Oh, já deves saber como é o Mauro no que toca ao irmão! É capaz de defendê-lo com unhas e dentes se for preciso… Não lhe dês importância! – ela também lhe conhecia muito bem o instinto protector de irmão mais velho, e como ele era capaz de perder o racionalismo quando os laços de sangue se tornavam nas evidências mais fortes – Mas então foste ao Algarve, estiveste com o Mauro e conseguiste ao menos falar com o Ruben?

- Não, não cheguei a vê-lo! – apesar de detestar fazê-lo, ainda para mais a uma amiga com ela, tentei-me em mentir-lhe pois não estava disposta a ser bombardeada por mais inquirições e com isto recordar o cenário de início daquela noite, que depois e muito superficialmente me vi intentada a esclarecê-lo – Adriana, eu vou perguntar-te uma coisa e queria que fosses sincera comigo… Mesmo que essa sinceridade me venha a magoar…

- Sim, claro… Pergunta.

- Sabes se voltou a haver alguma coisa entre o Ruben e a Inês? Eles estão juntos…?

- O quê? Que pergunta é essa? – a sua testa enrugou-se levemente aquando confrontada com a minha pergunta, no entanto eu insisti

- Podes dizer a verdade, Adriana…

- Não, princesa, que disparate! O Ruben ama-te, percebi isso perfeitamente quando vi o sofrimento dele por ter posto em causa ter voltado a perder-te! A história dele com a Inês acabou definitivamente. – ela pareceu-me inquebrável nas palavras, mas não sei bem porquê, ainda assim não consegui serenar no aconchego dessa afirmação – Mas porque é que perguntaste?

- Não, por nada… Parvoíce minha, esquece! – acrescentei com um sorriso de lábios desajeitado e inseguro e no instante seguinte levantei-me e peguei na minha mala para colocá-la ao ombro – Mas então olha, não te chateio-o mais com os meus problemas… Já está na hora de eu ir!

- Não, espera! Fica. Fizeste uma viagem longa e deves estar cansada… Passa cá a noite e amanhã logo voltas pra casa.

- Não, eu não quero incomodar, eu estou bem!

- Joana, ambas sabemos que isso não é verdade, tiveste um dia longo e as emoções não foram as melhores. Por favor, faz isso por mim… Fico mais descansada!

Relembrada pelos pontos fulcrais que tinham levado a melhor de mim naquele dia, e sentindo-os pesar em mim, não tive como lhe fazer aquela desfeita e voltar a recusar – Se ficas mais descansada…

- Fico, fico mais descansada! – também ela se ergueu do sofá num suspiro de alívio e prostrou-se na minha frente – Espero é que não te importes de dormir no sofá-cama… Os pais do David vieram cá passar uns dias e estão no quarto de hóspedes…

- Sendo assim não é preciso abrir-se o sofá… Eu posso dormir assim mesmo!

- Pronto, isso já é contigo, fazes como achares melhor! Eu vou então buscar-te uma mantinha e um pijama para dormires mais confortável.

- Obrigada, amor. – proferi com a maior gratidão do mundo pelo seu gesto e senti-a beijar-me cuidadosamente a bochecha no instante imediato, para ir depois acarinhar-me em todo o conforto para aquela noite que eu sabia que não iria passar tão depressa como eu desejava



***


Dormir tornou-se uma tarefa quase impossível. Não era da textura do sofá e muito menos do desconforto das almofadas, pois o motivo da minha falta de sono era outro e por sinal bem mais sério. Vi as horas quebrarem nos ponteiros pitagóricos do relógio de parede e de olhar perdido pela escuridão da sala, senti-me morrer simbolicamente pela falta de amor e protecção de quem eu mais queria e desejava ter.

- Joana, minha filha, bom dia! – logo pela manhã fui apanhada numa surpresa que não esperava, pela mãe de David, no entanto não me sobressaltei demais pelo facto de já estar acordada

- Dona Regina… Bom dia! – recompus o meu corpo no sofá e vi-a, envergando ainda camisa de dormir, aproximar-se a mim

- Não sabia que cê ‘tava cá… - ela despoletou um beijo maternal na minha têmpora e rapidamente recordei o carinho que partilhávamos desde que formara amizade com David

- Cheguei ontem de viagem e vem ver o David e a Adriana… Como já era tarde e estava cansada para voltar a casa, passei cá a noite!

- Fez bem, conduzir tarde e ainda pra mais quando a gente tá cansado é um perigo… Tô sempre falando isso pró Davi! – a Dona Regina sentou-se de frente para mim, num espacinho que deixara vago à beira do sofá e foi-lhe fácil aperceber-se que algo não estava bem comigo – Cê tá bem, minha filha? Sua carinha tá meio que murchinha…

- Eu estou bem, Dona Regina, não se preocupe. – fingi um sorriso o melhor que sabia fazê-lo e esperei que este não me traísse

- Tem certeza? Não quero encher seu saco, mas pelo estado dos seus olhos a mim me parece que passou a noite chorando… - era verdade, o inchaço dos meus olhos era algo que não dava para disfarçar, pelas horas que passara em claro perdida num choro fatigante e silencioso

- Não é nada que não passe… Com o tempo, o tempo é a melhor ajuda!

- Olha só, o Lau ficou dormindo, passei pelo quarto dos meninos e eles ‘tavam dormindo também… Vem ali na cozinha que eu preparo o café da manhã pra gente e aí, se você quiser falar sobre o que vai aí nesse coraçãozinho… Cê sabe que eu sou uma boa ouvinte.

Não discutimos sobre o assunto, levantei-me e acompanhei-a até à cozinha da casa. Ajudei-a a preparar um pequeno-almoço simples, só para nós duas, e apesar de eu não ter muita vontade de comer, uma chávena de café forte e uma das suas famosas – e muito gabadas por David –, panquecas, foi algo a que eu não pude resistir.

- Café? – atenciosamente, e já sentadas na mesa redonda, a mãe de David segurou o bule do café, disposta a servir-me

- Sim, por favor… - ergui escassamente a minha chávena e sorri-lhe no fim em agradecimento

- E aí… Eu sei que não sou uma amiguinha da sua idade com quem certamente você estaria mais à vontade pra falar, mas cê sabe que pode sempre contar comigo… Esses olhinhos e essa carinha não enganam não, e eu posso apostar que essa noite você mal pregou olho!

- Sim, Dona Rê, é verdade que não passei muito bem a noite, que passei horas a chorar e que por isso tenho os olhos nesta lástima, mas a senhora também já deve saber o que aconteceu e se somar um mais um pode calcular a razão de eu estar assim… - disse calmamente, na certeza de que a mãe de David já estava a par de tudo

- É, eu sei bem mas não queria nem seria certo ser eu a puxar o assunto se não fosse você a primeira a fazê-lo, cê entende…

- O David contou-lhe, não foi?

- Foi sim… O Ruben é o melhor amigo dele, ficou preocupado, é natural…

- Ele não me vai perdoar, pois não? - inquiri meio amedrontada ao fim de algum tempo que fiquei sem saber o que dizer, temendo por uma resposta de alguém que sabia perfeitamente do que eu estava a falar

- Quem ama acaba sempre perdoando, de um jeito ou de outro, e o Ruben ama você, é doido por você, sempre foi… E agora não é diferente.

- Ele é teimoso, orgulhoso… a Dona Regina conhece-o, sabe como ele é! Quando se lhe mete uma coisa na cabeça…

- Ele é meio cabeça dura sim, mas só tu pode acabar com esse mal entendido, minha filha… Vai ter que esclarecer tudo pra ele, cês vão ter que conversar…

- Não sei se o Ruben vai querer ver-me depois disto tudo… - proferi com o coração apertadinho, recordando o que Mauro me havia dito na noite passada

- Claro que quer, meu bem… Cês vão falar, vão resolver essa parada e vai tudo ficar no final. Tenha fé, tenha um pouco de fé em si e em Deus e tudo irá dar certo, pode confiar! – ditou com a sabedoria que lhe fora proporcionada pelos momentos da vida vividos, e agora restava-me fiar nessa esperança e aguardar que o tempo fizesse chegar até a mim o momento oportuno para deliberar a minha vida dali em diante



***



Dois dias após o fim-de-semana recebi o telefona de Brenda para a confirmação da minha ida à festinha da minha afilhada Sofia, que completava quatro aninhos da sua tenra idade.
A comemoração iria ter lugar na casa de Luisão e tomava o seu início ao final da tarde para um jantar dado apenas à família e amigos mais próximos. Como se podia imaginar eu estava ansiosa, estava bastante ansiosa na verdade, pois sabia que a presença de Ruben na festa era indiscutível e um reencontro nosso já há muito esperado seria com toda a certeza inevitável.



Não me aperaltei demasiado no visual e optei por rematá-lo com uma maquilhagem simples que deu para disfarçar um bocadinho o aspecto cansado e amargurado do meu rosto, e uma forma ondular ao meu cabelo que adornei com algumas passagens do modelador.
Fiquei pronta em céleres minutos, peguei na mala e preparei-me para deixar a casa dos meus avós e enfrentar a ocasião que iria decidir o meu destino.
Conduzi calmamente e sem grandes pressas de lá chegar, sentia um enorme vazio por preencher no lado esquerdo do peito e esse não iria passar certamente até ao meu regresso a casa… E era isso que me assustava, não saber o que iria encontrar, não saber o que me esperava, não saber que reacção iria tomar o Ruben quando me visse e pior, não saber como reagir quando eu própria o visse a ele.
Foi envolta nesses tormentos e num stress pesado que cheguei à mansão de Luisão e Brenda e ao estacionar junto dos outros carros que já haviam chegado, abandonei o meu jeep e em passadas vacilantes aproximei-me dos muros altivos que interditavam a entrada forçada e conservavam a privacidade dos jardins interiores.

- Alô? – a voz meiga Brenda ressoou ao intercomunicador alguns segundos depois de eu ter pressionado o botão da campainha

- Oi Brenda, é a Joana… - revelei-me num tom de voz que me esforcei por parecer seguro e confiante

- Ah, é você… Que bom que chegou!

- Quem é mamã? – a vozinha inconfundível da minha Sofia foi-me totalmente perceptível e sorri no mesmo instante em que a ouvi

- É a sua madrinha…

- Eu vou lá! Eu vou lá! – um gritinho delicioso de entusiasmo ressoou ao meu ouvido que mantinha próximo do  pequeno mecanismo electrónico

- Pode entrar, meu anjo! – a permissão de Brenda foi acompanhada por um destranque automático do portão branco forjado, que abri com um simples empurrão da minha mão

- Mad’inha! Mad’inha! – estava a somente meio percurso da calçada que se  antecipava ao alpendre de entrada, e já a minha pequenita iniciara uma corrida frenética que iria apenas terminar quando me alcançasse

- Ai que saudades, pequerrucha, coisa tão boa! – desabafei quando me agachei no chão e a segurei contra mim, rendendo-me aos laços de afecto inquebráveis e ao sentimento que faziam dela uma parte de mim – Muitos parabéns, minha bonequinha!

- Ob’igada, mami! – ela amarrou os seus bracitos em torno do meu pescoço e num aperto forte beijou-me enternecidamente a face num beijo que se arrastou por largos segundos – ‘Tava a ver que nunca mais vinhas!

- Já estou aqui, princesa… Já estou aqui! – mostrei-lhe um sorriso sincero fazendo-lhe em simultâneo um carícia no rosto perfumado

- Anda, ‘tão todos lá atrás no jardim! – o termo “todos” que ela usou, deixou-me compreensivelmente nervosa visto que poderia estar a globalizar cada convidado, incluindo aquele que o meu coração mais atemorizava ver… Ruben

Ela procurou rapidamente pela minha mão e no seu entusiasmo habitual e genuíno ainda de uma criança, arrastou-me consigo até ao jardim das traseiras onde fora programado fazer-se o jantar.
Juntei-me a eles com uma saudação geral tendo visto de relance ao pé da enorme piscina algumas meninas a conversarem alegremente, e do lado oposto a mesa artesanal, típica dos os dias de churrasco e jantaradas de Verão, ocupada pelo habitual grupo de jogadores que faziam uma barulheira tremenda por um disputado jogo de cartas. Os meus olhos apreensivos procuram entre eles uma só pessoa, mas pude ficar mais calma por não ter dado por um ínfimo sinal dela… Provavelmente ainda não tinha chegado.

- Amor, já vieste! – logo que deu pela minha chegada e já quando Sofia tinha saído do meu redor para ir até Brenda que a chamara, com um sorriso que me fazia inveja pela felicidade plena que sentia, Adriana veio ter comigo, recebendo-me com um abraço apertado e dois beijinhos – Como estás?

- Bem… Estou bem… E tu? - encolhi só um pouquinho os ombros e forcei um sorriso convincente, mas eu já devia ter aprendido que a ela os meus disfarces não enganavam

- Eu conheço-te, princesa… A mim não precisas de esconder nada, muito menos o que vai aí dentro. – a pontinha do seu indicador tocou suavemente o lado esquerdo do meu peito e senti-me desarmar por completo na frente dela

- Juanita! – a namorada de Javi e também minha amiga, Elena, que viera espaçadamente atrás de Adriana, juntou-se a nós e roubou-me um curto abraço saudoso – Me alegro de verte, chica… Y mira, siempre guapa, ¿no? – o seu olhar apreciativo atacou a minha figura recordando os últimos meses que não nos viramos, e juntas rimos descontraidamente da sua observação

- Mas tu és burro ou quê? Eu não fiz o sinal porra nenhuma! – novamente da mesa dos rapazes, a confusão voltou a instalar-se e desta vez entre o despique foi fácil distinguir as vozes de Fábio e David, que enquanto parceiros de jogo não se estavam a entender lá muito bem

- Fez sim senhora, ué! Cê coçou o queixo, eu vi…

- Cocei o queixo porque no momento estava com comichão, o que é que queres? – vimo-nos forçadas a interromper a nossa conversa e as três debuxamos então um outro cenário, expansivo pelos ânimos acesos mas sem dúvida cómicos pelo bate-boca dos dois protagonistas – E para não lançares a manilha e desfazeres a nossa jogada, pisquei-te o olho!

- É, da próxima vai piscar o olho prá sua mãe! Não foi isso que a gente combinou! Passar a mão no queixo era o sinal, cê fez o sinal e eu lancei a manilha!

- Lançaste a manilha e eles cortaram-na com o trunfo… És mesmo otário!

- Você que fez o sinal… Você que é otário!

- Eu já disse que não fiz a merda do sinal! – a revolta de Fábio voltou ao de cima e tornou-se impossível nos contermos em gargalhadas que acabaram por ser libertas ao passo de preencherem todo o jardim

- Nossa, gente… Quanto mau perder vai por aí! – como adversário que se mostrou à altura, Luisão não se conteve em rir na cara de derrotados de Fábio e David, que não se cansavam de atribuir as culpas um ao outro

- São piores que os garotos, a sério que eu nunca vi… – foi o desabafo troçado de Adriana que nos fez desprender por fim a atenção deles e voltarmos a envolver-nos na nossa aura

- Vamonos, ellas estan llamando! – disse Elena, reparando nos acenos das outras meninas que pediam que nos fossemos juntar a elas

- Eu já vou ter com vocês… Vou só fumar um cigarro primeiro! – enunciei hesitante, necessitando do efeito da nicotina para conseguir relaxar um pouco e sabendo que aquela seria a única oportunidade que tinha para fazê-lo

- Precisas de alguma coisa? – por me ver optar por aquele recurso que ultimamente não fora uma necessidade habitual à qual eu recorrera, ela temeu pelo meu bem-estar

- Não, amor, obrigada… Apenas de dois minutinhos!

Adriana apercebeu-se ao que eu me referia, estando a chegada de Ruben embalada numa expectativa de incerteza e foi então que me afastei. Queria isolar-me um pouco e ficar sozinha, sabia que não poderia fumar dentro de casa por opção dos anfitriões, tendo sido por isso que fui direitinha ao alpendre de entrada.
Sentei-me ligeiramente de lado sob o parapeito de madeira do valado e da minha mala repuxei o maço quase ele vazio pelo uso excessivo que lhe dera nos últimos dias. Prendi o filtro do cigarro entre os meus lábios e premindo a válvula do isqueiro ateei-lhe a orla, para soltar a primeira lufada de fumo. Era aquele o meu escape nos momentos mais instáveis, e apenas a única maneira de extravasar a adrenalina derreante que me consumia por dentro. Fui dando tragos profundos que sustive por segundos na garganta e que depois soltei para que fossem arrastados pela brisa quente em que o ar naufragava lá fora.
Subitamente ouvi o tilintar do portão e este foi aberto, dando entrada ao convidado esperado, que chegara enfim para meu desalento… Distingui os seus traços perfeitamente bem, e as emoções assoberbadas em meu peito ficaram somente suspensas pois a pequena Sofia rompeu entre elas.

- PAPIIII!!! – ela rasgou passagem ao meu lado e descendo rapidamente os três degraus de escadas lançou-se numa correria doida até chegar a ele, recebendo-o da mesma maneira que me recebera a mim, logo que me vira dar entrada nos jardins frontais da casa

Correu com os bracitos abertos para ser recebida no conforto do colo do seu segundo pai, e Ruben pegou nela e elevou-a ligeiramente no ar antes de a prender contra si.
Apesar de já ter começado a escurecer e as luzes do jardim ainda não terem sido ligadas, observei os seus sorrisos rasgados por se verem e as risadas contagiantes de Sofia enquanto sofria de um ataque de cócegas passivo da parte dele.

- Oh papi! – ela pedia pra que ele parasse mas acabava sempre por se desmanchar entre novas gargalhadas no mesmo segundo

- Oh minorca! – ele tentou imitar-lhe o tom de voz e ainda que estivessem a acentuados a alguns metros de distância de mim, as suas vozes eram totalmente audíveis aos meus ouvidos e mesmo que as quisesse bloquear na minha mente, não pude deixar de prestar atenção à conversa que se redigiu entre eles, e toda eu tremi só por ao fim de tantos dias voltar a ouvi-lo – Estás toda bonequinha!

- Hoje é um dia especial…

- Pois, já ouvi dizer que sim… Aliás, eu vim aqui porque me disseram que uma minorquinha fazia anos hoje… Sabes quem ela é?

- Hum… Acho que faço uma ideia! – apesar de não conseguir ver, adivinhei-lhe o narizito arrebitado consoante a sua resposta de menina esperta, e uma lágrima abriu passagem pelo correr da minha face ao presentear mais uma vez a forte cumplicidade que os unia e na qual eu me excluía

- Parabéns, parabéns, parabéns, minha princesa! – desta vez ele usou-se de um ataque de beijos que lhe florou por todo o rosto pueril, e a pequenita voltou a soltar marés de risos mimados por estar a receber toda aquela atenção do seu padrinho, que todos sabiam ela tanto adorar

Ruben amava Sofia como se fosse sua filha, era doido por ela e fazia tudo o que tinha ao seu alcance para protegê-la, e isso via-se em todos os gestos e amostras de carinho que tomava para com ela, e por seu lado Sofia admirava-o, idolatrava-o… pelo amigo de brincadeiras, pela protecção de um porto seguro, pelo herói que ela imaginava viver dentro dele.
Quanto a mim limitei-me a resumir-me ao meu cantinho e deixei-me permanecer ali pretificada, a olhá-los simplesmente, sem vontade de voltar para dentro e sem coragem nem estofo para me juntar a eles.

- Já chegaram todos? – Ruben perguntou por mera curiosidade, e eu fiquei a perguntar-me se nesse “todos” que falou, em algum instante ele pensara e incluíra-me a mim

A nossa afilhada não lhe deu uma resposta perceptível, pelo menos não perceptível para mim e falou-lhe num sussurro deambulado ao ouvido, tal como um segredo, mas que depois se veio a tornar muito claro para mim… Pela primeira vez desde que ali chegara, os olhos de Ruben perderam-se pelo alpendre e encontraram-se em mim, acolhendo-me no seu mundo que me perdera o rasto e perante o qual agora eu reaparecera.
Tinha vontade de chorar rios e marés quando demos connosco enfeitiçados um com o outro, tentando num só olhar expressar cenários, proferir mil e uma coisas e cometer, talvez, uma loucura por amor sem termos medo de ser, por um momento, ridículos… Mas as circunstâncias eram outras e não pendiam para nós. E lá continuava eu, completamente regelada, com pasmos que me abalavam o corpo de vez a vez enquanto o cigarro ainda ardia, abandonado, entre os meus dedos.
Aquele amor fora então posto à prova e restava somente saber se era forte o suficiente para nos levar de volta ao lugar que nos pertencia por direito… Ao lado um do outro…




Boa noite, queridas leitoras! :)
Venho finalmente deixar-vos novidades, espero que gostem!
Como a partir de agora vou ter mais tempinho para me dedicar à escrita, vou fazer os possíveis para publicar com mais frequência e regularidade, 
estando já o próximo capítulo previsto para breve.
Espero pelos vossos comentários e fiquem atentas!

Um beijinho,
Joana :)