sexta-feira, 6 de julho de 2012

Capítulo 9 - Doce tentação (Parte I)


















- Wow… Be careful, litle boys! – alertei com um sorriso largo nos lábios, os dois meninos gémeos que me interpolaram a sair da minha suite, cada um rasgando caminho pelas laterais do meu corpo, numa correria furiosa… muito natural das brincadeiras de crianças

- You won’t catch me, Thomas! – desafiou um deles, enquanto por entre gargalhadas continuavam a correr desalmados pelo fundo do corredor

- I’m sorry… I’m so sorry! – apressou-se a desculpar-se a senhora que eu depressa calculei ser a mãe daqueles miúdos de sensivelmente seis anos, pelos modos tomados pelos filhos

- Oh, don’t be sorry, it’s okay… Kids! – traquilizei-a num breve encolher de ombros compreensivo, que ela soube corresponder com um sorriso belamente grato

- Thomas! Daniel! Come back here! – a pobre senhora partiu então, igualmente numa correria, na direcção tomada pelos filhos procurando sossegar o seu coração de mãe e eu, eu limitei-me a retomar e seguir com o meu caminho

Embarquei no avião naquela noite… Sozinha, como já me habituara a fazer desde cedo. Para não variar as doze horas de viagem com vista de regresso a São Francisco, torturaram-me lentamente, pelo simples facto de terem contribuído para que um conflito de valores desse o rebuliço caótico a que os meus fragilizados pensamentos se alquebraram. Meras recordações impiedosas furtaram-me a necessidade de dormir; a consciência de todas as coisas que ficaram por fazer, de todas as palavras que ficaram por ser ditas e, principalmente, a dor profunda que sentia no ponto fulcral do meu coração, por não me ter entregue a um amor que somente por minha culpa, acabara por não ser vivido. “Será este o meu fado... Viver perpetuamente no escuro?” Era exactamente esta a pergunta que fizera incontáveis vezes a mim mesma, e que me acompanhou enquanto sobrevoara o longo manto azul do oceano.
E agora ali estava eu… Juntamente com o meu irmão Salvador, a percorrer os corredores do hotel que guardava tantas e tão boas memórias… O mesmo hotel de que se as suas paredes falassem, desvendariam os melhores segredos que eu ali vivera e que ainda guardava em mim.

- Joana! – um timbre grave e incrivelmente familiar, fez-me travar repentinamente o caminho já traçado até ao elevador

- Pai… - confirmei aos meus olhos o dono e senhor daquela voz, logo que dei instruções ao meu corpo para se voltar

- Podemos conversar? – vi-o a aproximar-se levemente, sempre nos seus modos senhoris de um empresário experiente, mas de um pai que eu não sabia mais conhecer… não depois da perversidade que me obrigara a fazer, há quase três anos

- Tem mesmo que ser agora? Ia dar um passeio pela cidade com o Salvador… - para além de ser a verdade, pareceu-me ser o argumento mais aceitável que lhe poderia dar, pois a minha vontade de conversar com ele naquele momento, era quase nenhuma

- Não queria adiar esta conversa por mais tempo… Cinco minutos é o que eu te peço!

- Diga lá então. – mais uma vez cedi à sua vontade, como sempre fizera, transferi o peso do corpo de uma perna para a outra, e logo que cruzei os meus braços teimosos, mostrei-me tão disposta e atenta a ouvi-lo, quanto me foi possível

- Preferia que não fosse aqui… – ele olhou o Salvador de certa forma como um impedimento para, talvez, ter comigo uma conversa que só poderia ter-nos aos dois como os únicos intervenientes, mas ainda assim, pela primeira vez em muito tempo, consegui patentear-lhe um tom calmo e uma postura benévola, provavelmente no intento – à partida falhado – de remediar todos os erros que cometera comigo no passado – Podemos ir até ao escritório?

- Pai, por favor… Estou com alguma pressa. – procurei as palavras que me pareceram ser as mais certas, para não lhe faltar ao respeito de maneira alguma, e com um leve toque no ombro puxei o meu irmão ainda mais para junto de mim

Ele baixou a guarda que mantivera bem elevada e armada durante toda uma vida, e escondeu as duas mãos nos bolsos das suas calças sarja, naturalmente vincadas no centro de toda a perna. Sabia que se quisesse falar comigo, agora, teria de ser segundo as minhas vontades, já que durante toda a minha existência tive que me vergar às suas.

- Salvador, se não te importas, espera lá em baixo pela tua irmã… Ela já lá vai ter contigo, está bem?

- Está bem… - sem formar nenhuma oposição, ele comediu-se às palavras quase ordenadas do meu pai, ainda me olhou mas eu não tive outro remédio que não fosse deixá-lo ir

- Mais satisfeito agora? Pode começar a falar…

- Sobre a tua mãe…

- Pai, não queira entrar por aí… - alertei-o passivamente, de modo a evitar uma discussão que poderia rebentar na periferia de um tema o qual me custava tanto a ouvir como a prenunciar

- Filha, ouve-me, está bem? Só preciso que me oiças… - por breves instantes o seu olhar desprendeu-se do meu, somente para percorrer o enorme corredor, na altura deserto, que se estendia atrás de mim – Eu sei que não estive presente durante a maior parte do tempo em que a tua mãe esteve doente, sei que foste tu a cuidar dela todo aquele tempo em que certamente ela mais precisava de sentir o apoio de toda a família, e eu sei que errei…

- Pois errou… Errou muito, pai…

- E não imaginas o quanto estou arrependido de não ter estado presente por inteiro na tua vida, nestes últimos anos!

- Não se esqueça que quem me afastou da sua vida, foi o pai! – acusei, deixando que toda a revolta que tinha alimentado dentro me mim, tomasse ordem de todos os meus trejeitos e palavras

- No entanto, e perante tudo isto, eu queria pedir-te…

- Perdão? É aí onde a sua conversa quer chegar? Quer pedir-me perdão… - achei inacreditável o pedido imoral que tinha em ideia fazer-me, e naturalmente que isso se fez trespassar para o tom de ironia que a minha voz adoptou, tal como a minha postura que se alterou para a posição defensiva

- Joana, eu sei que ainda estás magoada comigo, estás magoada com o que eu te fiz, mas aceita as minhas desculpas… Por favor…

- A única pessoa aqui a quem deve pedir desculpa, é ao Salvador… Nem decência suficiente teve, para levá-lo a ver a mãe uma última vez! – acusei sem remorsos, procurando, porém, manter um tom ameno que não suscitasse exaltação entre nós – Nem ao funeral foi…

- Não, filha, estás enganada… Eu fui ao funeral da tua mãe! – corrigiu-me rapidamente, apanhando-me completamente desprevenida em confronto da acertividade da sua afirmação – É certo que não me aproximei muito, nem estive contigo… Mas eu estive lá.

- Esteve lá? – por instantes o meu clamor fraquejou e tive medo de ceder a toda a revolta que escondia, assim como às lágrimas que ameaçam rebentar na tona lacrimejante dos meus olhos, a qualquer momento – Meu Deus, como é que ainda tem coragem de me mentir dessa maneira?

- Eu não te estou a mentir, Joana!

- Oiça, eu não quero continuar a ter esta conversa consigo, por isso é melhor deixá-la ficar por aqui… É o melhor para si e para mim! – natural que me tivesse recusado a acreditar nas suas palavras e de maneira a defender-me, achei por bem terminar ali mesmo o assunto antes que este nos levasse aos extremos da exaustão

- Joana, ouve-me… - ele ainda tentou retomar a troca de palavras entre nós, mas nem assim me detive

- Vemo-nos depois… Até logo! – vislumbrei-o uma última vez com uma mágoa impetraz assoberbada no olhar, e assim que tive oportunidade de respirar bem fundo, longe do seu domínio, remontei caminho até ao encontro do meu irmão, que já  devia estar à espera no átrio principal

Aproveitámos o sol fortificante que resplendecia bem alto no céu naquela tarde de Verão, para visitar e passar por sítios maravilhosos e pelos quais já guardava enormes saudades, da cidade de São Francisco. Visitámos algumas lojas do comércio localizadas a meia dúzia de quarteirões do hotel, entre as quais eu nutria particularmente preferência por uma, desde a primeira vez que lá fora: a mais famosa loja de música da cidade. Esta inspirava um ar um tanto antiquado, fazendo referência – para além dos CD’S que giram por aí nos dias de hoje – álbuns de vinil, certamente artigos de colecção dos maiores êxitos que ficaram para a história da música dos anos 60, 70 e 80, e eu como fiel amante dessa arte, claramente que não pude deixar de demonstrar o encanto que tudo aquilo transmitia.
Passámos também pelo bar “La Boulange de Hayes” onde saboreamos os deliciosos batidos de fruta, e onde pudemos também compartilhar uma conversa sincera como ainda não tivéramos oportunidade para ter, um pouco à cerca das nossas vidas e o quanto elas tinham mudado entretanto. E no final da tarde, ainda desfrutámos de um passeio pelo emblemático parque Golden Gate, uma das maiores atracções e para mim um local de puro fascino, não só por toda a majestosa beleza dos jardins que rodeavam os relvados de golfe, campos de ténis e um estádio de hipismo, canoas que serviam da maior parte para passeios turísticos e românticos nos lagos que rodeavam toda aquela zona de lazer, mas também por ter visitado aquele lugar pela primeira vez com Ruben, que me levou até lá como me tinha prometido, nos tempos em que ainda pertencíamos um ao outro. E parecendo que não, os últimos anos mudara muita coisa por aqueles lados, mas era impossível de não concordar que cada recanto parecia aos meus olhos, mais belo e perfeito do que nunca antes.



***



- Amanhã podemos ir até à feira? Queria andar na roda gigante… - disse Salvador, aquando já caminhávamos sobre o passeio pedonal, de retorno ao hotel

- Ainda lá não foste? – uma surpresa irreversível patenteou-me a voz, por estranhar o facto dele ainda não ter visitado a feira popular da cidade, que se distanciava somente a uns quatrocentos metros, se tanto, instalada no parque de estacionamento da praia frente ao hotel

- Não… O pai disse ainda não teve tempo de lá ir comigo, mas também não deixa que eu vá sozinho!

- Até é de admirar não ter dito a nenhum segurança que fosse contigo, mas enfim… Não te preocupes que amanhã eu levo-te lá! – assegurei-o, dando-lhe um leve beijo promissor no topo da cabeça, por entre os cachinhos loiros, enquanto continuávamos a caminhar abraçados

- Obrigado, mana! – ele olhou para cima e ofereceu-me um sorriso afável, que foi o suficiente para me confortar o coração – Ah, e é verdade… O Jorge? Pensava que ele viesse connosco…

- Não… Felizmente que o pai percebeu que não é preciso que eu ande acompanhada por um segurança! – esclareci, tornando evidente o meu desagrado pela condição imposta pelo meu pai, no primeiro dia que pisei o chão daquele hotel

- Hi, Mr. Sullivan! – foi o meu irmão o primeiro a saudar o porteiro velhote e  rigorosamente fardado, tal como o cargo o exigia –   Good afternoon!

Ao perscrutar mais pormenorizadamente a figura do senhor, este rapidamente me fez lembrar o Ambrósio, o mordomo daquela publicidade televisiva que passa todos os Natais, dos Ferrero Rocher, levando-me a reparar no mesmo sorriso, bigode e cabelo branco… Quis soltar uma pequena e curta gargalhada em prol do meu pensamento reinadio, mas impus-me em não fazê-lo e cumprimentei-o também.

- Good afternoon! – olhei-o com um sorriso emitente de simpatia e educação, para depois olhar o cenário à nossa volta, que não se mostrava nem de perto igual, àquele quando tínhamos saído

- Good afternoon! – saudou também, fazendo-me uma pequena vénia enquanto mantinha as mãos cruzadas atrás das costas – The ride was good?

- Yes! It was an afternoon well spent! – afirmou Salvador com um sorriso de orelha a orelha, testemunha dos bons momentos que tínhamos partilhado no decorrer de toda a tarde… como já há muito tempo merecíamos

- Thank godness! – gracejou com um sorriso muito afável, ainda marcámos passada para entrarmos, mas Salvador, que seguia à minha frente, travou o percurso e eu fui obrigada a deter-me também

- Porque é que estão aqui estes seguranças todos? – perguntou-me em jeito de cochicho, fazendo referência a um sinal que eu anteriormente já tinha reparado

- Não faço a mínima ideia! – os meus ombros encolheram-se levemente no ar, numa feição que eu tinha tomado como sendo tão natural, que já a usava quase de jeito automático, quando me deparava com alguma situação que de certa maneira me ultrapassava – Thank you! – regraciei honestamente ao Senhor Sullivan, assim que este prestou o obsequio de nos abrir a enorme porta envidraçada

- Vais voltar para o teu quarto? – perguntou-me ele, fazendo surgir um novo assunto, enquanto ladeados um pelo outro, atravessávamos o átrio principal –  atestado por outros tantos hóspedes que iam saindo, entrando ou até mesmo se deslocavam para outras áreas polivalentes do hotel, domiciliadas no rés-do-chão –, com um único caminho cogitado até um dos dois elevadores

- Sim… Ainda quero descansar um pouco antes do jantar! – descolei o olhar fixo sobre o trajecto para olhar a figura meigamente passiva de Salvador, que mantinha o mesmo ritmo de passada que o meu - E tu… Ainda vais jantar aqui ou vais para casa?

- Vou primeiro lá em cima ao escritório ter com o pai, e depois vamos os dois para casa!

- Então subimos juntos! – disse numa afirmação evidente, e com o meu braço direito que no mesmo instante rodeou os seus ombros, continuámos a caminhar – Escuse me… - chamei pela mulher que se atravessara e começou a rasgar caminho à nossa frente, quando deixou cair um cartão da sua mala, aquando da última vez que a remexera para procurar o telemóvel – Escuse me… Wait please! – com o aparelho electrónico junto do ouvido e com o passo acelerado que tomara, tornou-se um pouco difícil perquirir a sua atenção, mas ainda assim insisti – You dropped this card… - informei, logo que por fim consegui chegar junto dela

- Oh, I’m sorry, I didn’t saw you called me… - assim que se voltou para me encarar, as suas palavras estagnaram e o discurso foi interrompido… ela desligou a chamada, olhámo-nos sem expressar qualquer reacção imediata, mas nem esse instante foi suficientemente fiável para que eu conseguisse acreditar na pessoa que tinha à minha frente – Joana? – prenunciou certeiramente o meu nome, quando arrastou os óculos de sol até ao topo da cabeça, para assim confirmar que era realmente eu

- Sara! – a voz finalmente retomou ás minhas cordas vocais, e pude assim proferir com um surpreso mas felicíssimo sorriso no rosto, o nome da minha melhor amiga

- Oh, miúda! – ela nem pensou duas vezes, precipitou-se na minha direcção e roubou-me um forte e apertado abraço, que foi impossível não ser retribuído por mim – Que saudades, que saudades!

- Ai, nem acredito que és mesmo tu… Senti tanto a tua falta! – ditei, domada por um tom de voz lamuriante, ainda na compartilha de um abraço francamente saudoso

- E eu a tua, pequenina… E eu a tua! 

- Estou tão contente por voltar a ver-te! – proferi ao quebrar levemente o enlaço dos nossos braços, procurando-lhe o rosto de maneira a observá-la ainda melhor

- Meu Deus, não esperava de todo encontrar-te aqui… - enunciou ainda num involuto de estupefácia, por nos termos cruzado ao fim de mais de dois longos meses, sem tomarmos qualquer tipo de contacto para um encontro

- Pois, nem eu… Começo a acreditar naquelas pessoas que dizem que o mundo é um lugar pequeno! – disse de forma animada, o que nos levou a soltar uma calorosa gargalhada em simultâneo

- Mas deixa-me olhar bem para ti… Quero ver o que mudaste nestes últimos meses! – ela pegou a minha mão e afastou-se um pouco, de maneira a facilitar a sua tarefa de olhar pormenorizadamente toda a minha figura, agora mais debilitada desde a última vez que me vira, por componente do carrossel de fortes emoções e antigos sentimentos que ressurgiram em mim nestes últimos tempos – Mas será que não te cansas de seres uma gata? Não, é que sinceramente… A concorrer contigo, não vou ter grandes hipóteses no mercado masculino! 

- Oh, deixa de ser parva! – ripostei não evitando um sorriso lisonjeiro, pelo seu comentário que eu sabia fazer parte do seu lado mais cómico e descontraído, que desde sempre formara na forte personalidade de que era portadora

- Deixa tu de ser modesta! Já olhaste bem para ti? Sim, estás sem dúvida mais magrita, é certo, mas continuas lindíssima! E se bem que… Ainda não sei ao certo o que é, mas noto-te… hum, diferente…

- Diferente? Como assim? – nem o tempo apagara a sua rápida perspicácia que mantinha em relação a tudo, e talvez o facto de termos estado afastadas durante um período considerável, a tenha levado a conceber coisas que nunca vira antes em mim, e isso de certa forma assustou-me pois não sabia até que ponto eu tinha mudado para ela – Eu continuo exactamente a mesma Joana de há dois meses atrás! – referi com total integridade, encaixando uma mecha solta do meu cabelo, para trás da orelha

- Hum, olha que mesmo assim, eu não diria bem que és “exactamente a mesma Joana”, como tu te referes…

- Ai não? Então diz-me lá, Senhora Sabe-Tudo, onde é que eu mudei? – desafiei-a ao mesmo tempo que levei os meus braços a entrelaçarem-se, num notório despique de brincadeira, ao qual ela se limitou a olhar o meu rosto, como acho que nunca antes fizera

- Os teus olhos…

- O que têm os meus olhos?

- Foram os teus olhos que mudaram… Sei lá, estão mais vivazes, ganharam um novo brilho… Brilho esse que nunca vi antes!

- Que disparate, Sara! – encenei uma curta risada que a levasse a querer que o que dissera não era encabeçado por qualquer fundamento, mas Sara conhecia-me bem demais, e quanto mais eu tentasse fugir ao assunto, que ela já estava bem próxima de adivinhar, mais a sua insistência redobrava sobre mim – Eu acho que esse teu curso de psicologia te anda a dar a volta à cabecinha…

- O que eu acho é que tens muita coisa para me contar!

- Espera, quero que conheças uma pessoa! – de forma a desviar o assunto “motivo da vivacidade e novo brilho dos meus olhos” que por enquanto ainda não queria desafogar com ela, tencionei uma vontade que já cria cumprir à muito tempo – Salvador, chega aqui, por favor… -  chamei o meu irmão que ainda se encontrava ali na zona, não muito distante de nós

- É o teu irmão? – perguntou-me ainda apanhada de surpresa, logo assim que ele chegou junto de nós

- Sara, é o Salvador… O meu irmão, e Salvador, é a Sara… Uma grande grande amiga minha!

- É a menina que estudou contigo em Nova Iorque? – perguntou-me inocentemente ao altivar o olhar, enquanto eu o mantinha à minha frente, com as mãos sobrepostas aos seus ombros

- Hum, hum… Sou eu mesma! – foi Sara que respondeu à sua pergunta, com um sorriso nos lábios que eu rapidamente lhe adivinhei ser muito meigo e amigável – Ainda não nos conhecíamos, mas eu já tinha ouvido falar muito de ti! – ambas trocámos um olhar fiador de cumplicidade, e que Salvador soube descodificar sem quaisquer dificuldades, mostrando-nos apenas um sorriso ainda tímido, junto de alguém que acabara de conhecer

- Joana, eu vou então lá em cima a ter com o pai… Ele já deve estar à minha espera!

- Sim, piolho, também acho que é melhor ires… Não queremos que o Senhor Ricardo se chateie! E se não nos virmos mais hoje… até amanhã! – as minhas mãos acolheram o seu rosto redondo e perfeitamente adornado das feições de um menino pré-adolescente, e os meus lábios foram ao encontro da pele naturalmente morena da sua bochecha, onde lhe guardaram um suave e quente beijo

- Prazer em conhecer-te… Sara… - embora tenha conseguido vencer a sua forte timidez naquele momento de despedida, Salvador não deixou passar despercebido um certo ápice de hesitação

- Prazer também em conhecer-te, Salvador! – despediu-se também, tendo sido ela a tomar iniciativa para a troca primordial de dois beijinhos… acenei-lhe uma última vez e vimo-lo afastar-se a passo ligeiro

- É querido, o miúdo… Gostei dele!

- É meu irmão… O que é que esperavas? – retorqui de modo descontraído e simultaneamente engraçado, levando-a à cessão de um riso contagioso que também acabou por me atingir a mim
 
- Mas conta-me lá, o que estás aqui a fazer? – senti um leve puxão intencionado na minha mão, no qual fui arrastada até aos confortáveis bancos, posicionados junto à imponente coluna da entrada – Quero saber tudo!

- Oh, vim passar aqui uns dias… Estava a precisar de apanhar novos ares! – referi, mostrando-lhe um olhar dolente e conformado, pelos motivos que me levaram a sair por uns tempos de Portugal, e logo assim que me sentei ao seu lado e de corpo ligeiramente direccionado para si

- E vieste fazê-lo logo aqui? No hotel do teu pai? – em despotismo de uma estranheza impertinente, vi-a arquear ambas as sobrancelhas permitindo que na sua testa se formasse uma fina linha de pasmo, pois Sara sempre estivera a par da relação muito pouco amena que eu partilhava com o meu pai

- Só vim pra’qui por causa do Salvador… É aqui que ele vive, e bem, para matar as saudades e poder estar com ele, tive que pôr de parte alguns inconvenientes! – justifiquei com um sorriso ténue a tomar posse dos meus lábios, referenciando as evidências estipuladas, que eu não podia mudar – E tu… Estás aqui há muito tempo? Já foste a Portugal?

- Ainda não… Cheguei à coisa de três dias, quis aproveitar que ainda há duas semanas as minhas aulas terminaram, para gozar um pouquinho da praia e do Sol californiano, antes de voltar para casa pra junto da família… Esta zona é lindíssima para se passar férias!

- Sim, é de facto uma das melhores que podemos encontrar por cá no Verão, para umas boas férias! – concordei, permitindo que no berço da minha boca se formasse um sorriso que teve tanto de triste como de nostálgico, ao recordar dos momentos maravilhosos, vividos nas minhas últimas férias que tivera exactamente naquele lugar – Então e o Will? Nunca mais falei com ele…

- O Will ainda está em Nova Iorque, mas também deve estar aí amanhã ou depois…

- O quê? Ele também vem pra cá? – inquiri, num laivo manifesto de entusiasmo, pelo simples facto de poder estar novamente com as duas pessoas que mais me apoiaram e com quem mais partilhei os momentos dos últimos anos da minha vida

- Sim, vem… Ainda ficou a resolver lá umas coisas na faculdade, mas disse que já não deve tardar muito em vir, para passar aqui uns dias!

- Óptimo, ainda bem… Vou gostar muito de o ver!

- Mais seguranças?! – após um curto momento de silêncio, os olhos de Sara desgrudaram-se da minha figura, para observar dois capatazes, que rapidamente foram seguidos pelo nosso olhar atento a atravessar o centro do átrio, marginados um pelo outro e direccionados numa linha imparcial até à porta de entrada 

- Também viste aqueles que estavam lá fora? – perguntei-lhe curiosa, logo que deixei de os conseguir ver

- Sim, vi! Já ouvi dizer por aí que este aparato é por causa de uma equipa de futebol que vem estagiar para esta zona, e ao que parece vai ficar aqui hospeda… Mas não perguntes qual é, que isso já não sei. – ela sorriu-me no seu jeito muito doce de ser, nunca imaginando o turbilhão de conflitos que as suas palavras, inocentemente, tinham acabado de causar me mim

Não, não podia ser verdade… Tudo menos isso! É certo que Ruben me disse que o estágio da equipa iria ser transcorrido em São Francisco, mas não podia ser ali, não naquela zona e muito menos hospedados naquele hotel! O que iria fazer eu quando nos voltássemos a ver? O que lhe iria dizer depois de tudo? Nem tão pouco sabia que atitude iria conseguir tomar com ele, se compartilhássemos do mesmo espaço nos próximos dias... Abanei discretamente a cabeça num intento precativo de me convencer a mim mesma de que a minha suposição não poderia  passar disso mesmo – de uma suposição , e respirei fundo, rezando para que nenhuma surpresa estivesse já reservada para mim.

- Então e novidades? Tenho a certeza que tens aí muita coisa para me contar… - foi a voz de Sara que me libertou de um estado de transe sinóptico a que mansamente me tinha entregue… fiz com que o meu olhar fosse ao encontro do seu, para lhe falar disposta a pô-la a par de tudo o que acontecera nos últimos tempos, mas fiquei-me mesmo pela tentativa, pois o cenário que mais queria evitar, começou por deparar-se mesmo na frente dos meus olhos

- Ai, eu não acredito! – praguejei num queixume perturbante, no momento em que deixei descair a cabeça, suportando-a no ar somente pelo auxílio da minha mão junto da testa

- O que foi?

O meu marasmo acabava de chegar em peso e número, entrando pela fachada do hotel… Toda a comitiva encarnada invadia um canto do átrio, para aos poucos se aglomerar junto do local de recepção. Rapidamente consegui distinguir entre outros tantos o Savi, Luisão, Roberto, Aimar, Saviola e Javi, que se encontravam na frente do grupo… Instantaneamente suspirei de alívio pelo simples acaso de a minha vista não ter alcançado a feição de Ruben naquele instante... “provavelmente ainda está lá fora”, pensei, mas infelizmente a ânsia de ele poder aparecer a qualquer momento desolou ainda mais o meu coração, deixando-o apertadinho num recanto em desassossego absoluto.

- Senta-te à minha frente… - pedi-lhe, aquando desviara o olhar do plantel, de maneira a que nenhum deles conseguisse ver-me e não dessem assim pela minha presença

- Porquê? – interrogou-me confusa perante o meu pedido anormal, e sem ter a necessidade de olhá-la directamente, senti também os olhos dela recaíram sobre as novas figuras masculinas que dividiam o mesmo espaço connosco

- Faz o que eu te peço, Sara… por favor! – implorei-lhe mais uma vez, na esperança que ela cumprisse o meu pedido sem fazer mais perguntas

- Não faço a mínima ideia do que se está a passar contigo, mas tudo bem… Eu faço-te a vontade!

Sem mais perguntas, ela satisfez o meu pedido e quando, na minha boa fé, voltei a olhar meramente de realce os rapazes, o mirar do meu padrinho – que se encontrava reunido a eles – estagnou na zona dos bancos onde me encontrava e cruzou-se com o meu, numa rápida fracção de segundos que eu julgara ser insuficiente para me reconhecer.

- Eu… eu tenho que sair daqui! – referi a mim mesma, no pressentimento de que aquele “encontro” poderia não acabar bem, e o melhor seria ir-me embora e virar costas, antes que fosse tarde demais

- O que estás a fazer? Onde vais? – perguntou-me a pobre coitada, numa notória e compreensível expressão de quem não estava de todo a compreender as minhas imprevistas atitudes, ao ver-me colocar a mala ao ombro preparando-me para me levantar

- Eu tenho que me ir embora, desculpa… Depois falamos!

- Espera, Joana… Onde é que vais?

- Encontramo-nos depois e eu conto-te tudo… Prometo! – prometi-lhe em surdina ao olhá-la sobre o ombro, vendo-a também de pé e à espera de uma explicação iminente minha, que por muito que quisesse não lhe podia dar… não ali e não agora

O medo de o encarar começara a tomar-me de uma maneira tão incontrolável, que foi o bastante para finalmente ter dominação – ainda que meio inconsciente – de mim mesma, e para a passo vacilante, rumar num só sentido ao elevador que iria certamente levar-me para um lugar mais seguro.
Cheguei a pensar então, que tinha toda a situação sobre controlo, mas quando já nada poderia falhar, um imprevisto denunciante deitou por terra, toda a minha firmeza e segurança, face à situação excessivamente embaraçosa a que eu mais queria fugir, se prosperar mesmo aquém de mim… 

- Joana? – no exacto momento que ouvira aquela voz, todo o meu corpo gelou, as emoções estancaram, mas, ironicamente ou não, o meu coração não deixou de sentir… - Joana? – ele voltou a insistir, fechei os olhos num claro sinal de desistência, pois acabara de me aperceber que tinha sido vencida

- Padrinho… - consegui enfim dar um sinal de mim, assim que rodei o meu corpo sem urgência, mas num evidente estado de opressão que sem querer ele me havia imposto… uma força maior ordenou-me e estranhamente eu obedeci, tomando andamento até ele

- Eu sabia que eras tu! – afirmou com uma extrema certeza na voz, presenteando-me com um sorriso cortês nos lábios, como eu já lhe conhecia, e puxando-me para um abraço que eu não tive como recusar

Logo que sobrepus o meu queixo no seu ombro, pude observar pela primeira vez o panorama arrepiantemente constrangedor que se prostrava na nossa retaguarda… Praticamente todos tinham as suas atenções concentradas unicamente em nós, e sim, nesse momento pude ver Ruben, que de mala travada pela sua mão ligeiramente atrás do corpo, me olhava, admirado e conjuntamente enigmático, acompanhado por David, que também já se encontrava junto da equipa.
Os nossos olhares estiveram cativos um ao outro, ainda durante um tempo avultado, mas fui eu a quebrar o clima no instante que decidi ignorá-lo… sim, custou-me, mas senti que o devia fazer… Seria melhor para os dois continuar a manter a distância, mas principalmente seria melhor para o meu coração, pois se eu continuasse a insistir em fazer rodopiar os dados sobre o tabuleiro, não sairia ileso daquele jogo de emoções e… sentimentos.

- Agora que já têm os cartões, podem subir para os vossos quartos… E como é uma excepção, aqueles que preferirem, podem ficar e jantar no quarto, aqueles que não, às oito e meia encontramo-nos naquele átrio do fundo, que pertence à zona de restauração! - numa voz clara e ordenativa, dirigida geralmente, consegui ouvir as indicações do preparador físico da equipa, pois não me encontrava muito afastada deles – Ah… E aproveitem a noite para descansar bem, que o treino de amanhã começa bem cedo!

- Ao tempo que já não te via… Está tudo bem, querida? – foi a voz do meu padrinho que me fez desviar a atenção pregoada uns razoáveis metros à minha frente, tocando levemente no meu rosto

- Sim, está tudo bem… - fui bastante redutível no que toca a palavras, pois não sabia como me poderia prolongar mais, para mantermos uma conversa

- O teu pai já me tinha dito que estavas aqui para passar uns tempos...

- Sim, agora já podemos arranjar tempo para tomarmos um cafezinho e pôr a conversa em dia! – assenti, num tom tão tranquilo e numa postura tão segura, quanto tivesse força suficiente para assim continuar a manter-me

- É verdade, agora aqui com o estágio de uma semana, tenho a certeza que nos havemos de ver por aí muitas vezes… E esse café é algo de que não me vou esquecer… Temos muita coisa para falar! – sorri-lhe, não fui capaz de arranjar mais frases compostas, pois no meu pensamento nada mais se formara do que uma temerosa reflexão sobre o que a semana que se avizinhava trazia reservado para mim, e não só…




***



(David)

- Manz… Manz! – chamei o Ruben pela milionésima vez, enquanto ele permanecia deitado na sua cama, ignorando ou fingindo ignorar toda a conversa que eu tinha pra falar com ele

Me lembro como se tivesse sido ontem, das férias no meu Brasil, passadas do lado da minha família e da mulher com quem eu, com toda a certeza, queria passar o resto dos meus dias. E agora ‘tava ali, em São Francisco, me aprontando com o resto da equipe para mais uma época de trabalho que se adivinhava dura e puxada, e na qual eu desde o início me prometera, dar tudo de mim.
Embarcamos no avião pela madrugada e ao cair da noite já tínhamos chegado ao hotel, para passar a última noite de descanso ferrado, antes de começar a dar no duro pela manhã seguinte.

- Ei, Ruben! – sem pensar duas vezes me precipitei até ele e lhe dei uma palmada no peito, de maneira a que ele abrisse os olhos pra me dar um pouco da sua atenção – Dá pra desligar isso? Parece que tô falando pró boneco, pô…

- O que é que queres, David? – falou num jeito ríspido e incomodado, soltando os fones dos ouvidos, como se fosse eu o culpado pelo seu mau-humor, que adoptou desde que entrámos no quarto que acordámos dividir

- Que quero? Olha, ter um pouco da sua atenção seria legal… Acho que ainda não ouviu nada do que eu tô tentando dizer pra cê!

- Pronto, desculpa… Diz lá! – finalmente vi ele tomar uma posição disposta a escutar, mas ainda assim sem tirar aquela cara de vacilão

- Então é o seguinte… - iniciei, me sentando no fundo da cama dele – Eu tô seriamente pensando em pedir a Adriana em casamento!

- Ai sim? Hum… Boa! – ciciou, não mostrando nem um pinguinho de orgulho pela decisão que eu ainda tinha em mãos pra tomar, e botou de novo os fones para se voltar a concentrar num mundo só seu

- É só isso que tem pra me dizer? – não pude deixar passar um rasgo de desilusão na voz, por não sentir nem uma pontada de encorajamento da parte daquele que eu considerava ser o meu melhor amigo… ainda fiquei esperando que ele dissesse mais alguma coisa, mas acabou por não o fazer – Não vai falar mais nada não?

- O que é que queres que te diga mais?

- Ah, eu sei lá… Eu tô te dizendo que tô prestes a dar uma grande volta na minha vida, a tocar ela definitivamente, construir família com a mulher que eu amo e que só por acaso também é a sua melhor amiga, e cê me diz “Boa”… Tá certo! - agitei minha cabeça afirmativamente, num jeito desapontado que só eu conhecia e me levantei, indo pra junto das portas da varanda

- Tu disseste que andas a pensar nisso… - falou para logo fazer uma breve pausa, vi ele jogar o seu iPod pra um lugar vazio da cama e chegar seu corpo ligeiramente atrás, dando espaço a si mesmo para se sentar à cabeceira – Presumo então que ainda não tenhas nenhuma decisão tomada…

- Cê é o meu melhor amigo, pô… é a primeira pessoa pra quem tô contando! Me dar o seu apoio, um incentivo, um conselho… Seria bacana, ué!  – vi ele cruzando os braços na frente do peito, enquanto me olhava com um arzinho de prepotência repulsiva, que eu lhe desconhecia totalmente

- Queres um conselho, não é? Eu dou-te um conselho! – num pulo rápido, saltou da cama e só parou bem na minha frente – Pensa bem se é mesmo isso que queres para a tua vida, antes de fazeres alguma coisa de que mais tarde te venhas arrepender…

- É isso? É esse o seu conselho, é?

- É… é este o meu conselho! Só te estou a alertar, David, não quero que depois me venhas dizer que eu nunca te avisei, porque estou a fazê-lo agora… e sabes que digo isto por experiência própria!

- Ah, Ruben, tá bom… Valeu! – de maneira a colocar um ponto final na conversa que já ‘tava tomando outros rumos, corri a porta envidraçada e virei costas, enveredando um novo espaço do lado de fora

Fiquei frustrado com ele… Pra falar a verdade, fiquei frustrado e irritado também! Noutra altura de certeza que teria tomado outro jeito perante o que lhe tinha falado, sobre os planos que tinha para uma vida em conjugue com  Adriana, do que aquele de arrogância e indiferença, que de certa forma, da maneira fria como falou, acabou por me machucar também! Me debrucei sobre o gradeamento e fiquei simplesmente a contemplar a bela paisagem nocturna que tinha na minha frente… “Mas o qué que deu no moleque? Pirou?” Lembro que ‘tava tudo bem com ele… Ainda em Lisboa, na viagem de avião e de autocarro… ‘tava tudo de boa! A partir do instante em que a gente entrou no hotel é que ele virou esse cara de pau! 
Pera, a gente entrou no hotel e… Posha, é óbvio! É tão óbvio que só eu não enxerguei mais cedo! Esse seu mau-humor súbito e seu amuo aparentemente inexplicável… Isso tinha um motivo… e nome próprio também…

- David… - sua voz foi acompanhada pela sua presença, mas não olhei ele… preferi continuar no meu canto, continuar olhando o mar que se estendia lá mais à frente – Ouve mano, embora não o tenha demonstrado, eu fico contente por pensares no casamento com a Adriana, a sério que fico, mas só não me peças para te dar conselhos matrimoniais… Já fiquei muito a perder nesse campo!

- Eu não tô te pedindo conselhos matrimoniais… Eu tô te pedindo conselhos de amigo, tô te pedindo a sua opinião… só isso e nada mais!

- Queres saber a minha opinião? – me questionou, apenas para fazer tempo pra se aproximar e me copiar o meneio, se inclinando também sobre o corrimão – Vai em frente! Amas a Adriana, queres construir uma família com ela, tens a certeza que é a mulher da tua vida… Vai em frente! Falas primeiro com ela a sós, depois fazes o pedido oficial e pronto… Se é isso que queres, puto, vai em frente!

- Não te entendo… Juro por Deus que não! Ainda há pouco começou jogando dúvidas em cima de mim… Se era mesmo isso que queria pra minha vida e não sei que mais, e agora já tá dizendo pra eu ir em frente…?

- Eu sei… Desculpa, talvez me tenha precipitado nas palavras. Mas casar é um compromisso muito sério, David, um compromisso que poderá ser levado toda uma vida, e uma decisão como essa não pode ser tomada de ânimo leve…

- Eu sei aquilo que quero pra minha vida e sei também que casamento não é brincadeira… Só quero dar mais um passo enfrente na relação com a mulher que eu amo… Se já vivemos juntos, porquê não casarmos? – confirmei pra ele todas as certezas que eu já tinha bem elucidadas na minha cabeça – Mas cê falando desse jeito, até parece que não quer…

- Oh David, não é nada disso! – me interrompeu de imediato, travando minha prédica com a mão estendida no ar – Sabes perfeitamente que eu só quero o melhor para ti… Não quero que cometas o mesmo erro que eu! – foi naquele momento que finalmente consegui perceber o motivo pelo qual ele tanto implicava com o assunto do casamento, não era por minha causa mas sim por causa dele…

- Eu não vou cometer o mesmo erro que você, e sabe porquê? – o meu olhar desamarrou o ponto do horizonte onde me tinha focado e assentou no de Ruben, logo que ele virou a cara, procurando em mim uma resposta – Porque não há ninguém entre mim e a Adriana... Sou só eu e ela!

- Do que é que estás a falar? – imediatamente vi-o vergar o sobreolho, claramente que se ‘tava fazendo de desentendido quando na verdade sabia muito bem a quem eu me referia

- Não se faça de otário, manz… Cê sabe do que tô falando, aliás, de quem eu tô falando… Tá bem na sua cara a razão pela qual cê rompeu o noivado e terminou com a Inês!

- Eu acabei com a Inês porque não dava mais, já não fazia sentido estarmos juntos… E ainda assim, não percebo onde queres chegar com tudo isso!

- Ah, Ruben, se liga de uma vez, porra! – saí da varanda e voltei a entrar no quarto… não queria xingar nele, mas passou a ser inevitável não chamar ele à razão pra lhe mostrar as evidências, que teimava em não querer ver – Oh você virou burro ou então cegou, pra chegar ao ponto de não conseguir ver o que se passa consigo mesmo!

- Importaste de te deixares desses jogos de palavras?! Juro que não estou com pachorra nenhuma pra isso! – não foi preciso olhar pra trás pra perceber que ele me tinha seguido e vindo atrás de mim, buscando por uma explicação que lá no fundo, ele já tinha – De uma vez por todas, onde é que queres chegar?

- Eu vou dizer isso bem na sua cara, pra ver se enxerga de uma vez… Em vez de andar por aí se fazendo que não tem nada, que não sente nada… - me virei de repente, fazendo ele travar seus passos de imediato – Cê tá ferrado! Amarrado na Joana, manz! É tão difícil pra você admitir, o que tá na frente de todo o mundo?

- Oh, oh David… - sabia que enquanto pudesse, ele iria negar seus sentimentos por aquela garota, mas essa tarefa é bem mais difícil quando não dá mais pra disfarçar, e isso era coisa que o Ruben já não conseguia fazer

- Ah não… Não tente nem negar!

- Que eu saiba nós estávamos a falar de ti e do teu pedido de casamento, não das tuas taras sobre as minhas intenções para com a Joana… - referiu num sorriso de bobagem que já é costume nele, tudo em manobra pra fugir ao assunto que eu mesmo senti necessidade de evocar, para lhe abrir os olhos e chamá-lo a uma realidade que ele fingia não existir mais

- Aquilo a que você chama de taras, eu chamo de pontos a pequenos sinais, que no fundo fazem toda a diferença, e que mostram o quanto cê gosta realmente dela! Vai ter que me desculpar, mas se ninguém desperta você pra cair na real, sinto a obrigação de ter de ser eu a fazê-lo!

- Ai sim? Então vá, já que tu percebes mais dos meus sentimentos do que eu próprio, diz-me lá quais são esses "pequenos sinais"… - me desafiou, no instante em que se sentou na beira da minha cama, pronto a escutar tudo o que eu tinha para lhe dizer

- Cê que quis, agora vai ouvir até ao fim… - avisei, mostrando que já não dava pra voltar atrás, querendo ou não, agora o Ruben iria ser confrontado com todas as evidências… me posicionei na frente do roupeiro de jeito a ficarmos frente a frente e olhei ele, que continuava decidido a manter aquela pose de durão que não tinha nada a esconder, quando na verdade seus olhos e os seus comportamentos irreflectidos, o denunciavam mais do que ele poderia imaginar

- Vá, começa lá, então! – seus braços se entrelaçaram e foi um curto momento que tive, pra poder equacionar se aquela abordagem tinha rasteira pelo meio ou não, e aí comecei picando ele

- Primeiro houve aquela sua implicância mórbida em ela ter voltado lá de Nova Iorque e ter virado seu mundo ponta de cabeceira; depois o seu desconforto sempre que ‘tava ao pé dela – desconforto esse, incompreensível vá, porque cês já não tinham nada um com o outro –; as discussões de cada vez que ‘tavam juntos, que vem do clássico eterno “Amor-ódio”… Ah e ‘pera aí, já me ‘tava esquecendo… E não sei, mas talvez pra matar as saudades, você pegou e ficou assistindo a um videozinho de cês dois, não foi verdade?

- Ei, como é que sabes do vídeo? – interrompeu, num natural ar de surpresa e indignação, a que eu fiz questão de responder imediatamente

- A Adriana falou pra mim!

- Ela não podia…

- Aguenta aí que eu ainda não terminei! – automaticamente a minha mão se ergueu no ar, e por mais incrível que me tivesse parecido, ele se deixou permanecer exactamente no mesmo lugar pra continuar a ouvir – Depois você me diz que ainda ontem lancharam juntos e que no final ainda ficaram amigos – é… muito fofo – pra não falar da maneira que vocês se ficaram olhando há pouco que… nossa, eu vou te contar, ein? – fiz um pequeno parêntesis a esse ponto, lhe dando o enfâse necessário, mas notei um certo incómodo que ele expressou só pelo movimento do seu corpo, que se contraiu levemente no lado da cama em que ele ainda ‘tava sentado – E no fim, cê entra no quarto furioso por ela não ter ligado chucha pra você! Daí esse seu mau-humor que eu na altura não compreendi direito, mas que agora tá mais do que explicado!

Terminei de falar e ele não disse absolutamente nada. Sabia que tinha tocado em todos os pontos que pro Ruben podia nem ter razões de ser, mas que aos olhos de todos, tinham uma causa bem plausível. Deixei ele pensando… Deixei que fosse ele mesmo a encaixar as pecinhas do seu puzzle, que aos poucos, começava tomando uma forma… uma nova forma.

- O que é que queres que eu te diga? – pra não ter que me olhar nos olhos, deu um pulou da cama, pra começar dando voltas no chão do quarto,  que nem uma barata tonta, enquanto falava – Sim, além de tudo isso, é verdade que a Joana não me sai da cabeça… é verdade que só me apetece estar com ela a toda a hora! E hoje quando nos vimos na entrada do hotel e ela me virou a cara com aquela indiferença, com aquele desprezo, como se não nos tivéssemos olhado com aquela intensidade, como se de repente lhe passasse a ser um estranho… Sim, também é verdade… isso deixou-me fulo, tirou-me do sério!

Pela primeira vez me apercebi que ele já começava cedendo, mostrando o que realmente ia naquele coração que, no final de contas, manteve bem guardadinha sua verdadeira dona, durante esses últimos anos de separação.

- Tá vendo? Só me tá dando mais razão ainda… - caminhei levemente até à poltrona que se encontrava ainda na zona das camas e nela deixei meu corpo pesado pelo cansaço, cair e repousar – Não esquece que eu sou uma das únicas pessoas que te conheçe até virado do avesso… E assim não entendo porque você insiste em negar o quanto gosta dela… Quer dizer… Não vale a pena esse seu esforço!

- É o que é que queres que eu faça, mano? – rapidamente decifrei todo o desalento que o domou por completo, na procura de respostas que ansiava por encontrar, descaindo os braços e fazendo-os embater pesadamente contra as pernas

- Quero que cê seja honesto consigo próprio… Quero que admita, primeiro a si mesmo, que os amores antigos estão de volta à sua vida, por mais que ainda o tente negar… Admita e aceite que cê tá apaixonado de novo por essa garota!

Falei muito sincera e calmamente, tão calmamente que Ruben ainda me ficou olhando durante algum tempo, talvez na esperança que eu ainda lhe desse mais umas luzes – que no final de contas teria de encontrar sozinho – para fazer ele tomar uma atitude, mas acabou se afastando e saiu de novo pelas portas da varanda… Sabia que precisava de ficar sozinho e de ter o seu espaço pra poder pensar e reflectir sobre a nossa conversa, e eu respeitei… Continuei no meu canto sem voltar a confrontá-lo.
Ao fim de algum tempo que eu não sei precisar, já rendido ao cansado de um dia bastante longo, fui no banheiro escovar os dentes, tirei a roupa só pra dormir de boxer e regressei ao quarto, pronto pra cair na cama e só acordar pela manhã.

- Eba, isso é tudo pressa para ir dormir, manz? - debochei com um sorriso de zoação em meu rosto, logo que vi ele voltar a entrar no quarto e se atravessar meu no caminho, em passadas longas e rápidas

- Sabes que mais, David? Tens razão… Tens toda a razão! – sua postura firme e resposta convicta, criou em mim a dúvida de quem não ‘tava percebendo o porquê de ter falado daquele jeito

- Onde cê vai? – perguntei deixando que um rasgo de admiração e curiosidade me perfurasse a voz, vendo ele pegar no cartão do quarto e guardar o celular no bolso frontal dos jeans

- Vou resolver a minha vida! – disse na minha cara, com toda a certeza que lhe podia conhecer, saindo logo depois batendo com a porta, e deixando para trás somente um turbilhão de esperanças




quinta-feira, 21 de junho de 2012

Capítulo 8 - Um novo ponto de partida


















A manhã seguinte foi descerrada passivamente na sua maioria. Aproveitei para prolongar mais uma vez o meu horário de sono, que se encontrava já quase todo ele compensado, e também para arrumar a mala, pois no fim da mesma tarde tinha voo marcado para regressar a terras californianas.
Não vou dizer que não pensei bastante no que havia acontecido na noite anterior, pois estaria sobretudo a enganar-me a mim mesma. Pensei demasiado, até… e inevitavelmente as esperanças e todos os sonhos que tinham ficado findados numa outra vida passada, parecia que queriam voltar a raiar, a mostrar que ainda se encontravam impetuosamente presentes… mais presentes do que alguma vez haviam estado e que se achavam ali para serem ouvidos e quem sabe, realizados. 
E a imagem pertinaz e jamais olvidada de Ruben, é certo, que estava em mim mais viva do que nunca.

- Menina Joana, posso entrar? – distingui rapidamente a voz da empregada, que se fez deferir detrás da porta do meu quarto, onde acabou por plantar dois leves batuques com os vínculos das mãos

- Sim, Paula, entre… - concedi-lhe cordialmente a permissão necessária, para depois vê-la cruzar a porta e invadir um mundo só meu

- Com licença… - pediu com toda a educação que desde sempre formara na sua personalidade, mostrando-me nos braços delineadamente estendidos à sua frente, encobertos com algumas peças de roupa devidamente lavadas e engomadas – Desculpe, não sabia que ainda se estava a arranjar…

- Oh, não tem problema! Já estou quase pronta… - assenti positivamente de olhos fixos no espelho, enquanto dava os últimos retoques de maquilhagem no meu rosto, com um pouco de rímel e um rosa muito leve nos lábios, para me prontificar assim para sair


- Vim deixar-lhe os lençóis e alguma roupa lavada, que não levou para a viagem…

- Pode deixar aí sobre a cama, mais logo quando vier já arrumo tudo!

- Ora essa, nem pensar, menina… Esta é uma das tarefas que a mim me compete, por isso mesmo deixe estar! – sabia que não iria tomar vantagem sobre a imposição dela, e por essa razão não contradisse a sua vontade

- Bem, então é melhor eu ir buscar a Sofia… Ainda quero lá chegar antes que a aulinha dela termine! – com um sorriso patente e simultaneamente babado no meu rosto de madrinha orgulhosa, acabei por dar duas borrifadelas do meu perfume predilecto na pele desnudada e nutrida do meu pescoço

- E posso dizer à Rosa que pode contar consigo para o jantar?

- Não, Paula… Venho cá só mesmo para deixar o carro e recolher a mala, depois disso vou directa para o aeroporto! – anunciei quando compus a minha mala sobre a dobra do antebraço, prontificando-me para sair do quarto – Ah, é verdade… Eu sei que já lhe perguntei isto uma data de vezes, mas ainda não encontrou aquela pulseira que lhe falei, pois não?

- Não, menina… Já alertei também a Maria sobre isso e ela não encontrou nada! De todas as vezes que fiz limpeza ao seu quarto e ao resto da casa, não dei por nenhum sinal dessa pulseira!

- Hum… está bem então, obrigada! – nos meus lábios selados, um rasgo de decepção aboliu todas as esperanças de reaver o objecto que me volteara o pulso direito, possuidor de um forte e indestrutível valor sentimental que me acompanhara durante demasiado tempo para que, há quase dois meses, o ter perdido não sei onde nem como

- Mas… Menina Joana? – mais uma vez a minha saída foi interdita por uma nova invocação, e fui obrigada a olhar à minha retaguarda

- Diga, Paula…

- Se gosta tanto dela, porque não arranja outra igual? O que não deve faltar por aí são pulseiras bonitas…

- Infelizmente como aquela, nunca mais terei nenhuma, Paula! Não é apenas a questão de ser uma pulseira bonita… É o valor que ela tem pra mim, é a história que carrega que a diferencia das outras. E ao que parece, agora, ela não está mais nas minhas mãos...

Depois de mais uma breve troca de olhares compilados por um sorriso lamentoso e simultaneamente complacente, aquela conversa ficou-se por ali mesmo.
Atravessei o corredor, desci as escadas colossais que me levaram ao rés-do-chão e apressei-me a sair de casa. Declinei também as escadas de pedra do alpendre e foi quando calquei a fachada de terra batida que aparava toda a entrada e rodeava o chafariz, que observei Zeca, o motorista.

- Menina, o seu carro já está pronto! – informou-me com toda a polidez logo que me mirou no seu radar capcioso e que a uma passada cortesa, se abeirou a mim

- Óptimo! Puseste a… - mesmo sem antes de me deixar completar a interrogação, ele completou os meus pensamentos estrategicamente delineados e que eu unicamente procurava esclarecer

- … Pus a cadeirinha para a sua afilhada, no banco de trás, tal como me pediu! – ele retirou a boina formal que lhe complementava a farda para segurá-la entre as duas mãos, e foi inevitável não partilharmos uma suave gargalhada que se despoletou dos nossos âmagos unissonamente 

- Obrigada, Zequinha! – agradeci exibindo-lhe um sorriso de gratidão no rosto, e ao mesmo tempo que lhe aceitei as chaves do meu BMW X1 branco, que havia chegado do Stand naquela manhã – Até logo!

Caminhei tão avidamente quanto os saltos altos que envergava nos pés me consentiam, até conceptuar uma distância considerável, para estender as chaves à minha frente e efectuar o destranque automático do meu jipe. 
Saí da vivenda logo assim que atravessei o adjacente portão de censores automáticos e fiz-me à estrada com cerca de quarenta e cinco minutos de condução, que tiveram um único destino estigmatizado.
Um típico sol resplendoroso de Verão, brindou mais uma vez uma das tardes lisboetas, obrigando-me a proteger a visão com os meus óculos de sol que me auxiliaram numa condução um quanto morosa por intermeio do já habitual trânsito, que marcava hora de ponta sobre a ligação do Tejo. Foi no momento em que me deixei levar por uma onda latrina de descontração, saída pela rádio que envolvia toda a minha viatura com músicas comerciais e que eu tão bem sabia de cor, que no suporte junto do tablier, o meu telemóvel acendeu uma chamada que eu já esperava… Por uma fracção de segundos o meu olhar desgarrou o asfalto linear da autoestrada e o meu indicador voou até ao botão do atendedor de chamadas, onde pude assim, atender em altifalante.

- Olá, Brenda! – saudei a querida mãe da minha afilhada, num tom definhador e portador de um sorriso sincero no semblante  

- Oi, meu anjo! – o seu astral perfeitamente rejuvenescente foi transmitido pela linha telefónica e na fatalidade de uma transigência, o meu sorriso dilatou-se ainda mais – Liguei pra saber se você deu certinho com a academia…

- Hum, hum… Parece-me que sim… Estou mesmo a chegar, por sinal!

- Óptimo, a aulinha de ballet deve ‘tar a terminar, mas se cê já tá chegando, é capaz de conseguir topar o final…

- Espero que sim… Gostava de ver a minha bailarina dar uns passinhos de dança! – falei descontraidamente, accionando o pisca para fazer o último cruzamento

- Não brinca… A Sofia ficou que nem um bichinho saltitante quando lhe falei que você ia pegar ela na aula… Tá morrendo de saudades suas! – o sabor deleitante daquelas palavras, afirmando a falta bem como as saudades que a minha pequenina compunha vista em mim, durou muito pouco, pois subitamente esse sabor deu lugar a um forte e culposo aperto no peito por constatar o facto de ultimamente não ter passado com ela, todo o tempo devido

- Eu também tenho muitas saudades, Brenda, e só Deus sabe o que me custa ficar longe dela tanto tempo!

- Eu sei, meu anjo… Não se martiriza não! Ainda é só uma criança, mas sabe o quanto você gosta dela! E… O Ruben ajudou muito esses últimos tempos… - claro, o Ruben(!) o segundo pai da Sofia, aquele que esteve constantemente ao lado dela, aquele que a acolheu, que a acarinhou, que a amou incondicionalmente… quando me verguei a uma guerra que não era minha, acobardando-me a voltar costas e abandonar todos aqueles por quem daria até a minha própria vida

- Sim, eu sei… - a culpa por um erro que somente eu tinha cometido, calcetou-me imperdoavelmente o coração e esse factor foi transposto na minha voz fatigada e esmorecedora – A Sofia tem muita sorte em ter um padrinho como o Ruben, capaz de fazer tudo por ela!

- E muita sorte também de ter uma madrinha que nem você, ué! Não se menospreza desse jeito, garota… Não tem razão nenhuma pra isso!

- Talvez até tenha, Brenda… Mas creio que sejam já águas passadas!

- Exactamente! E como se costuma dizer por aí… “águas passadas não movem moinhos”, né? Não se preocupa.

Suspirei profundamente e deixei que simplesmente o meu silêncio destemperado fosse a chave para terminar com aquela conversa, que mascada mais a fundo, decerto que me arrastaria para as margens de uma sombra onde eu não queria voltar viver.
Mais à frente virei à minha esquerda para que uns metros adiante conseguir estacionar o carro no parque pertencente à Academia Dançarte.

- Já cheguei! – anunciei ao mesmo tempo que rodei a chave entre o meu polegar e indicador, repuxando também o travão-de-mão – Depois se não houver problema para ti, gostava de ainda ir dar um passeiozinho com ela, antes de a ir pôr a casa…  

- Tem problema não! Se também não der mais trabalho pra você… sei que tá de voo logo à noite e não quero que se ande empatando por causa daquela mulequinha!

- Fica descansada, vamos dar uma volta pelo Colombo e ao fim da tarde já está entregue… Quero aproveitar para matar as saudades todas! – retirei a minha mala do banco de trás e assim que uni o telemóvel ao meu ouvido, saí do carro e tranquei-o, dirigindo-me até à entrada da academia de dança

- Sendo assim, faça como achar melhor, meu anjo… Também tenho certeza que ela vai gostar de passar uma tarde inteirinha com a madrinha!

- Sim… Acho que nos vai fazer bem às duas! – afirmei, certa de que a companhia bem como todo o carinho que Sofia tinha para me oferecer, seria o meu melhor remédio de força e fé, capaz de me restituir todas as energias necessárias que com o desgaste emocional, se iam esbatendo de mim – Vou entrar agora, depois falamos, sim?

- Vai, meu bem… A gente se vê depois! Um beijo! – desejou-me docemente, com um sorriso sereno que somente pude facultar pela a minha presunção precisada, por já conhecê-la tão bem

- Outro pra ti, Brenda… Até logo! – despedi-me também com um sorriso nos lábios, e logo que voltei a arrumar o telemóvel na mala, empurrei a porta da entrada principal da academia

- Boa tarde, posso ajudá-la? – enquanto tentava encontrar um ponto de orientação num espaço que estava a conhecer pela primeira vez, uma voz feminil provinda do posto de recepção, captou todos os meus sentidos numa só chefia

- Ah… Boa tarde, pode dizer-me onde fica a sala onde está a decorrer a aula de ballet das crianças, por favor? – inquiriu educadamente, assim que me acerquei do balcão e arrastei os óculos de sol até ao topo da cabeça

- A aula de ballet já deve estar a terminar, não sei se prefere…

- A minha afilhada é aluna cá, vim buscá-la…! – esclareci rapidamente, tentando aclarar algum inconveniente que se pudesse sobrepor ao meu pedido

- Peço imensa desculpa, não fazia ideia… – a menina da recepção apressou-se a apresentar as suas desculpas de imediato, com um sorriso nervoso e denunciante de uma ligeira atrapalhação nos lábios, que rapidamente lhe consegui desvendar – Siga esse corredor e é a segunda porta à sua esquerda a contar do fundo! – coordenou com o braço disposto numa recta firme no ar, fazendo com que o meu olhar seguisse a direcção por ele indicada

- Obrigada, com licença…

Numa posse cordialmente delicada afastei-me e cursei a indicação que simpaticamente me tinha sido dada. Enveredei pelo vastado corredor, que remontava a mais um par de salas polivalentes a outras práticas, decorado pela arte actual e modelar, pincelada em alguns quadros espalhados um pouco por toda a parte, dando um ambiente carregado mas simultaneamente inspirador.
Mais à frente conseguia já ouvir a música clássica que fazia executar um novo movimento bailante, a cada acorde escutado. Singelamente aproximei-me da porta totalmente aberta e abrandei a passada, de modo a que o atrupido dos meus saltos não se sobrepusesse à ambiência calmante que se vivia dentro da enorme sala, revestida a uma só parede de espelhos colocados inteiramente de cima a baixo.

- Demi-plié, mais uma vez em baixo… 1,2,3… Demi-plié… - numa filinha perfeitamente predisposta junto a uma das barras, a professora dava os últimos exercícios de coordenação, que pelos meus doze anos de prática, já sabia conhecer – Clarinha, mantém o tronco direito… Sofia, é isso mesmo, continua!

Entrei da forma mais calma e passiva que consegui, de modo a não captar atenções e por conseguinte perturbar a concentração unicamente centralizada em cada movimento somático, que cada menina se esforçava por conseguir corporizar.
Aproximei-me da fila de bancos que era ocupada pelas mães e avós das meninas que acompanharam a aula na sua íntegra, mas não me sentei, encaixei a minha mala no fechamento da palma das minhas duas mãos e ligeiramente encostada à parede, iniciei somente com o olhar uma busca incessante pela minha pequenina, que só findou na instância a que os meus olhos se vergaram num encontro que tanto desejavam.
Ela olhou-me, inocentemente, e pela abertura dos seus lábios delgados e expressividade facial, distingui-lhe o bem-querer assim como a ansiedade que continha em correr e entregar-se nos meus braços aclamados pela saudade. Contudo não o fez, reteve-se no seu espacinho e continuou, tão atenta quanto possível, à aula que caminhava celeremente para o seu final.

- Muito bem, meninas, podem parar… Boa aula! – foi a professora que finalizou o compasso de movimentos, logo que pausou a música dispersada pela aparelhagem, permitindo que todas as meninas corressem para os braços das suas progenitoras, compartilhando a alegria de mais uma tarde que dispensaram a fazer algo que as mantinha felizes

- Mami, mami! – a minha pequenita não tardou em iniciar uma corrida desenfreada remontada numa só direcção até mim, que apenas foi travada pelo meu corpo que agachado, circundou o dela, compartilhando um abraço forte e apertado como que já há muito esperávamos    

- Oh, minha biscoitinha linda… Hum, que coisa tão boa! – deleitei-me com a sua essência de bebé que lhe aprumava toda a pele morena do pescoço, enquanto ainda a albergava num pequeno ninho de amor, apenas com ela compartido

- Senti a tua falta, mami… - confessou-me num beicinho caracterizado pela penúria de um carinho que só eu lhe sabia dar, e no instante em que aquelas duas pérolas dos seus olhos meninis foram ao encontro dos meus, senti o meu coração estilhaçar-se em duas partes fragmentadas

- Oh meu amor, eu também senti muito a tua falta! – os meus lábios ocorreram as suas bochechas rechonchudas e nelas chocalharam uma amálgama de beijinhos mimados que fez surtir uma risada deliciosa liberta da aura leviana da minha menina – Mas agora a mami já está aqui contigo, não está?

- Shim… e ainda bem!

- E então a tua vidinha, pequerrucha, como vai?

- Oh, vai bem, mami… - os seus pequenos ombros encolheram-se e o rosto descaiu levemente, escondendo a doçura de que era portador

- Amor, então… – naturalmente o cargo de que eu era portadora e que recaía em sua salvaguarda, despertou-me os pontos vincados de pura preocupação, reconhecendo que por detrás daquela figura pequena e inofensiva, havia algo que não estava bem – … que carinha é essa? Passasse alguma coisa?

- Não, mami… Não se pasha nada.

- De certeza, biscoita? – o meu indicador tocou-lhe o queixinho de raspão, fazendo com que somente os seus olhos falassem com os meus

- Shim. – não quis redobrar insistência sobre o assunto, pois conhecendo como conhecia, se algo andava a perturbar aquele seu coraçãozinho, era acabaria por procurar-me e contar, mais tarde ou mais cedo

- Hum… está bem! – a polpa do meu indicador ocorreu a pontinha do narizinho naturalmente arrebitado da pequena, dando-lhe um breve toque de modo a que a levasse descomprimir – E o que me dizes em ir trocar essa roupinha e irmos dar uma passeio só nós as duas?

- Um pasheio… Só nós… as duas? – a sua veemência ao de leve, foi sobressaindo numa folia e excitação que naturalmente ela ainda não tinha capacidade de disfarçar ou esconder

- Sim, amor… Só nós as duas! – afirmei pausadamente, fazendo com que os meus lábios que haviam no instante deixado o encosto acalentado da sua pequena testa, converteram-se num rasgo similar de ternura

Não foi preciso um consentimento categórico seu, para que lhe conseguisse adivinhar a sua vontade.
Com um rasgo enorme de divino entusiasmo – muito natural de uma menina de quase quatro anos –, Sofia tomou a minha mão na sua e de modo a que acompanhasse os seus sucintos passos – conhecedores de todos os enredos daquele espaço, deveras acolhedor para um jovem artista – guiou-me até ao balneário onde a ajudei a tomar um banhinho e onde trocou o maillot rosa assim como as collants, por um vestidinho fresco de Verão, que rapidamente a fazia assemelhar-se a uma pequena princesa.

- Upa, estica os bracitos! – pedi-lhe, de modo a facilitar a minha tarefa de lhe embeber o vestido naquele corpinho adelgaçado de medidas e adornados perfeitos

- Mami… - já quando ligeiramente agachada na sua frente, de modo a encaixar-lhe as sandálias rasteiras nos pés, ela solicitou toda a minha atenção para proletarizar uma pergunta que se tivesse antevisto, tê-la-ia contornado com toda a certeza – Posho faze’-te uma pe’gunta?

- Claro, piolha… Pergunta lá!

- Vais deixa’-me ot’a vez?

- O quê? – sem mais não, quase que pude sentir o meu corpo a ser projectado contra uma parede, por impulsão de um valente soco nos estômago, numa acusação conspirada sem aparentemente deixar um torço condutor que me levasse a ditar um discurso ensaiado

- Shim, mami… Já te foste embolha uma vez e durante muito tempo… Quelhia saber se o vais fazer ot’a vez! – ainda por mais pequena que fosse, nunca poderia subestimar a sua perspicácia, nem pelo pequeno tamanho nem pela tenra idade, pois Sofia acabara de me reavivar os dissabores das encruzilhadas de um destino só meu

- Oh piolha, é claro que não te vou deixar… Nunca mais me vou embora e fico longe de ti… Nunca! – embora as lágrimas que se começavam a assomar, teimassem em embaciar-me a visão, não temi em olhá-la bem fundo dos olhos, de modo a que ela conseguisse ler as intensões que me transbordavam na alma, sabendo também que ela era uma das pessoas – se não mesmo a única – para quem o meu coração era incapaz de pregar uma mentirinha

- Nem nunca mais vais deixalhe o papi?

- O qu… Sofia, porquê essa pergunta?

- Po’que desde que te foste embolha, que elhe nunca mais foi o mesmo… Ainda me lemb’o muito bem de como elhe ficava de todas as vezes que eu lhe pe’guntava po’ ti!

- E… Como é que ele ficava? – uma pequena pontada atingiu-me impiedosamente o  coração, ferido pelas marcas do tempo, e por mais que devesse manter-me afastada de todas as implicações que envolvessem o Ruben, parecia-me que havia sempre uma força maior que me levava a um querer saber mais, a um querer ser mais

- Elhe ‘tava semp’e a inventar desculpas p’a fugilhe ao ashunto, mas nunca me conseguia esconder a ca’inha t’iste com que ficava... Eu shei que ao pé de mim se fazia de fo’te, mas às vezes via-o a cholhalhe e quando pe’guntava à mamã, elha dizia-me que o papi ficava ashim po’que gostava muito de ti, e tu foste embolha…

Como poderia eu renunciar as palavras seguramente ditadas, vindas do serzinho mais puro e verdadeiro que alguma vez conhecera? Sofia poderia ser ainda uma criança, refinada com toques de ingenuidade, de personalidade influenciável e traços de uma inocência genuína, mas de temperamento suficientemente maduro para compreender o que as suas duas janelas para este mundo captavam, bem como os sentimentos que lhe eram expostos da maneira mais sincera e natural possível. E de uma coisa eu estava certa: não havia pessoa mais fiável para quem eu pudesse abrir o meu coração e revelar todos os segredos, nele escondidos.
Aos poucos, e quase sem me aperceber, as lágrimas começavam a tomar vantagem sobre o ânimo e vigor que eu impusera a mim mesma continuar a manter na frente dela e de maneira a contrariar isso mesmo, ergui-me levemente à sua vanguarda e distanciei-me a somente curtos passos para conseguir controlar todo o reboliço de emoções que me fluíam dentro do peito.

- Era isso que a mamã te dizia, piolha? – perguntei-lhe quase num sussurro, vislumbrando-a brevemente acima do meu ombro

- Shim… - afirmou numa resposta muito abreviada, sabendo eu que me continuava a observar – Mas po’quê… É mentira?

- Não, amor… Não é mentira! – fiz um esforço tremendo para não ceder à fadiga de comoções, mas assim que num curto pestanejar os meus olhos se cerraram, as pálpebras soltaram duas lágrimas que não demoraram em deslindar o meu rosto

- Mami? – a sua vozinha meninil voltou a ser sustida num eco auspicioso dentro daquelas quatro paredes, e mesmo sem olhá-la senti a sua sorrateira aproximação até mim, num intento precativo de desvendar as razões que me faziam estar assim, naquele instante ao pé dela… tão perto e ao mesmo tempo tão distante – ‘Tás t’iste?

- Não, pequenina… Está tudo bem! – assegurei, depois de discretamente enxugar o meu rosto até então pelas lágrimas humedecido – Isto já passa, sim?

- Fui eu num fui? É po’ minha causa que tu ‘tás ashim… Foi po’ causa do que eu dishe? – proferiu num enuncio de auto culpa, que enquanto olhava a sua pequena figura encostada às minhas pernas esguias, me fazia sentir a pior pessoa do mundo pela simples razão de ter provocado um pequeno tormento àquela criança – Desculpa, mami… Eu num quelhia que ficashes t’iste… Desculpa!

- Não, não… Nada disso, meu amor! – no dever e obrigação de sossegar aquele coraçãozinho indefeso, peguei-a ao colo cuidadosamente como se pegasse no meu próprio mundo, fazendo com que os nossos corpos ficassem coladinhos firme e seguramente – A madrinha não está assim por tua causa…

- Então ‘tás ashim po’quê?

- São coisas, piolhita… Coisas da vida!

- Que coisas, mami?

- Coisas que ainda não consegues compreender, princesa…

- Se nunca as contalhes p’a mim, também nunca as vou compreendelhe! – rematou com toda a astúcia que eu ainda não lhe conhecia, mas que era a suficiente para me erradicar respostas que nunca pensara em dar-lhe, não tão cedo como era agora

Segurando-a ainda no domínio afetuoso dos meus braços, alumiei-nos até ao banco corrido onde há instantes a vestira, desviei escassamente a sua toalha de banho e sentei-me, fazendo-a sentar-se também confortavelmente nas minhas coxas, de modo a que os nossos rostos detivessem a mesma frontaria.

- Foi po’ causa do meu papi que ficaste ashim… E num digas que não, po’que eu shei que é ve’dade! Eu bem vi que os teus olhos ficalham t’istinhos quando falei nele. – foi o timbre perfeitamente adocicado da minha pequena que nos roubou o silêncio, olhando-me veneravelmente, enquanto os seus dedinhos percorriam cada pedaço da pele do meu rosto

- Foi, amor… Foi por causa dele que fiquei assim! – acabei por dizer, sabendo que mais rodeios não nos levariam a lado nenhum

- Então conta a mim o que aconteceu! Eu julho que não digo a ninguém… Palav’a de Sofiazinha! – no fim de ditar o juramento, os seus dedinhos formaram uma pequena cruz na frente dos nossos rostos e foram beijados pelos seus lábios, como remate de uma promessa inquebrável 

Pela primeira vez no meio daquela conversa intimista, os meus lábios rasgaram-se numa amostra infindável de ternura, que embora tenha sido muito breve, não passou indiferente aos olhos de Sofia que ansiava sofregamente por uma explicação minha, e que depois de respirar profundamente de modo a ganhar algum alento para prosseguir, não tardou em ser-lhe dada.

- Sabes, quando eras ainda uma bebé de colo eu e o teu padrinho já nos conhecíamos, gostávamos muito um do outro e acabámos por nos apaixonar…

- Vocês… Vocês namolhavam? – a surpresa atingiu-a de imediato, e por entre uma pergunta exercida de rompante por ela, os seus olhinhos crisparam-se como que pedindo uma confirmação verdadeira

- Sim, meu anjo… Namorámos ainda algum tempo!

- Quanto tempo?

- O suficiente para nos amarmos muito! – proferi por entre um nó cego vincado na garganta, pois o que é certo é que ainda me custava falar no assunto, e o logo ano da minha vida que dediquei a um amor e a uma relação que eu julgara ser eterna, não se findara da minha memória nem do meu coração por muitas tentativas que tivesse feito – Mas depois…

- Depois tu foste embolha… - melhor do que eu julgara ser possível, Sofia completou a linha dos meus pensamentos sem quaisquer hesitações, e no seu rosto pude ver o sentimento de desilusão – Po’quê, mami… Po’que é que acabou?

- Porque teve que ser assim… Teve de acabar!

- Mas tu disheste que o amavas, então po’que razão o deixaste?

- Às vezes temos que fazer sacrifícios pelas pessoas que amamos, às vezes temos que libertá-las, temos que as deixar ser felizes longe de nós…

- Tenho a ce’teza que o Ruben elha mais feliz contigo do que sem ti! – rematou de primeira, fazendo-me querer por momentos que estava a falar com uma criança portadora de uma mentalidade de um ser praticamente adulto

- É como te falei, Sofia… Agora ainda és muito novinha para perceberes as minhas razões, mas um dia compreenderás que há momentos na nossa vida em que temos de abdicar de certas coisas… Não porque não as amemos, mas porque a felicidade e o bem-estar delas é mais importante para nós, do que o nosso orgulho ou amor-próprio.   

- Mas agolha já estás de volta… Podem tentar o’ta vez…

- Não, piolha… Já passou muito tempo desde então, as nossas vidas tomaram rumos diferentes, o Ruben tem outra pessoa e está feliz! – relembrei, tentando persuadir-me a mim mesma e a aceitar uma realidade que ainda me custava a crer

- A Inês num está cá, foi viajalhe e pelo que ouvi, elhes não ‘tão mais juntos… Agolha tu e o papi podem tentar o’ta vez… - ditou, numa insistência passiva que lhe desvendou um rasgo de esperança traçava num olhar trepidamente confiante, por ter presente uma possível reconciliação  

- As coisas não são assim tão simples, amor…

- São shim! Vocês os c’escidos é que têm a mania de estar semp’e a complicalhe tudo! – arguiu decididamente, desvendando toda a inocência e ingenuidade de que era portadora – Agolha vocês podem tentar ser felizes… os dois, mami… juntos!

Um temor acutilante fez tremelear a minha alma, numa fracção traçada por segundos, ao escutar a afirmação que Sofia tomou como certa na sua teoria próspera, que sozinha tinha conseguido formar em respeito a uma relação e a um amor há muito terminado.
Custou, custou-me muito ouvir tais palavras provindas de um ser tão novato e inexperiente, como era a minha pequena… Mas custou ainda mais partilhar da certeza que por muito que ela quisesse, por muito que eu quisesse que tudo voltasse a ser como era dantes, voltasse a ser como nos velhos tempos, agora nada poderia fazer para recuperar o que tive e partilhei com o Ruben, recuperar o que sempre foi nosso… até ao dia em que o deixei.     
    


***



- Onde queres ir agora, princesa? – promulguei-lhe carinhosamente, voltando a dar-lhe a mão, no instante em que saímos de sua lojinha de roupa preferida, aquando já nos encontrávamos na zona de lojas do Colombo

- Podemos ir comelhe um crepe? ‘Tá-me a apetecer um daquelhes com muito chocolate… - solicitou naquele seu jeitinho trapalhão que tão bem a caracterizava, soltando depois um risinho delicioso, facultado pela gulosice que perfeitamente lhe conhecia

- Claro que sim, amor! – por momentos perdi-me nos seus olhos refulgentemente expressivos, enquanto permeávamos o alargado corredor, e talvez por essa pequena distracção em que me deixei suadir, que um embate surpreendentemente bruto de um corpo pesado contra o meu, me fez travar a caminhada e quase ceder ao desequilíbrio – Ai!

- Desculpe… Eu, eu não a vi… Peço imensa desculpa! – disse o rapaz que por mero caso veio contra mim, perdoando-se num jeito de visível atrapalhação, ao mesmo tempo que se apressava a reunir e ordenar a parafernália de livros que trazia nas mãos

- Espere, deixe-me ajudá-lo… - afirmei, disposta a remediar um pequeno estrago que afinal de contas, também tinha sido causado por mim

- Você está bem? Magoei-a?

- Eu estou bem, não se preocupe! – na verdade tinha ficado com o ombro modestamente dorido, devido ao choque de um corpo exageradamente mais alto e forte que o meu, mas nada que não passasse, certamente – Tome… – assim que me voltei a erguer, devolvi-lhe algumas folhas que haviam ficado espalhadas no meio do chão

- Mais uma vez peço desculpa, vinha apressado para conseguir apanhar uma pessoa, que nem deu tempo… - ele travou o seu próprio esclarecimento e um sorriso conotado agora por uma mesclada de constrangimento, por nos ter proporcionado aquele momento que por si só era desnecessário, surgiu no seu rosto juvenil

- A sério, não se preocupe… Os acidentes acontecem! – afirmei seguramente, disposta a esquecer aquele inesperado episódio, e recorrendo à minha mala, que voltei a encaixar entre a dobra do braço esquerdo

- Pronto, então é… É melhor eu ir… - ainda sem arrancar o sorriso dos lábios, nem se desfazer da expressão atrapalhada que demarcava todas as feições do rapaz que nunca vira antes, ele seguiu o seu caminho, deixando-me novamente destinada a seguir o meu

- Vamos então comer o crepe, Sofi… – logo que manobrei o meu corpo na direcção onde julgara que permanecesse a figura da minha afilhada, deparei-me com um cenário que não estava de todo à espera – Sofia…? – clamei-a, esperando uma resposta imediata sua, assim como a presença que de alguma maneira que me ultrapassava, já não se encontrava mais junto a mim

Os meus olhos iniciaram então uma procura incessante para conseguir mirá-la em qualquer lado, esperando exasperadamente pelo seu aparecimento provindo de qualquer direcção, mas o panorama que se seguia mostrou-se mais funesto e aflitivo do que eu poderia alguma vez imaginar.
Bastaram dois minutos… dois minutos que deram vida à vulgaridade de um incidente, que me obrigou a soltar-lhe a mão… dois minutos! Apenas dois minutos de distração, foi o suficiente para que a perdesse de vista e sem nenhuma assistência de um sinal antecedente seu.

- Sofia? – depois de olhar em todas as direcção possíveis, pela primeira vez os meus pés ganharam alento e perceptividade suficiente para se moverem sobre o pavimento, abrindo caminho a uma busca que eu rezava ser muito breve – Sofia? – voltei a chamar por ela, desta vez num tom suficientemente mais alto e arrastado, fazendo com que os meus saltos altos se movessem da maneira mais acelerada que me era possível

Fustigava-me por entre os muitos transeuntes, que caminhavam tranquilos na direcção oposta, alheios a toda a angústia que aos poucos começava a tomar conta de mim. Mentalmente comecei a culpar-me por perder de vista a pequena pessoa que naquele dia estava ao meu total encargo e à minha inteira responsabilidade, e como tal era meu dever cuidar dela, protege-la, e nesses aspectos, infelizmente, tinha começado a falhar… E no meio daquele rebuliço todo, que se conseguira instalar com um mero estalar de dedos, apenas uma certeza predominava sobre a minha razão: se lhe acontecesse alguma coisa, eu nunca me perdoaria.

- Desculpe… Desculpe, com licença! – ia pedindo educadamente às pessoas que por vezes me barravam o trajeto totalmente indefinido, mas que eu acreditava ser o certeiro para me levar até à minha piolhita – Sofia? – voltei outra vez a proclamar o seu nome, já num visível estado de preocupação e agonia, com uma dor aflitiva cravada em meu peito, que quase me impedia de respirar - Meu Deus, mas onde raio foste tu meter-t…

Interrompi as minhas próprias divagações, quando na minha frente se prostrou um cenário, talvez, dos mais improváveis que podia antever.
No entanto, não tive autodomínio suficiente para saber controlar e destingir a mescla de sentimentos e emoções que me confundiam o pensamento… Não sabia o que era suposto sentir, ali… no meio de tudo aquilo… Se uma grande lufada de ar fresco acompanhada por um profundo suspiro de alívio ou um nervosismo inquietante que me oferecesse a vontade incontornável de sair dali… o quanto antes.




***



(Ruben)

Até me custava a acreditar nas voltas que uma vida pode dar, na fracção de um suspiro… Até à coisa de dois meses atrás, podia afirmar com toda a certeza estar a viver a vida com que sempre sonhei, a profissão que desde sempre pretendi, o apoio incondicional dos meus amigos e da minha família e a estabilidade que conseguira encontrar ao lado da pessoa que amava e que dentro de meses poderia chamar de minha mulher.
Mas de repente tudo mudou… Tudo deixou de fazer o sentido que sempre teve, deixei de saber no que acreditava e o que queria, visto que já nem nos meus próprios sentimentos podia confiar, e tudo isto, tudo isto a partir do momento em que o passado mal resolvido voltara a pregar mais uma das suas… Reavivando memórias e sentimentos que eu tinha até medo, de estar novamente a sentir.

- Da próxima vez vou querer a desforra, puto! – desafiei o David, enquanto ainda percorríamos o Funcenter onde jogámos uma partidinha de bowling juntamente com o Gustavo, só mesmo para descontrair e aproveitar a última tarde livre antes de irmos pra estágio

- Não se contenta com o segundo lugar na tabela, manz? Que mau perder, ein… - ripostou rapidamente com um sorriso triunfal nos lábios e com uma gargalhada trocista, pronta a rebentar na sua boca a qualquer momento

- Qual quê? Tiveste foi sorte, oh… Se eu estivesse num melhor dia, não te dava hipóteses!

- Típica desculpa, de um típico derrotado… - vangloriou-se ele mais uma vez, no seu humor característico de brincadeira, que foi acompanhado por leves gargalhadas minhas e do Gustavo – Ah, mas eu compreendo… Fica difícil perder contra o melhor!

- Nada convencido, né, velho? – desta vez falou o Gustavo em tom de picardia

- Cê tem a certeza que quer discutir isso? Quando se fica em último, acho que não dá pra ter voto na matéria, Guga… - ele voltou a provocar, dando-lhe um ligeiro empurrão com o ombro

- E mudando de assunto… Onde cês vão pra estágio, mesmo?

- Estados Unidos… Vá, São Francisco… mais concretamente! – respondeu David, agora num tom livre de mais brincadeiras e trocando depois um olhar sinaleiro comigo, que rapidamente consegui descodificar

- É… São Francisco(!) – reafirmei logo assim que ocorri as minhas mãos aos bolsos frontais dos meus calções de ganga, tentando afastar quaisquer pensamentos que me compelissem para as incontáveis frases terminadas com um enorme sinal de interrogação, que estavam ainda baralhadas na minha cabeça

Satírico, não é? Parecia, hum… Ironia! Sim, uma ironia do destino. Quanto mais eu tentava afastar-me e permanecer no meu canto, mas a vida me arrastava para caminhos, dos quais tive afastado durante quase três anos.

- E comé? Cê vem ‘bora agora com a gente, manz?

- Ah… Não! Ainda vou passar primeiro pela restauração pra comprar alguma coisa pro jantar. Não estou com grande paciência pra cozinhar hoje!

- A gente vai indo, então… Ainda tenho que ir deixar o Guga em casa! – afirmou, visto que o Gustavo tinha vindo de boleia com ele, e logo assim que saímos pelas portas do Funcenter – A gente se vê então amanhã, manz!

- Amanhã bem cedinho! – completei com um sorriso medrado um quanto pela ironia, relembrando mentalmente as horas matutinas que nos tínhamos que apresentar no estádio antes de seguirmos de autocarro para o aeroporto, e compartilhando com ele o nosso cumprimento habitual, num leve embate de mãos

- Tchau aí, Ruben! – igualando o simbólico gesto, despedi-me também de Gustavo que depois de uma última e rápida troca de palavras, seguiu juntamente com David até às garagens, enquanto eu me delimitei a seguir caminho até à zona de restauração… caminho esse que acabou por ser intersectado, por quem eu menos esperava ter ali

- Papi! Papi! – voltei-me celeremente do modo a mirar a detentora daquela voz que já há muito se tornara inconfundível aos meus ouvidos, e ao ver a minha afilhada correr de uma maneira desaforada na minha direcção, não tive outra reacção que não fosse a de a tomar nos meus braços   

- Oh minorquinha… - os meus lábios rapidamente domaram um sorriso rasgado, logo que beijei uma das faces de Sofia

- Não shabia que ‘tavas cá, papi… - ela olhou-me nos olhos, tomando as suas pequenas mãos como berço do meu rosto

- É… Estive com o David e com o Gustavo! – informei-a fazendo-lhe um leve afago no cabelo solto – E tu, minorca, o que andas aqui a fazer? Vieste com os papás?

- Nop! – asseverou muito segura, apoiando a sua negação com um acentuado abanar da cabeça – Vim com a mad’inha! 

- Vieste com a… madrinha? – embora tivesse ouvido o suficiente para compreende-la, ainda sem bem perceber o porquê, precisava de receber uma confirmação segura

- Shim… Ela foi-me buscalhe ao ballet e t’ouxe-me às comp’as!

- E onde é que ela está?

- Ah… - a sua cabeça rodou levemente buscando em todas as direcções um sinal da presença maternal que a levasse a distinguir Joana por entre todas as pessoas que se encontravam naquele espaço, para depois vê-la erguer o pequeno indicador numa linha recta e inquebrável no ar – … alhi!

O meu mundo parou. Parou de girar sobre si mesmo para começar a girar em torno dela, evidenciando-a, tornando-a no meu ponto fulcral… no meu centro.
Apercebi-me então que mesmo antes de a olharmos ela já nos observava, talvez apreensiva, um quanto hesitante, diria também. Quis esboçar um sorriso por tê-la ali novamente tão perto e num espaço quase redutível de tempo, mas este apressou-se a desvanecer-se por si mesmo, quando a vi tomar uma atitude e rumar até nós, numa expressão no rosto difícil de decifrar.

- Oh Sofia, o que é que te passou pela cabeça para desapareceres daquela maneira? – inquiriu-a assim que chegou junto a nós, deixando denotar em si, um visível estado de preocupação – Desculpa, Ruben… Olá! – finalmente vi o seu olhar assentar-se no meu, cumprimentando-me numa muito breve troca de palavras, que eu lhe adivinhei saírem forçadas

- Olá… – tentando ser o mais agradável possível, ainda arrisquei esboçar-lhe um sorriso, mas a situação por si só, não mo permitiu

- Não devias ter saído de ao pé de mim…

- Sais-te de ao pé da madrinha sem lhe dizeres nada? – desta vez as minhas palavras foram dirigidas ao pequeno ser que ainda ocupava os meus braços, numa maneira de conseguir perceber o que se havia passado

- Shim… Eu vi-te aqui sozinho e pensei que não havia problema… - revelou numa voz esmorecedora de fatídico arrependimento, quando o seu olhar descaiu sobre os seus pequenos dedos que tinham começado então uma dança frenética de um nervoso miudinho

- Pregaste-me um grande susto… Imagina que te tivesse acontecido alguma coisa? – o tom de voz de Joana tornou-se mais benevolente bem como o desassossego que começou levemente a libertar-se das suas expressões até à altura contraídas

- Sofia, sabes que o que fizeste foi muito feio, não sabes?

- Shei, e julho que estou muito arrependida…

- Então como uma menina crescidinha que és, pede desculpa à mami…

- Desculpa, mami! – no jeito ainda desajeitado de uma criança, Sofia copiou-me imediatamente as palavras, portadoras da sinceridade mais verdadeira do mundo

- Vem cá, piolha… - com toda a delicadeza que eu sabia desde sempre ela portar, Joana tirou-a dos meus braços e remontou-a no seu colo de forma a selar aquele tumulto – Nunca mais voltes a fazer uma coisa dessas, está bem? Fiquei muito preocupada contigo.

- Desculpa, mami… Não volta a acontecelhe.

Vi a Sofia abraçá-la fortemente, de braços voltados no pescoço e esse abraço foi retribuído exactamente da mesma forma, acompanhado por uma pequena brincadeira de narizes a chocalharem um no outro, com discretas mas deliciosas gargalhadas à mistura.
Tornei-me um mero espectador do cenário incrivelmente encantador que se prostrava bem na frente dos meus olhos, e foi num curto intervalo de tempo, que pude redescobrir todas as razões que um dia me levaram a ter certezas, de que a Joana seria a melhor mãe para os meus filhos.

- Vamos então embora?

- Papi, nós vamos comer um crepe… Não queles vir connosco?

- Sofia, o teu padrinho já deve ter compromissos… - senti um certo afastamento naquelas palavras, um afastamento que não consegui entender face à noite anterior, mas ainda assim resolvi impor-lhe a minha presença, queria saber até onde tudo aquilo nos poderia levar

- Não, por acaso não tenho nada de importante para fazer… Posso ir com vocês se não se importarem…

- Claro que não nos importamos, pois não, mami?

- Não… É claro que não! – ela olhou-me nos olhos pela primeira vez desde que chegou, no entanto com um mero impasse entre as palavras que notei de imediato



***



- Ora aqui estão… – anunciei com um sorriso na cara, assim que cheguei com um tabuleiro abastecido por três crepes e bebidas, junto da mesa redonda onde elas me esperavam

- Obrigada! – agradeceu-me Joana, logo que me sentei à sua frente e ao lado de Sofia, que aguardava impacientemente pela sua guloseima do dia

- Quelho p’ovar do teu, papi… - pedinchou, enquanto olhava o crepe de menta que havia solicitado pra mim

- Mas tu não gosta de mentol, filhota…

- Isho era dantes… Agolha já gosto! Dá-me só um bocadinho… - cedi perante tanta insistência, cortei-lhe um pedacinho e levei-lho à boca, que no mesmo instante em que o degustou, provou de um pequeno dissabor

- Então, é bom? – contive-me para não gargalhar na sua frente, vendo-a fazer uma careta engraçadamente desaprovadora, face ao desagrado que havia sentido

- Queres deitar fora, amor? – Joana apressou-se a oferecer-lhe um lenço de papel, que Sofia soube usar como um recurso necessário

- Penshei que fosse melhor… - disse ela com o seu narizinho empinado, tentando não se desfazer das suas próprias palavras para não perder assim a razão

- Pensaste, pensaste, sua espertinha… Ninguém te manda seres uma gulosa! – a minha mão foi ao encontro da sua barriga onde não ofereceu resistência a suaves cócegas que serviram para a fazer gargalhar num jeito delicioso de se ouvir, e para logo de seguida os meus lábios lhe beijarem a face com todo o carinho que suportava por ela – Deixa ver, que eu corto o teu… 

Comemos calmamente, sem grandes conversas, é verdade, mas também não nos deixámos cair no silêncio total. O facto é que me soube bem, soube-me muito bem ter aquele cenário a marcar o final de uma tarde de Verão. Já tinha saudades de estar assim… só com elas, e inevitavelmente aquele momento fez-me recordar dos bons tempos que tinham ficado lá atrás, no passado.

- Então e… Pra que cidade vais estagiar? – gelei ao ouvir aquela pergunta logo vinda dela, não sabia ao certo o que lhe responder, mas as hipóteses não eram muitas

- São Francisco… - respondi com a maior normalidade que consegui, não abonando grande importância ao assunto e cravando o olhar no prato, onde continuei a dar uso à faca para cortar mais um pedaço do meu crepe 

- São… Francisco…? – pela entoação surpresa e simultaneamente compassada, apercebi-me que talvez estivesse com receio que num destes próximos dias até nos pudéssemos vir a cruzar, mas  São Francisco era uma cidade guarnecida por dezenas de hotéis e centros de estágio, e depararmo-nos durante esse tempo um com outro por uma mera eventualidade, era algo que com toda a certeza não ira acontecer – Em que zona?

- Ah… Isso já não sei bem…

Aquele assunto findou-se por ali mesmo, sem nenhum de nós ter coragem de voltar a pegar-lhe.
Olhares retrucados seguiram-se. Joana acabou por me apanhar umas quantas vezes a olha-la e o mesmo acontecia comigo, que discretamente de quando a quando, altiva o queixo e rodava ligeiramente a cabeça apenas para varrer o espaço que nos envolvia com um curto mirar, e apanhava-a de realce a olhar-me… a olhar-me num jeito de ser que só ela sabe, que só ela tem.
E mesmo tentando afastar esse facto, começava a tornar-se desproporcional a maneira como, de certa forma, me voltava a sentir atraído por ela.

- O que foi? – perguntou-me com um pequeno sorriso tímido que lhe alumiou o olhar claro, assim que deu comigo a olhá-la fixamente

- Nada, não foi nada… - desmenti, tentando reter a nascente de gargalhadas

- Estás a rir-te na minha cara e dizes que não é nada?

- É que tens aí, ah… - fiz-lhe um comedido sinal que lhe passou despercebido e não sei como nem porquê, não consegui conter-me por mais tempo, estiquei o braço e fiz com que a minha mão voasse até ao seu rosto onde o polegar acabou por assentar nos seus lábios

Senti-a estremecer por instinto ao delinear-lhe os lábios pausadamente com o polegar. Há muito que não tomava partido de um toque tão próximo, tão ousado da minha parte e isso acabou por se reflectir num êxtase que se começou a despoletar em mim, fazendo com que o meu coração batesse mais forte.
Continuei, lentamente… Passei primeiro sobre o lábio superior, fiz o contorno e acabei retido no inferior. Ela olhava-me sem saber o que dizer nem o que fazer tão pouco, sabia que a tinha nas minhas mãos e que não iria conseguir tomar uma reacção por vontade própria.
Sorri-lhe, tentando provar-lhe de alguma maneira que a minha atitude não era adjacente a segundas intensões, e no fundo acho que ela percebeu.
Os seus lábios continuavam macios, cálidos como tão bem os conhecera e sobretudo apetecíveis, talvez mais apetecíveis do que nunca…

- Tinhas aí um pouco de canela… – desculpei-me ao cessar com aquele contacto, que de uma maneira estranha, começava a tomar outra forma sobre mim

Joana não disse nada, limitou-se a baixar a guarda do olhar, provavelmente para esconder a vergonha e o constrangimento que mesmo sem intensão, eu tinha causado entre nós.

- Papi, quelo colhinho… - foi a vozinha ensonada Sofia que quebrou o clima regelado que aos poucos se começara a formar entre nós, vi-a esticar os bracitos na minha direcção e não pensei sequer duas vezes em tomá-la novamente no conforto que os meus braços tinham para lhe oferecer

- Estás com soninho, não estás?

- Um bocadinho… – revelou num tom mais afadigado aquando acomodava o seu corpo numa postura mais aconchegada entre o meu colo, e procurando o meu peito para tomar como pousio de almofada

- Ela ainda não dormiu nada esta tarde, pois não?

- Não. Depois de a ter ido buscar ao ballet, viemos logo pra’qui…

- Está quase a pegar no sono… - denotei, com um sorriso cravado nos lábios que não conseguia tirar de maneira nenhuma enquanto olhava a figura passiva embalada nos meus braços, e suavemente para não a perturbar, desviei-lhe a franja que lhe decaía sobre as pálpebras fechadas

- Está cansadinha… - disse com um sorriso perfeitamente belo nos lábios, ao pousar os braços cruzados sobre a mesa, de forma a observar melhor a sossega que se havia apoderado do corpo adormentado da nossa afilhada – Tão pequenina e… tão frágil…

Depois disto, as palavras tornaram-se fenecíeis. Eu já não sabia o que mais havia para ser dito, e a Joana também não voltou a tomar posição para se pronunciar. Deixamo-nos então cair mais num silêncio tenebroso que nos roubou a coragem de nos continuarmos a olhar nos olhos, e por isso mesmo optamos por continuar a fitar Sofia, que já envolta numa respiração penetrante e aura levitada, se deixara embrenhar nas tramas de um sono puramente profundo e apaziguo.

- Sabes, ela sentiu a tua falta enquanto estiveste este tempo todo fora… – desabafei contundentemente, continuando a focar a pequena adormecida nos meus braços – … precisou muito de ti.

- Eu não acredito que estás novamente a fazer isto… - ciciou num sussurro decepcionado, desviando e mantendo o rosto bem longe do meu alcance – Voltamos ao mesmo, Ruben?

- Voltamos ao mesmo…? O que é que eu fiz? – perguntei com estranheza, procurando por uma explicação que eu não estava a conseguir atingir

- Já estás a arranjar fundamentos para começarmos a discutir, como de todas as outras vezes!

- O quê? Não, não é nada disso, Joana… - respondi-lhe calmamente, tomando o cuidado, tanto eu como ela, de mantermos um tom pacífico e controlado de modo a não acordar Sofia nem chamar a atenção de todos aqueles que nos rodeavam

- Eu não quero discutir, Ruben… Não quero voltar a discutir contigo, muito menos quando o assunto é o mesmo de sempre! Não quero…

- Ei, eu também não quero discutir… - falei-lhe com toda a sinceridade e o mais serenamente que consegui, tentando acalmar-lhe o coração desassossegado, por tê-la feito crer que estava a fazer ressurgir de novo, o conflito que entre nós nunca chegara a ser esclarecido

- Não queres? – aquela sua expressão de desalento que também se transferiu para a voz, entristeceu-me, no momento em que me voltou a olhar

- Não, não quero… Não quero continuar a alimentar uma guerra que não nos levará a lado nenhum! Nem continuar a alimentar o rancor e a mágoa que restou… Acabaram-se as discussões entre nós, acabou… – num acto meramente simplista mas necessário, a minha mão procurou a dela e foi sobre a mesa que, ao encontrá-la, tive a coragem de a enlaçar na minha, dando-lhe um ligeiro aperto – Acabou, Joana…

Assim ficámos nós… Sem mais justificações para dar, nem mais nada para temermos… As nossas mãos, unidas, falaram por si. A verdade é que eu não a queria soltar, não a queria deixar ir, pois se isso acontecesse não voltaria a ter certezas de a poder voltar a tocar.
Não sei dizer ao certo quanto tempo as nossas mãos estiveram unidas, acometendo-nos àquele toque tão abrasado mas suave ao mesmo tempo, mantendo-nos completamente perdidos no olhar um do outro, talvez da mesma maneira como se nos tivéssemos acabado de conhecer…

- Ah… Acho, acho que é melhor irmos andando… - mansamente, senti a sua mão escapulir-se da minha, acabando por deslizar sobre a mesa – Já se está a fazer tarde e ainda tenho que ir levar a Sofia a casa…

- Então eu vou com vocês! – impus-me de rompante, esperando poder acompanha-las até onde pudesse – Estás de carro?

- Sim, estou, mas não precisas… Se ainda quiseres ficar, não te condiciones por nossa causa!

- Não, também já não tenho mais nada pra fazer aqui… Desço com vocês às garagens e deixo logo a Sofia no teu carro… Assim escusamos de a acordar. – disse calmamente, sabendo que seria o argumento mais coerente que poderia dar, para passarmos mais tempo juntos

Felizmente que ela cedeu. Levantámo-nos e depois de amanhar ainda melhor Sofia nos meus braços, tendo sempre o cuidado de não a acordar, caminhámos passivamente ao lado um do outro, até ao elevador nos levar ao piso pretendido.


***


- É este… - disse, logo que chegámos junto do carro, indicando-mo

- Podes destrancá-lo, então?

- Ah, claro… desculpa!

Vi-a a erguer as chaves de modo a destrancar o carro, e ainda com Sofia entregue a um sono passivo no meu colo, dirigi-me às portas traseiras, abrindo aquela que se mantinha mais próxima à sua cadeirinha.
Sentei-a com todo o cuidado e fui quando já lhe laçava o corpo com o cinto de segurança da cadeira, que fui surpreendido por ela.

- Ru…? – a sua vozinha sonolenta quebrou a quietude que nos rodeava, elevando a sua pequena mão em punho cerrado, de maneira esfregar os olhos semicerrados, para poder assim aclarar  a sua visão sob o mundo real do qual voltara a fazer parte

- Oi, filhota… – proferi num tom sussurrante, desatando um lugar suficientemente espaçoso nos meus lábios, para lhe sorrir abertamente – Pensava que estavas a dormir…

- Já acordei… A mad’inha? – perguntou, procurando em alguma direcção por um sinal dela

- A madrinha está ali fora… Já te vai levar a casa, está bem?

- Oh, já? – foi perfeitamente notável o tom desvanecido que lhe condutou a voz ainda ensonada

- Tem que ser, piolhita… - a polpa do meu indicador embateu levemente contra a pontinha do seu nariz, e uma pequena gargalhada despoletou-se automaticamente da sua boca

- Gostei muito, papi… - via desabafar num suspiro saciado e totalmente preenchido pela satisfação

- Do quê, minorca?

- Da nossa tarde… De ‘tar contigo e com a mami!

- Eu também gostei…

- E shabes do que gostei mais? – avançou logo com a resposta, depois de lhe ter feito um breve sinal com a cabeça – De ver que vocês já num ralham mai’ um com o ot’o… Gostei da maneira como se olharam o tempo todo e dos sorrisos que trocaram, quando ficavam enve’gonhados…

- Andas a aprender muito depressa, tu… - insinuei, fazendo os meus dedos rodopiarem na sua barriga

- Só tô a dizelhe o que qualquer peshoa achava, se vos tivesse visto! – garantiu numa certeza puramente engraçada

Inclinei ligeiramente a cabeça e sorri num franco sinal de cedência ao seu discurso… Parecia inacreditável como uma miudinha como ela, que tinha idade até para ser minha filha, tinha a tão rápida capacidade de me deixar sem palavras, mas o que é certo e que todos ouvimos por aí, é que as crianças dizem sempre a verdade, e talvez este caso, não fosse excepção.

- Ela é linda… – foi ela que mais uma vez tomou ordem do diálogo, olhando Joana pelo vidro do para-brisas, e eu segui-lhe a trajectória do olhar

- Eu sei… – certifiquei, partilhando com ela a certeza de toda a beleza que uniformizavam o corpo e pose daquela mulher que eu voltara a conhecer

- Posho fazer-te uma pe’gunta?

- Podes, minorca…

- Tu gostas da mami, num gostas? – ela foi clara e muito expressiva em cada palavra, o que me deu viso prévio de que a minha resposta nada mais teria do que ser-lhe dada com toda a sinceridade que tinha

- Gosto, Sofia… Gosto muito dela! – declarei por fim, olhando-a bem no fundo dos olhos de maneira a que a fizesse entender que lhe estava a desvendar o segredo do meu coração… ainda hesitei por momentos, mas também acabei por lhe fazer uma pergunta sem resposta, que já há muito trazia comigo – E… Achas que ela também gosta de mim?

- Eu num acho… Eu tenho a ce’teza! – sorriu-me no seu jeito característico de menina meiga que aprendera ser, enquanto segurava o meu rosto entre as suas mãozinhas e não resisti em afagar-lhe a bochecha numa suave carícia

- Vá, agora a ver se voltas a dormir, está bem?

- Shim, mas dá-me um beijinho p’imeiro… Antes de ires embolha… – os meus lábios repenicaram o seu rosto num só instante e o mesmo gesto foi repetido por ela – Adoro-te, papi! – anunciou num múrmuro esvoaçante, enquanto mantinha o meu pescoço amarrado fortemente pelos seus braços

- Eu também te adoro, minorca… Eu também! – dei-lhe um último beijo, desta vez na testa, e depois de confirmar que estava bem e que não precisava de mais nada, voltei a fechar a porta do carro e aproximei-me de Joana, que se mantivera ligeiramente afastada, durante o tempo que eu estivera com Sofia 




***



(Joana)

Assim que o Ruben abriu a porta do meu carro para colocar Sofia na cadeirinha, deixei-me permanecer um quanto irradiada deles. Apercebi-me então que ela deveria ter acordado e ele nada mais fizera do que partilhar com ela uma troca de palavras que julgara meigas, e quando eu, aprisionada nos meus mais remotos pensamentos, fui obrigada a despertar-me no momento em que ouvi o fechar da porta, e de mãos recolhidas nos bolsos traseiros dos seus calções o vi aproximar-se a mim com o sorriso perfeito nos lábios que durante toda a tarde se impusera a manter.

- Já acordou? – inquiri-o sumidamente, um pouco depois de chegar junto a mim

- Sim, mas ainda está cansadita… Durante a viagem já volta a pegar no sono!

- Ah… Obrigada por esta tarde! – senti-me na obrigação de agradecer, pois desde que me lembre, nunca me voltara a sentir tão bem… tão preenchida como naquela tarde

- Eu é que tenho que te agradecer… Já tinha saudades de nós os três… Juntos!

- É… Talvez estivéssemos todos a precisar disto! – um sorriso padeceu circunstancialmente em meus lábios, e por momentos quase que pude sentir a vontade que os olhos dele demonstraram, em tocá-lo

- Sim, nem mais! – apercebi-me então que a conversa se findara por ali, e antes que nos deixássemos cair novamente no constrangimento que estranhamente se apoderava de nós de cada vez que não tínhamos nada para dizer, impus-me a confrontá-lo com uma pergunta que já por diversas vezes me tirara o sono

- Ruben… O que é isto? Afinal de contas, o que é que nós somos? – perguntei num rasgo de insegurança imponderada, tentado de uma vez por todas definhar, aquilo que ainda parecia manter-nos ligados

- O que é que nós somos? – o sorriso canonicamente irónico que me lançou, fez-me adivinhar que iria levar aquele assunto para caminhos menos sérios, e que de alguma maneira propositada ele insistiu em fugir ao tema – Não sei… Talvez, duas pessoas a conversarem…?

- Vá lá, estou a falar a sério… No meio disto tudo e depois de tudo, o que é que nós somos, aqui e agora, para além de duas pessoas a conversar?

- Somos… dois amigos?

- Amigos? – não pude deixar de sentir uma acutilada despedaçar todas as esperanças que em mim ainda restavam… “amigos”, também era assim tão mau quanto isso, não é? Pelo menos já podemos dar nome próprio à nossa relação que até à altura se encontrava indefinida – Era exactamente aí que eu queria chegar… Amigos!

- Concordas comigo, certo? É que depois de tudo o que passámos, acho que não faz qualquer sentido comportarmo-nos apenas como dois conhecidos, quando já fomos muito mais do que isso… – um sorriso complacente foi surgindo gradualmente no meio do seu esclarecimento, no qual se esforçou por encontrar um meio-termo que nos levasse ao equilíbrio de uma conformidade

- Sim, claro… Além de que temos a Sofia, e mais do que ninguém ela precisa que haja estabilidade entre nós e merece ver-nos unidos! – tentei disfarçar ao máximo toda a inquietação vivida dentro do meu peito, e mesmo sem darmos conta, lá estávamos nós mais uma vez… entregues às malhas da mudez

- Bem, então eu vou andando… Faz boa viagem!

- Obrigada, tu também… – desejei, nunca uma despedida nossa havia sido tão impessoal como aquela, mas depois daquela conversa nada podíamos fazer para mudar isso mesmo

Cada uma de nós seguiu direcções opostas ainda que muito escassamente. Sabia que o carro dele não estava muito longe do meu, pois num olhar de realce já o tinha visto algures, mas foi um mero esquecimento que nos ultrapassou por completo, que fez com que os nossos caminhos se voltassem a cruzar… mais cedo do que era esperado.

- Ruben? Espera… Ruben! - a minha voz impulsivamente altiva, ecoou em radar nas garagens, mas não movi mais um único músculo que fosse… permaneci exatamente na posição com que imobilizara o meu corpo, e deixei que fosse ele a vir ter comigo – O teu sushi… - ergui levemente o saco com a sua encomenda, que eu me oferecera a trazer-lhe, quando ele transportou Sofia ao colo

- Esqueci-me completamente… – vi-o tomar o passo na minha direcção, enquanto que acompanhado de um leve sorriso contrafeito, fazia os seus dedos agitarem desajeitadamente os cabelos da nuca

- Pois, deu pra ver que sim… – gargalhei levemente, tomando controlo da pequena brincadeira que eu mesma tinha começado – Mas se quiseres, eu posso ficar com ele!

- Se quiseres, podes vir jantar comigo! – propôs, logo que travou a passada bem junto do meu corpo, sem sequer ter tempo suficiente para pensar duas vezes – Se os teus gostos não mudaram, sei que adoras sushi, e há que chegue para os dois… - foi naquele momento que eu passara de predador a presa, na minha própria brincadeira que estava agora nas mãos dele

- Ruben, eu estava a brincar… – elucidei, fazendo desvanecer o meu sorriso troçado

- Mas eu não! – disse, parecendo incrivelmente convicto e não oferecendo qualquer resistência a um cedimento

- Se fazes assim tanta questão, o sushi pode ficar pra outro dia… Não te esqueças que ainda tenho que ir levar a Sofia a casa e apanhar o avião!

- Sim, eu sei… Mas olha que eu vou cobrar esse jantar, e podes ter a certeza de que não me vou esquecer! 

- Pronto, tudo bem! – sem mais ripostar, rendi-me às fortes veracidades que Ruben persistia em manter, em prol da sua vontade  – Quando voltarmos a Portugal, logo vê-mos isso! – anunciei, entregando-lhe o saco do jantar de encomenda, deixando que um sorriso nervoso me dominasse por completo

- Obrigado! – gracejou meigamente ao receber o saco em mãos

Suspirei discretamente e dei ordem aos meus calcanhares para rodaram levemente sobre os saltos. Comecei a implantar então curtas passadas sobre o pavimento na direcção do meu carro, mas sentia que alguma coisa as obstruía, que me impedia de continuar a avançar… talvez algo que deixara para trás, algo que deixara por fazer…

“Sua cobarde, o que é que estás a fazer? Volta atrás… Vai lá e despede-te dele… Vai!” – ordenava por pensamentos a mim mesma, movimentos aos quais o meu corpo não queria obedecer 

- Joana! – a sua voz… oh meu Deus, a voz  dele fez-me fraquejar, fez-me sentir vencida, mas felizmente que isso não foi o suficiente para me fazer parar – Joana, espera… – ele voltou a insistir, e pela minha percepção fiquei com a certeza de que vinha atrás de mim e isso acabou mesmo por se confirmar, quando senti o toque dele na minha mão obrigando-me a cessar definitivamente o passo… obrigando-me a deter na frente do seu corpo

- Ruben… - clamei o seu nome num sussurro oscilante, sem ter descaro de o fixar… talvez por medo ou talvez por vergonha do meu acto de cobardia

- Ias-te embora assim… sem te despedires de mim? – ainda sem me soltar a mão, fez com que me despisse do temor e o olhasse… ali, com os seus olhos bem em cima dos meus – Não tinha direito nem a um “tchauzinho”? – o tom  mimado que empregou, fez referencia a uma feição cómica já muito própria de si e não pude evitar uma pequenina gargalhada que se soltou da minha boca, quase sem eu dar conta

- Desculpa…

- Agora que até nos vamos deixar de ver por uns tempos, podíamos despedir-nos em condições… Como amigos que somos, não achas?

- Sim, tens razão! – concordei, disposta a compactuar com ele numa despedia agora modesta pela relação arredada que mantínhamos, mas que ambos merecíamos

Não sei dizer o que me passou pela cabeça para o fazer, e também não sei se posso dizer que foi algo impensado, porque o certo é que já há muito o queria fazer, e a verdade é o que o fiz, contra toda a lógica e razão. Deixei cair a mala, que até à altura segurava na mão, até tombar juntos dos meus pés e sem qualquer pressa ou urgência anulei toda a escassa distância que ainda nos separava. Ainda que fosse impossível, fiz um esforço para que os meus braços contornassem na totalidade o seu tronco e encostei a cabeça no seu peito. Queria muito voltar a ter o meu mundo novamente nos meus braços e voltar a sentir o seu coração a bater… Não sei por quem, mas naquela curta instância em que os nossos corpos se mantiveram em contacto, rezei muito que fosse por mim. Sei também que ficou surpreendido pela atitude que eu tomara, pois os seus músculos estavam tão tensos, que nem conseguiu tomar posição para corresponder àquele abraço.

- O qu… O que foi isto? – perquiriu quando o libertei da minha alçada, ameaçando mostrar-me um sorriso embelecido, que acabou por surgir muito tenuemente

- Ah… Um abraço de amizade…? – articulei numa resposta que também podia ser entendida como uma pergunta meio tonta, a qual nem tivera tempo de reformular

- Ai sim? – vi o seu sobreolho arquear-se numa prepotência falsamente desdenhosa, bem como todas as suas feições que se contraíram num só movimento, que calculei que fossem antecedentes a um momento de risota da sua parte, mas graças a Deus que ele me poupou a mais essa vergonha – Então deves ter a noção que me deixaste em dívida para contigo… É a minha vez de retribuir, e vou querer outro!

- Hum, é melhor não… Não quero que fiques demasiado convencido! – ripostei, torcendo ligeiramente o nariz que foi acompanhado pela boca, num gesto muito natural meu

- Oh, não sejas parvinha… Vem cá!

Bastou um puxão implantado na zona do antebraço para me tomar como sua. Os nossos corpos embateram pela segunda vez num choque estranhamente agradável, mas que rapidamente me cortou a linha de raciocínio. Domado por uma força bruta que lhe desconhecia totalmente, envolveu-me nos seus braços fortes e torneados pelas horas intensivas de treino, apertando-me contra si, sem me dar qualquer hipótese de fuga. Fuga? Para quê pensar nisso se o que mais queria era estar ali com ele?
Rendi-me… era inevitável não o ter feito. Elevei os braços e pousei-os nos seus trapézios modelados, enlaçando-os em torno do pescoço. Pela primeira vez senti-o mais descontraído… Os seus músculos dilataram-se e ele relaxou. Ainda assim sem deixar de se manter empenhado a apertar-me contra si, como se novamente as inseguranças de o poder voltar a deixar, o tivessem voltado a assombrar.
O seu rosto escondeu-se entre o meu ombro e pescoço e num momento fracionário, fui impiedosamente atingida por um calafrio que me arreganhou toda a pele, logo que um arrepio me ascendeu a espinha por acção da respiração folgante dele, que tabelava contra a pele despida do meu peito.
Era o nosso momento de rendição que eu teria que aproveitar de qualquer maneira, pois não sabia quanto mais iria durar… Fechei tranquilamente os olhos e fiz com que a minha mão lhe despenteasse o cabelo, assim que os meus dedos lhe deslizaram lentamente pela nuca.
Aquele abraço estava a tornar-se então num gesto demasiadamente demorado e intimista, mas como era Ruben que o dominava por completo e não tomava uma atitude para lhe colocar termo, também eu não me senti em posição de o fazer.
Todo o meu corpo tremeu nos seus braços – e sei que ele sentiu isso mesmo – quando tomou a ousadia de erguer o rosto e deslizar com ele e com aquela sua barba de meramente dois duas, na minha face, fazendo-me irremediavelmente estremecer de cima a baixo.

- Que saudades do teu cheiro… – segredou-me, mantendo os lábios bastante próximos ao meu ouvido, tanto que pude senti-los a gesticular cada palavra

Não lhe disse nada, apenas me limitei a guardar a felicidade para mim mesma, exibindo um largo sorriso que me preocupei em manter longe do seu alcance.
O rosto de Ruben voltou a descer e num ápice incalculável, pude sentir um toque extremamente quente e húmido, repenicar a pele gélida do meu pescoço. As minhas pernas perderam as forças e cambalearam naquele momento, sorte a minha de ainda o ter a agarrar-me. Calculei de imediato que tivessem sido os seus lábios os culpados por me roubarem um beijo no corpo, e ainda pus a hipótese de me afastar para comprovar isso mesmo, mas optei por não fazê-lo… Não queria desiludir-me caso aquela sensação tivesse sido apenas um fruto criado pela minha traiçoeira imaginação.

- Sabias que este foi o abraço mais longo que dei em toda a minha vida? – falei momentos depois de nos termos separado, muito suavemente

- E o melhor também… Espero eu. - ripostou, adornando o rosto com mais um dos seus sorrisos sacanas e simultaneamente brincalhões

- Sem dúvida que foi!

- Bem, pelo menos por este factor, sei que vou ficar marcado na tua vida!

- Já estás marcado na minha vida por tantos factores, Ruben… - disse em desabafo, deixando pender ligeiramente a cabeça para o lado enquanto o mirava, equacionando depois, os inconvenientes que poderia vir a sofrer por fazer ressuscitar aquele assunto entre nós

- Quais? – inquiriu de repentina, talvez numa forma de me pôr à prova

- Quais?! Vais obrigar-me a dizê-los?

- Se for preciso até vou… Mas vais dizer-me aqui, bem no meu ouvido!

- Ainda por cima és exigente… - soltei uma gargalhada breve apenas para o espicaçar – Está bem, está… - continuei, fazendo uma pequena simulação de virar costas e ir-me embora, mas ele travou imediatamente essa minha ideia quando me puxou de volta para si

- O que é que te custa? – num gesto quase a medo, desviou uma madeixa vinculadamente comprida do meu cabelo que me pendia na face, de maneira a desarmar o meu olhar

- Para que queres saber? Sabes perfeitamente o que significaste para mim!

- Pois sei, mas nunca mo disseste por palavras… Entretanto foste-te embora e sei lá, sinto que ficaram tantas coisas por dizer entre nós… - os seus braços voltaram a rodear as minhas ancas e mais uma vez ele tomou o controlo sobre a situação, não me deixando qualquer forma de escape

Fui eu que mansamente encostei os nossos corpos, ele agachou-se superficialmente como fizera há pouco para me abraçar, e para que assim eu pudesse tomar alcance do seu ouvido, quando os meus braços penderam novamente sobre o seu pescoço.

- Foste o amor da minha vida, Ruben, o meu único grande amor… - ao fim de controlar a respiração que se mostrava ofegante demais junto dele, tomei o alento necessário para dar então início ao discurso mais doloroso de pronunciar, principalmente ditá-lo para a pessoa que era e à qual voltara a entregar o meu coração – Foi a ti que me entreguei de corpo e alma, foi a ti quem eu amei sem reservas e foste tu o homem que fez de mim a mulher que ainda sou hoje…

- Pelos visto não foi suficientemente homem para te manter na minha vida… Em alguma coisa devo ter falhado! - declarou num invólucro de culpa, arrastado pelo sussurro inebriantemente tenebroso aquando os nossos rostos se voltaram a deparar

 - Foste homem suficiente para me amares e fazeres de mim a pessoa mais feliz e realizada do mundo inteiro! Entende que apenas… Que apenas não estávamos destinados a continuar a viver desse amor. – senti um véu turvo a embeber-me os olhos, provavelmente seriam lágrimas a quererem ameaçar, mas impus-me em retê-las… não poderia deixar ir-me abaixo, não na frente dele

- Foi bom enquanto durou, não foi? – o toque da sua palma da mão na minha face esquerda foi o suficiente para me queimar a pele, e as suas palavras o suficiente para me derreterem o coração

- Foi maravilhoso enquanto durou! – rectifiquei, na certeza eminente e jamais olvidada, de ter partilhado com ele os melhores momentos que poderia ter vivido, em redor de uma paixão e um amor avassalador, que nos havia consumido

- Obrigado… Era o que eu precisava de saber! – declarou num tom encovado, libertando-me cuidadosamente da supremacia dos seus braços, que me abonavam um calor e tranquilidade extremamente reconfortantes

- Bem, agora tenho mesmo de ir… – num suave movimento sobrepus o meu queixo ao ombro e olhei a minha doce afilhada, que pelo vidro da janela do carro, nos observava atentamente – A Sofia está à minha espera!

- Achas que se dissermos outra vez “Vemo-nos por aí”, nos voltamos a encontrar mais cedo do que esperamos?

- Não sei… Mas acho que isso já seria abusar da sorte! – pela primeira vez depois do nosso ‘curto momento de sinceridade’, fiz com que um sorriso ligeiro sobreluzisse na boca de ambos

- Já aconteceu uma vez… Quem nos garante que não volta a acontecer? – a sua sobrancelha arqueou-se numa curvatura perfeita, perscrutando uma nova reacção minha – Acho que vou arriscar! – garantiu, num piscar de olho promissor

- Até depois, Ruben… - consegui despedir-me com a maior simplicidade que consegui, mas fui altamente surpreendida por um beijo seu na minha testa que se prolongou bem mais tempo do que eu pensava, enquanto mantinha o meu rosto bem seguro pelas suas duas mãos grandes e reconfortantemente cálidas

- Fica bem! – desejou, oferecendo-me mais um daqueles seus sorrisos imensamente belos aos quais eu nunca conseguira ficar indiferente… virei costas e comecei a caminhar na direcção contrária à dele pronta a sair dali finalmente, mas a sua voz mais uma vez invocada, voltou adiar esse feito – Quero dizer-te só mais uma coisa, Joana… - iniciou, mostrando-me uma pose muito segura e olhar deslindado

- Sim, diz… – detive-me junto do meu carro e logo que abri a porta, disposta a ouvi-lo

- Um dia a nossa história começou, para nunca mais acabar!

Nunca uma conjugação de palavras me causara tanto pranto entre um rebuliço de pensamentos dispersos, como aquela.
Ele não dissera rigorosamente mais nada, limitou-se a resguardar as duas mãos nos bolsos, baixar o olhar e afastar-se em largas passadas onde terá desaparecido da minha vista por entre os outros carros. Permaneci estática por momentos, tentando dar uma ordem e significado ao que acabara de ouvir, sem claro, me deixar induzir por ilusões que me poderiam levar a nada. Acabei por entrar também no meu carro e logo que dei um jeitinho no retrovisor, vi que a minha pequena se deixara levar novamente nas malhas do seu cansaço ameninado. Encaixei os óculos de sol na cana do nariz e suspirei… Tinha sido um dia longo e pelos meus pressentimentos, ainda se encontrava longe de terminar. Ouvi um ruído que ecoou por toda a garagem, algo que me soou característico à derrapagem de pneus naquele tipo de pavimento, para pouco depois ver Ruben passar à minha frente com o seu carro, numa rápida fracção de segundos que deixou o meu coração a bater mais forte… somente por ele e para ele. 







Antes de mais quero pedir-vos desculpa pela enorme demora na publicação de um novo capítulo, mas com a recta final das aulas foi-me impossível fazê-lo mais cedo!
Contudo, e agora com as férias, espero ter o tempo necessário para me entregar à escrita e postar com mais assiduidade, mantendo este cantinho actualizado! 
Deixo-vos então um novo capítulo, que espero que gostem e comentem :)
Beijinhos,
Joana