Depois de eleger o mais perfumado e celestial ramo de
flores de toda a florestaria, Joana dirigiu-se numa correria até aos arredores
da Central Park. Apanhou o autocarro que parava ali monotonamente todos os dias
e à mesma hora. Sentou-se bem longe dos dois ou três casais de turistas que
tagarelavam retoricamente enquanto deslumbravam a beleza da cidade, pelas
janelas de vidro perfeitamente limpas. Finalmente tinha chegado ao seu local de
destino… o mesmo agora de todos os dias, saiu daquele autocarro que nem uma
bala dispara do cano de uma pistola e deu início a uma marcha aceleradamente
efusiva. Olhou de realce para o relógio de pulso e calculou mentalmente a
última meia hora de visitas que tinha, para ver a sua mãe. Atravessou a
indeterminável estrada (sem dar muita relevância aos semáforos) numa correria
tal, que foi induzida às incontáveis buzinadelas e às dezenas de protestos
críticos simultâneos, por parte dos condutores a quem descabidamente, tinha
interceptado o percurso.
Encruzilhou-se o melhor que pôde por entre a vasta
multidão que caminhava no largo passeio cimentado, até finalmente pressionar o
puxador da enorme porta envidraçada do hospital. Imediatamente foi envolvida
por um ar bastante abafado e sufocante, do calor aglomerado dos vários corpos
identificados pelos rostos monocórdios que enchiam cada recanto, que se
locomoviam no edifício de um modo frenético, juntamente com o sempre instalado
burburinho de fundo juntando as conversas e as lamúrias dos utentes e acompanhantes…
foi-lhe também perceptível de imediato pelas suas narinas, o cheiro tão
agoniante e característico de um centro hospitalar… na verdade já não fazia
parte de um factor incomodativo para ela, visto que já estava bem familiarizada
a este ambiente.
Depois de ter bebido um café de enfiada na cafetaria do
hospital, mostrou o seu cartão de visitas a uma auxiliar de enfermagem que já a
conhecia ia fazer um ano, devido às suas visitas diárias… pressionou o botão e
chamou o elevador.
Quando as portas se abriram, desejou intimamente ter ido
pelas escadas, visto que o cubículo oscilante estava a abarrotar de gente por
todas as extremidades. No fim de ter carregado no botão para o piso onde queria
sair, tentou encaixar-me num recanto ínfimo junto às bordas.
Por grande azar o seu, parecia que o tempo não queria
passar e o elevador cismava em continuar com a sua subida em câmara lenta.
Talvez por graça divina, não sabe, as portas voltaram a
abrir-se e Joana saiu do elevador que nem um recluso foge de uma prisão.
Enveredou pelos inúmeros e copiosos corredores, pintados
por uma cor enjoativa e estagnou junto à porta do quarto 405. Recompôs-se e
incinerou o seu melhor sorriso para ver a mulher da sua vida.
Deu a volta à maçaneta e abriu a porta, vislumbrou-a de
imediato no recanto do quarto… lá estava ela, sentada no centro da cama com os
óculos de ver ao perto encaixados na ponta do nariz, enquanto folheava com a
polpa húmida do dedo, uma revista de humor ou algo do género. Ainda sem desviar
o olhar do seu semblante, deu por si a reflectir… Onde estava o seu aspecto tão
jovial? O seu carisma e vontade de vencer na vida? Onde estava agora a sua tão
eloquente vivacidade e o brilhozinho nos seus olhos cor de mel sempre que
recebia a visita da filha? É esta maldita doença a causadora deste cenário! É o
Alzheimer que lhe anda a roubar a mãe! Após um longo ano, os seus cabelos
dourados deram vez a uma quantidade indeterminável de cabelos brancos,
grisalhos… a sua bonita expressividade facial ficou… inexpressiva, agora eram as
rugas vincadas, implantadas no seu rosto que lhe davam um ar deveras,
esmorecido. Tinha saudades da mulher revolucionária a quem os limites não
significavam absolutamente nada, mulher que lutou pelos seus ideais até não ter
mais uma réstia de forças… uma mulher detentora de um corpo esbelto e elegância
embasbacante, feito de inveja a qualquer uma! Essa sim era a sua mãe!
- Joana, filha… estás bem? – inquiriu retirando os óculos,
pousando os mesmos juntamente com a revista no tabuleiro branco ao lado da cama
Joana exibiu um sorriso, ficou feliz por ela a ter
reconhecido. Aproximou-se e deu-lhe um beijo na testa.
- Olá mãe! Tome, são para si! – mostrou-lhe o ramo de
flores
- Obrigada meu amor, são lindas! – aceito-as nos braços
Embora já tivesse o quarto repleto de flores que Joana lhe
oferecia semanalmente, cada uma delas devidamente mergulhadas em jarros de
água, Débora recebia cada ramo como se fosse o primeiro. Costumava dizer-lhe
que as flores indumentavam vários significados, para além da vida e da morte
claro, para ela nada a fazia mais feliz que meia dúzia de flores campestres.
Joana sentou-se numa cadeira.
- Como correu o seu dia? – perguntou-lhe. Tinha a perfeita
noção que era bem escusado ter feito aquela pergunta, mas era sempre desta
maneira que iniciavam o diálogo
Suspirou. Com a voz mais rouca que o costume, iniciou o
discurso de lamúrias.
- Oh… foi igual a todos os outros dias do ano… fui
submetida a uma data de exames, perguntas descabidas e ridículas, como: “Sabe
em que anos estamos?”, “Ainda se lembra do nome da rua onde mora?” ou então
“Pode dizer-me como se chama o seu filho mais novo?” “Vou-lhe dizer três
simples palavras, e depois vai ter que as repetir: autocarro, cidade e colher”.
– bufou - Sinceramente nem sei porque é que ainda se dão ao trabalho de me
fazer este interrogatório todo! Sabem perfeitamente que estou doente, não
adianta de nada estes exames, os médicos acham-se muito sabichões e detentores
de toda a verdade, mas ainda não encontraram a cura para o Alzheimer… mais dia
ou menos dia vou morrer e eles melhor que ninguém, sabem disso!
Joana estremeceu por dentro ao rever essa certa
possibilidade… a partida da sua mãe! Por mais que recusasse aceitar essa triste
realidade, tinha consciência que era algo inevitável, apesar dos seus bem
constituídos 43 anos, a doença foi diagnosticada tarde e como consequente,
agora, já vai bastante avançada e o tratamento só trás mais dias de sofrimento.
Débora voltou a suspirar. Prosseguiu.
- E cá estou eu, aprisionada a uma cama de hospital sem
saber se o dia de amanhã me espera… - lamentou-se – e com estas lamúrias e
futilidades todas nem te perguntei… como andas? Que tens feito? – olhou-a nos
olhos pela primeira vez desde que Joana entrara no quarto
A jovem encolheu os ombros.
- Estou bem… não tenho feito nada de por aí além, não
variei na minha pacata rotina se é isso que quer saber… Tenho tomado conta do
Iokane, cuidado da casa e estudado para os exames.
- E divertido? – pausou – Tens saído com os teus amigos?
- Sim, tenho saído por aí com o Will e com a Sarah. –
mentiu
- Joana, Joana… - advertiu-a – caso te tenhas esquecido eu
ainda continuo a ser a tua mãe, conheço-te melhor que a palma da minha mão, és
demasiado transparente para te deixares induzir por mentiras…
Mudou de assunto.
- E a mãe, como se sente?
- Sinto-me bem, na verdade estou melhor que nunca! –
indagou enquanto recompunha a almofada junto das suas costas
- Ora… fala de mim, mas mentir com certeza que também não
é o seu forte! – ironizou – Sabe que não tem precisão de me esconder seja o que
for…
Débora ressentiu-se, não argumentou em sua defesa ao
invés, remeteu-se ao silêncio.
Foi nesse curtíssimo intervalo de tempo que pela primeira
vez, Joana vislumbrou um saquinho de morfina pendurado ao lado da cama deixando
cair gotas por acção da gravidade, injectando directamente o líquido com duas
agulhas soterradas no antebraço esquerdo da sua mãe. Aparentemente apareceu-lhe
ser esse o “elixir” que lhe dava os momentos intermitentes de lucidez, e
felizmente, este é um desses momentos… apesar de nunca saber quando a doença se
sobrepõe, e a memória ou a falta dela, a volta a asfixiar levando-a de novo ao
estado deprimentemente insano.
Levantou-se e dirigiu-se até à janela que permitia que a
inebriante radiação solar iluminasse as quatro paredes do quarto, pousou os
cotovelos no parapeito e ficou a contemplar a cidade numa outra perspectiva.
- O padrinho ligou-me ontem à noite… - retomou em conversa
enquanto fixava a vida que preenchia o mundo do lado de fora
- Ai sim? E então? – o seu tom de voz surgiu entusiástico
Rodou a cabeça a 180º e olhou-a.
- Incentivou-me a ir passar uns tempos nas férias de
Verão, lá a Portugal.
- E tu? Aceitas-te? – perguntou-lhe num laivo notório de
curiosidade
- Sim e não… - disse com uma expressividade incerta – na
verdade nem lhe dei uma resposta concreta… claro que tenho saudades da família,
mas sair de Nova Iorque e ir para Portugal, não faz grande sentido neste
momento.
- Porque não? – insistiu
Queria dizer-lhe que não podia ir para fora porque não a
queria deixar, muito menos agora nesta fase tão complicada em que precisa mais
de si… não seria considerada uma verdadeira filha se deixa-se a sua mãe sozinha
num quarto de hospital, onde a sua esperança de vida era totalmente incerta.
Não iria desperdiçar todos os momentos que podia desfrutar
com ela, não era esse tipo filha, nem iria de modo algum sê-lo. Queria
dizer-lhe, mas também era pelo facto de conhecer demasiadamente bem os
pensamentos da sua mãe, que embora não se expressa-se, sabia que ela iria ficar
ressentida consigo mesma por se achar a responsável que levasse Joana a abdicar
daquilo quer e que mais gosta de fazer, ir-se-ia sentir responsável pela infelicidade
da filha… e por isso mesmo a jovem optou por adverti-la.
- Apenas não estou com disposição para viajar, só isso. –
ela voltou a espreitar pela janela
- E o teu pai… tens falado com ele?
Numa fracção de milésimas de segundo, a sua expressão
facial modificou-se e o tom da sua voz tornou-se mais taciturno.
- Não. – limitou-se a dar-lhe uma resposta curta e directa
- Filha, sabes que não podes andar o resto da vida a
culpar o teu pai pela nossa separação! Sabes que para além de não estares a ser
correcta, também estás a ser injusta para com ele. – molestou
Joana tinha umas quantas para lhe dizer entaladas na
garganta, desde o momento em que o seu pai resolveu mudar de ares e ir viver
com o irmão para outra cidade, mas não se queria alargar muito mais na
conversa, que por razões obvias, não as levaria a lado nenhum.
- Como queira. – finalizou
- Querida? – clamou-a – Vem cá, senta-te aqui! –
gesticulou com a mão, dando leves palmadinhas no colchão indicando-lhe a zona
onde queria que ela se sentasse e Joana fez o que lhe pediu.
Fitou-a. Débora abriu a primeira gaveta da
mesa-de-cabeceira e retirou do pequeno compartimento uma caixinha bastante
avolumada, enfeitada delicadamente por um pomposo laço vermelho. Segurou-a na mão
trémula, estendendo o braço para que a filha a tomasse.
- Feliz aniversário meu amor!
Ao ouvir as palavras felicitarias proferidas pela boca da
mãe, os seus lábios rapidamente aperaltarem um largo sorriso.
- Eu sei que podes pensar que agora não passo de uma velha
caquéctica que por vezes nem do seu próprio nome se lembra, mas já mais me
esqueceria de um dia tão importante como é o de hoje! – exibiu um sorriso igual
ao de uma criança de 5 anos
- Obrigada mãe! – aceitou-lhe a caixa abraçando-a com
todas as forças que existiam em si, como há muito tempo não o fazia e de
maneira nenhuma queria que aquele momento terminasse
Quebraram o abraço. Olhou de realce para a caixinha de
chocolates que lhe acabara de oferecer, eram os seus preferidos.
- Desculpa, sei que não é nada de especial para um
presente de aniversário, mas realmente não tive grandes hipóteses para te
comprar algo mais… elaborado, visto que estou prisioneira neste hospital.
- Não poderia ter melhor presente de aniversário, do que
aquele de estar aqui consigo! – a mãe aproximou-se e beijou-lhe a testa
- Filha, sei que estou a ser chata, mas podes dar-me um
copo de água? A garrafa está aí nessa prateleira do fundo – apontou com o
indicador
Ela levantou-se de imediato e começou a encher o copo
branco de plástico, com água natural. Voltou-se para a mãe e estendeu-lhe com o
braço o que lhe havia pedido. Estranhou tanta hesitação da sua parte, visto que
não lhe aceitou o copo, em vez disso Débora limitou-se a observa-la, olhava-a
sem pestanejar uma única vez. Joana ficou com bastante receio do que pudesse
vir a acontecer… a sua mãe não desgrudava os olhos de seus, mirou-lhe o rosto e
desvendou-lhe um olhar enigmático, uma expressão amedrontada e a cada segundo
que passava, sentia-se a vacilar.
- Mãe… a água… - relembrou-a ainda de braço estendido
Voltou a perscruta-la. O seu semblante estava apavorado,
tinha os olhos arregalados e incididos nos seus, as suas mãos e as suas pernas
tremelicavam freneticamente.
- O que é que se passa, mãe? Fale comigo! – caminhou na
sua direcção
- Não, não… não se aproxime de mim! Mantenha-se afastada!
– disse protegendo o seu próprio corpo num canto da cama
Joana voltou a abeirar-se.
- Não se aproxime, já disse! – vociferou atirando o copo
de água para o chão – Quem é você? O que quer de mim?! – estava cada vez mais
assustada
- Sou eu mãe… a Joana! – tentou de jeito desesperado
elucida-la
- Pare de me chamar isso! Eu não a conheço! Ponha-se fora
do meu quarto, já!
- Por favor, não me volte a fazer isto! Outra vez não! –
implorou-lhe já com as lágrimas a formarem-se no cantinho dos olhos, enquanto
tentava agarrar os braços da mãe
- Não, largue-me! – tentava soltar-se, esbracejando –
Socorro! Socorro! – bradava numa tentativa louca de procurar ajuda
- Acalme-se mãe, não lhe quero fazer mal! Isto já passa,
já passa! – repetia-se tentado conformar-se
Num ápice, Débora arranca as duas agulhas que expandem o
medicamento nas suas veias, abruptamente, sem se importar de se ferir. Ainda
tentou erguer-se da cama para conseguir escapar e consequentemente fugir da sua
própria filha, mas antes que isso acontecesse, Joana apressou-se a carregar no
botão encaixado ao lado da cama, chamando assim enfermeiras e com muita sorte,
algum médico. Sem dar tempo de pestanejar, dois enfermeiros e um médico de
cirurgia romperam pela porta do quarto, dirigindo-se até elas praticamente à
velocidade da luz. Mandaram Joana afastar-se enquanto os enfermeiros amarravam
Débora à cama, injectando-lhe um calmante… ela mexia-se e remexia-se tentando
soltar-se mas de nada lhe valia, outro ataque alusivo à sua doença a tinha
arrastado e espezinhado novamente, sem qualquer pudor ou misericórdia.
- Não pode ficar aqui, vai ter que se retirar! – disse o
médico à rapariga, dirigindo-se a ela a passadas largas
- Não me peça uma coisa dessas, eu não vou abandonar a
minha mãe, não vou! – vociferou, deixando escapulir as lágrimas, denuncia de
afronta e agonia
Quando apanhou o médico a fitar outro ponto, aproveitou e
esquivou-se indo ao encontro da mãe, numa tentativa desesperante de lhe
devolver a memória e amarra-la aos seus braços. Antes que o pudesse fazer,
Stephen – era o nome do médico – encurralou-a pela cintura, prendendo-a contra
o peito com os seus dois braços fortes, impedindo-a de dar mais um passo.
- Faça o que lhe peço por favor! – aconselhou-a ele
- MÃE! MÃE! – gritava ela, num choro compulsivo deixando
as lágrimas escorrerem lhe pela face em catadupa
Stephen apressou-se a retira-la daquele quarto
arrastando-a consigo até ao corredor.
- Eu tenho que estar com a minha mãe, não a posso deixar
sozinha! – gritava-lhe soltando-se dele
- A sua mãe não vai ficar sozinha! Nós estamos cá para
tudo o que ela precisar! – tentou tranquiliza-la
- Você é médico, não percebe nada do que falo! Não vou
permitir que lhe façam mal! Ela precisa de mim! – tentava novamente interpolar
o quarto
- Oiça, aqui ninguém irá fazer mal à sua mãe, apenas a
estamos a tentar ajudar.
- Eu não preciso que vocês se limitem a tentar, eu preciso
que consigam! – deixou-se induzir novamente por um choro intransigente
- Vá para casa, aparenta um ar cansado… durma e volte
amanhã, de certeza que irá encontrar a sua mãe com um melhor aspecto. – pausou
procurando os olhos dela – Eu garanto-lhe!
Joana ainda sentiu uma necessidade enorme de ripostar, mas
tal como das outras vezes que davam estes ataques à sua mãe, já não poderia
estar com ela no resto do mesmo dia, e hoje não iria ser de maneira diferente.
Sentiu-se vacilar, até se ressentir. Enxugou a face aos punhos do casaco de
malha que indumentava, tentando controlar o avassalamento de lágrimas que se
avizinhava e começou a afastar-se sem mais nada dizer ao médico. Arrastou-se
pelos corredores de olhos esbugalhados, sentia-se que nem uma inútil e naquele
momento, a vontade de desaparecer do mapa era bastante superior à de querer
permanecer naquele leito de injúrias e sofrimento. Ao fundo da ala conseguiu
discernir a silhueta inconfundível da melhor amiga. Apressou-se a correr na sua
direcção.
- Sara! Sara! – atirou-se nos braços dela entregando-se a
um choro compulsivo
- Joana, o que tens? Que se passou? – afagou-lhe os cabelos
- Leva-me daqui, preciso de sair daqui…
Não se esqueçam de deixar a vossa opinião, é muito
importante e
é sempre um incentivo para continuar! :)
Beijinhos,
Joana ♥
