quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Capítulo 4 - O regresso (Parte I)




- Ainda nem acredito que te vais mesmo embora! – lamuriou Sara, sentada à berma da cama enquanto Joana acabava de preparar a mala

Era uma manhã de Maio, tinha feito precisamente meio ano na passada quinta-feira, que Débora havia falecido e agora, Joana, preparava-se para a longa e tão ponderada, viagem de regresso a casa.

- Por favor, não comeces agora a choramingar, que eu juro que volto a arrumar tudo no sítio e já não vou a lado nenhum! – fincou o pé no chão, exibindo uma postura rígida, que a acompanhava no pequeno teatrinho

- Não sejas parva! – tombou o tronco, indo ao encontro do colchão – Mas vai custar tanto habituar-me a isto, sem ti! – desabafou, fixando um ponto no tecto tingido de branco

- Não sejas tu parva! Estás cá há muito mais tempo que eu, vai ser canja desenrascares-te sem mim! – afirmou andando de um lado para o outro do quarto tirando e arrumando a roupa – E além disso, eu virei cá muitas vezes para matar saudades… - fechou a mala fazendo correr o fecho e sentando-se ao lado da amiga - … quando a faculdade me der uma pausa, eu prometo que te venho ver! – jurou-lhe numa voz meiga e equilibrada, embora tendo consciência que as saudades iriam ser bastantes  e isso magoava-a, impôs-se em conter as lágrimas, não se iria abaixo ali… enfrente dela

- Para que horas está marcado o teu voo?

- Para daqui a duas horas, mais coisa menos coisa… - declarou ao olhar o pequeno relógio, disposto sobre a mesinha de cabeceira

- Queres que chame um táxi, para te levar ao aeroporto? O meu carro ainda não saiu da oficina…

- Agradecia, amor! – sorriu-lhe em jeito de gratidão, presenteando-a posteriormente com um beijo carinhoso no topo da cabeça – Mas ainda tenho que me arranjar, primeiro! – proferiu já no corredor, indo na direcção da casa de banho

Depois tomar um duche calmo e relaxante, Joana vestiu uma roupa simples e fresquinha, tal como apelava a época do ano. Deixou secar os longos cabelos claros e encaracolados ao natural, prendendo apenas a franja com dois ganchinhos. Passou com lápis preto e rímel que lhe realçava os olhos azulados, espalhando depois um gloss sem cor, mas brilhante, nos lábios. Enfiou a pequena argola dourada no nariz, acabando por polvilhar o pescoço com o cheiroso perfume de baunilha que Will lhe tinha oferecido no seu último aniversário. Saiu da casa de banho e foi ao encontro de Sarah, que já se havia disponibilizado para pendurar as duas malas de roupa mais a pequena de mão, à porta principal. 










- Estás pronta? O taxista já lá está em baixo à tua espera! – informou-a com alguma tristeza comandar o seu olhar, por ver a amiga partir


- Sim, estou pronta! – afirmou num tom conformista, tanto estava pronta visionariamente, como pronta para abandonar a terra que a acolheu durante quase três longos anos

Desceram até à entrada do prédio, sempre com o silêncio a imperar todo o percurso e assim que se abeiraram do táxi, o taxista prontificou-se a ajudá-las com as malas em cortesia e cavalheirismo, colando-as no porta bagagens.

- Cuidas do Iokane? – perguntou-lhe com uma voz meiga, pronta para ser rasgada pelo choro sereno a qualquer momento

- Fica descansada, eu trato dele! – assegurou-a limpando rapidamente uma lágrima que tinha fugido do cantinho do olho – Prometes que vais dando notícias? - inquiriu deixando fugir uma respiração entrecortada que logo deu abertas a um choro soluçante

- Claro que sim! – assegurou-a rapidamente – Pede desculpas ao Will por não me ter despedido dele!

- Fica descansada… - indagou morosamente fixando outro ponto que não fosse o seu rosto, Joana sabia que ela não queria que se fosse embora, no entanto como melhor amiga, Sara respeitou a sua vontade

- Vem cá! – disse ela, puxando-a contra si – Pronto… - reconfortou-a nos seus braços, começando também a chorar – Eu prometo que venho fazer-te muitas visitinhas, sim? – o sem tom calmo, serviu para apaziguar o caraçãozinho de Sarah, que naquele momento encontrava-se de todas as formas, menos tranquilo

- Está bem! – consentiu com a cabeça, quebrando o abraço e enxugando o rosto pelas lágrimas humedecido

- Está na minha hora, Sara! – confirmou com o relógio de pulso, voltando a pousar o olhar sobre o dela

- Sim… vai lá! – clareou a voz, assumindo uma nova postura – Mas Joana… Não te metas em confusões, nem em sarilhos e por favor, tem juizinho!   

- Não te preocupes, eu sei muito bem tomar conta de mim, ‘tá?! – empinou o seu narizinho, muito dona da razão – Agora vai! Xô, xô! Não gosto destas despedidas enfadonhas e lamuriosas! – brincou dando-lhe um ligeiro empurrão provocado no ombro

Entrou no táxi e olhou a amiga uma última vez. “Eu vou voltar!” – prometeu-lhe apenas com o gesticular dos lábios, finalizando com um sorriso e um aceno de mão.

- To the airport, please!


***



Depois de fazer o check-in e de embarcar no avião, Joana acomodou-se nos confortáveis assentos. E foi depois de se actualizar das novas notícias de revistas portuguesas disponibilizadas no avião, ao som umas boas badaladas reproduzidas pelo seu ipod e da hospedeira lhe inquirir se desejava tomar algo, que adormeceu e só voltou a acordar quando aterrou nas terras Lusitanas.
Ao descer as indetermináveis escadas do transporte aéreo, respirou de imediato uma lufada de ar fresco, proporcionada pelo regresso a casa, regresso à cidade que a viu nascer: Lisboa. Tudo era característico a Portugal… o cheiro a terra molhada da noite anterior; os raios rutilantes do sol a fazerem as abertas por entre as fasquias da massa espessa das nuvens; a língua materna a ser prenunciada em burburinho de fundo por todos os recantos daquele aeroporto; a simpática; os sorrisos; os cheiros, os sons… tudo continuava exactamente igual, desde o momento em que descolara no primeiro avião para Nova Iorque… ia fazer três anos.      
Saiu rapidamente do aeroporto e procurou um táxi disponível. E assim que ajudou o senhor da casa dos setenta a arrumar as suas bagagens e de ser ter aconchegado nos bancos de trás, voltou a baixar os óculos de sol, preparando-se para uma viagem de sensivelmente meia hora.

- É para esta morada, por favor! – estendei-lhe o braço com a mão segurar um papelinho, para que o Senhor o toma-se 

Tinha-lhe dado a morada da casa dos avós paternos, naquele momento era esse o único refúgio onde se podia e queria instalar. Não avisara absolutamente ninguém da sua chegada, isso incluía família e claro, os velhos amigos com quem nunca perdera o contacto. A viagem foi toda ela feita em silêncio, com Joana a observar minuciosamente toda a paisagem que a rodeava pela janela do carro, a passar por ela a km/h. Tudo respirava a Lisboa, tudo! Sentia-se feliz por estar de novo no lugar a que pertencia, mas que já não conseguia considerar mais como sendo seu. Logo às primeiras dificuldades foi obrigada a abandona-lo, a esquece-lo, sem pedir quaisquer justificações, abandonou-o e pronto. Agora não passava apenas de uma “clandestina” que iria começar a vida do zero, naquela cidade que mesmo sem desconfiar, iria saborear o doce sabor dos melhores e repugnar-se com os piores momentos da sua vida que se asseguravam prestes. Os próximos tempos adivinhavam-se passados numa mórbida viagem nos declives de uma verdadeira montanha russa… mas disso, Joana nem por sombras conseguiria imaginar.
O táxi parou mesmo em frente ao portão da enorme mansão dos Freitas de Andrade, e imediatamente um arrepio electrificante lhe percorreu todo o corpo, provocando-lhe um ligeiro tremelicar por estar de novo naquele local. Entrou, circundando toda a gigantesca rotunda, centrada por uma fonte altiva e magistral, acabando por pousar as malas junto à porta principal. Depois de ter tocado à campainha das antigas, foi uma questão de segundos até lhe virem abrir a porta dupla, elaborada a madeira de carvalho vermelho, brilhante pelo verniz… como fora desde sempre.

- Leonardo! – gritou num berro estridente assim que viu o semblante tão familiar daquele homem de meia idade que Joana tanto prezava

Atirou-se de imediato para os braços dele, euforicamente feliz por voltar a vê-lo. Leonardo era o mordomo da casa há mais de vinte anos, que conviveu com Joana desde o seu nascimento até à altura… ela era a sua menina. Um óptimo conselheiro e bom companheiro das horas vagas, chegaram a dar longos passeios nocturnos pelo vasto jardim. Sempre portador de uma sabedoria inigualável, pela sua conceituada experiencia de vida, Joana poderia considera-lo como o seu melhor amigo mais velho. Leonardo sabia de todos os segredos da vida dela, todas as curiosidades, todos os medos, conquistas, todas as relações amorosas que um dia a magoaram amargamente e era no ombro amigo dele, que ela chorava horas, pelos pretéritos que a atormentavam. Era homem de bons conceitos e sobretudo de bom carácter, Leonardo envergava sempre um fato preto perfeitamente engomado e uma fina gravata da mesma cor, com o cabelo penteado exibindo uma polpa robusta e grisalha, e para além do seu cargo de duas décadas, era também homem de família, mas que por escolha própria, juntamente com a da esposa, optou por não ter herdeiros.

- Menina Joana… há quanto tempo! – disse ele, sempre no seu tom terno e jovial, ainda a rodeá-la com os braços

- Meu querido Leonardo, fico tão feliz por te ver… Finalmente! – proferiu de olhos fechados e de queixo pousado no enchumaço de ombro do casaco dele.

- Está tão crescida e tão… tão bonita! – fê-la rodar sobre o seu próprio eixo para a poder vislumbrar melhor, sempre segurando-a delicadamente por uma mão

- E tu continuas na mesma! Charmoso e elegante! - recompôs-lhe a gravata  golada, não que estivesse desenvencilhada, mas era um hábito que Joana adquirira desde criança – Os meus avós, estão? – inquiriu-lhe observando todo o esplendor da casa, digna de um artefacto de museu… na esperança de encontrar os seus parentes mais próximos

- O Senhor seu avô não está, foi ontem numa viagem de negócios lá para os lados de São Francisco, tratar de qualquer coisa dos hotéis com o seu pai, e só deve chegar lá para o dia de amanhã! E a Senhora sua avó está na biblioteca… Penso que esteja a escrever o seu último livro! – revelou-me em jeito cordial fazendo um pequeno trejeito entusiástico com o olhar

- A minha avó está a escrever mais um livro? – a voz dela trespassou surpresa mas acima de tudo felicidade, por ver que a sua avó estava a investir de novo naquilo que fazia melhor: escrever

- Está pois! – consentiu ritmadamente com a cabeça – Já lá vai para dois meses, que começou!

- Mas isso é óptimo! – bateu as palmas das mãos uma na outra duas vezes rápidas, demonstrando assim o seu contentamento pela boa nova – E achas que se for lá a ter com ela, a posso incomodar? - inquiriu agora, arqueando a sobrancelha num arco perfeito, de modo inquisidor e vocacionando receio

- Ora, essa! – abafou umas leves gargalhadas olhando-a nos olhos – Não vai incomodar absolutamente nada! A sua avó está cheia de saudades da menina, vai ficar felicíssima por vê-la… garanto-lhe! – assegurou-a com um sorriso ténue acentuar-lhe os lábios

- Então eu vou lá! – deu-lhe um beijo grato na bochecha e dirigiu-se a passadas largas até à biblioteca

- Menina? – voltou a invocá-la, fazendo-a parar e olhar para trás

- Sim, Leonardo?

- O que faço com as suas malas, que estão aqui fora?

- Trá-las para dentro e já vemos o que fazemos com elas! – esboçou-lhe um leve sorriso e retomou o seu percurso

Deu dois toques ligeiros na porta coberta por vidros cubados e como não ouviu nenhuma permissão de entrada provinda do outro lado, rodou a maçaneta e espreitou, pondo a cabeça no lado de dentro. O seu olhar fitou-a de imediato, debruçada sobre a secretária, a rasgar a tinta da esferográfica sobre o papel branco, na sua postura altiva de senhora não de uma idade muito a avançada, pois quem não conhecesse os seus bem constituídos sessenta e quatro anos, ninguém diria que era portadora dessa idade… apenas as rugas de sabedoria vincadas na testa e no pescoço, eram capazes de a denunciar. 

- Avó, dá-me licença? – invocou quase imperceptivelmente, com uma voz educada, mas foi o suficiente para que Sofia desse pela presença anatómica da neta

- Joana? – retirou os óculos que até à altura permaneciam encaixados na ponta do nariz, e ergueu-se do cadeirão, ainda abismada com a figura de mulher que estava perante os seus olhos – Joana, filha! – apressou-se a abrir os braços e a correr na direcção dela, para a receber no aconchego de seu abraço

- Avó! – de olhos já esbugalhados foi ao encontro da sua segunda mãe, aconchegando-se de imediato no abraço oferecido e foi assim que sentiu a fragrância inebriante daquela essência que já tão bem conhecia, que os seus olhos brotaram lágrimas de felicidade, assim como o seu pequeno coração que se soltou rapidamente das amarras a que se tinha submetido nos últimos tempos, longe dos que mais amava

- Senti tantas saudades tuas, minha querida! – proferiu ternurosamente ainda no calor do abraço

- Eu também tive muitas saudades suas… Muitas mesmo! – afastou-se ligeiramente tentando acalmar os soluços instaurados pelo choro

- Não me disseste que vinhas... Mandava alguém ir buscar-te ao aeroporto! – sentou-se na cadeira num canto da biblioteca e mandou Joana sentar-se na cadeira da frente, com uma pequena mesinha centrada entre as duas

- Pois, de facto não disse. Desculpe ter aparecido assim de surpresa, avó! – censurou-se colocando a mala sobre o seu colo

- Oh minha querida, foi a melhor surpresa que me poderias ter feito! – confortou-a abrindo os lábios num sorriso  apertando a sua mão na dela – E diz-me, vieste cá apenas de passagem para nos fazeres uma visitinha?

- Não avó, vim para ficar! – afirmou prontamente, muito segura das suas ideias e objectivos – Queria saber se não se importava que passasse aqui apenas esta noite, ainda não fui a casa… Nem sei em que preparos a irei encontrar!

- Ora Joana, isso nem se pergunta! Podes cá ficar as noites que quiseres, não tenhas pressa de te ires embora! – pausou brevemente, enquanto denotava todo o corpo da neta – Estás cada vez mais bonita… uma mulher! – um sorriso orgulhoso abundou nos seus lábios – Queres que mande a Rosa preparar alguma coisa para comeres? Deves estar cheia de fome, depois da viagem…

- Deixe estar, eu comi no avião! Na verdade ainda tenho algumas coisas para fazer antes de me instalar…

- Que coisas, querida? Se é que posso saber, claro! – perguntou-lhe com meiguice cruzando as pernas

- Preciso de ver o meu padrinho, matar as saudades e ir buscar a minha mota, que deixei em casa dele quando me fui embora! Por acaso não sabe onde o posso encontrar a estas horas?

- Bem, o Rui agora deve andar para os lados do Seixal… Muito provavelmente no treino do Benfica! Se lá fores podes encontrá-lo, com toda a certeza! – as garantias eram certeiras, pois Sofia tinha falado com o padrinho de Joana, naquela manhã

- Então é melhor lá ir agora, antes que se vá embora! – ergueu-se da cadeira, colando a mala ao ombro

- Espera, vou mandar preparar o carro! – disse-lhe erguendo-se também, para logo de seguida chamar o mordomo

- Leonardo, faz-me o favor de dizeres ao Zeca para preparar o carro, que a minha neta vai sair! – pediu-lhe ela, sempre muito educada

- Sim, minha senhora, digo já! Com licença! – consentiu com a cabeça, retirando-se de imediato

- Avó, então? Eu podia muito bem chamar um táxi… Não era preciso dizer ao motorista!

- Para que é que vais gastar dinheiro num táxi, se o Zeca pode fazer o favorzinho de te ir lá pôr! Era totalmente desnecessário, minha filha! – foi persuasiva nas palavras, sem deixar espaço para Joana ripostar

- Então eu vou andando, voltou mais logo, avó! – deu-lhe um carinhoso beijo na testa, saindo da biblioteca e da mansão posteriormente, rumo ao Seixal     

Quando entrou no Caixa, arrependeu-se no mesmo instante. Aquele sítio trazia-lhe muitas recordações, boas, é verdade… mas que não passavam de recordações, enterradas algures num pretérito.
Infelizmente, e para grande azar o seu, o treino já tinha acabado, mas esse facto contudo, não foi impedimento para procurar o Rui. Tinha que admitir, os anos que não pôs ali os pés, corroeram-lhe a memória, e os caminhos haviam sido completamente esquecidos… Nem portas de saída encontrava. E sim, depois de ter andado alguns minutos às voltas, podia admitir estar aflitivamente perdida naquele recinto.

- Olhe, desculpe, desculpe! – apressou-se a correr na direcção de um homem, assim que o avistou ao fundo do corredor, deixando que o barulho ritmado dos saltos a colidir contra a pavimento, ecoasse por todos os recantos

- Diga! – virou-se para ela, e fê-la dar um pequeno grito em surdina, por ver a “torre bem encorpada” que era aquele homem

“Provavelmente um dos seguranças!” – equacionou mentalmente ao vislumbrar o aspecto rígido e durão que ele assimilava

- Sabe-me dizer onde posso encontrar o Dirigente Desportivo… Rui Costa? – mordiscou o lábio inferior, enquanto enlaçava e desenlaçava os dedos das mãos, num estado de nervosismo e ansiedade notório

- Desculpe, mas o Dr. Rui Costa neste momento não está disponível para dar quaisquer entrevistas! - disse numa só respiração perscrutando Joana com desdém, de cima a baixo

- Vai-me desculpar estar a desmenti-lo, mas olhe bem pra mim… Olhe e diga-me! – arregalou-lhe os olhos de maneira a intimidá-lo, o que foi uma total perda de tempo, visto que o homem nem deu sinais de vacilar – Você acha-me com cara de jornalista? – amarrou os braços diante do peito batendo com o pé direito no chão, de jeito irritante

- E não é? – torceu os lábios numa clara expressão duvidosa

- Claro que não sou, homem de Deus… Sou apenas a afilhada dele! – esclareceu-o assim que teve oportunidade – E agora, vai-me deixar falar com ele, ou não? – perguntou-lhe já ligeiramente aborrecida com tanto impedimento, todo o tempo que estava ali a desperdiçar, podia ser chave, para o perder e já não o ver nesse dia

- Sabe, eu não devia estar a fazer isto, mas se lhe perguntarem, não diga que fui eu que lhe dei estas indicações! – precaveu-a de imediato, antes que algo viesse a azedar para o seu lado – Está ali a ver aquele corredor ao fundo? – confidenciou-lhe em tom de segredo, apontando para o corredor com indicador a formar uma linha recta no ar, Joana apenas afirmou com a cabeça – Atravesse-o e vá sempre em frente, depois vai encontrar outro e aí vira à direita, sobe as escadas, vira novamente à direita e na segunda porta do lado esquerdo vai ver uma plaqueta que diz “Direcção” é aí que ele deve estar!

- Está bem, muito obrigada! E não se preocupe… - põe-se em biquinhos de pés para lhe segredar ao ouvido – Fica um segredo só nosso! – piscou-lhe o olho em sinal de promessa e seguiu o caminho indicado

Bem, não poderia considerar-se que “seguiu o caminho indicado”, visto que já andava novamente às voltas naquele espaço.
“Mas porque raio, tenho a sensação que já passei por aqui? Espera lá… pensa Joana, pensa!". Olhou em seu redor tentando descodificar o lugar onde estava completamente sozinha, de facto andava às voltas, sem tomar a direcção correcta "O homenzinho disse corredor esquerdo ou direito? Esquerdo ou direito?" Voltava a repetir mentalmente. "Epá, desisto! Ando aqui feita barata tonta e não encontro nenhuma porta a dizer 'Direcção' ”. Quedou-se por instantes no mesmo lugar e ao olhar de realce para o corredor do seu lado direito, encontrou alguém que supôs servir-lhe de bússola. "Finalmente que aparece uma alminha!”, divagou em pensamentos, indo na direcção daquela figura que permanecia voltada de costas e que aparentada visivelmente, pertencer a um homem.

Aproximou-se de mansinho e clareou a voz, antes de se prenunciar – Desculpe estar a incomodá-lo … - iniciou dando dois toquezinhos nas costas dele, com os dedos – Mas será que me podia ajudar a… hum... - não pôde dizer absolutamente mais nada, as palavras secaram-lhe na garganta assim que aquele rosto angelical foi ao encontro dos seus olhos

Por momentos Joana esqueceu-se quem era, esqueceu-se do que fora ali fazer e esqueceu-se de respirar. Agora o seu mundo era ali e girava em volta dele. As suas faces ruborizaram a vermelhidão da timidez, o seu coração começou a martelar forte no lado esquerdo do peito, ameaçando romper-se das artérias, rasgar-lhe a pele e fugir do seu corpo, a qualquer momento, e a sua cabeça latejava como se fosse vítima de uma bomba relógio, pronta para assinar a sua sentença de morte num abrir e fechar de olhos.
Era ele! O homem que mais temia voltar a ver, voltar a encontrar… estava ali mesmo, bem na sua frente! Aquele perfume delicioso e delirante que fazia a cabeça dela andar à roda… aqueles olhos grandes que nem objectivas e castanhos-avelã… aquele rosto de miúdo tingido pela barba de três dias, que havia feito cócegas na sua pele… aquele corpo ténue e esguio que desde sempre a fizera suspirar… aquela expressão de homem educado e simpático num misto de um puto traquinas e rebelde… e aqueles lábios, aqueles lábios carnudos e apelativos que um dia, outrora, haviam pertencido aos seus…  
  


P.S.: Às meninas que perguntaram, a música do blog é o tema "Need" de Hana Pestle! :) 

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Capítulo 3 - O último adeus... a última decisão













Chovia torrencialmente no final da tarde do dia seguinte, a chuva intensa e copiosa caía vertiginosamente sobre as ruas imperantes de Nova Iorque. Joana mirava-a através da enorme janela do quarto, serena, observando a azáfama dos transeuntes no lado de fora, que corriam apressadamente de um lado para o outro tentando fugir à rigorosa precipitação. Envergava um vestido negro esmorecido, cortado a dois dedos acima dos joelhos, com umas botas igualmente da mesma cor e o cabelo estava apanhado numa trança perfeita, a cair-lhe sobre o ombro esquerdo.


- Joana? – imperou uma voz masculina nas suas costas. Era Will, invocando-a junto à ombreira da porta - ela virou-se para o seu semblante – Está na hora?

- Sim, está! – afirmou ele assentindo com a cabeça

Joana vestiu o longo sobretudo e colocou a mala ao ombro, saindo de casa ladeada pelo rapaz. Sarah já os esperava dentro do carro sentada no lugar de pendura, protegida do dilúvio que imperava no exterior. Antes de ocupar o lugar de condutor, Will abriu a porta de passageiros dando a entrada a Joana, protegendo-a sempre com guarda-chuva. Ela passou toda a viagem completamente absorta, olhando alheiamente os pingos de água que escorriam em velocidade pelo vidro da janela. Sentia um enorme e arrepiante aperto no coração, sentia-se sozinha, sentia-se como tivesse sido atirada para um poço obscuro e assustador, sem fundo…

- Estás bem? – questionou-a Sarah, olhando-a pelo retrovisor

- Sim. – afirmou com a voz sumida, continuando a espreitar pela janela já com os olhos a quererem deflagrar lágrimas gordas

Joana entrou de braço dado com Will juntamente com Sarah que seguia a seu lado. Ficou abismada por ver na igreja uma amálgama de presenças… a maior parte delas desconhecidas e as restantes, tinha-as visto uma vez ou outra. Também os seus colegas e professores de liceu estavam presentes, todos em grupo num canto ao lado esquerdo do altar. Por momentos foi invadida por uma nostalgia pacífica, estava orgulhosa por saber que a sua progenitora fizera diversas amizades e ganhara admiradores pelo seu cargo, embora também tinha conseguido discernir os rostos de algumas sanguessugas emproadas que trabalhavam em parceria no escritório com a sua mãe, que choravam desalmadamente e rezavam por ela, no fundo Joana sabia que estavam apenas a fazer uma triste deixa de uma peça de teatro e que mal chegassem a casa iriam festejar animadamente e pregar louvores ao céus por esta “morte abençoada”. No seu íntimo residia uma vontade desalmada de lhes dar uns valentes safanões e pô-las a andar dali para fora, porém não o fez, como é óbvio.
O sermão do padre estava a causar-lhe náuseas de tão pouco comovente e desproporcional que era… um dos momentos que mais lhe custou foi receber os pêsames das entidades mais emotivas e as que demonstravam mais compaixão. Custava-lhe dizer um “obrigada” ao mesmo tempo que lhe apertavam a mão, simplesmente porque era desconfortante e pesaroso.
No final da cerimónia fúnebre, chegou a parte mais arrepiante e dolorosa… a despedida. Todos os presentes abandonaram a igreja ficando apenas a única familiar da falecida e os dois amigos. Débora estava impávida e serena, a sua pele estava tão pálida que aparentava ser feita de cera e os seus lábios esboçavam um terno sorriso. Joana acariciou-lhe a face dura e automaticamente um calafrio lhe invadiu o corpo, aquela realidade parecia-lhe de uma maneira patusca, irreal e preferia pensar que a sua mãe estava apenas embargada a um sono profundo e simultaneamente eterno, mas é evidente que isso não passava apenas de um desejo idealizado… ela continuava ali… silenciosa, de olhos fechados e de sinais vitais petrificados. A rapariga aproximou-se e presenteou-a com um beijo prolongado na testa gélida, deixando escapar mais umas quantas lágrimas assim que cerrou as pálpebras.

- Isto é só um até já, querida mãe.


***


O temporal não revelava indícios de querer dar tréguas e a chuva raivosa continuava a cair das alturas acabando por chapinhar estrondosamente sobre os inúmeros chapéus-de-chuva e nos solos do vasto cemitério.
Após o padre proferir o último discurso, o caixão foi levado para a sua última morada. No momento em que os coveiros começaram a encher o túmulo com terra, Joana fechou os olhos e abraçou Will com todas as forças que ainda lhe restavam. Rompeu novamente num choro agoniante, sentia que aqueles abutres estavam a obrigar a sua mãe a morrer. De súbito a precipitação abrandou, acabando no fim por escassear. Os dementes mais próximos do leito deitaram flores, cada ramo perfeitamente enfeitado e os crentes e espirituosos atiraram mãos cheias de terra para dentro do túmulo em sinal de respeito.
Estar ali, a presenciar todo aquele cenário devastador, estava a destrui-la por dentro, a matá-la. Afastou-se ligeiramente antes que Sarah e Will a pudessem ver e escapuliu-se por entre a multidão. A fúria que tinha com Deus por lhe ter roubado a mãe para leva-la para os seus aposentos era de tal forma caótica que fazia Joana derramar lágrimas e mais lágrimas à medida que se afastava. Estagnou junto ao enorme e misericordioso portão de ferro já um pouco ferrugento, para tentar acalmar a corrente de emoções, o misto de mágoa e revolta… e foi nesse instante que observou um outro alguém. Tinha a impressão de que se tratava de uma presença masculina devido à estrutura corporal e à sua indumentária… estava cabisbaixo, encostado à porta do carro. Aparentava-lhe um aspecto estranhamente familiar, porém não o conseguiu discernir por completo, visto que o “desconhecido” se encontrava de costas e a uns valentes metros de distância. Quando ganhou coragem para ir ver mais de perto quem se tratava, um timbre grave de voz travou-a.

- Mas que raio te passou pela cabeça para desapareceres assim?

- Desculpem… - não conseguiu dizer mais nada, continuava hipnotizada a tentar adivinhar quem era aquele homem

- Joana, passa-se alguma coisa? – desta feita foi Sara a interroga-la pousando as suas mãos nos ombros da amiga

- Aquele homem ali… - fez um trejeito com a cabeça na direcção dele

- O que tem?

- Não sei, mas acho que não me é totalmente alheio… parece que o conheço de algum lado. – supôs nunca descolando os olhos da sua figura

- Estranho, acho que nunca o vi! – indagou Will

- Pois, provavelmente eu também não e só estou pra’qui a divagar… a criar macaquinhos na minha cabeça. – fez uma breve pausa – Quero ir para casa… - finalizou olhando-os pela primeira vez

- Então vamos, eu deixo-vos às duas em casa. – mostrou-se cavalheiro

Assim que Joana abriu a porta do carro para entrar, voltou a procurá-lo com o olhar… de fugida. Perscrutou-o a alcançar as chaves no bolso e a pressionar o botão destrancando assim o enorme e reluzente BMW, entrando posteriormente sem nunca mostrar o semblante.
Assim que Will estacionou à porta do prédio de Joana, Sara ofereceu-se para passar a noite com ela, na tentativa de a acalmar. Subiram e instalaram-se, depois de terem comido alguma coisa, abriram o sofá cama e acomodaram-se entre os cobertores.

- Ainda estás a pensar nele? – perguntou Sara, vendo a amiga estranhamente absorta

- Nele quem? – mostrou-se alheia

- Naquele homem que viste à entrada do cemitério…

- Hum… para dizer a verdade, não… desisti de tentar descobrir quem era, não lhe consegui ver a cara e não encontro mais nenhuma ligação. – fungou

- Então estavas a pensar em quem?

- No meu pai, no canalha que ele é! – disse num laivo de fúria

- Ainda lhe guardas rancor?

- Não diria bem rancor… é mais ódio e desilusão, embora os meus pais tivessem separados, eles mantinham uma relação amigável… não percebo porque é que ele não apareceu no funeral… contudo sempre tive esperanças que ele viesse… - suspirou

- Se calhar não tinha voo, ou então foi o excesso de trabalho que fizeram com que ele não pudesse vir… - tentou adverti-la

- Por favor Sara! Isso são desculpas, tretas! O meu irmão tinha o direito de ver a nossa mãe uma última vez, nem que fosse… nem que fosse, morta!

Sara juntou-se mais a ela e abraçou-a, acabando depois por interroga-la.

- Eu sei que esta pergunta não vem a propósito, mas… o que é que estás a pensar fazer da tua vida… daqui para a frente?

Joana mostrou-se pensativa por instantes.

- Vou voltar para casa… Vou voltar para Portugal. 
  


Aqui vos deixo mais um capítulo, espero que tenham gostado
e não se esqueçam de comentar, é muito importante! :)
Um beijinho,
Joana :)


P.S. Informaram-me que alguns leitores não conseguiam comentar em anónimo, de facto não estava a aceitar comentários de utilizadores que não estavam registados, sem me aperceber. Mas já resolvi o assunto, agora quem quiser, já poderá deixar o seu comentário em anónimo! :)