Acordei na manhã seguinte com
uma sensação irrevogável de que tinha dormido durante uma semana inteira.
Apesar de tudo e o mais importante é que me sentia reedificada e francamente
melhor… Os tremores impetuosos haviam desaparecido do meu corpo e aquela
sensação de mal-estar desconcertante, simplesmente não existia mais.
Sentei-me junto ao rebordo da
cama, amarrei o cabelo no cimo da cabeça com um pucho que trazia no pulso e
alcancei a minha garrada de água onde dei dois ou três goles, de maneira a fazer
cessar a habitual ronquidão matinal. Ergui-me cuidadosamente da cama e guie-me
até junto das portas corridas de acesso à varanda, desviei escassamente as
cortinas de linho fino e espreitei timidamente o recente amanhecer de um novo
dia através do espelhado translúcido das portas. Embora o sol fizesse já as
delícias aos madrugadores daquela cidade, calculei que ainda fosse cedo, pois
os raios eram ainda muito ténues e subtis.
Foi a rememoração repentina
que as lembranças guardadas da noite anterior avivaram a minha memória, que me
fizeram recordar da pessoa que estivera todo o tempo a cuidar de mim e que
adormecera a meu lado. Rodei instintivamente a cabeça e recompus o olhar sobre
a cama à procura de indício que me confirmasse a presença de Ruben, mas ele não
estava lá… No mesmo instante procurei também pelas suas roupas que deixara sobre
o sofá na noite anterior, mas também estas haviam desaparecido. Fiquei então
com a certeza de que se tinha ido embora, e por muito que quisesse continuar a
disfrutar da companhia dele, não o pude levar a mal… Já tinha feito muito por
mim ao passar toda a noite comigo e compreendia, agora, que ele tinha outras
obrigações para cumprir. Encostei suavemente a cabeça à vidraça e enquanto
contemplava um novo dia que começara do lado de fora, nos lábios não deixei
esconder um sorriso mimado e feliz, pelas razões óbvias, que há tanto tempo não
tinha oportunidade de expressar. Não sei precisar quanto tempo passei ali assim,
mas foi um sobressalto inquietante que me despertou novamente das amarras estruturadas
do meu pensamento linear, quando senti um corpo muito quente abraçar o meu por
trás e amarrar-me fortemente para si.
- O meu bebé já acordou? – um
sussurro melosamente quente, foi bafejado contra o meu ouvido e nesse instante
senti todo o meu corpo ser abalado por aquela voz, por aquele cheiro… que eu
sabia perfeitamente a quem pertencer
Rodei delicadamente o
pescoço, sem nunca me separar daquele abraço e observei cada traço delicado do
rosto de Ruben… do meu Ruben. Não lhe disse nada, olhámo-nos nos olhos e
compartilhados de um sorrido meigo, um rasgo inquebrável de felicidade plena de
que ambos estávamos a sentir.
- Aposto que estavas a pensar
em mim… - ele apertou-me mais contra si e apressou-se a mimar-me, beijando-me o
rosto e o pescoço com beijos doces que me deliciaram naquela manhã
- Se te dissesse que não,
estaria a mentir. – confessei, repousando a minha cabeça contra o seu peito e
continuando a fitar o novo dia no trespassar da janela
- Desculpa ter-me servido da
tua casa-de-banho para tomar um duche…
- Se eu não acordasse ias-te
embora sem dizeres nada…
- Não era capaz de me ir
embora sem antes te dar um beijinho!
- Mentiroso! – acusei deliberadamente,
dando asno a um contrair desenganado dos sobrolhos e um beicinho desconfiante
dos lábios
- Ai agora sou mentiroso, é?
– perquiriu num tom de voz de falsa rabugice, preambulado sobre o ar pesado de
início da manhã
- É! Enquanto não me provares
o contrário… - argui incentivando a um despique passivo, que se ia desenrolar numa
brincadeira como há muito não tínhamos oportunidade de partilhar
- Então e porque é que não me
provas tu o contrário…? – vi os seus braços pertinazes cruzarem-se à frente dos
meus olhos, e foi nesse instante que percebi que um pequeno duelo havia sido
lançado – Hum?
- Olha, então porque… porque
não! – inconscientemente comecei a gaguejar sem saber ao certo o que lhe dizer
e logo que dei meia volta aos meus calcanhares, enlacei as mãos atrás das
costas e comecei a recuar sorrateiramente – Tu é que disseste que me davas um
beijinho…
- Mas tu é que me chamaste
mentiroso…! Achaste mesmo que me ia embora sem me despedir de ti? – perguntou
com a sua calma do costume, mas começando vagarosamente a seguir-me os passos…
como se eu não o conhecesse tão bem
- Não sei… Diz-me tu…
Foi o acender de uma mecha
que demorara muito menos do que eu pensava para ser ardida, e quando ainda
pouco esperava, vi Ruben precipitar-se na minha direcção com um só único objectivo
em vista que lhe decifrei no olhar: laçar-me nos seus braços. Recorri ao
instinto e por algumas vezes, e não sei bem como, consegui escapar-me dele, mas
o final era inevitável.
- Eu sei que tu queres…
Porque é que te estás a fazer de difícil? – brincou num tom irrevogável de
provocação, onde por fim, nos restava a enorme cama a separarmo-nos em cada uma
das laterais
- Olha que ainda não estou
totalmente recuperada de ontem, Ruben, por isso… - tentando recuperar todo o
folgo que perdi por ter andado a correr por quase toda a suíte, e recorrendo a
uma voz de criança e a todas as manhas para que conseguisse sair impune, pois
por momentos caí no erro de me esquecer o quão bem Ruben me conhecia
- Ora, mas isso não seria um
problema… - menosprezou ao mesmo tempo que deu o salto hábil para cima da cama
e caminhou sob o colchão até me alcançar, apressando-se a segurar-me pelo braço
e que apesar da força que usou, não me magoou, garantindo-se assim de que dali
eu já não escaparia - … se tiveres uma recaída eu volto para cuidar de ti, já
que me saí tão bem desta última vez!
- Mas que engraçadinho! –
debochei com um sorriso, forçado por uma certa lividez inofensiva de ironia,
quando não resisti em aproximar-me um pouco mais a ele
- Sou, não sou? – ele
copiou-me o gesto e também se aproximou, enquanto ainda me detinha pelo braço,
mas somente com a diferença de, com a mão que tinha livre pousar sob as minhas
costas para forçar ao embate reconfortante dos nossos corpos
- Essa tua mania de te
considerares irresistível…
- E essa tua mania de achares
que me consegues resistir… - Ruben encurtou sem hesitações a distância entre os
nossos rostos e eu não me senti capaz de o contrariar… capaz de contrair todas
as forças que conspiravam a favor daquela união
- Parvo!
- Meia-lequinha! – sem
nenhuma razão à partida verosímil, começámos uma troca amigável de adjectivos,
enquanto que a par e passo nos rendíamos mais um pouco a tudo aquilo que nos
atraía
- Respondão!
- Teimosona!
- Gostas de mim…? – na minha
boca disfarcei um sorriso apaixonado aquando daquela pergunta, enlaçando
voluntariamente os braços no contorno do pescoço dele e distingui com os meus
olhos o caminho que os seus lábios percorriam até ao encontro dos meus, na
antecipação a um beijo de bons-dias que ansiávamos partilhar desde o começo
- Mais do que tudo… -
murmurou já com os lábios totalmente acostados ao meus, consumando um desejo
que não tínhamos mais como adiar
Ruben beijou-me sem mais arrepsias
ou contratempos e eu deixei que fosse ele a comandar aquele momento. Abraçou a
minha cintura e a força exagerada dos seus braços forçaram os meus pés
descalços a separar-se do chão sem que fosse preciso eu dar o mínimo impulso, e
enquanto ainda nos beijávamos, senti o seu braço direito soltar o meu tronco,
deixar a mão escorregar-me pelas costas e prender-se na minha perna despida.
Conhecermo-nos melhor que palma das nossas mãos permitia-nos saber as vontades
um do outro assim como também o que ‘iria acontecer a seguir’, e foi por isso
mesmo que elevei as pernas e encolhi-as ligeiramente para enlaçá-las ao redor
do tronco dele. Uma das suas mãos manteve-se firme nas minhas costas e outra
permaneceu fixa à minha coxa esquerda, apertando-a carinhosamente de vez a vez.
Enquanto isto, nunca interrompemos o beijo que se intensificava a cada segundo
ardido e com a naturalidade que desde sempre existira entre nós, aditámos-lhe o
toque tangente e já necessário das nossas línguas, que aproveitaram para
reexplorar, pela primeira vez naquela manhã, os trilhos das nossas bocas outrora
por elas percorridos.
- Hum… Que… coisa… tão… boa!
– indagou ele por entre os curtos intervalos dos beijinhos repenicados que
usámos para selar o anterior, que eu mesma lhe roubava nos lábios,
auxiliando-me das minhas pequenas e frias mãos que lhe seguraram o rosto – Bom
dia, meu amor! – saudou-me pela primeira vez naquele dia, logo assim que muito
a custo terminámos com troca de carícias, olhando-me nos olhos com uma
profundidade inegável e com aquele sorriso que tão bem o caracterizava
- Assim todos os dias são
bons dias! – os dedos adelgaçados da minha mão, acariciaram-lhe os cabelos
despenteados, e retribui-lhe o mesmo sorriso de satisfação e preenchimento –
Bom dia… meu amor.
Era meio estranho
começarmo-nos novamente a chamar assim, porque de facto e o que não tínhamos como
negar, é que havia passado muito tempo e com isso muita coisa tinha mudado, mas
felizmente que os bons hábitos nunca se perderam e não seria com certeza
difícil voltar a acostumar-nos a eles.
- Bem, acho que já está na
minha hora de voltar… - ele roubou-me mais um beijo nos lábios e voltou a
pousar-me no chão
- Já? Mas ainda nem tomámos o
pequeno-almoço… - as minhas expressões faciais contraíram-se desalentadamente e
a esperança de o ter mais um pouquinho para mim, desvaneceu parcialmente
- Eu queria muito ficar aqui
contigo para continuarmos a matar saudades todas, mas ainda tenho que ir aparar
a barba, trocar de roupa, fazer o saco para o treino… - o seu nariz enrugou-se
e uma pequena careta de desagrado surgiu-lhe gradualmente no rosto, foi natural
para mim perceber a vontade que ele também tinha em ficar
- Vá lá, só mais dez minutos…
Se não me engano, ontem o hoteleiro veio cá deixar um bolo de chocolate no
frigorífico… - recorrendo aos velhos truques em leva-lo a ceder os meus pedidos,
evoquei-me da gulosice dele de modo a fazê-lo ficar mais um pouco - … e olha
que tem um aspecto delicioso…
- Sabes que pondo as coisas
dessa maneira, torna-se difícil dizer não a um bolo de chocolate… - rapidamente
o senti ceder e não evitei um sorriso interior
- Entendo que seja mais fácil
dizeres-me não a mim! – ripostei em tom de pujança, apenas na intensão de me
meter com ele, e funcionou
- Oh, não sejas tonta! – ele
abraçou-me pela cintura e preocupou-se em fazer dissipar o meu amuo ateatrado,
mesmo antes desse se fazer instalar nas minhas feições – Sabes muito bem que
não é por causa do bolo, já to disse e volto a dizer que fico contigo se me
pedires para ficar…
- Então agora eu estou a
pedir-te para ficares só mais um pouco…
- E então eu fico. – uma
resposta certeira e sobretudo convicta dada por ele, foi o suficiente para
arrumar aquela conversa
- Óptimo, então vamos comer…
Estou cheia de fome! – no meu jeito despacho e decidido, peguei-lhe na mão e
guiei-o até à sala que fazia ligação com o quarto, onde se encontravam os
confortáveis sofás, uma pequena mesa redonda de vidro com duas cadeiras de
verga para o pequeno-almoço, ao centro, e um mini-bar recheado junto à quina de
duas paredes - Bem, não há cá muito que possa oferecer… - indaguei assim que me
curvei e olhei o interior do pequeno frigorífico - Temos o bolo e
sumo-de-laranja fresco… Se quiseres mais alguma coisa posso ligar para o
serviço de quartos, mas creio que vá demorar mais tempo…
- Bolo e o sumo de laranja,
está óptimo para mim… - assentiu compreensivamente com ambas as mãos recolhidas
nos bolsos dos seus jeans, no momento
em que o olhei acima do ombro à espera de uma réplica sua
Colocámos a mesa com a maior
simplicidade e sentámo-nos de frente um para o outro quando, por insistência
sua, eu deixei que fosse ele a servir-me.
- Não partas mais bolo… está
bom assim! – refutei enquanto o vi-a a encher-me o pratinho com uma enorme
fatia de bolo que eu me recusava prontamente a comer inteira
- Shiu, eu é que sei! Não
quero que sejas como aquelas manequins que têm a mania da magreza e das dietas
e depois ficam doentes e…
- Eh, que exagero, Ruben… Eu
não tenho a mania da magreza nem das dietas, só não gosto de comer em exagero,
só isso…
- Seja como for, eu
preocupo-me contigo e ontem passaste a maior parte do dia doente e não chegaste
a comer em condições, por isso quero ver esse prato vazio… sem uma única
migalha! – ele pouso o prato na minha frente e ao ver aquela montanha
achocolatada, senti um pequeno novelo de náuseas a revolver o meu estômago,
pois ainda não estava totalmente recuperada e os picos de apetite oscilavam em
mim com mais frequência do que eu esperava
- Não, nem pensar que eu vou
comer isto tudo!
- Vais comer sim, porque eu
te estou a pedir… E não se fala mais nisso! – refutou numa postura invicta de
um homem feito e astuto, que não se mostrava minimamente disposto a vergar-se à
minha teimosia
Cedi. Não tinha como não
fazê-lo, pois se havia alguma coisa contra a qual eu não conseguia lutar, era com
a insistência barra persistência dele. Cravei o garfo no bolo e reparti uma
pequena tira que levei à boca.
- Sabes que eu há pouco
estava a brincar, não sabes? - pouco depois iniciei uma conversa onde apenas
pretendia vir a esclarecer as pontas que haviam ficado soltas anteriormente –
Se tivesses mesmo que ir embora, eu não insistiria mais contigo…
- Eu sei, não te preocupes… -
garantiu-me com um sorriso discreto, logo que pousou o seu copo de sumo sobre a
mesa - E… ah… Joana, posso fazer-te uma pergunta? – notei alguma hesitação na
voz dele, mas não dei muita relevância
- Hum, hum… Podes, claro! -
assenti levemente com a cabeça, dando-lhe o ânimo que eu julguei ser necessário
para continuar
- No tempo em que… em que estivemos
juntos, eu fiz-te feliz? Quer dizer, achas que… que eu fui um bom namorado para
ti, ou falhei em alguma coisa? – os seus olhos semicerraram-se muito levemente
e então um véu de dúvida foi pairado em seu redor, uma dúvida que apenas eu
podia esclarecer e a qual tive a sensação de que o continuava a perturbar demasiado
- Penso que já falámos sobre
isso, Ruben… É uma resposta demasiado óbvia e tu sabes muito bem qual é! – por
muito que me tivesse esforçado, não consegui conter um pequeno rasgo de lábios
que se instaurou na minha boca, ao aperceber-me do conteúdo íntimo da conversa
que então iniciáramos, mas aprecei-me a disfarça-lo assim que curvei delicadamente
a cabeça sobre o meu prato do qual retirei mais uma orla do bolo, de maneira a
que Ruben não o conseguisse ver
- É uma resposta tão óbvia
que não és capaz de a dizer em voz alta? – inquiriu amarguradamente, retendo
nos seus pulmões o ar que não deixara escapulir numa simples expiração
Pousei o garfo sobre o prato
e pretendi-me a ser com ele o mais franca e directa possível, assim que cruzei
os braços sob a mesa e estruturei o meu olhar no seu rosto – Foste… Foste um
óptimo namorado, amante, marido, melhor amigo e sim, fizeste-me muito feliz…
Sabes isso perfeitamente!
Respondi calmamente e com
toda a sinceridade que a minha alma pudesse capacitar, mas foi depois, quando o
olhei nos olhos após um curto intervalo de tempo, que pressagiei uma questão
que ele pudesse vir e veio mesmo a colocar, que me iria machucar de novo. A
minha intensão fora simplesmente esclarecê-lo de maneira a afastar-lhe os
fantasmas do passado, dissimulados nas dúvidas que resistiram até ao nosso
reencontro, mas só acabei por fazer suscitar os meus.
- Então se eu fui tudo isso para
ti, porque é que te foste embora? Porque é que me deixaste? – eu sabia, eu
sabia que mais tarde ou mais cedo iríamos voltar ao mesmo e quanto a isso nada
havia a fazer, parecia um ciclo constante e vicioso, envenenado pelos erros
cometidos num pretérito que fora tudo menos perfeito
Se Ruben tivesse forçado aquela
questão impassível há uns meses atrás, eu diria que o fizera apenas com o
pretexto de me atacar, de me magoar e de me atirar à cara a cobardia a que eu
cedi, sem fazer o mínimo de esforço por nós. Mas agora não, agora era
diferente… Eu sabia que ele procurava somente por uma explicação, sem lançar qualquer
julgamento ou contraposição… Ele, como todos, queria apenas saber a verdade.
- Eu não te deixei… Não da
maneira que pensas. – embora eu não quisesse mostrá-lo, a minha postura mudara
radicalmente perante uma conversa de pequeno-almoço que eu julgara vir a ser
amena e deleitante, mas que lentamente se mostrava mais próxima de socorrer ao
abismo… o meu ritmo cardíaco aumentara assustadoramente e eu sentia-me como se
estivesse retida no releixo de uma catadupa
- E qual é a maneira que eu
penso?
- A mesma que todos os nossos
amigos pensam quando me fui embora… Que te deixei porque não te amava mais, e
isso não é verdade… Isso não é verdade! – ciciei num murmúrio espicaçado, amarrando-me a um esforço
desumano para conter as lágrimas, que deram então o seu sinal de penetração no
retiro das pálpebras dos meus olhos
- Então qual é a verdade?
Foste embora para Nova-Iorque sem dizeres nada a ninguém, porquê? Terminaste
connosco, quando dizes que me amavas, porquê? Eu só quero saber a verdade… - o
seu olhar suplicante e a voz estremecida, abalaram implacavelmente em cada
recanto de mim, e a certeza de que o estava a desiludir aumentou furiosamente –
Acho que depois de tudo, tenho pelo menos esse direito ou não?
- Eu não quero falar sobre
isso. – recusei educadamente, pois não queria acalcar de pés descalços,
caminhos que poderiam demarcar-me chagas na pele, por muito que a minha atitude o
continuasse a magoar
- Não queres falar sobre isso?
– ele insistia e eu sabia que o voltaria a fazer de novo e de novo até conseguir
levar de mim a justificação que eu carregara durante os últimos três anos, e não o culpava, pois ele, tal como eu, havia
sido apenas uma vítima arrastada pelo infortúnio de um cataclismo provocado por
terceiros - Porque não?
- Porque não quero! – mesmo
sem intenção, o meu tom de voz elevou-se ao seu e imediatamente culpabilizei-me
por, de alguma forma, estar a tratá-lo de uma maneira que ele não merecia de
todo e isso reflectiu-se na posição que um pouco mais tarde Ruben veio a tomar
- O teu problema é esse,
Joana… Tu nunca queres nada. – murmurou num sopro de desabafo carregado de
recriminação, baseando-se nas inúmeras inseguranças e vacilações que desde
sempre conhecera em mim – E quando
queres, nunca sabes o quê!
Apanhada completamente de
surpresa, vi-o arremessar o guardanapo que sustinha sobre o seu colo para cima
da mesa, levantar-se e vagarosamente começar a caminhar na direcção da saída,
assentada na minha direcção.
- Eu sei que te quero a ti, e
isso chega-me! – as minhas palavras, impelidas à tona de um canhão inócuo, tocaram
o seu coração o suficiente para pelo menos adiar a sua saída abrupta, causada
por um desfecho infeliz de uma conversa que eu não queria ter
- Pois a mim não! – advertiu,
travando o seu corpo hirto ao lado do meu, em repouso sob a cadeira, usando-se
de uma mágoa tal embebida na voz, que eu já não me lembrava de conhecer – A
mim não me basta querer-te… Queria também que não houvesse segredos entre nós,
mas parece que isso é algo que não depende de só mim!
Domada pelo sabor amargo da
circunstância, também eu me levantei e surgi à sua beira - Eu também não quero
que haja segredos entre nós…
- Não é isso que me fazes
querer… Não me contas absolutamente nada, e tudo o que fica por dizer entre
nós, faz com que ainda sinta uma enorme parede a separar-nos, sinto que não te
estás a entregar a mim por completo, porque parece que há sempre uma parte de
ti que se esconde…
- Eu não me quero esconder de
ti…
- Talvez não querias, mas é o
que eu sinto!
- Talvez esteja a pedir
demais e talvez seja difícil para ti aceitares, mas eu gostava que entendesses que
se há coisas que tu ainda não sabes, não porque não estejas no teu direito,
porque estás, mas sim porque não me compete a mim revelar-tas…
- Não estou a perceber… - a
consternação adornada pelo seu rosto, roubou-me o pouco de folgo que eu ainda
sustinha nos meus pulmões, talvez por continuar a fazer rolar aquela bola
gigante de neve
- O que te estou a tentar
dizer é que eu não estou no direito de te contar o que já devias ter sabido
pela boca de outras pessoas… Pessoas que seguramente mais do que eu, te devem
uma explicação!
- Se não és tu a contar-me o
porquê de te teres ido embora, então é quem…? Quem são essas pessoas? Quem é
que viveu a nossa relação por nós? Quem é que sabe das nossas coisas?
- Ouve, Ruben, numa outra
altura tu ficarás a saber tudo, apenas… apenas dá algum tempo ao tempo, está
bem? – ainda que toldada pelo receio que tinha dele me afastar si, pousei as
minhas mãos trepidamente hesitantes no seu peito – Vão acabar-se os segredos e tudo ficará
resolvido.
- És capaz de me prometer
isso? – os seus olhos vagantes procuram nos meus uma promessa que, embora não
soubesse quando, sabia que estava destinada a ser cumprida
- Não confias em mim?
As suas mãos acalentadas
encontraram também pousio sobre o seu peito e apertaram suavemente as minhas,
oscilou a cabeça apenas duas vezes e deu-me somente a resposta que eu precisa
ouvir – Confio.
Convenci-o a voltar para a
mesa comigo e a terminarmos a nossa modesta refeição, mas já nada fora como
tinha sido antes, pelo menos não da minha parte. Ao contrário de Ruben, não fui
capaz de disfarçar o desconforto que aquela situação tinha provocado e mim, e
no tempo que se seguiu perdi-me numa infinidade de pensamentos sem rumo e num
quadro decorado a uma pintura abstrata no qual eu conseguia perfeitamente
moldar a minha vida.
- Para quem disse que o bolo
tinha um aspecto delicioso, ainda mal lhe tocaste… - remontando uma conversa
que eu não tivera coragem de iniciar, Ruben advertiu-me, no mesmo instante em
que se apercebeu do meu ar de desalento – Se estás assim por causa daquilo, não
vamos voltar a tocar no assunto, eu estou disposto a esperar…
- O bolo está óptimo, eu é
que não tenho muita vontade de comer… – esclareci, desviando-me suavemente da
sua objectividade, enquanto absortamente, fazia com que os dentes do garfo que
manejava habilmente com os meus dedos, continuassem a esburacar a fatia de bolo
- Mas ainda há pouco estavas
com fome…
- Sim, mas parece que o
apetite está a fugir…
- Então mas se é assim, vamos
ter de o apanhar! – proferiu num tom mesurado de brincadeira, no intento
preocupado em me animar… levantou-se e caminhou até chegar junto a mim,
forçou-me também a levantar e depois de se sentar na minha cadeira, puxou-me
para o seu colo – Ficaste mal-habituada com o tratamento de ontem, minha
mimada… Agora vou ter que te dar o comer à boca!
Encolhi-me timidamente no seu
colo num discreto asno de constrangimento, mas não recusei aquela dose extra de
mimos que ele estava mais do que disposto a dar-me. Passámos o resto do pequeno-almoço
exactamente daquele jeito, numa troca de carinhos inevitável e dando à vez
comida na boca um do outro.
- O que foi? – perguntei num
sorriso de dúvida impertinente, segurando firmemente o copo de sumo de laranja
na mão, quando reparei no olhar fixo de Ruben na camisola negra de manga curta,
que somente vergava o meu corpo e a qual usara para dormir
- Essa t-shirt é a mesma que
eu te ofereci quando fomos ao concerto ou é outra igual?
Sorri com a pergunta dele. A
t-shirt de que falava e a qual eu preservara durante os últimos anos, era de
facto a mesma que vestia, uma oficial dos U2, a banda rock preferida de
Ruben. Ofereceu-ma na noite do concerto a que fomos assistir no estádio de
Coimbra, e apesar de ser dois tamanhos acima do meu – um descuido não
intencionado da parte dele mas que até teve uma certa piada – e a qual usara
apenas para a ocasião, nunca me soube desfazer dela… Era um acessório que nos
tempos de ausência me oferecia boas recordações e mantinha vivas boas memórias que
eu tencionara continuar a conservar.
- O que te parece? Achas que ia
comprar outra XL? - acusei passivamente, tencionando dois segundos de
gargalhadas moderadas, que desmascararam o seu pequeno equívoco
- Sabes que eu não fiz por
mal… Na loja eu pedi a t-shirt e a senhora como devia pensar que era para mim,
deu-me essa…
- Mas então devias ter dito à
senhora que a t-shirt era para a tua namorada e não para ti… Talvez aí ela
reconsidera-se um tamanho mais pequeno.
- Oh, mas olha que essa não
te fica nada mal, especialmente se andares só mesmo com ela! – no seu jeito
traquinas de miúdo que Ruben sempre mantivera na sua personalidade já
totalmente formada, deixou que se sua mão direita – livre pelo garfo que
voltara a pousar sobre o prato – desliza-se muito delicadamente sobre a minha
coxa desnudada
- Que parvinho! - dei-lhe uma
leve palma no ombro, o que só nos conduziu a uma partilha mútua de um riso
delicioso
- E mudando agora de assunto…
- fazendo um esforço acrescido para se livrar das últimas gargalhadas, Ruben
deu um único trago de sumo do meu copo, e colocou em cima da mesa algo que se
pareceria com um delineamento de planos conjugues – O que estás a pensar fazer
esta tarde? Já tens algum compromisso?
- Hum… não, não tenho nada
planeado! Vou almoçar com o Salvador e depois talvez vá dar uma voltinha pelas
lojas do hotel… Mas porque é que perguntas?
- Por nada de especial… -
respondeu num tom desapegado, mas que acabou por ser denunciado por um gesto
típico seu, camuflado pelo pedido que se seguia e que eu consegui adivinhar,
quando começou a enrolar os seus dedos às mechas compridas do meu cabelo que
então tinha soltado do pucho, e sem ter o alento de me olhar directamente nos
olhos – É que como só tenho uma hora de treino depois do almoço e fico com o
resto da tarde livre, pensei que talvez pudéssemos ir dar um passeio ou algo do
género…
- Hum… Só nós os dois…? – deliciada
com a ideia, os meus braços alçaram-lhe meigamente o pescoço e ofereci-lhe um beijo
suave no rosto
- Sim, mas se em vez disso
preferires passar a tarde nas compras, eu não me importo… - esclareceu,
esforçando-se por ornar no rosto uma expressão subjugada pela indiferença da
minha escolha, mas eu sabia perfeitamente que não era bem assim
- Não sejas mentiroso, é
claro que te importas! – ripostei, crispando as sobrancelhas num acto
hipotético de o contrariar e contudo repleto de razões para tal… por outro lado
Ruben não evitou em rir-se da minha expressão contrafeita, mas dispôs-se a
abafar as suas gargalhadas quentes entre os beijinhos mais calmos do mundo, que
o meu pescoço acolheu
- Então como fazemos?
Encontramo-nos mais logo?
- Sim… Eu posso ir ter contigo
ao centro de estágio no final do treino e depois podemos ir dar uma volta pela
cidade, tomar um café entretanto….
- … Namorar… - acrescentou à
lista de afazeres, num rasgo enfeitiçante de lábios que colou aos meus no mesmo
segundo
- Também, também… - concordei
com o mesmo sorriso, quando quebrei o beijo mas recompensando com outro e outro
e outro, logo de seguida
O resto da manhã correu
celeremente sem que eu quase desse por isso, e depois da saída de Ruben para o
treino, voltei a deitar-me na cama e mandriar um pouco antes de sair. Embora o
meu estado tivesse melhorado durante a noite, ainda sentia o corpo cansado,
como se tivesse um peso sobre os ombros do qual não me conseguia livrar,
contudo as duas horinhas que passei a dormir ajudaram-me bastante para pelo
menos, aguentar em pé até ao final da tarde. Antes de me encontrar com o meu
irmão no átrio principal, dei um saltinho à farmácia do hotel onde comprei
alguns medicamentos somente para situação de prevenção, caso tivesse alguma
recaída.
Há hora marcada no dia
anterior, encontrei-me com Salvador, que já me esperava na zona de convívio
junto aos elevadores e passámos cerca de quarenta minutos no restaurante onde
pudemos disfrutar de um almoço que se arrastou até à chegada do plantel
encarnado, que iria almoçar também naquela sala de refeições. Antes de sairmos
ainda tive tempo de olhar Ruben e trocar um sorriso cúmplice com ele, que não
tenho a certeza se o mesmo passou despercebido aos elementos do grupo que se
encontravam mais próximos a ele, mas isso pouco me preocupou… Aquela sensação
de felicidade preenchia-me de uma maneira tal, que eu sentia que nada nem
ninguém poderia mudar isso. Pena vir a descobrir estar redondamente enganada…
- Outra vez à praia,
Salvador? – inquiri de nariz torcido, enquanto ladeada pelo meu irmão na saída
do restaurante, discutíamos o que fazer a seguir – Desde que cheguei aqui que
não tenho ido a outro sítio senão à praia…
- Mas desta vez é diferente,
não te estou a dizer para irmos àquela praia que fica a milhas daqui onde tu
vais sempre… Vamos a esta enfrente ao hotel, onde está a feira! Está lá a
decorrer um torneio de voleibol e eu gostava muito de ir ver…
Como ele já conseguia
adivinhar numa esperança traduzida por um olhar expectante, eu cedi e fiz uma
“boa acção de maninha mais velha” como ele me costumava dizer quando lhe
satisfazia algum capricho.
- Tudo bem, vamos lá…
Lacei o meu braço direito
sobre os seus ombros e abandonámos o perímetro do hotel, atravessámos a
frontaria de dois quarteirões e mais uns metros à frente cruzámos a estrada até
alcançarmos o calçadão da praia.
Um pouco afastado da zona
limitada pelo parque de diversões nocturo, estava já um campo demarcado para a
zona do torneiro de voleibol, marginado de bancadas somente por dois lados –
numa das linhas laterais e de fundo. Acercámo-nos da parafernália de banhistas
e espectadores que haviam feito uma pausa no seu meio-dia de praia para
assistir a uma actividade desportiva de Verão que convidava à presença dos atletas
amadores e enchia as vistas dos mais curiosos.
- Quero ver mais de perto… -
fazendo um esforço descomunal para conseguir enxergar o panorama cercado em
redor, Salvador tentava a todo o custo esgueirar-se por entre aqueles que o
limitavam a total perspectiva do jogo, que entretanto já decorria efusivamente
dentro das quatro linhas
- Excuse me, excuse me…
Encruzilhámo-nos o melhor que
conseguimos por entre a multidão que se arrastava pelo areal e com muita sorte
conseguimo-nos encaixar em dois lugares das bancadas, que apesar de serem
apertadinhos, davam-nos a vantagem de podermos assistir à partida numa condição
um tanto privilegiada.
Assistimos à última metade do
primeiro set e a todo o segundo, e
foi no intervalo de dez minutos feito pelas equipas numa curta pausa somente na
intenção de despistar o calor com a nutrição de bebidas frescas, que também
senti a necessidade de me refrescar com um refrigerante.
- Acho que vou buscar uma
bebida… Queres que te traga alguma coisa?
- Não, não quero nada,
obrigado! – recusou gentilmente, fitando atentamente as duas bolas que voavam por
cima da rede, entretidas pelos jogadores que não pretendiam perder o ritmo de
jogo enquanto aguardavam pelo apito de retoma – Espera, afinal quero… -
reponderou ele a tempo, tocando-me levemente na mão que conseguiu alcançar –
Traz-me um gelado, por favor…
Assenti com um simples
sorriso e afastei-me. Assim que alcancei o calçadão e encostada ao um pequeno
muro sacudi toda a areia dos pés, calcei as minhas sandálias brancas de cunha
que se apressaram a tomar sentido até ao carrinho móvel de águas de cocô verde,
guarnecido por um enorme guarda-sol.
- It’s a water poop, please!
– solicitei educadamente ao senhor de meia idade que servia, depois de alguns
minutos de espera atrás da fila de quatro ou cinco pessoas que abrilhantaram a
lucratividade de um requisitado negócio de Verão
- Here is! It’s $3.00,
please! – pediu-me logo que me passou o cocô para as mãos
- Thank you… Good afternoon!
– agradeci e desejei-lhe assim que recebi o troco, onde ele retribuiu em
cortesia com um sorriso simpático, demarcado num rosto enrugado e curtido pelas
horas demasiadamente longas exposto ao sol
Dei dois goles da água gelada
com o auxílio moderno de duas palhinhas e rodei subtilmente sobre a planta dos
meus pés, de modo a tomar ordem do caminho em direcção do carrinho de gelados,
que se distanciava não a muitos metros dali. Mas foi então que um encontrão
brusco de ombro contra ombro, que fez com que entorna-se a maior parte da água
sob o meu vestido, perdi o equilíbrio e quase retomei com o corpo ao chão, se
não fosse a antecipação do sujeito que embatera em mim num descuido, que me
tomou rapidamente em seus braços.
- Joana? – identificou-me
depois de, em inglês, me ter pedido mil e uma desculpas pelo incidente que
provocara sem a mínima intenção, arrastando os óculos escuros para o topo da
cabeça
- Will? – embora já tivesse
sido posta ocorrente da sua chegada em dias à cidade, tal como William, não
consegui disfarçar a forte surpresa por um reencontro inesperado e contingente, como fora aquele
- Oh, miúda! – vi um sorriso
belo crescer-lhe nos lábios enquanto perscrutava cada recanto da minha figura,
e não demorou muito até tomar iniciativa para me conseguir roubar um abraço – O
que estás aqui a fazer? Não esperava encontrar-te aqui… A sério que não!
- É… Resolvi tirar uns
diazinhos de férias por estes lados! – consenti com um sorriso, no instante em
que quebrámos o abraço – Tu também, suponho…
- Sim… Cheguei ontem à noite com
uns amigos, escolhemos esta semana para descansar e nos divertirmos um pouco,
agora que está encerrada a última fornalha de trabalho de mais um ano de
faculdade!
- Fizeram bem em vir para
aqui… - disse-lhe calmamente, baseando-me num fruto de experiência própria – Eu
já sabia que vinhas!
- Já sabias? – a sua
sobrancelha entorpeceu-se e uma expressão duvidosa foi claramente demarcada no
seu rosto de homem
- Hum, hum… A Sara disse-me!
- Ah, a Sara… Já estiveste
com ela?
- Sim, encontrámo-nos no dia
em voltei, acho… e ela contou-me que também vinhas passar cá uns dias…
- No dia em que voltaste? Já
tinhas estado aqui este Verão?
- Sim, mas somente um dia…
Surgiu uma proposta de última hora e tive que dar um saltinho a Portugal para
desfilar, mas voltei para aqui logo que pude… Foi aí que nos encontrámos! – sorri
levemente ao enxergar o reencontro do meu ombro amigo mais próximo, há muito
esperado
- É verdade, por falar em
desfiles e moda… - o seu indicador espevitou-se no ar e a expressão
naturalmente engraçada que ele adoptou no mesmo instante, fizera-me recordar
secretamente da personalidade divertida que conhecia de William – Desde que
saíste de Nova-Iorque que não te tenho acompanhado nos media, não li mais nada sobre ti…
- Nestes últimos meses não
surgiu nada de novo… Uma sessão fotográfica ou outra, testes de imagem para um
catálogo do próximo ano, e nada de mais! Mas já tenho alguns projectos em mãos
agendados para fora no final deste Verão, por isso… - revelei, notavelmente
satisfeita com o meu percurso profissional e frutos de trabalho, o qual me
preenchia em plenitude
- Hum, isso é óptimo… Fico
contente por ti! – sorriu em agrado e colocou as mãos nos bolsos frontais dos
seus calções de praia – E como nunca mais telefonaste ao teu amigo, conta-me
lá… Como foi esse regresso a Portugal e o reencontro com a família?
- Ei, não foi bem assim… Nós
ainda trocámos algumas mensagens! – frisei honestamente, com um tom de voz
relembrativo que ele soube lidar apenas com um discreto sorriso e passivo
baixar de guarda com o olhar que se arrastou até ao chão – E se queres que te
diga, foi uma lufada de ar fresco… Eu adoro Nova Iorque, tu sabes, foi a cidade
que me acolheu, mas é em Portugal onde eu pertenço ficar, tenho lá muito de mim…
- Ou muito me engano, ou esse
“muito de ti” que tens lá, está relacionado a alguém… - o seu nariz franziu-se tenuemente
e uma indicação de dúvida da sua parte acabara por ser lançada e pretendida a ser
esclarecida – Queres partilhar alguma coisa comigo?
- E que tal se deixássemos de
falar sobre mim e falássemos agora sobre ti… Ãh, big guy? – a minha interjeição
permitiu que compartilhássemos de breves gargalhadas, que também usei como
pretexto para desviar o assunto ‘eu’ e a minha vida pessoal – onde ele preendia
chegar – para o assunto ‘ele’ – Ainda
não estiveste em Portugal, pois não?
- Não, ainda não… Vim
directamente de Nova Iorque para aqui, mas logo que me for embora, vou
direitinho para lá!
William é filho de mãe
lisbonense e pai nova-iorquino, mudou-se com os pais para a cidade das luzes há
sensivelmente cinco anos, quando eles decidiram refazer a vida noutro estado,
objectivando por outras condições de vida. E apesar de viver sozinho num
apartamento arrendado nos subúrbios, passava mais tempo em casa dos seus
progenitores do que na sua própria, pois nunca se habituara à solidão.
Detentor dos seus jovens
vinte e dois anos, William portava um rosto amadurecido, traçado pelas
experiências de vida tomadas ao longo dos tempos… O seu cabelo de tons loiros, estrategicamente
fixados numa polpa frontal, a barba perfeitamente ausente das faces, o cheiro
agressivo do perfume de homem e os olhos escuros que lhe traduziam um bom
coração, fizera-me recordar dos tempos de uma paixão, que partilhara com ele
nos corredores da faculdade onde estudámos e de tudo o que mudara entretanto.
De uma afinidade surgiu um affair, e
de um affair desenlaçara-se uma
paixão que mostrara tornar-se bem mais passageira para mim do que para ele, que
embora continuasse ainda por algum tempo a ter sentimentos por mim, sabia que
depois de ter sido colocado um fim a uma relação que podia ter como não
funcionar, ele tivera de agarrar-se somente àquilo que restara entre nós: uma
amizade, que com o tempo conseguimos fortalecer.
Voltei a desviar a atenção
que por alguns minutos se perpetuara às recordações de um passado recente,
quando senti que o silêncio caminhava mansamente para um momento de
constrangimento que tanto eu como ele queríamos evitar, sorri e mudei de tema.
- Então e amores? Aposto que
devem ser só miúdas atrás de ti… - brinquei levemente de modo a aliviar o clima
estranhamente inquietante que se tinha assentado em nós, porém o meu esforço
não foi bem compreendido
- Sempre exagerada… Não, nada
disso! Com o remate dos últimos exames, não tive nem tempo de ocupar a cabeça a
pensar em miúdas, muito menos de me apaixonar… - ele riu-se da situação, mas
não com um riso espontâneo… arriscar-me-ia a dizer que tinha sido um tanto
forçado para, talvez, evitar fazer cair opressões sobre mim – Mas e tu? Como
vai esse coraçãozinho?
Mantendo as minhas mãos
ocupadas segurando o cocô, permiti que os meus ombros se encolhessem num jeito
natural… Não sabia o que lhe havia de responder, apenas sabia que não lhe iria
falar sobre Ruben, apesar de William saber de quem se tratav, e de estar a par
da nossa história… Apenas não lhe ia falar dele porque não era a oportunidade
certa nem o lugar certo, talvez mais tarde e numa outra ocasião mais
propositada.
- É ele não é? – num segundo
exasperado, surgiu a pergunta que eu não esperava de todo ouvir
- Quem? – inquiri numa voz
quase aflitiva e um pouco descomposta
- Aquele rapaz que me
falaste, que namoravas na altura em que saíste de Portugal… Reencontraste-o,
não foi?
Embora o seu discurso tivesse
sido proferido com um sorriso complacente nos lábios, eu não consegui reagir
com a mesma naturalidade que ele… seria assim tão evidente o facto de eu estar
com Ruben? Será que tinha isso escrito na minha testa ou seria apenas a minha felicidade
a não caber no peito e a ser trespassada cá para fora através dos meus olhos,
da minha maneira de falar, da minha maneira de agir… comigo mesma e com os
outros? A verdade é que passara os últimos três anos da minha vida a conviver diariamente
com William e passara a ser mais do que natural ele conseguir traduzir em mim,
estados de espírito que não lhe revelava mas que eram translúcidos aos seus
olhos. Talvez por essa razão, e por conhecer também o sentimento que nunca
deixara de guarnecer por Ruben, que me tenha tornado tão transparente para si e
para o seu coração.
- C’mon Will… It’s our time
now! – o silêncio e o vazio ocupados pela minha não-resposta, foram quebrados
por uma voz grossa, masculina, difundida do areal
- Alright, Johnny, I’m going
already! – respondeu-lhe no mesmo elevado tom de voz, assim que o encarou
- Também vais jogar? –
perscrutei, ao supor que, se ele o confirmasse, possivelmente o rapaz que o
chamara, pertencesse aos elementos da equipa
- Sim, vou… - consentiu
voltando-se para a minha figura, e com uma simples manobra voltou a colocar os
óculos na cana do nariz – Infelizmente vamos ter que deixar a nossa conversa a
meio, mas podemos combinar alguma coisa para depois…
- Mais logo não posso, já
tenho coisas para fazer, desculpa… Mas pode ficar para amanhã, se puderes… -
perdoei-me e propus logo depois, lembrando o dia seguinte, ausente de quaisquer
compromissos
- Sim, claro, por mim pode
ser! – acordou num sorriso delirantemente belo, pelo entusiasmo que acabou por
também a mim me contagiar
- Então eu depois digo-te
qualquer coisa para acertarmos as horas e assim… De qualquer das maneiras eu
ainda vou assistir ao torneio, vou só comprar um gelado para o meu irmão, e
depois já nos vemos!
- Se é assim… até já,
pequenina! – ele beijou-me a testa, voltou-se e correu somente algumas passadas
em diante, pois travou o seu percurso novamente para me fitar – Ah, e desculpa
pela água de cocô! – os seus ombros encolheram-se despoeticamente e os braços
ficaram suspensos no ar até descaírem de encontro às coxas, e um sorriso boémio
e encantador foi liberto pelo rasgo dos seus lábios
Voltei ao hotel sensivelmente
uma hora depois e juntamente com Salvador, de quem me despedi na recepção com a
promessa de combinarmos um novo programa para outro dia. Subi com o auxílio do
elevador e mal entrei na minha suíte dirigi-me ao quarto de banho no propósito
de trocar o vestidinho branco inalado pela água de cocô, por outra roupa também
ela simples e igualmente confortável.
Tomei um duche rápido, pois
não me queria atrasar para o encontro com Ruben visto que todos os minutos se sucediam
rapidamente numa contagem injusta quando estávamos juntos, queria aproveitar ao
máximo a tarde que nos tinha sido concedida e que iríamos disfrutar a nosso
belo prazer.
Rematei o visual deixando o
efeito naturalmente ondular do meu cabelo, prendi a franja que me decaía sobre
os olhos com dois ganchinhos, e coloquei um pouco de rímel, blush e um batom suave nos lábios.
- Acho que tenho tudo! – conferi
a mim mesma, no intuito precativo de não me esquecer de nada e dando então uma
última passagem com o olhar pelo quarto, na garantia de não ter deixado nada
para trás
Coloquei a mala sobre o
antebraço esquerdo e abandonei o quarto, pronta para rumar uma vez mais naquele
dia até ao rés-do-chão. Enquanto caminhava, através do visor do meu Blackberry, verifiquei as dezasseis
horas e meia que já eram, o que significava que se o treino ainda não havia
terminado, pouco faltava para que isso acontecesse.
Antes de sair do hotel pedi
por algumas indicações do centro de treinos à recepção e dirigi-me então a pé
até lá, visto que só teria de atravessar um quarteirão. Quando cheguei, jornadeei
vagarosamente pelo passeio abrangente que separava as bancadas das redes que
cercavam a zona do relvado, e deixei que os meus dedos percorressem a rede
enquanto caminhava e observava os jogadores que ainda dentro de campo,
disputavam de uma peladinha descontraída, como remate ao último treino do dia.
Aquando isso, sentei-me, ainda um pouco longe do portão arredado da saída dos
relvados para a entrada do edifício, no desígnio de passar despercebida àqueles
que me conheciam e esperando pelas indicações de dispersão dos pupilos pelo
treinador, que para minha satisfação, não tardaram em ser dadas.
Vi os jogadores abandonarem
os campos, alguns meus amigos, outros que apenas conhecia de vista e a quem
somente dava a salvação e mantinha aquelas típicas conversas de circunstância.
E foi então que ele apareceu…
Vindo mais atrás, assim que me viu afastou-se das habituais brincadeirinhas de
miúdos que mantinha com os colegas, e sozinho veio ao meu encontro, usando-se
de lances rápidos e precisos de maneira a anuir com a distância que nos
separava e que acabou por ser vencida.
- Estava a ver que nunca
mais… - mantendo-me sentada, barafustei com um beicinho nos lábios, enquanto o
vi-a caminhar agora em passadas mais brandas até a mim
- Sempre tão impaciente… - os
seus lábios, albergadores do sorriso mais perfeito que até então conhecia,
ocorreram-me à bochecha onde a apadrinharam suavemente com um beijo quente e
amante… não que fosse relevante, mas preocupámo-nos minimamente em manter uma
certa discrição aos olhos de outros tantos que viandavam pela zona - Isso é
tudo saudades?
- É… é! – inclinei
pausadamente a cabeça para um lado e para o outro, deixando que se criasse um
véu de incerteza sobre a minha resposta, com também o auxilio do meu nariz que
franzi num jeito engraçado e desprendido – E tu não estavas com saudades minhas?
Não estiveste a pensar em mim o dia todo? Não te apeteceu, por um momento,
saíres mais cedo do treino para ires ter comigo? Hum…?
- Conheces-me demasiado bem… É
essa a tua sorte! – o seu braço direito contornou as minhas costas logo que me
ergui e a sua mão oposta ocorreu ao meu rosto, numa tentativa que por culpa
minha falhou, a de beijar os meus lábios – Faz-te de difícil outra vez, faz…
- Sabes que ainda não nos
devemos dar ao luxo que alguém nos veja…
- É só um… - os seus olhos
cerram-se e os seus lábios uniram-se predispostos a consumaram rumo até aos
meus, mas foi o meu indicador a adiar o desejo que teríamos que deixar para
mais tarde, assim que os selou num breve toque
Com aquela pequena disputa do
pega-não-pega, do vai-não vai, os nossos corpos – colados –, começaram a
cambalear sob a minha retaguarda num jeito trapalhão e simultaneamente cómico,
que quase me fez perder o equilíbrio em cima dos saltos altos, e que nos abonou
a entrega a um riso contagiante e me possibilitou escapar às investigas dele.
- Me dão licença de
interromper? – forçando um tosse ligeira de punho cerrado enfrente à boca,
David surgiu nas minhas costas sorrateiramente, findando com a brincadeira que
até então se prolongara
- Olha, já cá faltava este
cara de cu! – Ruben não hesitou a uma picardia que entre eles já era algo normal,
desalinhando-lhe a amálgama de caracóis que lhe preenchia o topo da cabeça – O
que é que queres, oh?
- Não é nada com você, seu
babaca… Vim só dar um abraço na minha amiga, posso?
- Oh Dê lindo, vem cá… -
soltei-me levemente da alçada de Ruben e rodei sobre a planta dos meus pés,
onde estiquei os meus braços na direcção de David e ele se apressou a
receber-me num abraço ternamente saudoso e recheado de um enorme carinho, quase
de irmãos
- Viu? Ela me chamou de Dê
lindo… - aliciou ele num tom espicaçado acima do meu ombro, que naturalmente me
deu vontade de rir e que somente fora dirigido a Ruben, que não tardou em tomar
as devidas providências
- Pronto, pronto, já chega! –
protestou novamente em tom de brincadeira, tentando colocar um fim à troca de
cumplicidade que eu mantinha com o seu melhor amigo
- Pusha, que cara ciumento cê
arranjou, Joana… Tô quase até com pena de você!
- Sim, sim, muito ciumento… Vá,
mas agora sai, sai! – empurrando-o numa força branda contra o peito, Ruben
roubou-me aos braços de David e puxou-me para si, vincando o que bem lhe
pertencia
- Não lhe ligues, David…
Sabes que às vezes o Ruben consegue ser muito tontinho!
- É, a maioria das vezes…
Olha que isso é falta de parafuso, meu irmão! Se fosse você tomava cuidado,
viu? Isso pode se tornar perigoso! – debuxou perspicazmente, o que nos levou, a
mim e a David, ao enquadramento de
vivazes gargalhadas que não tínhamos como conter
- Mas que bem… - gracejou em
ironia, batendo palmas braves – A unirem forças contra o ‘tontinho’ do Ruben!
Isso mesmo, continuem! – num beicinho adorável, ele afastou-se ligeiramente e
contra o peito amarrou os seus braços teimosos, na esperança certa de que eu o
fosse reconfortar
- Pronto, já passou… -
serenando o riso que eclodia ainda no meu âmago mas que acabava por morrer nos
meus lábios, voltei a aproximar-me o suficiente dele para lhe descruzar os
braços e findar com a chacota – E que tal irmos andando e fazer o passeio que
tínhamos combinado? – perguntei-lhe com meiguice, deixando decair na frente dos
nossos corpos as minhas mãos unidas às suas
- Sim, tens razão… Vou só ao
balneário tomar um duche rápido e trocar de roupa, pode ser?
- Não demoras? – era uma
pergunta escusada de facto, pois mesmo sendo a resposta negativa, já sabia
muito bem o quanto se podia prolongar o seu “duche rápido”
- São dois minutinhos… É num
instante, prometo!
- Está bem… – consenti, com
um sorriso imensamente belo que surgiu por vontade própria no meu rosto – Vai
lá então!
- É um instantinho, a sério!
Até já! – prometeu pela última vez, sigilando o jura com um beijo repenicado na
minha face, e seguindo numa leve corrida até à entrada do edifício onde acabou
por desaparecer instantes após
- Cê sabe que não vão ser só
dois minutinhos, não sabe, garota? – perquiriu inocentemente David, com ambas
as mãos resguardadas nos bolsos dos seus calções, respectivamente à demora
assente por Ruben
- Eu sei, David… Vocês
reclamam mas ainda conseguem ser piores que nós! – rapidamente mostrou-me um
rosto de falsa pejoração e ofendimento, mas ele sabia muito bem que eu tinha
razão – Sim, menino David, não fiques com essa cara porque tu és igual! Ou
pensas que eu não sei que ficas horas em frente ao espelho a ajeitar esse
cabelão!
- Ah, mas dá um desconto pra
mim, vai… Sabe que eu tenho que arrumar muito bem esse cabelão, pra cuidar da
minha imagem… Ossos do ofício! – argumentou no seu jeito cómico de ser, dando
um jeitinho com os dedos ao seus caracóis cada vez mais rebeldes, o que me deu
novamente vontade de rir
- Sim, sim… como queiras! –
consenti, voltando a desalinhar-lhe os fios de caracóis e aí foi a vez de ele
se rir
- Mas então vem… Eu te levo à
sala de convívio, sempre é melhor esperar por ele lá do que cá fora! Pode tomar
um café, uma água… - mantendo uma mão escondida no bolso, com o outro braço
contornou-me os meus ombros e lado a lado indicou-me que caminho seguir
- Obrigada, Dê! – agradeci
honestamente e um novo sorriso reapareceu em mim
- Fico feliz por cês dois… Já
era tempo de se acertarem!
- Ele contou-te sobre nós,
não foi? Quer dizer… Partindo do facto de teres ido ter connosco, de nos veres
daquele jeito e não teres ficares surpreendido… - olhei-o de relance enquanto caminhávamos,
apesar de presumir de início qual seria a resposta, pois sabia que entre Ruben
e David não havia qualquer tipo de segredos
- Não era nem preciso ele me
falar nada… Quem conhece bem o Ruben sabia logo que o tava dando nele só de ver
aquele sorriso capaz até de fazer barulho, quando ele voltou no quarto essa
manhã! – ele forçou o puxador da porta e abriu espaço para que eu entrasse
primeiro, como cavalheiro que era e que eu lhe conhecia ser
- Nunca esperei que isto
acontecesse, David, a sério que não! Foi o destino que nos separou e foi o
destino que nos voltou a juntar…
- E ainda bem que o fez, porque
eu já tava dando em maluquinho!
- O que queres dizer com
isso? – perquiri um tanto desconcertada, obrigando-nos a parar no meio do
corredor
- Cê é que não sabe, mas
desde que a gente se viu no desfile, que aquele babaca passava todo o santo dia
enchendo meu saco! Sempre choramingando por você que nem um moleque faz… Pô,
ninguém merece!
Sorri embaraçadamente com o
desabafo dele e não disse nada. O meu íntimo estremeceu ao se aperceber que
mesmo antes da nossa reconciliação – se já era assim lhe podíamos chamar –, ele
falava de mim, falava de nós aos nossos amigos, mostrava-lhes o quão custoso
era para mim quanto era para ele o nosso afastamento, deixava-me orgulhosa e com um inevitável bater
latejante do coração que implorava por viver um amor que nem o tempo conseguira
renegar.
Continuámos a caminhar e foi
num corredor permeado por uma parede de cacifos, que findámos o nosso percurso.
- É essa sala aí, guria… -
indicou ele num leve trejeito com a cabeça, que apontava à porta entreaberta do
nosso lado, enquanto abria o cacifo que naquela semana estava destinado a ser
seu, e de lá retirava o seu saco de desporto – Eu dou recado pro Ruben que cê o
espera lá…
- Está bem, David… Obrigada!
- Não tem de quê, molequinha!
– logo que colocou a alça do enorme malote ao ombro, veio até junto a mim,
acolheu o meu rosto nas suas mãos pesadas e cálidas e beijou-me a testa,
desprovida da franja amarrada – A gente depois se vê!
Permaneci no mesmo sítio onde
ele me havia deixado e vi-o partir… Caminhar até ao fundo do corredor e
desaparecer por uma outra ala que dava acesso ao balneário. Fiquei então
sozinha, não havia mais ninguém em meu redor, nem o mais leve burbúrio de voz
ecoava naquelas paredes revestidas de um branco candente. Foi então que os meus
pés tomaram algum alento e traçaram o curtíssimo trajecto até à sala de
convívio que me fora indicada por David. Empurrei a porta e entrei
sorrateiramente como se invadisse a casa de um desconhecido… A sala era bem
mais colossal e agradável do que aquilo que poderia parecer, as cores variavam
unicamente entre o branco, o preto e o vermelho…. Havia poltronas espalhadas um
pouco por todo o lado, umas quantas mesinhas alotadas com revistas e jornais,
um mini-bar self-service, uma pequena
zona de entretenimento com um televisor e os mais recentes jogos comandados, e
mesmo à minha frente estava suspenso um plasma, canalizado no Talk Show de Ellen DeGeneres. Dei
novamente uma passagem de olhar por todo o espaço e junto a uma janela no canto
da sala, deslindei um homem voltado de costas a ler um jornal, o qual da sua
presença não tinha notado quando entrei. Pousei a mala no banco que tinha do
meu lado e atravessei toda a sala até chegar junto do mini-bar, para me servir
de um copo de água que me iria matar a cede.
- Joana… - a proferição do
meu nome fez-me procurar instintivamente a fonte de onde proveio aquela voz
masculina que me soara familiar, mas que no entanto não consegui associar de
imediato… dei meia volta sobre mim mesma enquanto dava um gole no copo de água
que entretanto enchera, e deparei-me assim com a última pessoa que esperava
encontrar ali
Não sei como não me engasguei
e não cuspi a água que tinha na boca, tal era a atrapalhação com que me
encontrava. Senti todo o sangue a fugir-me das faces e as minhas mãos a
congelar… Só esperava que aquele cenário não fosse um sinal de um mau
presságio.
- Pai! – proferi quando
finalmente caí em mim, num arrombo asfixiado por todas as outras palavras que
tinham ficado retidas na garganta
- Surpreendida? – um
sorrisinho impropotente foi delineado nos seus lábios, e vi-o fechar e dobrar o
jornal que entretanto estivera a ler
- Não! Quer dizer… Sim, um
pouco… Não esperava encontrá-lo aqui! – justifiquei o melhor que pude, pois as
palavras ainda custavam a sair
- Combinei encontrar-me aqui
com o Rui… Estou à espera dele! – esclareceu os planos que havia estabelecido com
o meu padrinho, e nos quais eu tinha sido apanhada de surpresa – Mas o mesmo
posso eu dizer… Também não estava à espera de te ver aqui!
- Pois, ah… Eu vim ver um
pouco do treino e estou à espera do… David! Marcámos um café! – a minha única
alternativa foi mentir, pois a meu ver não tinha outra solução… com o copo de
água na mão, dirigi-me até uma mesinha albergada por quatro cadeirões e sentei-me
- Combinaste um café com o
David? – interrogou curioso, seguindo-me os passos e sentando-se no cadeirão à
minha frente, com o seu jornal
- Sim, combinei um café com o
David! – de maneira a aliviar o conteúdo daquele diálogo, peguei numa revista
ao acaso, acolhida no meio de outras e ao cruzar uma perna sobre a outra,
procurei distrair-me ao folhear vagarosamente cada página
- E esse café é só com o
David? – insistiu, como se de alguma maneira conseguisse adivinhar nas
entrelinhas que estava a mentir ou a esconder alguma coisa
- Sim, pai, é só com o David!
Com quem mais haveria de ser?
- Pois não sei, esperava que
me dissesses…
Pela primeira vez soltei o
meu olhar da revista e incidi-o no rosto persuasivo dele – O que é que quer dizer
com isso?
- Vi-te lá fora com o Ruben…
- assim que assibilei as palavras que havia soletrado, o meu coração começou a
bombear fortemente que nem um louco depravado, e apesar de se ter tornado um
pouco mais difícil do que se poderia pensar, mantive-me normal, como se a sua
interjeição não tivesse causado qualquer impacto sobre mim
- Ai sim? E então?
- Então que não sabia que
vocês se falavam outra vez, nem que tão pouco se tinham tornado amigos… Pelo
menos foi com essa impressão que fiquei depois de vos ver naquele clima tão…
amistoso!
- Espero que não esteja a
querer insinuar nada com essa conversa, caso contrário vou-me já embora! –
ultimei, sabendo perfeitamente que se me obrigasse a enveredar por aquele
assunto, chegaríamos ambos ao limite da exaustão
- O que eu espero é que não
me estejas a esconder nada, caso contrário a nossa conversa não fica por aqui!
- Que giro… A Angelina Jolie
e o Brad Pitt já estão a pensar em aumentar a família e adoptar outra criança…
- comentei aquando os meus olhos liam as letras gordas de uma das notícias
contidas na revista, continuando a fazer de tudo o que estava ao meu alcance
para não atear o pavio daquela conversa, que poderia inflamar e explodir a
qualquer momento
- Eu estou a falar contigo,
Joana! – alertou-me passivamente, mas eu continuei no meu canto, não disposta a
levar com ele uma disputa já gasta pela erosão do tempo
- É exactamente por isto que
eu gosto deles… Sempre tão solidários!
- Joana! – vociferou, num
pequeno grito em surdina que me sobressaltou na instância de um segundo
manhoso
- Eu estou a ouvi-lo, pai,
mas também estou a ler a revista… Importa-se?!
- Importo-me! Gostava que
largasses essa porcaria e falasses comigo! – arguiu num tom quase ofensivo,
levantou-se do cadeirão e ao arrastar todas as revistas e jornais para um
canto, sentou-se à beira da pequena mesa, mesmo na minha frente
- Pois, mas eu não tenho mais
nada para lhe dizer! – o sarcasmo cobriu-me a voz de um modo parcial,
acompanhado por todos os movimentos do meu corpo que foram seguidos pela pose
de tirania que mostrei
- E não me vais dizer o que
eram aqueles abraços, os sorrisos, aquela cumplicidade toda que estavas a ter
com o Ruben? Não tentes desmentir-me… Eu vi com os meus próprios olhos!
- Então se viu com os seus
próprios olhos, creio que não tenha mais nada a acrescentar… Tire as suas
próprias conclusões! – ripostei num contra-ataque rápido, que só serviu para o
pôr ainda mais fora de si
- Deixa-te de ironias, Joana…
Não estou com a mínima paciência para os teus jogos de palavras… Eu sou o teu
pai e estou a exigir-te uma explicação!
- O pai não quer que eu lhe
minta, mas sinceramente também não sei se quer ouvir a verdade… – num ápice vi
a revista que usara como meio de me proteger às suas investidas, escapar-me por
entre as mãos por sua intervenção e voltar a ser pousada sobre a mesa, não me
deixando outra alternativa que não fosse a de levar aquele debate até ao fim… e
que fim seria aquele
- Vou fazer-te a pergunta
pela última vez e vou clarifica-la ainda mais… e só quero uma resposta simples
e directa: Existe novamente alguma coisa entre ti e o Ruben, sim ou não?
Senti uma apreensão tão
grande naquele ensejo, como nunca sentira em toda a minha vida. A resposta era
fácil demais, mas a coragem de a proclamar em voz alta mostrou-se tão mais
hesitante que por um erro fracionário, não soube ponderar entre tomar a atitude
certa e preservar a minha felicidade… Foi nessora que num impulso expelido pela
racionalidade, que disse unicamente a verdade.
- Sim! – respondi apenas, num
sopro exasperante pelos batimentos suprimidos no lado esquerdo do meu peito
Mirei-o a olhar-me num golpe
de choque, pois tinha a certeza que não era de todo o que ele esperava e queria
ouvir da minha boca. Ainda esperou que eu reformulasse a minha resposta e me
autocontradissesse imediatamente, mas não pensei por um segundo em voltar com a
minha palavra atrás… já estava feito, ponto. Levantou-se de rompante e com uma
postura agressiva e obtusa, começou a andar de um lado para o outro no meio da
sala, em passadas nervosas de um compasso inquietante. Remexia o cabelo de
madeixas grisalhas, passava as mãos na barba aparada e não dizia nada,
absolutamente nada e talvez fosse isso que me deixasse mais perturbada interiormente…
não o ver tomar nenhuma reacção perante mim e aquela confissão.
- Sim, reaproximámo-nos… Sim,
voltámos a apaixonar-nos, e sim… Queremos ficar juntos! – assentei
pausadamente, mantendo a minha posição aparentemente passível, não deixando
margens para que restassem quaisquer dúvidas
- Eu vou fingir que não ouvi
nada e vou acreditar que tudo o que acabaste de dizer não passa de um enorme
equívoco… O que te parece?
- Engraçado, agora o pai
fez-me lembrar os miúdos pequenos que quando fazem alguma asneira, fecham os olhos
e fingem que nada aconteceu, mas adivinhe só… quando os voltam a abrir reparam
que a asneira foi mesmo feita e que continua lá, já não há nada a fazer… - enunciei
na réstia de calma que ainda guardava em mim, mas esta ameaçava abandonar-me a
cada minuto pelos ponteiros percorridos e à medida que aquela controvérsia
avançava
- Onde queres chegar com essa
conversa? – ele travou a sua marcha desorientada de um lado para o outro e
fixou-me, com as sobrancelhas contraídas numa manobra de diversão por procurar
em mim um entendimento
- Estou somente a querer
dizer que por mais que o pai finja que nada do que ouviu é verdade, não é isso que
vai mudar alguma coisa… Não vai alterar absolutamente nada o que já está feito!
- Mas eu pensava que para ti
esse capítulo já estivesse mais do que encerrado! – pela primeira vez a sua voz
alteou-se consideravelmente à minha, e foi aí que a faísca aliciada pelo vento,
abrasou o que ao início começara por ser nada mais que uma troca de palavras,
para acusações enfurecidas de ambas as partes, nunca antes discutidas
- Estava encerrado para si,
para mim nunca chegou a ser esquecido, sequer!
- Espero que tenhas
consciência dessa barbaridade…
- Tenho, tenho plena
consciência, e sabe que mais? Acho que ao fim de tanto tempo, nunca estive tão
perto de voltar a ser realmente feliz!
Um sorriso conotado por um
arzinho cínico que lhe deslindava em todas as feições, foi instaurado na
periferia dos seus lábios enquanto falava – Estás a cometer um erro, Joana… Um
grande e grave erro com o qual não irás conseguir lidar!
- O quê? – ao ouvir a maior
disparate, ergui-me do cadeirão e enfrentei-o, sem medo de tudo o que estaria
ainda para ser dito – Estou a cometer um erro? Agora amar uma pessoa é estar a
cometer um erro?
- Não! Amar uma pessoa não é
cometer um erro, mas amar a pessoa errada, é!
- E porque é que o Ruben é a
pessoa errada? Porque o pai decidiu, foi?
- Porque as circunstâncias
decidiram… Sabes muito bem, porque é que ele não é a pessoa certa para ti!
- Não, não sei! – a minha voz
elevou-se de uma maneira tal que eu mesma não consegui controlar, e foi a
partir daquele meu manifesto de revolta que comecei a perder todo o controlo
que tinha da situação – Nós fomos apanhados no meio de uma rivalidade que não é
a nossa, no meio de problemas que nem sequer conhecemos! Fomos obrigados a
separar-nos porque nem o pai nem o Senhor Virgílio queriam que tivéssemos uma
relação, por causa das vossas guerras… E sabe? Essa é a ideia mais estapafúrdia
que alguma vez vi!
- Talvez agora não
compreendas, e de certa maneira até percebo que não o consigas fazer, mas o
melhor que havia a ser feito era vocês seguirem caminhos diferentes com as
vossas vidas, e tu um dia entenderás isso!
- Ai, pai, poupe-me a essas
suas divagações… Acha mesmo que eu acredito no que está a dizer? Eu vou
entender isso e mais o quê? Vou entender a sua falta de escrúpulos quando me
encostou contra a espada e a parede e me obrigou a deixar tudo para trás e ir
viver com a mãe para Nova-Iorque? Quando a única coisa que queria era ver-me
longe do Ruben! – esforcei-me, esforcei-me muito para não ceder à insistência
das lágrimas que já me picavam os olhos, mas estava a tornar-se cada vez mais
difícil lutar contra mim mesma
- Quando é que de uma vez por
todas vais meter na tua cabeça que era o melhor para ti, Joana? O melhor era
saíres de Portugal por uns tempos e esqueceres esse rapaz, para o teu bem! – os
ânimos voltaram a exaltar-se, e eu não me contive em arrastar os pés numa só
única direcção e aproximar-se dele
- Não, não era para o meu
bem! Era para o bem dos seus interesses assim como para o bem dos interesses do
pai do Ruben! Porque vocês só se
preocupam em manter as aparências e borrifaram-se completamente para os nossos
sentimentos… O pai e o Virgílio eram os melhores amigos e do dia para a noite
tudo isso mudou, e nós fomos obrigados a mudar também… Porquê? Porquê?
- Às vezes as coisas mudam e
os planos alteram-se, mas as nossas vidas têm de seguir enfrente… - aquela sua
calma perante a situação tornara-se irritante e profundamente desconfortável
aos meus olhos, pois ao contrário dele, por dentro eu estava a explodir de
raiva e ressentimento
- Eu tinha dezassete anos, a
melhor coisa que me tinha acontecido foi apaixonar-me, e até isso me tiraram! Nós
só queríamos viver a nossa vida, queríamos lá saber das vossas disputas patéticas
pelas empresas, pelos negócios, quando foi o vosso egoísmo que acabou por vos
cegar! É ridículo! – a minha intervenção limitou-se ao retorismo, mas a minha
alma já estava tão pesada pela mágoa, que não contive mais as lágrimas que
acabaram por levar a melhor de mim e cessaram então em catadupa pelo meu rosto
– Tal como disse, a minha vida teve que seguir enfrente, mas foi contra a minha
vontade e só porque fora sujeita a isso!
- Na altura não havia outra
alternativa!
- Há sempre uma alternativa!
– os gritos voltaram a soltar-se involuntariamente da minha garganta, pois
perdera todo o autodomínio da minha calma e vi-me cingida a intercalar um choro
dolorosamente agoniante com as palavras acusadoras que saíam pela minha boca –
O pai não sabe o quão difícil foi para mim esquecer o passado e construir uma
nova vida longe da família, dos meus amigos e do homem que amei
verdadeiramente.
- Tu eras uma miúda, Joana…
Sabias lá o que era amar alguém! – não, eu de facto não podia estar ouvir bem…
como é que ele era capaz, como é que tinha coragem sequer de me dizer uma coisa
daquelas?... era inacreditável como egocentrismo conseguia menosprezar tudo e
todos
- Diz que eu não sabia o que
era amar, mas alguma vez o pai soube? – ataquei, enxugando friamente o rosto
banhado pelas lágrimas que não queriam cessar e mantive-me bem na sua frente, a
prender os seus olhos nos meus – O pai nunca mas nunca, fez a mãe rir do jeito
que o Ruben me fazia a mim… Nunca olhou para a mãe da maneira que o Ruben
olhava para mim, e sabe porquê? Porque nunca a soube amar!
Nunca tinha sentido uma
cólera tão imensa guardada em mim, e por fim esta acabou por ser liberta em
palavras não ensaiadas que num lapso que eu não soube emendar, dispararam sobre o
infortúnio de um perjúrio. Vi-o elevar a sua mão direita no ar e numa fracção
de segundos senti-a junto à minha face, esbofeteando-a e projectando-me o
rosto para o lado. Quando voltei a olhá-lo não quis acreditar no que tivesse
acontecido, apenas o fiz porque o ardor da minha face me obrigava a fazê-lo.
Quando o meu pai voltou à terra e tomou consciência do que fizera, creio que se
arrependera no mesmo instante, pois as suas feições desconcertadas assim o
provaram… Contudo, não era aquela dor que me magoava realmente, não era a dor
física que me fazia chorar, era a dor que sustive durante quase três anos
dentro do meu peito, o fardo que carreguei sozinha e que ali, naquela sala,
pude finalmente libertar de uma vez para sempre.
- Não, não me toque! –
possivelmente no intendo de se redimir, ele tentou alcançar a minha mão, mas
impedi-o imediatamente, sacudindo-a para longe do seu alcance – É incrível… Quando
eu penso que já não é possível, ainda me consegue surpreender mais!
- Não devias ter dito aquilo!
– ciciou, incidindo em mim o raiar vermelho dos seus olhos
- Eu apenas disse a verdade…
Não foi sempre isso que o pai me ensinou? Dizer a verdade? Pois então eu vou
dizer-lhe mais uma… - os meus olhos fecharam-se de maneira a conseguir alimentar
os meus pulmões de ar e suster o controlo sobre o choro, voltando a abri-los
instantes depois – Eu encontrei de novo um rumo para a minha vida, e desta vez
vou lutar pelo homem que amo e vou ser feliz! – ditei, sentindo o meu coração
cada vez mais fraco, mas com uma força interior imensa que me sustinha em pé e
me ajudava a seguir em frente
- Joana, o que é que queres
dizer com isso? Eu não vou aceitar e não te vou admitir que me faltes ao
respeito dessa maneira! – não quis continuar a ouvi-lo, virei costas e peguei a
minha mala que deixara esquecida sobre a poltrona da entrada
- Se a minha felicidade é
para si uma falta de respeito… Então não temos mais nada para dizer um ao
outro! – portadora de uma expressão modestamente
vinculada pela dor, segurei a porta que se encontrava entreaberta com a mão, e
saí logo depois, batendo com ela fortemente
Não tinha nenhum destino
definido, deixei apenas que os meus pés tomassem controlo sobre a minha fuga, e
me levassem o mais depressa para longe dali. Entreguei-me totalmente ao meu
lado humano e o choro tomou desesperadamente conta de mim. Mantive o olhar,
enublado pelas lágrimas, cabisbaixo e preso aos mosaicos cálidos que
percorriam, preocupando-me em não olhar para ninguém e não deixar que me vissem
naquele estado inconsolável… Queria apenas ser merecedora da minha felicidade, mas
sabia que não a conseguiria alcançar sozinha pois ela continuava a ser uma
parte de outro alguém… do amor da minha vida.
Queridas leitoras, finalmente aqui fica o aguardado capítulo!
Desculpem a demora, mas como já referi num comentário anterior o meu tempo livre
tem sido escasso e por vezes torna-se difícil de conciliar com a escrita.
No entanto espero que gostem, que compreendam a situação e que comentem apesar da ausência, pois é muito importante para mim!
Muitos beijinhos,
Joana :)